Prenúncio de Amor
6 Está tudo bem meu amor, eu estou aqui.
Notas iniciais
Julieta não sabia por quanto tempo ficou ali, parada em frente daquela entrada. Todos passavam por ela e a encaravam com raiva por estar bloqueando o caminho. A olhavam especulando, o que uma viúva rica faria naquele cortiço naquela hora da noite?
Ela tentava tomar coragem, mas já fazia um bom tempo que estava naquela mesma posição. Ia dando meia volta quando ouviu seu nome sendo chamado.
Ela se virou e encarou Jane, que vinha a seu encontro. Jane torcia as mãos denunciando nervosismo. Julieta achava que ela estava mais magra do que lembrava da última vez que a tinha visto. Seu olhar foi instantaneamente para o ventre ainda plano da nora.
Ela estava com receio, mas Julieta podia ver a doçura estampada no olhar dela.
—Dona Julieta o que está fazendo aqui?
—Eu.. vim ter a paz com meu filho.
—O Camilo está trabalhando.
—A essa hora? —Perguntou Julieta surpresa.
—Ele conseguiu um emprego de carregador no porto.
Julieta fechou os olhos em mortificação, seu querido filho, formado na Europa. Trabalhando de carregador.
—Então é melhor eu ir embora, vim aqui foi um erro, afinal de contas. —Disse ela dando às costas a Jane sem deixar de notar o semblante triste da nora. Julieta deu alguns passos e parou. Ela se sentia culpada. Julieta a contra gosto se virou novamente.
—Desculpe.
—A Senhora pode entrar para espera-lo se não se incomodar com a simplicidade da nossa casa, Camilo estará logo em casa.
—Eu aceito, obrigada.
Elas entraram no cortiço. Jane ia na frente sendo seguida por sua sogra, Julieta olhava tudo ao redor com olhar crítico. Doía-lhe ver como seu filho estava vivendo, mesmo não sendo esnobe Julieta sabia que não estava sendo fácil para ele se adaptar aquela vida.
Os outros moradores as olhavam com grande interesse, afinal não era todo dia que uma ricaça entrava naquele lugar simplório.
Finalmente elas entraram no minúsculo cômodo.
Jane lhe ofereceu uma das duas únicas cadeiras disponíveis e se sentou na estreita cama.
—A senhora aceita um chá? café? ou suco talvez.
—Eu aceito uma água, obrigada. Jane pegou a água e voltou a se sentar na cama de frente para Julieta. Estava visivelmente desconfortável com aquela situação, afinal, fora pouquíssimas vezes que estivera frente a frente com a sogra. E apesar de tudo, aquela menina não conseguia guardar mágoas, mas ainda temia seus julgamentos, ela sabia desde o início que era inadequada para o Camilo. E ela entendia que Julieta só estava fazendo seu papel de mãe. Protegendo-o, agora ela entendia esse instinto e sentimento que sempre ouviu falar. Sua mão desceu para o ventre, isso tinha virado um hábito desde que descobriu sobre a sua gravidez. Ela levantou o olhar e viu que Julieta havia seguido seus movimentos.
—A senhora sabe não é? Por isso está aqui?
Respirando fundo, Julieta assentiu.
—É verdade, vamos ter um filho. Seu neto. Uma enorme lágrima rolou por seu rosto.
—Querida.. Julieta colocou o copo sobre a mesinha e pegou a mão de Jane. —Eu a julguei mal, você deve me odiar não é mesmo?
—Não. Jamais, a senhora é minha sogra, mãe do Camilo e avó do meu filho. Eu não guardo sentimentos ruins no meu coração. Pode ficar tranquila. Eu estou chorando porquê estou muito emotiva, eu sonhei muito com esse momento. Camilo sente muito a sua falta, mesmo que negue. E sei, que a senhora também está sofrendo. Uma mãe não pode ficar separada do seu filho.
Julieta sorriu tristemente, ela realmente a julgara muito mal.
—Você pode não me odiar, mas eu me odeio.
—Não se martirize. Não faça isso com a senhora.
—Deve ser bom, ter os sentimentos tão bem definidos como os seus minha querida. —Julieta sorriu genuinamente para Jane, se odiando por dentro, porque novamente e logo em breve iria pisotear aquele bondoso e doce coração.
Fechando os olhos para impedir que as próprias lágrimas escorressem livres, Julieta afagou as mãos dela com carinho.
—Vocês parecem viver felizes aqui. —admitiu Julieta olhando ao redor. O lugar estava limpo, arrumado, mobiliado com simplicidade. Era apenas um cômodo dividido, mas tinha uma aura aconchegante. No que seria a sala, tinha uma estante com uns poucos enfeites, um jaro de flores, tinha lavanda fresca, que perfumava o ambiente. Também tinha uma fotografia numa moldura, Camilo e Jane no centro de São Paulo, rindo para a câmera. A direita, janelas altas e estreitas, com cortinas de um verde escuro.
—Sim! Somos muito felizes.
Julieta assente. relaxando a postura.
—O Camilo costuma demorar tanto assim? já está tão tarde! —Questiona a rainha do café.
—Ele não tem um horário específico.
—Então é melhor eu ir. Julieta se levanta. E a porta é aberta. Camilo está surpreso e o sorriso murcha ao ver sua mãe ao lado da Jane, ele ver as evidências do choro da esposa e entra no quarto e se posiciona ao lado da mesma.
—O que a senhora disse para faze-la chorar novamente. A senhora não cansa de tentar nos afastar. Eu não permitirei que a trate mal, você é minha mãe, ainda lhe devo respeito, mas não vou permitir! ouviu bem?
—Camilo! pare. Ela não fez nada, você está errado. —Fala jane pegando a mão dele e tentando acalma-lo.
—Oi para você também meu filho. Eu vim em paz. Eu quero seu perdão.. eu preciso.
—Não, você veio se glorificar não é mesmo? jogar na minha cara que tudo que disse era verdade. Uma tirana como você age assim.
—Camilo! Não fale assim com a sua mãe. —Pediu Jane angustiada.
—Não querida, deixe-o. Eu mereço ouvir isso. Admito. Mas hoje eu não vim aqui pedir perdão pelo meu abandono. Eu preciso do perdão dos dois por outro grande erro que fiz. Eu me enganei com você Jane, espero que seus sentimentos nobres sejam capazes de me perdoar um dia.
—Porque não vai ao ponto dona Julieta? —Pediu Camilo seco.
Julieta olhou para ele, seu filho tinha mudado, estava magro mas tinha ganhado massa muscular. Seu olhar caiu sobre os hematomas nos braços e pescoço.
—Meu Deus que tipo de trabalho é esse? filho... Ela se aproximou dele e tocou em seu braço.
—Foi o único que consegui, graças a você. —Falou ele se desvencilhando do seu toque.
Julieta tentava a todo custo segurar as lágrimas. Seu filho estava muito distante, aquele precipício entre eles era demasiado extenso. Ela não podia esperar mais, um dia talvez, ele entendesse.
—Esse casamento de vocês é uma farsa! —Julieta falou de supetão.
—A senhora não cansa?
—Eu sou a culpada. Eu paguei um ator, o padre que realizou o casamento de vocês é uma fraude.
Jane soltou um soluço e saiu correndo para a porta, Camilo olhava para a mãe sem reação.
—Filho, eu sei que é difícil, mas um dia você vai me entender. — Falou Julieta tentando alcança-lo, Camilo foi até a janela e deu as costas para a mãe.
—A Susana sabia disso? —Ele perguntou.
—Não a culpe, eu sou a responsável. Tudo que eu fiz foi por amor. Eu o criei nessa redoma a vida inteira, e quando vi que você estava prestes a sair da minha asa, eu fiquei ciumenta, eu fique magoada com você, você estava escolhendo outra mulher ao invés de mim. Eu errei, eu julguei muito mal a Jane. Eu preciso do seu perdão, e dela também. Você vai ser pai, você saberá o que é sentir esse medo.
Nesse momento ele se virou para a mãe, tinha lágrimas nos olhos.
—Então é por isso que você está aqui? Se não fossemos ter um filho, você nos enganaria para sempre? Como pôde? como pode fazer isso com a Jane. Logo ela, ela sempre a defendeu. Você nunca terá meu perdão, eu não quero mais vê-la, eu não preciso da senhora. Sou um homem agora, como pode ver.
—Filho, por favor, eu aceito que não queira me ver ou perdoa-me, mas quero que vá morar na mansão com a Jane, aquela casa é sua, eu prometo que nunca mais apareço na sua frente. Só me deixa ajudá-los. Aqui não é ambiente para criar uma criança.
—É isso não é? o que te incomoda. Seu precioso filho morando num cortiço, isso te humilha rainha do café!
—Não. não é isso..
—Com licença, vou atrás da Jane, é melhor não nos vermos mais, não quero feri-la, pois só tenho palavras duras para a senhora nesse momento.
—Filho..
A porta foi aberta antes mesmo dele chegar a ela, Elisabeta entrou como uma leoa prestes a atacar.
—O que a senhora fez com a minha irmã? A senhora não cansa de fazê-la chorar?
—Cadê a Jane Elisabeta? —Pergunta Camilo.
—Está no meu quarto, ela está desolada Camilo.
Camilo foi atrás da esposa e Elisabeta ficou de frente da rainha do café.
—Eu sou mesmo incansável Elisabeta! Vamos conte-me! fale-me tudo o que eu mereço ouvir. Mesmo que me ofenda. Eu estou pronta pra escutar.
—Eu não estou entendendo a onde a senhora quer chegar, o que quer que eu diga. Mas o que a senhora fez não tem perdão. E sinceramente não sei se quero ouvir as suas razões.
—Somos duas mulheres muito parecidas Elisabeta.
—Me desculpe, mas eu não consigo identificar nada que nos aproxime.
—Porque está ferida nos brilhos. Porque não suporta o que eu fiz com a sua irmã. Sendo que ela mesma já me perdoou pelas palavras duras que disse a ela, e que talvez vá me perdoar um dia, assim espero. —Julieta se aproximou de Elisabeta.
—Dona Julieta eu não tenho nada contra a senhora, mas realmente eu e Jane somos muito diferentes. Ela um dia a perdoara, mas não sei se eu serei capaz.
—O que te afasta de Jane é exatamente o que te aproxima de mim. Somos mulheres fortes, e sabemos exatamente onde moram os nossos desejos. E não admitimos que nem mesmo as nossas emoções atrapalhem a nossa obstinação.
—Eu sei que vocês me atacam pelas costas. —Julieta ri em deboche. — E acha que eu sou um arremedo de mim mesma. Mas eu já fui assim como você um dia Elisabeta. Alegre, sonhadora, irreverente, ou você acha que nasci de preto? Eu costumava gostar das mesmas cores que você. Mas eu não estou querendo dizer que você endurecera como eu um dia, não creio que corra esse risco. Não passou pelas provações que eu passei.
—Que provações uma mulher rica como a senhora passou?
—Não é só o dinheiro que nos afeta na vida. E quero deixar claro que a minha vida nunca foi essa fartura. Provações emocionais podem ser muito mais violentas do que o frio da sarjeta.
—Desculpe, Dona Julieta mas não sei aonde quer chegar.
—Vamos, por favor, não reprima sua essência. Fale tudo agora, tudo o que você tem que me dizer.
— Eu acho que sua cabeça já martelou tudo ai dentro. Mas tudo bem, talvez você precise ouvir de outras bocas. A senhora foi cruel, baixa, injusta e preconceituosa. Manipulou a vida do próprio filho, acabou de destruir os sonhos da minha irmã. Meu Deus eu nem consigo imaginar o que vai acontecer quando meus pais souberem o que a senhora fez. Mas ainda não entendo porque a senhora quer tanto ouvir essas verdades. — Elisabeta se assustou quando Julieta agarrou um dos seus braços.
—Você está pronta pra conhecer essa mulher que a senhorita julga execrável? É fácil que todos vocês me joguem pedras e me julguem no tribunal de suas honras. —Julieta ri com escárnio. — Todos tao nobres. Mas ninguém sabe o que eu passei até aqui, para me transformar nesse monstro que desenham de mim. Eu era mais jovem do que você quando tive Camilo, uma jovem de 17 anos que não sabia sequer discernir sobre seus afetos. Você, Elisabeta, todos nos podemos ver quando recusou o pedido de Darcy. Você sabe o que um casamento pode devorar a nossa alma, a diferença é que eu não tive escolha. Eu fui praticamente vendida pelo meu pai para a família Bittencourt... Eu...
Num ato de desespero e raiva Julieta rasgou a gola do vestido. Ela sentia que ia sufocar a qualquer momento, fazia tempo que não pensava sobre aquilo, sobre seu passado.
Julieta respirou fundo e escondeu a cabeça entre as mãos. O relógio prosseguia o seu ritmo inexorável pendurado na parede.
Elisabeta era uma pessoa capaz de chegar à alma dos outros. E à dela tinha chegado muito fundo, não podia continuar com aquilo.
Como num ato de exorcismo ela levantou a cabeça e enxugou as lágrimas afastando seus demônios interiores, levando sua dor, aquela dor específica, ela a enterrou no fundo do seu ser, como sempre havia feito.
Elisabeta permanecia em silêncio, não tinha reação, era a primeira vez que via aquela mulher demonstrar algum sentimento. Ela tinha lágrimas nos olhos, Julieta lutava contra seus demônios e parecia tão pequena, tão frágil. Não parecia em nada aquela mulher forte, decidida e obstinada que demonstrava aparentar. Debaixo daquelas roupas pretas e grossas tinha uma mulher frágil e humana. Elisabeta queria abraça-la, mas tinha certeza que seria rechaçada então ficou em silêncio.
—Desculpe por essa cena patética. —Disse a rainha do café se dirigindo para a porta, mas parou e se voltou.
—Quero que saiba, que tudo que eu fiz foi por amar demais. Eu realmente sinto e me arrependo. Aquela mulher capaz de tal ato não é a mesma que você ver hoje na sua frente, espero que um dia possa me perdoar, mesmo não merecendo. Eu a admiro Elisabeta, espero que seja mais feliz do que eu fui. Com licença.
Julieta desceu os degraus daquela escada praticamente cega pelas lágrimas que teimavam em surgir. Ela estava sem forças, apertou firmemente a mão contra o corrimão para não cair. Perdera seu filho para sempre, parecia que seu mundo ia desmoronar. 'Julieta' Ela parou e se virou ao ouvir seu nome sendo chamado. Jane se aproximou rapidamente e a surpreendeu.
Fazia tempo que não se deixava abraçar e aquilo era um dos contatos básicos para a sobrevivência de um ser humano. Jane a abraçou, como abraçava sua mãe. Ela podia estar magoada ainda, decepcionada. Mas não queria que seu filho viesse ao mundo daquela forma, queria Julieta na sua vida e na vida do seu filho. Eles mereciam isso, ela sabia que ia demorar, mais Camilo um dia a perdoaria.
—Como você pode me perdoa tão fácil? —Julieta perguntou quando elas se separaram.
—Eu ainda estou triste e decepcionada, mas isso não muda o fato de que eu amo Camilo e que essa criança foi concebida com amor. O resto é formalidades. E principalmente, não quero que essa criança venha ao mundo achando que é indesejada.
—Não, ela não é indesejada. —Falou Julieta e em seguida levou a mão timidamente ao ventre da Jane. — Jane estava entre lágrimas. — Quero que a senhora faça parte da vida dele ou dela. Camilo a perdoará também.
—Eu o sinto, sinceramente.
—Eu acredito na senhora.
—Eu preciso ir. Cuide do meu filho e do meu neto. —Falou Julieta com voz embargada.
—Farei isso, fique tranquila.
Elas se despediram com sorrisos tímidos. Julieta cruzou a rua até onde seu condutor a esperava. Não tinha nada mais para dizer. Duvidava que voltasse a ver Camilo. Talvez fosse melhor assim, seu filho merecia ter uma vida feliz. Ela olhou novamente para aquele lugar e se despediu do filho, entrando em seguida no carro.
—------------------------------------------------x------------------------------------------
Aurélio estava parado diante da porta da casa da Julieta fazia um bom tempo, ele tinha ensaiado o que diria ao vê-la, mas de repente não conseguia lembrar de mais nada. Havia lhe dito naquela manhã quando eles se despediram ali mesmo, que ele voltaria para a fazenda naquela noite. E ela o fez prometer que não a procuraria ali. O dia havia sido cheio, passara o dia em reunião com o advogado, mas a mente estava voltada para ela, havia prometido que não a procuraria ali na casa dela, que a veria na fazenda quando ela retornasse para o vale. Mas ele não conseguiria voltar sem se certificar de que ela estaria bem. Ele tinha certeza que a conversa com o Camilo não teria sido fácil. Ele queria vê-la mais uma vez. Tomando coragem tocou a campainha. Um tempo depois uma jovem veio abrir a porta, ela estava aflita.
—Desculpe senhor, mas não é uma boa hora.
—Preciso falar com Julieta.
—Ela não pode.
—O que? Por que...
Aurélio olhou entre o vão da porta e viu outra empregada vindo, ela brigou com a jovem mandando ela chamar o motorista de uma vez. Aurélio sem se importar com as formalidades empurrou a porta e entrou. Na sala viu Julieta sendo amparada por outra Jovem. Ele correu para ela e estacou quando viu mancha de sangue nas mãos de Julieta. Ela levantou a vista e o notou.
—Aurélio.. — Seu nome foi dito num sussurro angustiante.
—O que está acontecendo? —Ele agora a segurava contra o peito.
—Eu sinto uma dor muito forte..
—Está tudo bem meu amor, eu estou aqui, tudo bem. Calma, respira. Calma... A voz de Aurélio era como a brisa, melodiosa e tranquilizadora, tão doce e gentil não importava o que ele dissesse. Era assim que falava enquanto apertava a mulher contra o peito, embalando-a, com suavidade. Aquilo parecia um terrível pesadelo. Ele ordenou que alguém chamasse o motorista imediatamente, que ia levá-la ao hospital, mesmo sob fortes protestos dela.
Aurélio podia perceber pela face de Julieta que ela sentia muita dor, mais pálida do que o normal, e pelos cabelos empapados de suor. Ele a levantou no colo e a levou até o carro que já os aguardava na entrada da casa. Ele a colocou no carro com suavidade, sempre a amparando-a. Minutos agonizantes depois eles pararam no hospital, Julieta fora tirada dos seus braços por um enfermeiro. Ele tinha uma mancha de sangue na roupa. Fazia vários minutos que o médico havia entrado na sala, naquele momento, sentia-se inútil, parado ali, observando aquela porta fechada.
Um momento depois ela foi aberta e uma enfermeira o chamou.
O médico checava o soro no suporte, Julieta estava deitada naquela cama, frágil, pequena. Seu coração estava dilacerado de preocupação.
—Fique tranquilo, sua esposa está descansando.— Disse a enfermeira, naquele momento o médico se afastou de Julieta e veio ao encontro dele.
—Ela teve algum abalo emocional recentemente? —Perguntou o médico.
—Sim, ela está tendo problemas familiares.
—Hum.. —O médico anotou algo na ficha e depois falou algo para a enfermeira e por fim se voltou para Aurélio.
— Ela está bem agora, embora esteja muito fraca. Por hora ela deve ficar aqui, até o risco passar. O senhor agiu rápido, parabéns. Eles ficaram bem, não se preocupe.
—Eles?
—Ora, sua esposa está grávida. Você não sabia?
—Grá-vi-da?
—Por hora, mas recomendo muita tranquilidade e serenidade a partir de agora. Temo que seja uma gravidez delicada por causa da idade dela. Bom, parabéns, tenho outros pacientes.
Eles foram embora.
Aurélio ficou ali observando a mulher da sua vida deitada naquela cama, ela carregava o fruto do amor dos dois, ele estava muito assustado com aquela noticia, mas também muito emocionado. Mal conseguia respirar. Julieta continuava a dormir e ele sentia-se feliz por poder sentar-se ao seu lado em silêncio. Aurélio sabia que seria difícil convencê-la, mas agora eles tinham que tomar uma decisão importante.
Ele sorriu imaginado-a com o filho ou filha deles nos braços. A imagem o enchia de um amor novo, mais forte. Amava Julieta. E já amava o seu filho. Não poderia viver sem eles.
Julieta abriu os olhos na penumbra. Pestanejou, tentando ajustar a visão. Então, viu Aurélio sentado numa cadeira junto à cama e recordou tudo o que se passara. Estava no hospital. Só lembrava de sentir uma dor insuportável no baixo ventre, e do sangramento. Fazia um tempo que seu período não vinha que ela tinha certeza que não as teriam mais. Ela achava que a temida menopausa chegara na sua vida, ela fechou os olhos mortificada. Porque tinha que ter sido na frente do Aurélio. Que vergonha.
— Oi você acordou. — Falou ele se arrumando na cadeira.
— Oi, o que aconteceu? —Perguntou ela temendo a resposta.
—O médico disse que você teve um desgaste emocional, mas que o bebé ficará bem se repousar.
Julieta respirou aliviada. Então, deu-se conta de algo. Ele dissera "bebé?" Estaria tendo alucinações. Ela se perguntou.
—O que você disse? Perguntou Julieta, engolindo as palavras.
—É isso que ouviu. Vamos ter um filho. Sentia-se como se a tivessem partindo em dois. Ela estremeceu, obrigando a continuar a respirar. Não podia ser. Julieta levantou a cabeça e tentou erguer-se.
—Isso é impossível! —Falou ela de forma brusca assustando Aurélio, ele achava que ela ficaria chocada mas não tanto.
—É verdade meu amor. —Ele aproximou a mão do rosto dela mas ela esquivou.
—Porque você está fazendo isso comigo, isso não tem graça. Eu não posso está grávida, não, não posso.. —Calma, não se estresse, por favor. Você precisa de tranquilidade. Porque essa reação exagerada. Ter um filho meu é tão ruim assim? É porque não tenho mais dinheiro? Ou medo do que os outros dirão? Se for medo, não se preocupe, eu vou estar ao seu lado. Erguendo a cabeça devagar, ela o encarou.— Você não entende. Eu... não posso ter filhos.. eu nunca pude.
Fale com o autor