Premonição - O Início

7 Capítulo 7 - Lustre Negro


Murilo acordou e se sentiu completamente perdido por alguns instantes. Ele não devia ter dormido mais do que algumas horas desde que voltara para casa. Devia ser por volta da hora do almoço. Quando o garoto se levantou do sofá, onde havia caído sem forças quando chegara, sentiu uma forte tontura.

Ele ainda não podia acreditar que fora tão tolo. Ele havia salvado Erick e a morte o havia pulado pegando o próximo da lista que era Nilton. Ele havia achado que a morte ia ficar atrás de Erick até leva-lo, o que agora não fazia mais sentido. Eles haviam escapado do acidente e mesmo assim, a morte continuara seu caminho antes de voltar pegá-los, ela fora paciente. Graças a seu erro brutal a morte havia pegado mais um da lista.

− Ainda posso salvar 7 pessoas – o rapaz repetiu em voz alta tentando se acalmar.

Seu telefone tocou. Ele o olhou irritado. Por favor, que não fosse mais uma morte. Ele atendeu:

− Murilo, temos um problema – Maria falou do outro lado da linha.

Murilo franziu o cenho:

− O que houve?

− Não sabemos quem é a próxima, se a Ana ou Tainy.

− Podemos ficar de olho nas duas e salvá-las – Murilo respondeu sem pensar muito.

Maria fez uma pausa então após um longo silêncio contou:

− Não vamos poder ficar de olho nelas. Elas estão saindo da cidade.

− O que?! – o garoto exclamou.

− Sâmea e Tainy vão viajar para o sul do país e a Ana vai com a família dela para um rancho. As três não quiseram me dar o endereço. Elas estão partindo.

Murilo não precisou pensar duas vezes, apenas pegou a chave do carro e saiu em disparada para onde as três estavam. Murilo acelerou o carro com força e saiu cantando pneu. Multas de trânsito eram o menor de seus problemas.

Quando parou na frente da casa da Ana freando bruscamente, Sâmea e Tainy já saíam pela porta da frente com malas de rodinhas nas mãos. Murilo não sabia como, mas naquela manhã enquanto dormia as garotas já haviam aprontado as malas.

Assim que Murilo saiu do carro Sâmea levantou a mão como se mandasse o rapaz se calar e resmungou:

− Murilo, não! Não importa o que você diga nós vamos viajar.

Murilo ignorou a garota e começou:

− Sâmea, a morte está seguindo uma lista, estamos morrendo na ordem que devíamos ter morrido no festival, mas se alguém interfere a morte pula a pessoa e passa para o próximo, eu salvei o Erick e...

− O Nilton morreu – Sâmea rebateu seca – Você não entendeu não é? Não importa o que você faça. Todos já estão mortos. Por isso vamos viajar. Queremos aproveitar nossos últimos momentos.

Murilo respirou fundo. O sono e o medo falando mais alto. A raiva fervendo dentro dele, não permitia que ele fosse negligente, se elas queriam isso, se queriam correr riscos desnecessários, seria problema delas. Ele falou lentamente:

− Tainy pode ser a próxima.

Tainy levou a mão à boca nervosa. Então se recompôs:

− Nós vamos mesmo assim.

Murilo suspirou então Sâmea sorriu para ele:

− A gente se vê daqui a uma semana.

Murilo sentiu um arrepio correr pela sua coluna, mesmo assim assentiu e fez o melhor que podia:

− Boa sorte, todos nós vamos precisar.

*

Os próximos dois dias passaram sem qualquer complicação. Sâmea e Tainy ligaram para o Murilo no início do segundo dia anunciando sua chegada ao destino que desejavam. Sâmea estava feliz e garantiu que havia falado com a Ana que também estava bem.

Horas mais tarde Sâmea e Tainy comiam comida japonesa em pratos sofisticados assistindo televisão a cabo. As garotas riam enquanto conversavam aproveitando o tecido macio do sofá acolchoado em que estavam. Elas haviam alugado um quarto num hotel luxuoso que Sâmea havia escolhido pelo estilo.

O hotel era branco com um grande bloco de mármore esculpido, e na parte de baixo de cada janela de vidro ela parecia ter um enfeite de tecido vermelho dando ao hotel o aspecto de um gigantesco bolo enfeitado, era simplesmente lindo, coisa que a conta não era. As garotas estavam gastando todas as suas economias ali.

Tainy puxou a mesinha de centro para o lado do sofá, alinhando-o de forma que pudesse por comida sobre a mesinha, porém uma parte da mesinha ficava sobrando quase tocando a gigantesca janela atrás do sofá. A sombra do grande lustre sobre elas fez Sâmea levantar os olhos e apreciá-lo novamente.

Tainy se jogou sobre o sofá e começou a assistir o filme que passava: Jogos Vorazes – A Esperança. Na tela a personagem começou a cantar uma música.

− Eu amo essa música − Sâmea exclamou e começou a cantar junto.

Você, você, vem para a árvore,

onde enforcaram um homem que dizem que matou três,

não mais estranho seria a gente se encontrar,

à meia-noite na árvore-forca.

Tainy riu da irmã.

Longe dali Ana olhou para o estábulo aonde o dono do rancho conduzia um pequeno grupo apresentando a eles seus cavalos premiados. Ana andou entre os estábulos e saiu para noite fria recém-chegada.

Próximo ao estábulo uma pequena ceifadeira estava estacionada. Ana percebeu q ela possuía calços nos pneus, pois estava na beira de um declínio do terreno. Tanto a ceifadeira e os estábulos ficavam no topo de um aclive e logo abaixo estavam as cabanas onde todos iriam dormir.

A mãe de Ana chamou-a para dentro novamente. Ela queria que Ana visse algo. Lá dentro o dono do local alisava um cavalo negro que relinchou visivelmente irritado, ele tentou puxar a corda a qual estava preso, mas o cano de metal preso ao chão resistiu, embora parecesse bambo. O dono do rancho deu tapinhas no lombo do animal e anunciou:

− Esse é o Tempestade pessoal. Nosso corcel mais rápido. Ele já venceu ao todo 180 prêmios para o Rancho Cavalo Negro, entre prêmios de corrida, feiras rurais e prêmios de beleza. Ele é um cavalo campeão – riu o homem – o nome do rancho foi dado em nome do avô dele.

Ana sentiu o coração acelerar ao ouvir o número, lembrou-se imediatamente daquela estrada maldita, no Km 180, onde sua vida mudara drasticamente.

Sâmea pausou o filme e pediu para Tainy:

− Pode buscar mais pipoca?

Tainy revirou os olhos e se levantou cruzando a sala luxuosa em direção à cozinha. Sâmea olhou para o lustre novamente, incomodada, ele estava balançando aquele tempo todo. Era impressão dela ou ele havia se deslocado alguns milímetros para baixo?

Quando Tainy voltou com a pipoca Sâmea resolveu ignorar o objeto. Tainy passou por trás do sofá colocando a pipoca na ponta da mesinha que ainda estava livre. Então ela pegou a taça de vinho mais próxima, e sem querer derrubou o controle no chão.

O canal mudou, era um canal de música, estava passando o clipe de uma música onde uma menininha de peruca loira dançava. A música encheu o ambiente.

Vou balançar ao ritmo do lustre, do lustre

Vou viver como se não houvesse amanhã

Como se não houvesse amanhã

Vou voar como um pássaro pela noite

Tainy e Sâmea se entreolharam ao mesmo tempo. As duas ficaram paradas por alguns instantes, como não aconteceu nada Tainy se moveu para baixo do lustre enquanto dava a volta no sofá.

Ana e os outros hospedados no rancho começaram descer o terreno inclinado em direção às cabanas. Tempestade, no seu cocho deu um coice no pedaço de metal e se soltou. O cavalo relinchou ficando sobre as patas traseiras.

Ao lado da Ana o celular de uma garota começou a tocar. Ana percebeu que era uma música e assim que a garota tirou-o do bolso Ana ouviu claramente o som:

Porque eu estou indo até você como um cavalo negro

Você está pronto, está pronto

Para uma tempestade perfeita, uma tempestade perfeita

Porque uma vez que você é meu, que você é meu

Não há volta

Tempestade correu de seu cocho e saiu dos estábulos arrastando atrás de si a haste metálica. Ana associou a música ao cavalo tarde demais. Tempestade passou pela ceifadeira e o cano arrancou os calços do pneu com um baque surdo.

Quando Ana se virou, gritos encheram o ar e a garota foi atingida em cheio pelas pás afiadas do veículo.

O lustre deu um estalo e despencou, Tainy foi mais rápida jogando o corpo para trás, escapando do lustre por um triz. No entanto, uma de suas pernas se chocou contra a mesinha, atirando a garota para trás. Tainy se jogou com toda a força contra a janela.

Com um baque e um grito da garota o vidro cedeu liberando a garota com um pássaro em direção à noite. Tainy caiu alguns andares, então com uma lufada de vento, um dos tecidos de enfeite se moveu no ar permitindo que o corpo da garota passasse por ele, mas não seu pescoço.

O pescoço da garota se prendeu ao tecido e, graças à velocidade, quebrando-lhe o pescoço e lhe dando um enforcamento rápido. O corpo da garota balançou lentamente preso pelo pescoço, como um lustre macabro.

Sâmea berrou exasperada olhando para a irmã.