Premonição - O Início

8 Capítulo 8 - Love Rollercoaster


22 de Junho/Segunda-Feira

Todos se entreolharam na sala da casa de Paloma. Sâmea chorava descontroladamente, Paloma olhava para ela com olhos apagados, Erick estava jogado sobre o sofá com os braços ao seu lado.

− Eu não devia ter sido tão idiota – Sâmea choramingou – se tivéssemos ficado aqui, talvez conseguíssemos salvar minha irmã e a Ana.

Quarenta e oito horas após o acidente Sâmea havia voltado para a cidade natal dos garotos. Murilo a encarou com pena:

− Sâmea, não podemos dizer como teria sido. Você não tem culpa. Olhe pelo lado bom, ela se foi feliz pela viagem de vocês. Ana morreu ao lado da família.

Paloma interrompeu com sarcasmo na voz:

− Tirando o fato de a Ana ter sido feita em pedacinhos por uma ceifadeira e a Tainy ter despencado do vigésimo segundo andar e ter quebrado o pescoço no quarto, foi tudo muito feliz.

Todos se calaram e não quiseram dizer que concordavam com Paloma. As mortes haviam sido as mais cruéis possíveis. Murilo havia comparado as mortes dos sobreviventes, com as mortes que deviam ter tido no acidente. Era simplesmente dez vezes pior que da primeira vez. A morte parecia estar irada.

− Tem algo que eu não entendo – Maria se manifestou pela primeira vez desde que chegara – Você disse que Tainy e Ana Clara morriam ao mesmo tempo. Você nos mostrou no local do acidente. Então porque a perícia constatou que a Ana morreu sete segundos antes da Tainy?

Murilo encarou Maria confuso:

− A morte podia matá-las separadamente ao que se sabe, mas com Leandro e Evandro foi semelhante... – Murilo colocou a mão na cabeça – talvez pela pouca diferença de tempo na morte original ela tenha que matar ao mesmo tempo. Não sei.

O garoto parecia exausto. Suas olheiras eram grandes e profundas, seus olhos estavam vermelhos, seu rosto parecia encovado e mais magro. Não muito diferente dos outros, mas ele era o pior.

− Murilo você não dorme ou come há quanto tempo? – Maria perguntou preocupada.

O garoto pareceu fazer uma força enorme antes de responder:

− Quando foi o memorial do acidente mesmo?

Paloma engoliu em seco antes de responder:

− Uma semana.

Para eles parecia um absurdo que apenas uma semana tivesse se passado desde o começo de tudo. Maria se levantou do sofá e anunciou:

− Meu horário de almoço está quase no fim. Preciso voltar ao trabalho.

Todos olharam para ela como se ela fosse louca, então ela se justificou:

− Com o pedido de demissão da Sâmea e o tanto de funerais semana passada, o Dr. Paulo ficou sem ajudante no consultório. Ele veio implorar que eu fosse trabalhar hoje. Desculpe. Espero que fiquem bem.

Maria saiu pela porta da sala em direção ao portão. Os outros ficaram desolados sem saber o que fazer. Murilo e Erick se levantaram ao mesmo tempo:

− Vou embora, preciso dormir – Murilo explicou se retirando.

− Eu vou – Erick se enrolou com um gesto e resmungou – o que ele disse.

Os dois saíram da casa deixando as garotas sozinhas. Paloma e Sâmea se entreolharam desanimadas. Paloma tentou:

− Quer ir a algum lugar?

Era vez da garota, e Paloma era a responsável por ela. Sâmea, no entanto não se importava com mais nada. Desde a morte da irmã só queria que a morte chegasse logo. Sâmea ia se negar de sair com Paloma quando seu telefone tocou. A garota atendeu:

− Sâmea tudo bem? É a mamãe. Sei que não tem estado muito bem com a morte da Tainy, então pensei, por que você não passa no salão de estética? Eles me deram dois tratamentos gratuitos por trabalhar lá, mas eu não vou poder ir... Eu simplesmente... – ela fez uma pausa – Vá por mim querida, leve uma amiga no meu lugar.

Sâmea desligou o aparelho e encarou Paloma:

− Quer fazer um tratamento estético gratuito?

*

Murilo se virou na sua cama pela centésima vez. Fizera isso nos últimos minutos em que estivera tentando dormir. Era impossível dormir bem. O garoto percebeu que estava paranoico. Chegou a desejar nunca ter escapado do acidente, querendo trocar de lugar com Renan.

O garoto se sentou na cama. Ele não havia tido chance alguma, nem nenhum dos outros sobreviventes do festival. Se isso ocorrera com eles, aconteceria de novo com outras pessoas. O garoto pegou seu notebook e após alguns minutos criando um blog o nomeou Premonição e Sinais. O garoto começou a digitar furiosamente tudo o que havia lhe acontecido. Olhou para o seu celular e digitou no blog: Para aqueles que enganaram a morte, ela guarda algo especial.

Aquela sensação de que a morte guardara sua fúria final para ele não saía do garoto. Ele sabia que ela estava furiosa com ele. Ele levou o celular a altura dos olhos, apertou o botão de músicas aleatórias e depois o play. Novamente Firework tocou indiscriminadamente. Se ele estivesse certo, como na premonição, como nas músicas sinalizando as mortes, aquela seria sua música.

O garoto voltou a digitar, quando a música mudou repentinamente.

*

Assim que chegaram na rua do salão estético Paloma sentiu um arrependimento de ter ido até aquele lugar. A fachada do local estava em reforma. Eles estavam colocando tábuas de madeira polida por toda a parede. Um guincho pequeno carregava um feixe de tábuas de madeira perfeitamente alinhadas ainda no ar. O topo do guindaste parecia quase tocar nos fios elétricos. Desde a morte do seu irmão Paloma não se sentia muito a vontade com esses fios.

Paloma e Sâmea chegaram no salão de estética e olharam para a fachada em reforma e adentraram o salão. O local era incrivelmente branco e tinha fotos de pessoas bonitas nas paredes, a recepcionista igualmente bonita sorriu para elas. As garotas se sentaram na sala de espera. Imediatamente a recepcionista sorridente sentou-se ao lado de Sâmea e abraçou a garota. Após algum constrangimento ela falou:

− Em alguns minutos eu chamo as duas para o tratamento.

Paloma revirou os olhos e fingiu ler uma revista enquanto a recepcionista bombardeava Sâmea com perguntas insensíveis. Paloma passou pela foto de um lenhador de aspecto viril que gritava “madeira”. Ela sentiu um arrepio na coluna ao se lembrar da morte que devia ter tido no festival. Ela folheou a revista mais rápido e deparou-se com uma manchete em letras garrafais “Aquecimento Excessivo”. Paloma sentiu outro arrepio e fechou a revista.

A recepcionista se levantou dando um “até logo” para as garotas e se retirou para interior do salão. Sâmea chamou a atenção de Paloma para a televisão LCD no alto da recepção:

− Eu amo esse filme, é do Tim Burton! A Noiva Cadáver.

Sâmea foi até a recepção pegar o controle e voltou. Na tela caveirinhas engraçadas faziam movimentos que pareciam dança. A cena fez Paloma rir. Sâmea aumentou o volume e elas puderam constatar que as caveiras realmente dançavam. O som que uma delas cantava fez Paloma prender a respiração:

Vai, vai, chegar sua vez

A morte virá não importa o freguês

Você pode até se esconder e rezar,

Mas do funeral não irá escapar

− Desliga isso! – Paloma disse ríspida.

Sâmea assustada desligou a televisão derrubando o controle no chão. As duas se entreolharam preocupadas. Sâmea perguntou:

− Isso foi um sinal?

Paloma suspirou:

− Acho que não, foi algum aviso para nos amedrontar. Aconteceu no velório do Evandro e Leandro. Apenas vamos tomar cuidado a partir de agora certo?

Sâmea concordou trêmula. Algo dizia que ela devia sair correndo dali. Estava prestes a sugerir isso para a amiga quando a recepcionista as chamou. As garotas se levantaram amedrontadas e seguiram a recepcionista pelo corredor branco. Ela indicou uma sala para as duas onde havia duas mesas de tratamento.

− Entrem e podem se despir, fiquem apenas com as roupas de baixo. Podem pegar um roupão naquele monte limpo.

As garotas entraram e após a porta se fechar se despiram conforme a recepcionista havia mandado e se deitaram nas mesas. Instantes depois uma mulher mais velha entrou.

− Olá queridas, boa tarde – quando as garotas responderam ela disse – O pacote estético de vocês começa por um tratamento de pele. Vou começar por uma de vocês, e enquanto a máscara de uma seca, faço a da outra.

Como não houve protestos ela pegou um pote num grande armário no fundo da sala. Ela colocou o pote numa mesinha de rodinhas, e empurrou-a entre as garotas. Ela se virou sobre a Sâmea para aplicar o produto. Paloma pode ler as letras em negrito no rótulo do creme: “Produto à base de parafina, cuidado no manuseio, produto inflamável”.

A mulher trabalhou no rosto e no corpo da outra garota habilmente, então após terminar com ela disse:

− Coloque seu roupão e me siga querida – então se voltando para Paloma anunciou – já volto para cuidar de você.

As duas saíram da sala e a mulher guiou Sâmea até uma sala no fundo do corredor. Sâmea reparou que ela era morna, quase quente. Nela havia um aparelho parecido com uma ressonância magnética.

− Isso é um Dome Photon. É uma tecnologia criada no Japão. Ele funciona a base se raios infravermelhos, servindo para tratar a pele e aliviar a tensão, chamamos simplesmente de cama de infravermelho.

A mulher fez sinal para que Sâmea se deitasse na máquina, então fechou a tampa sobre ela, deixando apenas a cabeça da garota para fora. Sâmea olhou para a placa afixada na parede próxima a ela: “Alta tensão, não deixar superaquecer”.

− Vou colocar uma música clássica. Feche os olhos e respire. Não se preocupe com o tempo certo, a máquina tem uma trava automática e só vai abrir no fim do tratamento.

A mulher colocou o som para funcionar e saiu da sala antes que a música começasse. Sâmea riu quando o som que saiu do rádio não foi música clássica. Devia ser um disco de música pop. Estava tocando No One da Alicia Keys.

A mulher chegou à sala em que Paloma estava e avisou:

− Vou passar um óleo de madeira além do creme, você está muito branquinha, a máquina vai deixar você mais “queimadinha”.

Paloma apenas acenou.

Fora da clínica quem manejava o guindaste precisou virar as tábuas na direção oposta à porta do salão para que um caminhão pudesse passar, e o guindaste sem querer acabou roçando os fios elétricos. Os fios vibraram, mas nada de ruim aconteceu. O manejador ficou aliviado.

Dentro da clínica as luzes piscaram e o ar condicionado da sala da cama de infravermelho teve um curto circuito. A temperatura começou a subir. Sâmea dublava a música que tocava e não percebeu que a temperatura havia subido devido à temperatura da própria máquina.

O marcador de temperatura do ar condicionado começou a subir lentamente grau, por grau. Então a voltagem da máquina começou a aumentar também devido ao superaquecimento da sala. Sâmea fez uma careta se sentindo incomodada com a temperatura repentina.

A música terminou no rádio deixando a sala momentaneamente silenciosamente, então uma nova música começou:

Ela é só uma garota e está em chamas

Mais quente que uma fantasia

Sozinha como uma rodovia

Ela está vivendo em um mundo em chamas

Sentindo a catástrofe

Ao ouvir a música Sâmea percebeu a armadilha. Ela gritou quando sua pele começou a fritar e a chiar. Ela berrou desesperada e tentou abrir a tampa da máquina, mas foi inútil, lembrando-se da trava automática. Ela começou a berrar por ajuda. Nesse momento o ar condicionado aumentou a temperatura o máximo que conseguia com um rangido, assim como a voltagem da máquina.

A alta temperatura incendiou o produto no corpo da garota. Ela berrava enquanto seu corpo queimava.

A algumas salas dali Paloma ouviu os gritos e percebeu que era tarde demais para a amiga. Ela era a próxima. Paloma se enrolou o máximo que pode em seu roupão e saiu correndo dali. Jogando a funcionária do salão no chão. Ao passar pela recepção Paloma ouviu horrorizada uma música vinda da televisão:

Está caindo

Estou gritando “madeira”

É melhor você se mexer

Paloma parou na porta do salão ao mesmo tempo em que a sala em chamas em que Sâmea jazia explodiu. O manobrista que estava distraído tomando um refrigerante tomou um susto e se chocou com os controles do guindaste de qualquer jeito.

O guindaste girou no ar bruscamente, jogando uma tonelada de tábuas de madeira polida contra Paloma, como um grande martelo. Murilo surgiu no último instante se jogando sobre a amiga, atirando-a ao chão. O monte de tábuas se chocou contra a porta de vidro temperado do salão estilhaçando-o.

− Eu ouvi as músicas em casa – Murilo tentou se justificar – achei que desse tempo de salvar a Sâmea...

Paloma apenas continuou caída e chorando.

Notas finais
Nesse capítulo eu tive que fazer uma homenagem ao meu filme favorito da saga, que contém também a minha morte favorita. A morte das Ash's em Final Destination 3.