Notas iniciais
Este capítulo não demorou tanto quanto eu achava que demoraria. Além disso, ele já estava escrito faz um tempo, mas eu tinha e fazer algumas coisas antes de postá-lo. Adiantando que não há mortes neste capítulo, pois ele é apenas para esclarecer algumas coisas, e também deixar outras perguntinhas no ar [...]
Por enquanto, é só.

Aproveitem!

Bruce fitava a ambulância com um olhar vago e perdido. Olhou para o lado e percebeu que o carro do legista se aproximava. A figura grande e negra de um dos homens o fez arrepiar. Ele colocou o corpo de Betty dentro de um saco negro e fechou o grande zíper. Aquele gesto fez o coração do mágico doer.

Antes de partirem com o corpo da namorada, ele pegou a pulseirinha que ela usava. Uma linda pulseira. Ele queria lembrar-se dela, aquela pulseirinha ajudaria muito. Algo dela precisava viver com ele, não só no pensamento, mas também junto dele. Ainda havia muitas pessoas ali, a maioria delas comentava sobre o ocorrido.

Bruce pensava na segunda chance que ele e Betty tiveram, e em como aquilo ocorrera. Ela disse que tomaria um ar. Ela só precisava relaxar um pouco. Não era deste descanso que ela falava... Uma lágrima rolou pelo seu rosto e ele se ergueu da escadaria em que se encontrava e entrou em um dos corredores, onde também viu uma quantidade razoável de pessoas.

Quando deu por si estava de frente à sala de exames, onde o avô de Betty se encontrava. O mágico apenas abriu a porta e se inclinou, observando a expressão indiferente do velho. Ele sorriu de lado.

— Ele ainda não sabe. — Bruce murmurou. — O que vou dizer pra ele? — Outra hipótese passou pela sua mente. — O que farei com ele?

O homem acenou para o velho, que virou o rosto de volta para seu ponto inicial. Bruce voltou a sentar no sofá, onde há alguns minutos estava com Betty. Pensou no quanto irônico fora ganhar uma nova chance e perdê-la tão rápido, o que levara a isto? Porque aquilo tinha acontecido? As respostas não chegariam até ele, se ele não fosse até elas. O mágico engoliu em seco, antes de fechar os olhos e deixar que outra lágrima escapasse.


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Samuel abriu seu computador e ficou horas vendo um site que marcara em seus favoritos. Aquele era seu computador particular, e ninguém nunca se atrevera a vasculhá-lo. Nem mesmo Vivian, ela nunca gostou de mexer nas coisas do marido, ela sabia que não tinha precisão. Ou tinha? Ele passava os dedos sobre a tela, como se quisesse tocar o que havia do outro lado dela. E ele queria de verdade. Ele não sabia por que gostava daquilo, mas lhe atraia de todas as maneiras e não conseguia se arrepender. Ele gostava e sentia prazer ao observar aquilo, não negaria para si mesmo, mas teria a coragem de negar para todos. Até para Vivian.

Toda a casa estava silenciosa. Nenhum ruído era ouvido. A não ser pelo barulho do vento entrando ferozmente pela janela, balançando as cortinas e mexendo os cabelos do homem. Samuel não tirava os olhos do monitor, estava tão distraído que nem notou Adam caminhando em sua direção.

Seu pai percebeu sua presença antes de chegar mais próximo dele, e retirou do site com uma rapidez inimaginável. Seu corpo recebeu uma onda de adrenalina, antes de virar seu rosto pausadamente e fingir ao máximo uma expressão de despreocupação.

— Pensei que você já tinha pegado no sono, filho. — Seu coração desacelerava aos poucos.

O garoto de cabelos loiros não respondeu. Foi quando ele se inclinou um pouco para frente, que Samuel pode ver a causa de seu silêncio. Adam ainda dormia. Ele permaneceu de olhos fechados, mas de pé. Seu corpo pendia aos poucos, para frente e para trás. Sonambulismo. Concluiu seu pai, que rapidamente o apoiou e o levou de volta ao quarto. Em algum momento do trajeto achou ter ouvido Adam falar algo, porém deixou que isso não o incomodasse e fechou a porta do quarto do filho.

Só depois voltou ao seu quarto, mas não voltou ao computador. Precisava relaxar de outra forma. Na cama.


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O sol bateu fortemente no rosto de Charlie. E foi preciso o garoto colocar a mão sobre os olhos para se proteger. Sua roupa já grudava ao corpo de tanto suor. O garoto estava jogando futebol com os colegas. Era mais um treino, pois em uma semana ele teria que disputar a final das regionais com seu time. Aproveitara que naquela semana não haveria aula por conta do acidente com Ted, para treinar ainda mais.

Depois de escutar o apito do treinador e dar um passe para um de seus colegas, ele olhou para um pequeno banco que havia ali, e avistou Adam sentado a observar o jogo. A seu lado estava uma garota ainda desconhecida, mas aparentemente reconhecível. Foi ai que Charlie lembrou-se dela, e que ela também estava no circo no dia do acidente. Estava com sua irmã, Paris. Ele acenou para Adam que estava um pouco distraído, mas notara seu aceno, enquanto a garota estava dispersa com seu celular. Um segundo para o aceno e Charlie recebera uma bolada na altura da nuca.

— Au! — Reclamou ele, tocando a nuca.

— Mais atenção, Charlie! — Gritou o treinador. — Continue desta forma e o banco de espera ganha mais um jogador.

O jovem não gostara nada do tom irônico do treinador, mas sabia que era preciso.

— Foi mal. — Sentiu-se forçado a responder.

E o jogo continuou.

De repente, Adam virou-se para Allison e indagou:

— Por que aceitou?

— Como? — Allison acabara de gritar com o celular. Já fazia algum tempo que ele não estava funcionando bem. Por isso, não escutara a pergunta do garoto.

— Por que você quis me vigiar?

— Te vigiar? Oh, não. Eu não chamaria de vigilância. — Começou. — Eu diria que estou “cuidando” de você, entende? — Fez aspas com os dedos.

— Por que aceitou? Eu sei que foi idéia do meu pai. — O garoto tornou a perguntar, pois acreditava que ela faria rodeios e não o responderia.

Allison havia acabado de lembrar que ainda não tivera tempo de falar com o menino sobre o que estava acontecendo. Tanto sobre a o pedido de seu pai, como também sobre a lista. A maldita lista! Ela não poderia bobear, o futuro de todos estava em jogo. Ela queria agir da forma mais amena possível. Sabia que qualquer erro que fosse, poderia colocar tudo a perder. Queria encontrar e escolher as palavras certas.

— Presumo que seu pai já lhe disse que sua tia irá fazer uma viagem a trabalho. Certo?

O garoto assentiu.

— Pois bem. — Continuou. — Então, ele pediu para mim, que tomasse conta de você. — E mostrou um leve sorriso, para não intimidar o menino.

— Ele acha que ainda sou criança! — Adam resmungou e cruzou seus braços. — Além disso, eu mal te conheço. — Desta vez ele falou mais baixo, quase sussurrou, para que ela não conseguisse ouvir.

Em vão. Foi bem audível.

Allison olhou para o céu, que estava mais lindo do que alguns dias atrás. Quase não havia nuvens. O banco em que estavam ficava debaixo de uma grande árvore centenária.

— Adam, não é questão de ser criança ou não. Olha, vamos ver se você consegue entender. — Respirou fundo. — Seu pai gosta muito de você e ele só quer seu bem. Ele se preocupa com você. E ele pediu este favor a mim, porque ele confia em mim. Ele sabe que eu não seria capaz de te machucar... De te fazer mal.

Aquilo pesou na mente de Allison. Ela percebeu que o que falara não condizia com o esquema da morte. Ela poderia esta ali, pronta para atacá-los. Ela própria poderia ser a próxima, e aquilo a fez ficar pensativa. Será mesmo que ela não faria mal ao Adam? Nem que fosse indiretamente?

Adam percebeu antes e gritou:

— Cuidado!

E Allison olhou para frente assustada. Foi com um movimento rápido e instintivo que ela desviou para o lado, vendo a bola bater contra o grande tronco da árvore, e quicar duas vezes no chão, antes de rolar de volta para o gramado.

— Que susto! — Arfou ela, aliviada.

O coração de Allison ainda estava acelerado, não havia se recuperado do pequeno susto.

Um garoto do time se aproximou e pediu desculpas a ela. Ela resmungou algo como “quase me matou e ainda vem com desculpas”. Adam ria incontrolavelmente da situação. Seu rosto já estava ficando vermelho quando parou.

— Você achou engraçado, não é? — A raiva de Allison estava explícita.

— Sim. — Adam respondeu, em um tom desafiador. Ele esperava alguma investida dela, mas nada fez.

Allison apenas voltou a fitar o céu. Ai, como eu queria um pedaço seu agora. Adam fez o mesmo, e os dois contemplaram a linda abóbada celeste juntos.


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Freddy havia acabado de chegar ao trabalho. Ele estava trabalhando em uma fábrica de bebidas, que pertencia ao pai de um amigo seu. Este fora um dos motivos pelo qual o jovem conseguira o emprego. Além disso, seu amigo também estava ali, mesmo sabendo que não necessitava daquilo. Por enquanto, Freddy ficara encarregado de verificar a qualidade de todo o processo de preparo das bebidas. Um típico supervisor. A notícia da morte do irmão caçula o deixara menos disposto a trabalhar, mesmo que soubesse que seu trabalho dependia de seu desempenho na fábrica. Ainda por cima, naquele mesmo dia à tarde, seria seu funeral.


Enquanto caminhava por entre as enormes máquinas, acompanhava o barulho exagerado que elas faziam.

De repente uma das máquinas parou. O jovem se aproximou e deu um pulo quando a máquina voltou a funcionar.

— Opa!

Ao seu lado, um dos seus superiores reclamou:

— Quero mandar reparar isso o mais rápido possível. Só é uma pena que, provavelmente, o técnico só virá na semana que vem.

— Sim. — Freddy sorriu. — O quanto antes. — Brincou.

O homem já estava de saída, quando se virou e chamou o adolescente.

— Fredderick, você poderia me fazer um favor?

— Claro! É só falar senhor! — Freddy parecia disposto, mas ele não estava assim por dentro.

— Queria que você fizesse a checagem dos cinco primeiros lotes de bebidas. Eles sairão por volta das dez. — Ele olhou para uma prancheta que tinha em mãos, para conferir algo. — Sim. Às dez.

— Ok! Tudo bem. — E mostrou um sorriso fraco quando viu o seu chefe sair.

A máquina bem ao seu lado fez um barulho estranho, mais estranho do que antes. Freddy encarou a máquina por alguns segundos, até sair daquela parte da fábrica.


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Shanon estava com uma paciente em seu escritório. A garotinha estava com a mãe a lado, para caso a consulta com a garota desse errado. Ela tinha apenas onze anos, porém não aparentava ter aquela mentalidade. Uma garota precoce e cheia de mimos. A doutora saberia como lidar com ela, pois aquela não era sua primeira consulta. Sua mãe reclamou de vários problemas além da rebeldia e desobediência em excessos e dos ataques de raiva extremos. Também contara que ela já passara dos limites várias vezes, e tinha como conseqüência o fim de vários objetos de sua casa, como: abajures, quadros, fotografias, vasos etc.

A psicóloga pensou e falou:

— Eu tenho quase certeza que não cheguei a tocar neste ponto. Mas, como você faz para ela parar? Ela deve parar uma hora.

A mulher se acanhou. Estava aparentemente nervosa, pois tinha começado a tremer a mão. Shanon já havia percebido isso, já fazia alguns minutos. A mulher continuou se mexendo na poltrona como se estivesse muito desconfortável, e ela estava desconfortável com a situação. Porém, respirou fundo e disse secamente.

— Eu a sedo. — O rosto que fizera em seguida mostrou seu total arrependimento pela resposta.

— Você dá sedativos para ela? — Shanon indagou incrédula.

A garota ouvia tudo com uma surpreendente calmaria.

— Não é querendo colocar a culpa na senhora... — Shanon tocou em sua mão lentamente, para que pudesse deixá-la mais calma. — Entretanto, a senhora já parou para pensar que a causa destes surtos pode ser o sedativo?

A mulher meneou a cabeça negativamente.

— Mas como o sedativo pode ter algo a ver com os surtos dela? — A mulher tentava reorganizar tudo que a doutora dizia.

— Você já havia me mostrado um de seus relatórios médicos, não foi? Pois bem, segundo este relatório, a imunidade da garota é baixa. Não só para os perigos externos, como bactérias, mas também para os calmantes. É simples Mrs. MacNeil, sua filha não pode tomar calmantes ou sedativos.

— Mas...

— Não me refiro a calmantes naturais... Você consegue me entender?

— Sim. — A mulher respondeu com um tom tristonho.

— Não estou dizendo que esta é a causa real dos surtos. Mas uma das possibilidades. Podem ser várias.

A garota continuava com o olhar perdido, apenas a escutar a conversa das duas mulheres.

— Por hora, apenas peço que converse como ela. Tente saber o porquê disso, procurar um motivo concreto para ela fazer este tipo de coisa. Conseguir chegar até a fonte de sua desobediência. — Shanon queria ser mais clara possível.

— Entendi. Obrigada Dra. Robynson. — Mostrou um sorriso conformado.

— É o meu trabalho Mrs. MacNeil. — Mexeu em alguns papéis, enquanto a garotinha se erguia do assento. — Não esqueça de que temos mais uma consulta na próxima semana. Ok?

— Pode deixar. — Respondeu a mulher, ajustando a bolsa no ombro.

— Até logo Brenda! — Disse ela, antes da garota chegar até a porta.

A menina virou-se e mostrou-lhe uma expressão de raiva. Então ouviu a mãe chamar e saiu, batendo a porta.

Shanon ainda tentava entender o motivo pelo qual não se dava bem com crianças, apesar da maioria de seus pacientes terem quase a mesma faixa etária de idade. Em sua maioria todas eram crianças entre onze e quatorze anos. Mas era difícil conseguir manter um diálogo favorável entre elas. Ela chegou a achar que metia medo nas crianças, mas não tinha nenhum fundamento para isso, apenas queria conversar.

Queria entender o que se passava no “mundo” das crianças. Entender a fundo o problema que elas enfrentavam, e poder ajudá-las de forma certa e coerente. Entretanto o que recebia era o desprezo de cada uma delas. Era muito estranho para ela, muito menos, sabia o motivo das crianças parecerem tanto com Paris, enquanto ela tinha a mesma idade.

Prometera para si que sua educação seria a melhor, que teria todo o amor do mundo. Mas o troco que estava recebendo por isso não era favorável. Shanon não gostava nada das atitudes da filha. Todas impulsivas e com conseqüências drásticas. Ela, ao menos, poderia pensar antes de agir. Então, a psicóloga parou de pensar naquilo e se aproximou do porta-retratos da família, desejando, além de tudo, que aqueles tempos bons voltassem. Que seu falecido marido também.

Naquele instante ela pode senti-lo tocar sua pele, levemente. Era uma sensação de paz. Uma breve sensação. Até olhar no relógio e perceber que estava atrasada para um compromisso importante. Shanon tinha um encontro marcado.


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Allison e Adam já estavam em casa quando o celular da jovem tocou. O toque pareceu mais alto e mais medonho, comparado ao silêncio mortal em que a casa se encontrava. Como aquela chata da mana faz falta... Adam pensou, enquanto ligava a televisão.

Allison aproveitou que o garoto estava distraído e foi até a cozinha, atendendo a ligação lá mesmo. Ela apoiou-se com o cotovelo no balcão. Quando olhou no visor e percebeu que era Paris, ficou contente.

— Alô?

— Desculpa pelo meu sumiço, Allie. Não foi minha intenção, mas é que aconteceu algo grave com o irmão do Freddy.

Allison ficou pensativa e receosa de que pudesse ter começado. A lista já poderia ter dado início. Apenas pressionou o celular na orelha para escutar melhor o que Paris tinha a dizer sobre o irmão de seu namorado.

— Ao irmão do Freddy? O que houve?

— Ele morreu.

Allison ficou paralisada. Ela começou a agir! Com os dedos da mão tremendo, ela mal conseguia segurar o celular.

— Como aconteceu isso? — Temia a resposta.

— Abelhas. Um enxame delas o atacou no Jardim Botânico. — O tom de voz de Paris foi mudando aos poucos, assumindo um tom entristecido.

— Oh, que horrível! — Allie levou a mão até a boca, surpresa.

Allison ficou em silêncio por alguns instantes. Paris estranhou sua atitude.

— Allie?

— Não adianta mais... Precisamos dar um jeito nisso. — Sua voz estava diferente, e Paris percebera isso na primeira palavra dita.

— Nisso o quê? Do que você está falando?

— De uma reunião no parque. Eu, você e Freddy, por enquanto. Não quero causar muito tumulto e nem muita confusão, quero apenas que vocês dois me escutem. Ao menos vocês dois. — Allison tentava falar mais baixo, para não chamar a atenção de Adam.

— Se for sobre aquele assunto, pode ir tirando seu cavalinho da chuva. — Paris disse bufando.

— Você quer que mais alguém morra?

— Não. Eu não quero que ninguém morra, porque ninguém vai morrer! — Paris gritou no celular.

Allison, de súbito, escutou o volume da televisão aumentar. Adam apertava o controle remoto, quando ele escorregou e caiu. A jovem que estava na cozinha se aproximou, chegando a sala ainda com o celular na orelha. Olhou bem para a TV, tentando prestar o máximo de atenção no que a repórter dizia, sem dar a mínima para o que Paris tagarelava ao celular.

“Ontem a noite um acidente chocou todo o Hospital Clear Browning. Laurie Anabeth Stewart, de apenas vinte e dois anos, acabou falecendo após ter sido empalada por uma das estátuas de um dos jardins da unidade. Autoridades ainda procuram respostas para o que realmente ocorrera nesta noite, pois as circunstâncias que levaram até sua morte permanecem como uma incógnita... Traremos mais notícias assim que obtivermos mais informações.”

A imagem da vítima apareceu na tela da TV, deixando Allison boquiaberta.

Ela levou a outra mão até a boca. Com a voz um pouco entrecortada ela disse:

— Você viu no canal sete?

— É estranho ver um acidente como esse em um hospital. Você não acha? — Paris comentou, após ter assistido à mesma notícia.

— Você não percebeu nada? Nada na jovem que morreu? — Allison poderia até estar enganada, mas Paris deveria ter se lembrado dela. De toda a confusão da noite no Comet Circus.

— Não. — Paris respondeu confusa.

— É a mesma daquela noite no circo. A minha ex-professora de dança. — Allison gelou ao lembrar aquilo.

— Aquela mulher que estava discutindo comigo, depois do surto de loucura que aquele loirinho teve? Ah, agora lembro...

— Não foi um surto de loucura. O garoto teve uma premonição, Paris.

— Pra mim foi um surto de loucura. — Paris permanecia indiferente.

— Dois já foram. — Allison pensou alto.

— O que disse?

— Nada. Às cinco no parque. Você e o Freddy. Ok?

— Ok. — Paris respondeu, sem disposição para ir até o parque naquela tarde.

— Até lá! — Allison desligou primeiro e Paris em seguida.

Allison deixou o celular na cozinha, sobre a mesma, e sentou-se ao lado de Adam no sofá. Foi ai que o garoto loiro jogou o cabelo para o lado, em um gesto de retirá-lo de cima dos olhos e falou:

— O que aconteceu de verdade comigo naquele circo?

A jovem se surpreendeu com a pergunta. Já se foram dois, Allison! Duas vidas, duas pessoas da lista. Está indo mais rápido do que você imaginava que seria. Todas as duas no mesmo dia, e você precisa se apressar para fazer alguma coisa. Da terceira não pode passar! Você tem a oportunidade de saber a ordem, em mãos. Não a deixe escapar, não, isso não!

— Vamos fazer assim, Adam: eu te ajudo e você me ajuda. Que tal? Tudo bem pra você? — Ela se inclinou um pouco, se aproximando do garoto.

— Tudo bem.


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A vidraça do restaurante deixava que Shanon pudesse ver Samuel lhe esperando. O homem estava como olhar fixo no nada, apenas pensando. Ela abriu a porta e foi se aproximando aos poucos. Logo Samuel percebeu sua presença e mostrou um largo sorriso.


Shanon tinha ficado muito surpresa com a ligação do homem, pedindo para que os dois comessem em um dos restaurantes da cidade. Ele nunca fizera isso, talvez pelo fato de que Vivian ainda estava viva. Mas a psicóloga não se deixou levar pela beleza extrema do homem, por enquanto. Ela tinha a plena certeza de que o homem queria conversar sobre negócios, ou sobre o próprio Adam. Ela também tinha algumas coisas para falar a ele.

Ele se levantou e puxou sua cadeira. A doutora sentou-se gentilmente e pôs a bolsa sobre o colo. Soltou o grande cabelo castanho com mechas mais claras, e o deixou ser balançado por uma brisa que passara ali naquele instante. Foi depois de um suspirou, que apoiou o braço sobre a mesa e mostrou um breve sorriso.

O homem falou:

— Que bom que veio.

— Achei necessário, Sr. Berry. — Shanon se ajeitou na cadeira um pouco desconfortável.

— Por favor, doutora, sem muitas formalidades. Shanon e Samuel. Assim está bom para você?

— Como quiser. — Sorriu de lado. — Mas o que te fez me trazer até aqui?

— Tenho assuntos a tratar com você. São assuntos que lhe dizem respeito...

Samuel chamou o garçom e pediu que trouxesse o cardápio. O homem assim o fez e ele começou a examiná-lo minuciosamente.

— O que você prefere? Carne vermelha? — Ele tirou, por alguns segundos, os olhos do cardápio e os voltou para a psicóloga.

— Sou vegetariana. — Shanon respondeu em um tom brando e calmo.

— Me desculpe Shanon. — Rapidamente voltou a olhar para o cardápio, depois de ter feito um “opa!” gestual. — Uma salada talvez?

— Eu prefiro não comer nada.

— Por favor, não me faça esta desfeita. — Ele olhou-a no fundo dos olhos. E Shanon sabia que ele queria lhe agradar.

A doutora mostrou um sorriso de lado e concordou, meneando a cabeça positivamente. Então Samuel pediu uma porção de salada e dois sucos, ele queria agradá-la, para que ela pudesse receber bem a proposta que ele a faria.

O garçom saiu e ele sentiu a oportunidade de começarem o assunto, quando percebeu que ela prestava atenção.

— Como você deve saber, toda empresa grande necessita de um meio de apoio psicológico, para o caso de algum funcionário precisar.

— Sim, sei bem como é.

— A nossa encarregada da tarefa deste aparo acabou falecendo. E estamos necessitando de uma nova pessoa competente para o caso. — Ele pensou e olhou no fundo de seus olhos. — Não vejo pessoa melhor para o cargo, do que você.

A mulher ficou surpresa, pois em meio a vários profissionais, até mais competentes que ela, ele resolveu escolhê-la. Tentando se sair da investida dele, ela comentou:

— Você costuma ser tão persuasivo com suas funcionárias?

— Normalmente não. — Respondeu o homem, um pouco corado. — Por quê? Você se sentiu persuadida?

— Não. — Retrucou, tentando sair da armadilha de pensamentos. — Apenas notei isso em você. Pareceu que estava tentando me convencer a trabalhar com você.

— E estou conseguindo? — Samuel deu um sorriso.

— Não posso te responder isso com precisão, Samuel. Eu já tenho um trabalho e local fixos. — Viu o garçom se aproximando com seu pedido e continuou: — Eu não posso abandonar minha clínica e ir trabalhar com você na sua empresa. Estaria sendo totalmente contra mim. Você entende?

— Mais ou menos. — Começou a se servir.

Os dois se entreolharam por alguns instantes. Seus olhares estavam desconfiados e ao mesmo tempo, estranhos.

— Você não está querendo trabalhar comigo por outro motivo, certo? É somente esse motivo?

— Sim, somente esse.

— Você não está desconfiando de mim, está?

— Não foi isso que quis dizer. — Respondeu a psicóloga, um pouco desconfortável.

— Eu achei estranho esse seu jeito mais reservado. Chega a aparentar que você está fugindo de mim. — Levou outra porção de salada até a boca.

Shanon recebeu um impacto enorme. Ela estava sim, tentando fugir dele. De suas investidas e de sua persuasão. Ela já sentira aquela sensação antes, em outro encontro que tiveram, por coincidência, na empresa dele. Ele se aproximara dela de forma que ela não soube explicar. Estava se sentindo diferente. Lembrou-se também da primeira vez que isso acontecera, enquanto Vivian ainda estava viva. Samuel já havia tentado conquistá-la.

A psicóloga já havia entendido tudo o que ele queria, e o porquê de ter escolhido-a para trabalhar em sua empresa. Samuel queria estar mais próximo dela. E a doutora sabia que não poderia deixar isso acontecer, pois Samuel ainda tinha Vivian e ela ainda tinha seu marido. Mesmo que os dois estivessem mortos.

— Impressão sua. — Respondeu se esquivando de mais uma de suas investidas. — Como está o pequeno Adam? Melhorou?

Samuel sabia que ela queria mudar de assunto, então decidiu deixá-la pensar mais um pouco sobre sua proposta.

— Um pouco. Lembro que minha irmã me comunicou de algumas coisas estranhas que andaram acontecendo com ele esses dias.

Shanon mostrou-se preocupada.

— Coisas estranhas? De que tipo? — Shanon nem sequer havia tocado em sua salada, estava sentindo-se muito estranha com Samuel ali, presente.

— Imaginar coisas absurdas a sua volta, sem estarem lá realmente... Ver pessoas que também não existem, além de insônia e sonambulismo constante. Este último eu presenciei. — O homem levou um lenço até a boca, limpando-a.

— Tudo isso depois da tragédia. — Shanon pensou alto. — Não tão previsível quanto imaginei.

— Do que está falando?

— Preciso ir visitá-lo, o mais rápido possível.

— Algo de muito grave está acontecendo com ele? — Samuel ficou com uma pontada de dúvida.

— Talvez sim, talvez não. Ainda não sei direito, Samuel. Mas não fique preocupado, não quero adiantar nada sobre isso, antes de conhecer realmente do que se tratam todos estes problemas comportamentais.

— Tudo bem, confio em você. — Então Samuel tocou a mão da psicóloga.

Shanon ficou paralisada. Havia travado depois do gesto do homem.

Por favor, Samuel! Não me faça sentir por você, o que eu não deveria sentir. Por favor!


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Allison foi a primeira a chegar ao parque, bem no horário marcado. Olhou para todos os lados tentando avistar Paris e seu namorado, mas tudo que via eram folhas. Folhas secas voando por todo o lugar. O vento estava chamando uma possível chuva, mas ela não ligou. Arrumou o cabelo, jogando-o para o lado e entrelaçou os dedos, sentindo um pouco de frio. Sentou-se em um banco ali próximo e respirou fundo, pensando no que diria a eles, quando chegassem. Ela precisava ser ardilosa e cautelosa, ao mesmo tempo. Precisava ir com calma, e contar tudo que sabia, porque Paris já não acreditava no que ela havia passado. Freddy muitos menos.

Por favor, não se atrasem... O quanto antes souberem dos planos da morte, mais chances de salvar os outros teremos.

Assim que terminou de falar consigo mesma, sentiu uma mão grande tocar seu ombro. Deu um salto e um gritinho de susto. Virou-se para ver quem estava ali, e esperava encontrar Paris e Freddy. Sim, eram os dois.

Estavam de mãos dadas.

— Então, chegamos. — Paris disse entediada.

— Cheguei a pensar que não vinham. — Allison respondeu.

— Eu até pensei nisso, mas vi que você precisava nos contar algo além do que já havia me falado na lanchonete.

— Espera. Você já contou para ele, o que eu havia lhe dito?

— Claro! Não era isso que você queria? Manter todos informados? — Paris respondeu como se aquela não fosse à resposta óbvia para Allison.

Freddy permanecia em silêncio, até aquele momento.

— Eu acredito em você.

Aquilo foi um baque pra Allison. Freddy era a pessoa que menos ela achava que acreditaria, para ela, ele era descolado demais. E mais uma vez julgou errado.

— Você acredita em mim?

— Acredito.

— Ele me convenceu de que temos de dar uma chance a você, de nos provar que tudo que aconteceu com esse Chase, realmente está acontecendo conosco. — Paris arfou cansada, aparentando estar sendo forçada a acreditar naquela história.

— Que bom que você mudou de idéia, amiga. — Allison sorriu.

— Por todos nós, Allie. — Devolveu um sorriso largo.

— Então, me deixa ver se entendi: há uma ordem específica para que as mortes ocorram. Certo? — Freddy estava tentando reorganizar a bagunça que estava em sua mente. — E que todos estamos na mira da morte. — Continuou. — Podemos enganá-la novamente. Não podemos? Assim como o garotinho loiro previu?

— Sim. — Allison respondeu sem tanta certeza, ela não sabia onde Freddy queria chegar.

— Podemos prever quem seria o próximo a morrer e impedi-lo de ser pego pela morte. — Freddy estava confiante.

— Sim, podemos sim. O Adam tem a seqüência da morte! Ele sabe quem será o próximo a morrer.

— Então temos que ir até ele e descobrir isso! — Paris disse. — Imediatamente!

— Não. — Allison respondeu. — Isso não. Precisamos dar mais um pouco de tempo a ele, não podemos chegar lá e enchê-lo de coisas. Ele já está passando por um bocado... Não seria o certo.

— E o que é certo para você? Que a próxima pessoa morra? Que deixamos a morte levar mais alguém? — Freddy equivocou-se. — Assim como levou meu irmão?

Allison não tinha resposta para aquilo. Sabia que era muito arriscado, sabia que a morte não deixaria barato. Que ela chegaria mais cruel, da mesma maneira que foi com o irmão de Freddy e com a professora de dança. A morte já havia levado duas pessoas, não poderia levar mais ninguém.

— Se depender de mim, ninguém mais vai morrer! — Allison disse, olhando bem fundos nos olhos de Freddy.

— Espero que esteja certa, e se isso for verdade, é melhor nos prepararmos para a tempestade. O quanto antes conseguirmos as informações da ordem com o garotinho, mais rápido acharemos a saída. — Paris concluiu.

Os três silenciaram e começaram a caminhar pelo parque. Os brinquedos vazios e o lugar sem movimento deixavam um clima ainda maior de angústia. A morte pairava por ali, esperando o momento certo para agir.

Notas finais
SE NÃO LEU O CAPÍTULO AINDA, NÃO LEIA ESTA NOTA. CONTÉM SPOILER!!!

Bom, neste capítulo eu quis fazer uma pequena homenagem para "O Exorcista", que eu gosto muito. Tanto do livro, que estou terminando de ler, quanto do filme. Se não conseguiram notar a pequena homenagem, ela foi citada na consulta da pequena garotinha com a Dra. Robynson. O sobrenome da família é MacNeil, igual à do romance de William Peter Blatty. E um dos problemas enfrentados pela Brenda (personagem que citei neste capítulo) é vivenciado pela própria Regan MacNeil (Protagonista infantil de O Exorcista).
O título deste capítulo também foi retirado do livro.

Obrigado, e não se esqueçam de comentar! Abraço! o/