Notas iniciais
Trazendo mais um capítulo pra vocês. Explicarei nas notas o porquê de NÃO HAVER MORTES neste capítulo. Eu sei, pode chegar a ser muito cansativo capítulos sem mortes. Porém, espero conseguir fazer com que gostem do capítulo, mesmo não esperando muita adrenalina. Apesar disto, eu gostei bastante de tê-lo escrito.
Espero que gostem.

Aproveitem!

9 de julho de 2012


O cabelo loiro de Adam estava mergulhado dentro da banheira, junto com o corpo do garoto. A água gelada fazia seu corpo estremecer dentro dela, depois de fechar os olhos e deixar que a calma o tirasse dali.


Era manhã. Ele havia acabado de acordar, e em meio ao calor daquele dia onde o sol estava feroz, resolveu mergulhar na banheira, em uma água gelada. Mesmo contra sua vontade, a banheira estava o acalmando, jogando para longe a sensação agourenta que sentira esses dias. Ele sentira duas vezes. A primeira enquanto estava na sala, com sua prima Gale. A segunda, depois de ver uma imagem assustadora dentro daquele mesmo banheiro. No mesmo box bem ao seu lado.

O garoto tirou a cabeça de dentro da água e fitou o box, sem ninguém. Havia apenas ele dentro do banheiro, e o receio de ver alguém lá só aumentou. Mergulhou outra vez, para tirar a cena da cabeça. De repente ouviu as batidas. Primeiro ela vinham devagar e pausadas, calmamente e sua mente. Depois, à medida que ele pressionava os olhos, fechando-os, ouvia as batidas com mais força. Elas pareciam querer o tirar da banheira, fazê-lo colocar seu corpo de volta para cima, até a superfície. Entretanto, Adam só prendia mais o fôlego, hesitando em voltar até a superfície da banheira. Ele não queria, pois achava que encontraria a “loira do banheiro” novamente. A mesma de dias atrás.

Então ele ouviu a voz. Uma voz feminina que também começou branda e logo se tornou a voz mais exaltada e grossa do mundo. Ela parecia se misturar às bolhas que ele soltava. Estava mais alta e aguda, e chamava pelo seu nome.

Adam! Adam! Adam!

E ficaram mais rápidas.

Adam! Adam! Adam!

E as batidas se intensificaram.

Até Adam ir de encontro com a superfície, totalmente vermelho e sem fôlego.

— Adam?

O garoto loiro reconhecera a voz de imediato. Era Allison.

Ele sorriu aliviado, por não ter dado de cara com a “loira do banheiro”. Saiu da banheira com pressa, pegou uma toalha, cobriu-se e abriu a porta rapidamente, dando um grande abraço em Allison.

— Obrigado. — Disse ele, antes que ela pudesse dizer algo.

Allison retribuiu o abraço com mais força, sem entender ainda o real motivo para aquele ato.

— Hã? O que houve Adam? Está agradecendo pelo quê? — Ela estava corando aos poucos.

— Obrigado por estar aqui comigo! Por estar me protegendo.

— Ei! Você sabe que pode contar comigo, não sabe? — Então, ela sorriu.

O garoto, percebendo a ajuda que ela estava lhe proporcionando, devolveu um largo sorriso.

— Você é muito legal, Allison.

— Espera! — Ela o largou calmamente. — Allison? Assim fico parecendo uma estranha pra você. Você pode me chamar de Allie? — E riu. — Agora vá por uma roupa, engraçadinho! — Disse rindo novamente.

Adam assentiu e mostrou um sorriso com seus dentes amarelados. Indo até o quarto. Allison continuou parada no corredor, o observando.

— Tão inocente... Tão jovem... — A partir daí assumiu um semblante sério.

Mal sabe ele o que o aguarda. Espero poder te ajudar pequeno Adam. Hoje mesmo a nova ordem da lista será descoberta...


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Paris estava ficando maluca. Ela andava pela casa inteira à procura de um pertence seu, um pertence muito importante que sumira de seu quarto há algum tempo, e só agora fora se dar conta. Só pode estar em um lugar... Charlie! Seus passos ficaram mais ligeiros e uma onda de raiva percorria seu corpo.


— Porra Charlie! Cadê você? — Ela gritava do corredor, se aproximando da porta do quarto do irmão.

No andar de baixo, Shanon se preparava para ir trabalhar. Escutava os passos pesados de Paris. Olhando para cima ela poderia ver as raspas de poeira que saíam do teto, e poderia nitidamente perceber o balanço estranho da luminária nova. Uma grande e linda luminária francesa. A psicóloga queria poder gritar com a filha, para que parasse com o barulho, mas nada fez além de mostrar uma expressão de indignação. Não vai adiantar.

Assim que se aproximou da porta, Paris pode perceber que dava para entrar num rompante, pois a porta estava entreaberta. Estava um silêncio assustador, mesmo com os ruídos insistentes no sótão. O que ele está fazendo? A garota empurrou a porta devagar, sabendo que ela não chegaria a ranger. Encontrou o quarto totalmente bagunçado, e ainda em silêncio. Então começou a andar por ele, tentando driblar a grande quantidade de roupas largadas e jogadas em seu caminho. Não eram apenas roupas, mas acessórios de uso dele, até sua coleção de bolinhas de gude coloridas, que ela tanto odiava. Acabou lembrando-se da última vez que caiu por conta das bolinhas.

Mas parou de pensar no incidente e voltou a procurar o irmão. Havia também um compartimento onde seria construído o banheiro, ao lado da parede, como se fosse um cômodo a mais. Porém, provavelmente, só estava servindo para guardar os cacarecos do irmão. Paris andou até lá, com cuidado para não ser ouvida. Se seu irmão estivesse ali, ela conseguiria assustá-lo facilmente.

De repente ela inclinou-se para alcançar a visão ampla do compartimento. Disse:

— Te achei pestinha!

A expressão da garota mudou completamente, assumindo uma vermelhidão sobre as bochechas. Estava na cara que ela estava envergonhada e que não queria ver aquilo. A nudez do garoto. A revista adulta em mãos. A expressão de surpresa estampada em seu rosto.

— Mana? — Foi o que ele conseguiu dizer antes de engolir em seco. Não conseguiria dizer mais nada, e disso ele já sabia.

— O quê... Mas que merda é essa, Charlie? — Paris nunca desconfiou que pudesse encontrar o irmão naquelas condições. Apesar de saber que ele poderia fazer isso, estava na puberdade.

— Eu... Eu... — O garoto permaneceu estático.

Foi ai que ela saiu dali, rapidamente. Passou novamente pela bagunça do quarto e quase escorregou nas bolinhas de gude. Olhou para as prateleiras de madeira e viu seu pertence, então o pegou.

— Sabia que estava aqui, pirralho. — E saiu sem olhar para trás. — Não se atreva a pegar novamente! Nem por brincadeira! — Gritou ainda totalmente vermelha de vergonha. — Não quero entrar neste seu quarto imundo tão cedo!

Charlie continuou parado, estava muito nervoso para continuar o que estava fazendo. Então se vestiu e decidiu arrumar a bagunça que se instalara no seu quarto.


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A tarde chegou mais rápida do que Bruce pudera imaginar. E o clima da cidade à tarde era quase sempre diferente da manhã. Enquanto a manhã era quente, à tarde o sol ficava tímido atrás das nuvens. O mágico não entendia bem o porquê daquele ritual do sol, mas entendia que ele deveria se conformar com aquilo, pois ele gostava daquele clima. Gostava do frio. Entretanto, não gostava de ser frio. Ele nunca chegara a parar para pensar na maneira de como ele reagiria à morte de um parente próximo ou até de seu grande amor. Mas o que sabia era que ele poderia reagir de todas as formas, menos se tornar uma pessoa fria.


Apesar de gostar do clima frio, ele sentia medo de permanecer um cara frio para sempre. De tornar-se uma pessoa sem sentimentos, sem coração. O mágico não seria ele mesmo, estaria tomando a forma de outra pessoa. Uma pessoa que ele nunca, jamais seria.

E sentado naquele sofá ele pode pensar em tudo e mais um pouco. Desde o acidente no circo, até a morte de Betty. O velho avô de sua namorada estava dormindo no pequeno quarto do apartamento, enquanto os dois poodles estavam deitados sobre o tapete empoeirado. Bruce não lembrara a última vez que limpara o apartamento, mas ele não faria aquilo tão cedo.

Aproveitou o silêncio consigo mesmo para pegar o seu notebook. Também aproveitou para fazer uma procura sobre Premonições, já que não teria trabalho naquele dia, e também tinha um tempo livre muito grande. Digitou na barra de pesquisas o que estava procurando, e encontrou vários resultados parecidos, mas nenhum condizia com o que realmente ele desejava saber.

Já era a terceira página de resultados, quando Bruce fixou os olhos em um dos links. O menos óbvio, e mais chamativo. Clicou sem hesitar e ficou encarando o título da página com certa inquietação:

Diário de uma visionária.

Ele tremeu e continuou observando o site, procurando encontrar o tópico que ele tanto necessitava. Ele não sentia obrigação de achar as respostas, e sim, o dever de saber o que estava acontecendo. Procurar uma explicação óbvia. Para ele não precisava ser a certa, ser a que o salvasse daquele buraco negro de pensamentos. Mas sim, a que mais condizia com o que ele estava sentindo.

E então, em meio à escuridão psicológica cheia de sangue e mortes, ele finalmente encontrou a luz no fim do túnel.

Com um click, Bruce estava sendo direcionado para outra página, dentro do mesmo site. Nela, o mágico pode ver perfeitamente uma confissão de uma garota de apenas dezesseis anos, sobre sua falível e frustrante tentativa de sobrevivência.

— Será? — Ele pensou alto, querendo que ele mesmo respondesse aquilo. Riu de si e começou a ler o que a visionária dizia.

“Patrisha Kempton. Sim, sou eu. Queria ser específica ao narrar estes fatos, ser detalhista. Além disso, queria alertá-lo do imenso perigo que você correrá ao ter uma premonição. Pior ainda, se não souber com o que realmente você está lidando, meu caro. Começo lembrando como eu era feliz antes daquela noite infernal, naquele maldito parque de diversões. Primeiro, porque eu tinha o irmão mais fofo e inocente do mundo. Em segundo, porque eu tinha uma relação muito estável com meu ex-namorado. Sim, é ex e vou explicar o porquê mais adiante. Continuando... Eu nunca esperava que uma coisa destas pudesse ter acontecido comigo. Não da forma como aconteceu. Foi em um piscar de olhos que tudo começou. E que comecei a testar minha sanidade. Não foi difícil perceber que eu estava ficando paranóica com todo o esquema, com toda a lista...”

Bruce releu bem esta última frase. E uma imensa dúvida surgiu em sua mente: Esquema? Lista? Mas ele sabia que só encontraria a resposta quando lesse por completo aquele “diário”. Tentou reorganizar as idéias que estavam rondando sua cabeça, antes de continuar.

“... Você deve estar se perguntando que esquema e lista são essas, não é? Vou começar lhe respondendo com uma frase: Ninguém consegue enganar a morte, pois não há como escapar dela. Depois disso tudo muda, porque depois do acidente todos morrem. TODOS. Eu ainda não entendi o real motivo da morte em me deixar viva até agora. Eu também quero entender porque ela ainda está brincando comigo, sem me levar de uma vez. Sinceramente, meu irmão e namorado estão mortos. Ops! Ex-namorado... Eu não tenho mais motivos para continuar vivendo. Eu preciso de uma razão mais concreta. Eu apenas quero que ela chegue da maneira mais inesperada. Assim, quando eu me der conta, estarei junta deles.”

O mágico franziu o cenho, antes de achá-la maluca. Agora mais perguntas foram invadindo sua mente, enquanto ele desejava entender o que ela estava querendo dizer. Ele entendera que seu irmão e namorado morreram. Mas ainda não entendeu o fundamento para que isso viesse a acontecer. Estava se formando um nó na sua cabeça, e só ele não estava conseguindo perceber. Ele se dera conta que ela mencionara a morte de todos os que escaparam desse acidente no parque de diversões. De que ninguém escaparia da morte. Nem mesmo ela. Porém, se aquilo realmente estava acontecendo, ele teria de descobrir uma ordem para que tudo acontecesse. Para que a morte viesse pegá-los. Talvez fosse a tal “lista” citada por Patrisha ou talvez não. Tudo que queria era continuar lendo.

Mas um barulho estranho o tirou da frente de seu notebook e o levou vagarosamente até o quarto onde o avô de Betty dormia.


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Allison encontrou a porta aberta e entrou no quarto devagar, avistando Adam quieto. Ele estava deitado na cama, com as pernas para o ar, balançando-as para frente e para trás. Ao seu lado havia um caderno e um livro, o garoto fazia seu dever escolar.


— É bom ver que você gosta de estudar, mesmo não indo pra escola. — A jovem pensou em sentar-se ao seu lado, mas apenas ficou de pé ao lado da cama, o observando.

— São lições atrasadas. — O garoto respondeu sem virar o rosto. Aparentava estar bem concentrado.

— Por que não estão havendo aulas para você? — Allison só havia se dado conta da resposta depois de perguntar.

— Semana de luto pela morte de um aluno. O Ted. Você não o conhece.

Allison queria poder responder que ela sabia que ele era irmão de um amigo dela, mas não respondeu. Ela apenas sorriu corada e sentou-se ao lado dele. Colocou a franja para o lado, ajustando-a e tirando-a dos olhos. Suas mãos foram levadas aos joelhos, lentamente. Estava muito nervosa, por não saber como começar a falar com o garoto sobe o que estava ocorrendo. Por não achar as palavras exatas para explicar a ele sobre o esquema da morte.

Apesar de não querer atrapalhar o garoto com a lição, Allison se sentiu na obrigação de conversar com ele. Era seu dever. Era para o bem do garoto.

— Você consegue se lembrar da sua visão?

A pergunta surpreendeu o garoto.

— Hã? — Adam largou o lápis sobre a cama.

— Se você ainda se lembra da sua visão. A visão do acidente no circo.

A expressão no rosto do garoto mudou. Suas sardas pareciam se mexer, enquanto ele fazia força para responder a sua pergunta.

— Não consigo esquecer. — Adam retrucou, mudando o tom de voz. — Esse é o problema.

Allison o entendia. Era apenas um garoto, não tinha como todo o acidente sair de sua cabeça. Talvez fosse um trauma levado para a vida inteira, uma seqüela que se arrastaria pela eternidade.

— Não sei como deve ser a sensação, mas deve ser horrível. — Allison tentou se aproximar mais, mas o garoto fechou o caderno e sentou.

— É sim. É como se as cenas das pessoas morrendo ficassem repetindo. — Ele começou a lembrar de todo o desastre. Pouco a pouco.

— Cada pessoa morrendo? — A jovem sabia que a conversa estava tomando um rumo diferente, e que era aquele rumo que a conversa deveria tomar.

— Sim, todos! — Houve uma pausa, e o olhar do garoto se distanciou. — Primeiro eu só via o globo com as motos. Depois a moto voando sobre todos, e a mamãe e a mana morriam. — Os olhos do garoto começaram a ficar marejados.

Por favor, Adam, não chore agora! Pedia Allison, esperando o garoto continuar.

— Depois os enormes leões e o Ted. — Uma lágrima se preparava para descer de seus olhos claros. — Mas também havia as chamas, o mágico e a mulher loira com ele! Ela era esmagada pela lâmpada grande! — Quanto mais ele falava, mas sua voz saia trêmula, e a lágrima brigava para não descer.

— E depois? — Allison sentiu-se a pior pessoa do mundo por estar tentando tirar as informações do acidente, daquela forma. Era como se ela fosse a responsável por reviver o sofrimento do garoto.

— Logo depois veio a gritaria, o fogo estava maior e... — Sua voz foi sumindo aos poucos. — E... — Estava desaparecendo enquanto a lágrima caía e descia sobre as sardas. — O carrinho de churrasco matando o Charlie! — Foi ai que o garoto não agüentou e jogou a cabeça no colo da jovem, chorando sem parar.

Allison ficou estóica. Nem sua respiração era ouvida. Apenas o palpitar de seu coração.

— Então quer dizer que o Charlie é o próximo.


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A jovem assistente de veterinária desceu os degraus da escada vagarosamente. Atrás vinha o garotinho loiro, enxugando as lágrimas com a mão. Convencê-lo de lembrar-se da ordem, acabou fazendo-a recordar-se também do que passara com Chase, há alguns meses atrás. De como fora difícil entender o que a morte queria com eles, e qual era seu verdadeiro propósito. Também passou pela sua cabeça as formas brutais da morte para levar seus amigos. Foi um terrível pesadelo, que esteve se arrastando todo este tempo, e que agora estava vivendo novamente. Escapar de uma lista da morte nunca é fácil, e Allison sabia muito bem disso.


Adam sentou no último degrau da escada, com os joelhos dobrados e os cotovelos apoiados neles. O rosto era sustentado pelas mãos, e as sardas estavam mais visíveis. Ela se aproximou do garoto e se abaixou para que pudesse ficar da altura em que ele se encontrava. Disse:

— Não precisa ficar assim, Adam. Já passou.

— Eu sei que não.

A resposta a pegou de surpresa.

— Do que está falando?

— De tudo. Parece que a todo o momento eu estou sendo perseguido. Eu não sei explicar, eu... — Então sua voz ficou trêmula. — Eu tenho a sensação de nunca estar só.

Allison pensou em dizer que poderia ser sua mãe o protegendo, mas só traria ainda mais lembranças a ele.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Já fez, ora! — Brincou ele, abrindo um leve sorriso.

— Não, outra. — Continuou.

— Pode.

— Se eu chegar a perguntar se você lembra algo mais do acidente, você conseguiria me dizer? Tipo, quem morria depois do Charlie? — A ponta de receio na resposta do garoto se acendeu.

— Não me lembro muito bem.

De repente ouviu-se a campainha.

— Vou atender. — Allison ergueu-se e foi em direção a porta.

Ao olhar no olho mágico, a jovem ficou totalmente confusa, mas abriu a porta mesmo assim. A Dra. Robynson estava bem na sua frente, com um sorriso no rosto.

— Olá, sou Shanon Robynson, a psicóloga do pequeno Adam.

— Eu sei quem você é. É a mãe da Paris, não é? Conheço você. — Então, devolveu um sorriso.

As duas apertaram as mãos.

— Posso entrar?

— Claro! Fique a vontade. — Respondeu Allison, fechando a porta, ao ver a doutora entrar.

Shanon avistou Adam sentado na escada e o fitou por alguns segundos. Ao vê-la se aproximando, o garoto saltou e ia subindo de volta, quando ela falou:

— Só quero conversar, Adam. Nada demais.

Allison ficou observando a cena. Queria repreender a atitude de Adam, mas preferiu ficar quieta.

— Aceita um suco doutora?

— Sim, obrigada. — Então, a psicóloga pôs sua bolsa em uma mesinha de canto com um lindo vaso e parou no meio da sala.

— Está consultando em casa, agora? — Adam perguntou, sentando na mesma posição de antes, só que mais alguns degraus acima.

— Podemos dizer que sim. — Ela sorriu. — Adam, não tenha medo de mim. Não irei te fazer mal.

— Prefiro ficar aqui. — Ele respondeu, recuando.

— Ok. Prefere assim...

A expressão do garoto loiro mudou.

— Então, pode começar.

— Seu pai me disse que você está enfrentando alguns problemas. — Ela sentou-se no último degrau e o olhou de baixo.

— Ah, claro! Meu pai...

— Me deixa saber que problemas são esses?

— Eu não sei. — Ele retrucou.

— Não sabe que problemas são, ou não sabe se pode me contar?

— Não sei que problemas são. — Falou seco, sem olhá-la nos olhos.

Allison voltou a sala com um copo de suco e deixou-lhe na mesinha de canto, ao lado da bolsa da psicóloga. Observando os dois conversarem, ela ficou pensando:

Será que devo contar a ela o que está acontecendo? Será que ela vai acreditar em mim? Como ela vai reagir ao saber que seu filho é a próxima vítima? Oh, não... Não posso pensar nisso! Devo contar-lhe tudo o que sei, mas tenho que esperar o momento certo. Mas qual é o momento certo?

E continuou ali parada, um pouco afastada dos dois. Ouvindo tudo.


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11 de julho de 2012



Paris estava equivocada. Ela tinha certeza de que xingaria Freddy por ele ter que ir trabalhar no dia do aniversário de um ano de namoro dos dois. Também acreditava que os dois teriam uma noite maravilhosa, se não fosse o turno dele naquele dia.


— Você pode se acalmar, e parar com esse escândalo? — Disse ele ao celular.

— Você sabe como fico nessas situações. Freddy é nosso aniversário de namoro! — Gritou. — Além disso, tem aquele jogo do Charlie... Você me prometeu!

— Se não parar de gritar, eu desligo. — Retrucou.

— Ok. — Paris amansou o tom de voz.

— Agora já podemos conversar civilizadamente?

— Estou calma. — Paris respondeu.

Freddy deu uma gargalhada irônica e continuou:

— Eu acabei de chegar aqui na fábrica, e como eu já tinha te explicado antes sou recém chegado aqui. Não posso faltar durantes os dois primeiros meses, então eu não tive escolhas em faltar o nosso compromisso e nem o jogo do seu irmão. Infelizmente. — Suspirou.

— Eu não queria que fosse assim.

— Nem eu, meu amor. Mas tem que ser assim, ou quer me ver desempregado, vadiando por ai?

— Não! — Paris gritou mais uma vez.

— Então? — Respirou fundo. — Olha, vou fazer de tudo pra terminar cedo aqui, e poder chegar a tempo da nossa noite especial, ta?

— Sim. — Paris sorriu meio frustrada.

— Até logo, beijo. Te amo. — Freddy sorriu e desligou.

— Também. Beijo. — Paris desligou em seguida, um pouco entristecida.


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Tudo já estava preparado no campo de futebol. O sol brilhava forte na abóbada celeste e deixava o campo ainda mais bonito. A grama parecia mais verde e limpa. Várias pessoas já estavam sentadas à arquibancada, inclusive Shanon. Ela tirou os óculos escuros e os colocou sobre os cabelos castanhos claros. Olhou para o campo e viu seu filho sentado em um banco, tomando água. Era a segunda vez que ela assistia o filho jogar, conseguira arrumar um tempo entre os pacientes da clínica. Mas na primeira vez que assistiu a um jogo de Charlie, ele não fora bem e desmaiara por questões alimentares, chegando a ficar frustrado por isso. Porém, ela sabia que naquele dia seria diferente, e ela assistiria a vitória do filho.


Ou talvez não.

Ele acenou para ela do banco, enquanto ela, lutando contra os raios de sol, devolvia o aceno. Se culpara por não ter levado um protetor ou um boné. Aquele sol renderia alguns dias de manchas em seus ombros, já que eles estavam descobertos por uma blusa com mangas caídas.

Enquanto isso um táxi parava de frente ao campo, por detrás das arquibancadas, na rua. Do táxi desceram Allison e Adam. O garoto loiro também usava um uniforme do mesmo time de Charlie. Ele havia prometido jogar naquele dia. Ele tinha que esquecer um pouco o acidente. Allison estava com receio de que a morte usasse aquele jogo de futebol para matar Charlie. Assim que acabou de pensar naquilo, seu celular tocou. Era Paris.

Droga! Mais um pouco sem falar com você e eu enlouqueceria! O que aconteceu? Por que você não manteve contato? Você prometeu me manter informada de tudo!

— Meu celular, Paris. Ele está com algum troço, e só funciona quando quer. — Suspirou.

Existe e-mail também. Além disso, você poderia ter aparecido lá em casa, ora!

— Você não para em casa!

Agora vai ficar me fazendo cobranças?

— Hã? Mas foi você que... — Allison foi interrompida.

E então, o que descobriu sobre a tal ordem da lista? Quem é o próximo? — Paris aparentava estar com certa empolgação na voz.

— Charlie, seu irmão. — Allison engoliu em seco. Preferiu ser direta.

O quê? O Charlie? Ma-mas, isso não pode ser! — A voz de Paris ficou trêmula, de súbito.

— Tanto pode ser... Como é. Mas não precisa se preocupar, eu estou com ele no jogo, posso tomar conta dele. Onde você está exatamente?

No meio do percurso. Estou a caminho, mas é que o ônibus enguiçou. Ai já viu, não é? — Ela arfou cansada. — Promete que vai ficar de olho no pirralho?

Allison deu um risinho.

— Prometo.

Se for preciso, eu saio daqui a pé! — Paris gritou, com um barulho alto que a atrapalhava.

— Faça isso. — Allison retrucou.

A ligação começou a falhar. A voz de Paris foi sumindo, até o que celular desligou sozinho.

— Porcaria! — Disse a jovem com raiva.

De repente, Allison percebeu que Adam não estava mais próximo dela, e sim, no banco ao lado de Charlie. Então, ela caminhou pela grama e subiu na arquibancada. Olhando por entre as pessoas encontrou a psicóloga. Ela acenou e sentou-se ao seu lado.

— Veio acompanhar o Adam? — Disse, ajustando os óculos sobre a cabeça.

— Sim. — Allison virou-se para o campo e colocou um boné de um time de baseball qualquer na cabeça.

Não se preocupe Charlie. Eu estou aqui. Vou tomar conta de você!


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O jogo já havia começado há trinta minutos. A bola rolava o gramado com uma velocidade incrível, enquanto os garotos tentavam fazer um gol. O placar que estava sendo marcado na enorme estrutura de madeira ao lado da arquibancada era: 2x1 para os visitantes. Charlie já estava preocupado em fazer um gol, já que era essencial que eles tivessem um ponto a mais de vantagem sobre os adversários. Então, eles teriam de fazer dois gols. Charlie sabia que ele deveria fazer ao menos um dos gols, era sua reputação no time que estava em jogo. Em movimentos rápidos e precisos o garoto olhou para o lado, tirando os cabelos escuros dos olhos, e avistou um dos seus colegas de time, sinalizando com as mãos. Ele deveria dar aquele passe, mas já estava perto da trave. Mais alguns metros, e Charlie chegaria próximo o suficiente para fazer a bola entrar com facilidade.


Se não fosse seu ego.

Atrás de si surgiram dois jogadores do time adversário, e ele não teve escolhas a não ser conduzir mais rapidamente a bola. Um dos garotos era o garoto mau que levara Ted para sua morte. E Charlie lembrava bem disso. Ele causou toda aquela dor ao garotinho da perna mecânica. Uma raiva subiu até o topo da cabeca do garoto, enquanto ele visualizava Adam do outro lado do campo. O garoto mau entrou na sua frente, e Charlie quase perdeu a bola.

O garoto de seu time pedia que ele passasse a bola, ele estava mais próximo da trave e poderia fazer o gol mais depressa. Mas Charlie queria provar que conseguiria fazer aquele gol e chutou a bola, mesmo estando um pouco longe da trave.

E a bola atravessou o campo com velocidade. Todos os olhares permaneceram fixados nela, e enfim, a bola passou raspando no goleiro.

E entrou, marcando ponto para Os Zangões, que era o nome do seu time. O garoto tirou o cabelo negro dos olhos mais uma vez e vibrou ao ver que havia feito o gol. Ele pulou a abraçou seus amigos. Adam se aproximou com um grande sorriso no rosto. Estava contente pelo amigo feito o gol, e queria abraçá-lo, mas os outros garotos do time não deixavam. Charlie estava rodeado de garotos suados e barulhentos.

Foi ai que o apito para o intervalo soou. O primeiro tempo de jogo havia terminado, e o placar marcava: 2x2. Um empate que precisaria ser quebrado pelos Zangões. Custe o que custar. Pensou Charlie.


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— Você foi muito bem neste primeiro tempo. — Allison comentou, sentada próxima de Adam.


— Eu não joguei nada. — Respondeu o loiro cabisbaixo.

— Não fique assim, eu sei que estava dando tudo de si para o time. E vai continuar bem no segundo tempo, você vai ver. — E mostrou uma garrafinha de água para o garoto.

Adam pegou a garrafa e virou sobre os lábios. Estava com muito calor, e mais um pouco sem comer ele desmaiava.

— Quer um sanduíche? Posso ir comprar pra você... Se quiser.

— É melhor não, porque não vai me fazer bem comer um sanduíche e depois correr. Minha mãe dizia... — O garoto se pegou pensando na mãe, e seus olhos pareceram ficar marejados. Mas criou forças para continuar:

—... Que faz mal comer e logo após, correr. Faz mal para o estômago. É melhor eu comer depois que acabar. — E sorriu de lado.

— Se prefere assim... — Allison também sorriu e ergueu-se do banco.

O apito para o segundo tempo soou. Ela olhou-o e falou:

— Não esqueça que estou logo aqui na arquibancada vendo você jogar, ok? Vai ficar tudo bem, você vai fazer um ótimo trabalho! Eu garanto! — Acenou, colocando novamente o boné, que antes cobria sua cabeça.

— Obrigado, Allison! — Ele respondeu, sentindo-se bem melhor.

O garoto ergueu-se do banco e balançou seus cabelos loiros, entrando novamente no gramado.

Ao sentar-se, Allison percebeu algo estranho com o placar. Ele parecia tremer. E enquanto os jogadores iniciavam o segundo tempo ela pensou: É um sinal morte? Você usará o placar para matar Charlie? Eu serei mais rápida!

Então, a morena ergueu-se do banco de madeira da arquibancada, olhando na direção do enorme placar de madeira. Shanon observou seus movimentos, até que a viu caminhando por entre as pessoas.

— Aonde você vai?

— Quero ficar mais próxima do placar. — Respondeu a adolescente, mostrando um sorriso inseguro.

A psicóloga voltou a prestar atenção no jogo, sem entender muita coisa.

Allison desceu pelos degraus e passou por um homem com um carrinho de cachorro-quente. O carrinho metálico brilhava a luz do sol. E encarando-o, Allison pode ver um vulto por detrás de si. Assustada ela virou-se, mas só encontrou pessoas assistindo ao jogo. Carrinho de cachorro-quente? Droga!

— É mais difícil do que pensei. — Falou, enquanto terminava de descer os degraus.

A jovem estava decidida a ficar de pé, ao lado do gramado. Ela estaria pronta para qualquer coisa que a morte estivesse preparando para o garoto. Poderia transparecer a imagem de corajosa e valente. Até ela queria que fosse assim, mas estava amedrontada por dentro. Tudo que queria era que aquele pesadelo tivesse fim. E logo.

Notas finais
Não leia esta nota, antes de ler o capítulo. Contém SPOILERS!!!

Não coloquei mortes neste capítulo por um motivo simples, não deu para colocá-lo ainda. Deixa eu explicar: Costumo ter uma meta de palavras em cada capítulo, para ficar balanceado. E se eu o tivesse colocado ainda neste capítulo, ficaria ultrapassando 6000, deixando assim, deslocado em relação aos outros totais de palavras dos outros capítulos. Por isso, além de tê-lo deixado para o próximo capítulo, o deixarei com mais adrenalina. (Colocando mais de uma vítima na mira da morte, simultaneamente XD)

Mas isto não é motivo para não deixarem de comentar, então comentem! E espero que sejam compreensivos. Até as reviews! :D