Notas iniciais
Bom, primeiro: desculpem grande demora em postar.
Em segundo: este capítulo saiu um pouquinho maior que os demais, mas prometo que não irão se arrepender, pois ele está bem dinâmico!

Por isso, espero que gostem.

Aproveitem!

Já fazia alguns minutos desde o início do segundo tempo. Charlie queria fazer o terceiro gol, assim como fizera o segundo. Mas o garoto mau estava na sua cola. E foi ai que ele o driblou, o tirando do caminho. Porém, logo ele estava ali próximo a ele, tentando tirar a bola de sua posse. Charlie queria dar um passe para seu amigo ao lado, que gritava para ele. Não queria ser egoísta e cometer o mesmo erro. Poderia ter uma conseqüência desagradável, mas notara que não tinha saída. Dois garotos surgiram na sua frente, e ele se sentiu preso em uma armadilha. Adam apareceu de repente ao lado, pedindo que Charlie lhe desse a bola. O garoto de cabelos castanhos assim o fez e entregou a bola para Adam, que estava conduzindo-a bem até sentir-se encurralado. O garoto mau conseguiu ficar páreo a ele, e então lhe tomou a bola com apenas um movimento.

Adam foi ao chão, depois de seu pé tropeçar sobre o pé de seu adversário. O garoto sardento deu uma risada assustadora, mostrando seus dentes amarelados presos a um aparelho bucal estranho. Charlie observou tudo: o deboche do garoto, aquele mesmo sorriso maléfico, aquela mesma cena. Uma sensação estranha tomou conta de si, como se ele estivesse sendo forçado a relembrar de alguma coisa. Aquela cena lhe acendeu uma chama. Seu passado. E ele se viu pensando novamente naquela noite.


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2 de Abril de 2012



Charlie estava mostrando-se corajoso e destemido. Entretanto, queria que fosse verdade, mas estava apavorado por dentro. O medo lhe consumia aos poucos dentro do cemitério Findside. O clima frio e escuro eriçava seus pêlos, enquanto ele, aos poucos, caminhava até o local combinado. Passando pelas lápides ele pensava em como aquele lugar era assustador. E a última vez que entrara em um cemitério fora no enterro do pai. A lembrança triste do fatídico dia do acidente com o navio Rainha Fohtaed fez com que ele parasse por alguns segundos. Seu pai estava enterrado ali, mas não poderia visitá-lo. Não naquela ocasião.


Provavelmente todos os garotos do grupo estariam esperando-o. Era um ritual de iniciação, Charlie queria muito entrar para o grupo. Porém ele teria que provar que era digno de fazer parte dos Evil Boys. Ele também sabia que era clichê aquele tipo de ritual. Achava tudo uma besteira, mas sua vontade de ser parte deles era maior. E o estimulava a fazer qualquer coisa para ter aquilo.

Enquanto esmagava galhos e folhas secas pelo gramado úmido, o garoto ouviu um barulho estranho vindo de um dos vários arbustos do local. Hesitando em se aproximar, acabou o fazendo. Já estava próximo o bastante do arbusto quando algo saltou sobre ele. Gritou apavorado, enquanto se esperneava para que “o algo” saísse de cima dele. Gritou tão alto que espantou o corvo que voou sobre ele. Um simples corvo.

O animal voou para uma árvore próxima, sobre um de seus galhos. E antes de voar novamente, encarou Charlie de forma medonha. O garoto se arrepiou novamente e voltou a caminhar. Os garotos maus estavam próximos de um lago que havia no meio do cemitério. O lago não era tão grande, mas também não era pequeno, apenas grande o bastante para caber dentro de um cemitério. Ver todas aquelas lápides deixou Charlie receoso, e foi pensando no corvo que ele chegou até o lago.

E lá estavam os Evil Boys.

Antes mesmo de Charlie se aproximar, o mais alto dos garotos saiu do grupo em que estava e foi caminhando em sua direção. Ele parecia furioso.

— Você está atrasado!

— O quê? Ma-mas, eu... — Charlie nem sequer foi ouvido. Um soco ecoou em todo o lugar.

Charlie caiu, mas logo se recompôs, erguendo-se do chão e tocando o nariz.

— Por que fez isso? — Uma gota de sangue desceu.

— Uma punição pelo atraso. — Respondeu-lhe o garoto alto.

Outro garoto de aproximou. Este era mais baixo, porém roliço. Tinha aparência nojenta e asquerosa. O apelido de rolha de poço, que herdara na escola, combinava em todos os aspectos com ele.

— Chega de rodeios, Robbie! — Disse ele ao garoto alto. — Vamos ao que interessa! — Ele sorriu de forma macabra. — O que te faz pensar que pode entrar para a gangue? — Olhou no fundo dos olhos de Charlie.

O garoto encolheu os ombros e olhou desconfiado para um par de garotos que estava mais atrás. Eles eram cobertos por sardas, e ambos eram ruivos.

— Que vocês são os caras mais “fodões” da cidade inteira! — De momento, ele não tinha o que falar para eles. Estava muito ocupado temendo tudo que pudesse ocorrer naquela noite.

— Temos um fã aqui... — Comentou outro garoto, um dos sardentos. — Que tal provar pra nós que merece entrar para os Evil Boys?

— Claro! Faço tudo pra provar!

— Gostei da sua resposta, cara. — O mais alto comentou.

— O lago está ideal para mergulho. — O roliço retrucou, olhando para a baixa neblina que ali se formara.

— Lago? — Charlie arregalou os olhos.

— Se bem, que estávamos planejando usá-lo desde que chegamos. — O sardento deu de ombros.

— É, pode ser. — O mais alto falou. — Agora tire a roupa!

Charlie ficou sem palavras. Estava estóico. Queria falar, ao menos gaguejar, mas não conseguia dizer absolutamente nada.

— O que você está esperando? — O roliço perguntou. — Tira logo a roupa!

— Já vi que vai ser mais divertido do que eu pensei que seria. — O sardento mostrou seu aparelho bucal, enquanto dava um largo sorriso.

Charlie não esperou mais, e fez o que os garotos pediram. Foi se despindo aos poucos, jogando as roupas às margens do lago. Ali também tinham algumas lápides, mas estavam mais afastadas. Os garotos só o observavam tremer de frio. Charlie ainda olhou para trás, na esperança de não ter que fazer aquilo. Já estava sentindo o impacto do clima gelado, quando escutou um dos garotos, gritar:

— Vai até a ponta do píer!

Sem hesitar, Charlie caminhou devagar até lá e fitou a água lá de cima, sentindo seus membros tremerem muito. Foi em fração de segundos que respirou fundo, e já estava indo de encontro à água do lago. Sentiu seu corpo penetrar no manto aquático e ir em direção ao fundo. Rapidamente abriu os olhos e nadou até a superfície. Olhou ao redor e não viu mais nada: nem garotos, e nem suas roupas. A água congelava cada centímetro de seu corpo, enquanto ele se debatia para chegar à margem. Nadou o mais rápido que podia e segurou na madeira do píer. Olhou novamente para o lugar de antes, e nada enxergou além de neblina e lápides. Estava só. E não saberia como sair dali sem sentir-se um fracasso.


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Toda aquela lembrança rápida de meses atrás deixou que uma fúria interna ficasse próxima de explodir. Charlie queria pular sobre o sardento e deferir-lhe socos e chutes, mas só conseguia se controlar ainda mais. Ajudou Adam a levantar e também se lembrou do dia do acidente com Ted. Eu não pude sequer ajudá-lo. Fui mesmo um fracasso! Se lastimar por aquilo não seria a melhor coisa no momento, e sim, continuar e seguir no jogo, para alcançar a vitória sobre o time adversário. Charlie queria que tudo estivesse sob controle. Por enquanto o placar estava estável e nas mãos dos Zangões.


Adam ficou com a bola e conduziu-a pelo campo. O jogo continuou normalmente, depois do tombo do loiro. Ele estava de frente para o gol, era a chance perfeita. Os jogadores do time adversário ainda se aproximavam, e ele poderia levar a vitória ao seu time, mas algo aconteceu.

Repentinamente Adam parou. E empalideceu rapidamente. Allison observou tudo de próximo do gramado.

A reação do goleiro do time adversário e da platéia que assistia ao jogo foi a mesma. A expressão de confusão estava estampada no rosto de cada um. Adam nem pode mover-se direito, quando um jogador roubou-lhe a bola. E ele continuou parado. Desviando de outros jogadores, o oponente que roubara a bola do loiro continuou correndo com a bola pelo gramado. Foi ai que Charlie, sem notar que Adam havia ficado estranho, acaba por concentrar uma imensa força em sua perna e chutar a bola o mais alto que pode. A bola decolou por cima do gramado, atravessando, e conseguintemente, entrando no meio do pequeno bosque que havia ao lado do campo. A bola o penetrou com facilidade, fazendo com que Charlie perdesse-a de vista.

Ainda tentou por a mão sobre os olhos, evitando o sol, para poder conseguir enxergar algo além das árvores e da cerca, mas nada avistou. Poderia ser fácil encontrar a bola no meio do bosque, ou poderia ser muito difícil. Sentiu-se culpado por tê-la tirado do campo daquela forma.

— Deixa que eu pego! — E passou pela cerca, entrando no bosque.

Todos ainda olhavam incrédulos para Adam, parado de frente ao gol. Allison se aproximou, percebendo tudo que estava acontecendo. Não era normal dele, empalidecer repentinamente. Era? Era isso que queria saber.

— Adam, você está bem? — Sua voz doce tentou acordá-lo de seu transe.

Não houve respostas.

Shanon se aproximou em seguida, notando a palidez do garoto, que agora estava mais explícita.

— O que ele tem? — A doutora levou as “costas” da mão até sua testa. — Está gelado e suando frio.

Era óbvio que estava suando muito. As grandes gotas de suor desciam pelo seu rosto como as gostas da chuva. Eram muitas. Todas se misturavam em seu uniforme amarelo com preto.

— Deve ser queda de pressão. — Afirmou a psicóloga olhando para todos os lados.

— Mas... — Allison balbuciou alguma coisa antes de dar passos para trás. Tudo a sua volta agora era perigoso. O placar ainda tremia, o carrinho de cachorro-quente estava bem próximo, mas havia algo que ela ainda não notara. A falta de Charlie.

— Oh meu Deus! — Disse em voz alta, chamando a atenção de algumas pessoas. — Onde ele está?

Shanon não pode deixar de notar a aflição da jovem.

— Quem está procurando?

Allison percebeu que quem estava lhe indagando aquilo era a própria mãe do garoto. Hesitou em responder, lutando consigo mesma. De repente sua atenção se voltou de volta para Adam. O garoto loiro despencou na grama, com os olhos arregalados. Parecia querer falar alguma coisa, mas nada saia de sua boca. Seus lábios se moviam involuntariamente, seus olhos iam se revirando aos poucos, mostrando seus globos oculares totalmente brancos.

Shanon tapou a boca com uma das mãos, e levou a outra mão até o pulso do garoto. A pulsação estava fraca, indo embora lentamente. Por um minuto olhou para as pessoas que se aproximavam. Elas iam chegando mais perto com uma velocidade inacreditável. Shanon sentiu o tempo abafado, tudo estava se fechando, estava ficando muito mais quente, sufocante, difícil de respirar.

— Por favor, pessoal! Afastem-se! — Gritou a doutora, afastando as pessoas para trás.

Allison voltou-se mais uma vez a procurar por entre as pessoas algum rastro de Charlie, alguma pista de onde ele pudesse estar. Droga! Assim que terminou e pensar isso ouviu um ruído estranho. Adam começou a debater-se fracamente sobre a grama. Seu corpo dava espasmos frenéticos, enquanto começava a tossir. A tosse só aumentava, à medida que os espasmos se intensificavam. Seus olhos viraram completamente brancos, e seu rosto assumiu um vermelho assustador. Levou as mãos até a garganta, sentindo-a fechar-se.

A psicóloga, que estava bem próxima a ele ficou horrorizada com o que via. A última vez que presenciara aquela cena fora em uma consulta de sua clínica. Uma criança acabou tendo um forte ataque de epilepsia.

— Chamem uma ambulância, rápido! — Gritou ela, novamente. Desta vez várias pessoas se separaram.

Adam começou a despejar um líquido pela boca. O líquido saltava ao sair dela, caindo sobre seu uniforme e se misturando ao suor.

Se afogando sem água? Pensou a doutora, criando uma dúvida colossal dentro de sua cabeça.

No mesmo instante Allison se afastou, prestando bem atenção no sinal. Ela sabia que era um sinal da morte. Provavelmente todo o líquido que Adam despejava pela boca e seu aparente afogamento era um sinal da morte. Agora, ela só teria que procurar Charlie e o deixar afastado de qualquer local que pudesse haver água. Já estou indo, Charlie! E depois de desistir de procurar no campo de futebol, a jovem de cabelos castanhos resolveu entrar no bosque. Seria o único lugar em que pudesse encontrá-lo.


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O solo se contraía debaixo das solas da chuteira de Charlie. Ele caminhava bosque adentro a procura da bola. Era a única que tinham para continuar a partida, pois havia mais alguns minutos para seu término. Estava difícil localizá-la. Era muita vegetação. Arbustos e árvores disfarçavam a vegetação rasteira. Charlie estava convicto de que encontraria a bola. “Mas é apenas uma simples bola”. Este pensamento ia e vinha em sua mente, distorcendo totalmente o que pensava sobre as partidas de futebol. A bola era o elemento físico mais importante em uma partida. Era a alma do jogo, o seu coração. Sem ela, o futebol não era nada. Sempre tinha o hábito de pensar aquilo. E não queria saber o porquê de estar pensando naquilo, naquele momento.


Por um segundo ele pode avistar abaixo de um arbusto o que poderia ser a sua bola, apenas sua impressão. Ele voltou a caminhar, esmagando galhos e folhas secas. Havia árvores o bastante para evitar que os raios de sol penetrassem ali. O topo das árvores ajudava a filtrar a luz solar, que descia mais solene até tocar o solo. Os galhos tortuosos das árvores desciam até próximos do garoto, que os empurrava para não se ferir.

— Onde será que você pode estar? — Olhou em volta, tudo que via eram árvores e arbustos.

Até que um raio de sol serviu como farol e o guiou até uma esfera brilhante mais a frente. Finalmente, havia encontrado a bola.


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Adam ainda tossia muito e continuava a despejar água pela boca. Shanon já tentara de várias maneiras parar aquilo. Em vão. O garoto só despejava mais e mais água.


— Desse jeito ele vai morrer! Onde está a maldita ambulância? — Shanon sentia a aflição percorrer seu corpo por inteiro. Seus membros tremiam e suas articulações mal se moviam. Estava estática, segurando o pulso do garoto.

Foi quando Adam parou. Seus olhos foram voltando ao normal, mostrando suas belas íris azuis. Respirou fundo, parando tossir e cuspir água. Estava completamente molhado e só percebera isso depois que se inclinou para frente. Seu rosto pálido voltou à cor normal. Até seus lábios, que antes estavam brancos, agora já estavam rosados. Suas sardas estavam mais vivas. Assim como ele.

— O que aconteceu? — O garoto sentia sua cabeça latejar. — Ai! Parece que me deram uma pancada na cabeça. — Passou a mão nela, sentindo uma pequena elevação na sua parte de trás.

— Deve ter sido no momento da sua queda no gramado. Deve ter batido a cabeça. — A doutora disse, com uma voz suave e doce. Uma voz aliviada.

— O jogo acabou? Nós vencemos?

— O jogo teve de parar, querido. Mas agora já está tudo bem. Não está?

Com exceção de sua cabeça estar latejando e de sua garganta estar estranha, Adam concluiu que estava bem. — Sim.

— Que bom. — Shanon não resistiu e o abraçou. O abraçou forte, como se fosse Charlie ali.

— Onde está o Charlie? — Adam notou que seu amigo havia desaparecido. Ele fora a última pessoa que o loiro vira antes de não lembrar-se mais de nada.

— Ele estava aqui há pouco. — A psicóloga largou o loiro aos poucos, olhando ao seu redor.


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Allison tirou dois galhos da frente de seu rosto, antes de tropeçar em uma raiz de árvore e ir ao chão. Por pouco seu rosto não bateu em uma pedra posta bem na sua frente.


— Engraçadinha... — Disse olhando para todos os lados. — Você acha que tenho medo de você? Sua desgraçada! — Gritava como se estivesse furiosa com alguém ali.

Mas não havia ninguém. Só ela e a morte.

— Você é tão burra. — Uma voz ecoou dentro de seu ouvido. Entrou como um trovão silencioso.

— Han? Quem está ai? — A coragem que habitava em si, já havia se esvaído.

Allison não escutou mais nada, pois começou a correr. Ela falou comigo! Seria a voz da morte? Com seus olhos arregalados e a descarga de adrenalina se espalhando pelo corpo, não tinha nada que Allison pudesse fazer, a não ser correr à procura da próxima vítima da morte. Eu não sou burra, morte! Você que é! E vou te provar isso!

Perto dali Charlie se abaixava para tocar a bola. Ela estava com uma fina camada de lama e areia, mas não impediu dele a erguer no ar, deixando que ela fosse iluminada pelos raios solares que entravam por uma fresta entre as folhas da copa das árvores.

— Até que enfim consegui te achar.

Ele colocou-a debaixo do braço e deu meia volta. Escutou um barulho estranho, como se fosse algo rachando, mas não ligou. Continuou caminhando até que a manga de seu uniforme prendeu em um galho próximo. O galho chegou a lhe causar um arranhão. Então sentiu um frio enorme passar pela sua nuca, eriçando seus pelos. O arrepio lhe fez olhar por cima do ombro, e avistar o bosque escurecer bem atrás de si. Escureceu numa rapidez incrível. Neste momento Charlie sentiu uma sensação desconfortável, mas não sabia o que era exatamente.

Tentando soltar-se do galho, ainda com a bola em mãos, ele ganhou impulso em uma de suas investidas, lhe libertando do galho. A manga de seu uniforme deixou um pedaço de seu tecido no galho, enquanto que, com o impulso, Charlie cambaleava para frente. A bola escapou de suas mãos e foi para frente, parando repentinamente em certo ponto. Ela voltou como se tivesse batido em algo concreto. Charlie apenas se ergueu e se aproximou para pegar-lhe novamente.

— Você quer brincar? — Riu de maneira desafiadora.

Tocou a bola novamente, desta vez o barulho de rachadura se intensificou. Olhou para o lado e viu que os raios de sol, penetrando as folhas, formavam uma sombra no chão. Um número.

180.

Charlie olhou para cima e não teve tempo de se mexer. Viu um grande galho no alto da árvore, quebrando-se e despencando em sua direção. Ainda tentou virar-se e correr, mas o galho acertou a parte de trás da sua cabeça, o fazendo cambalear para frente. Achou que iria de encontro ao chão, mas não foi isso que aconteceu. Na verdade, os arbustos escondiam um buraco. E tudo se tornou escuridão. Charlie caía em um poço.

Ao passar pela parede rochosa, sentiu seu ombro arder, como se sua pele estivesse sendo rasgada e dilacerada. Ele abriu a boca para gritar, mas engoliu água o bastante assim que se bateu contra o manto aquático. Estava tudo escuro e sua cabeça latejava muito. A única fresta de luz que penetrava dentro do poço, era a luz solar que conseguia passar pela vegetação.

Charlie tentava gritar, mas só dava mais abertura para que a água pudesse entrar na sua boca, o fazendo engasgar. Esticou os braços, os tirando da prisão de água, que assumia um tom mais escuro e macabro. Colocou-os nas paredes e se debateu por alguns segundos, até se segurar em uma rocha mais acima. Tentou ganhar impulso, mas a altura da água, desproporcional, lhe puxava para baixo, com seu peso. Neste empuxo sua unha cravou na parede do poço, arrancando-lhe a sangue frio. Ele gritou, vendo sangue descer de seus dedos.

Urrou com a dor infindável que sentia, enquanto tocava o dorso rasgado sobre a água. De repente se sentiu sem forças e começou a afundar, fazendo com que mais água entrasse pela sua boca. Ele tossia muito, no mesmo instante que se debatia na água, evitando afundar para sua morte.

— Charlie! — Escutou chamarem pelo seu nome. — Charlie!

A água em seu ouvido abafava o grito, e a profundidade em que se encontrava dificultaria seu grito chegar até a pessoa que lhe chamava. Seria impossível? Charlie não sabia, mas tentaria. Entre os espasmos, pôs a cabeça para fora da água imunda e gritou. Gritou o mais alto que conseguia, fazendo pressão com a garganta, sentindo-a arder.

— Socorro! Por favor, alguém me ajude! — Engoliu mais água.

Neste momento sentiu suas forças se esvaírem e seu corpo pesar. Não tinha mais esperança, estava esgotada. Reuniu o último resquício de força para gritar mais uma vez:

— Eu não quero morrer! — Sua garganta pareceu estourar por dentro.

Seus pulmões pareceram explodir. Então, afundou.

Allison ouviu um grito e correu na direção de onde tinha vindo. Encontrou a bola usada no jogo, por detrás de um arbusto. Um enorme galho estava do outro lado, jogado por cima de uma estrutura inativa. Deu alguns passos antes de inclinar a cabeça para baixo.

Seus olhos quase saltaram de suas órbitas quando a imagem de um garoto no fundo do poço se formou. Allison não sabia se gritava, se chorava, ou se desesperava. Seu corpo tremeu e continuou paralisado, analisando o medo que nascia dentro de sua barriga e se espalhava por cada centímetro de seu corpo. Tirou algumas folhas que cobriam a boca do poço e se inclinou mais.

Reconheceu o corpo de imediato, e só ai, teve forças para gritar.

A morte já havia levado mais um.


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Shanon ajudou Adam a sentar-se em um banco. Com a garrafa de água em mão, e um lenço, ela o observava. O garoto ainda estava notadamente confuso, sua visão, apesar de estar praticamente recuperada, permanecia com o céu sendo apenas um borrão azulado. Estava confuso ao ponto de nem notar que quem estava ali com ele, o auxiliando, era sua psicóloga. A mulher que tanto temia, ignorava e hesitava em conversar.


Enquanto ela tinha receio de que ele criasse novamente um sentimento de repulsa por ela, o garoto apenas fitava a grama, sem se importar com sua presença.

Ao longe, Shanon pode escutar gritos vindos do bosque. Eram gritos altos e frenéticos. Um alguém chacoalhava os braços desesperadamente. Seus cabelos estavam desarrumados e havia terra em suas roupas. A psicóloga reconheceu Allison de imediato.

— O que aconteceu com você?

— Há um corpo dentro de um poço no bosque. — Sua respiração ofegante destacava sua voz cansada. — E eu creio que seja...

Só ai Shanon notou a falta de Charlie. E já fazia alguns minutos desde que o vira pela última vez. Ergueu a cabeça, olhando por cima do gramado, e nada de avistá-lo. Sua pele eriçou ao sentir uma brisa passar pela sua nuca.

— Onde está meu filho? — Se ergueu do banco com uma rapidez inimaginável. — Onde ele está?

Allison segurou seus ombros e a fez olhar-lhe nos olhos. Não teve tempo de falar nada, pois Shanon soltou-se de suas mãos e correu junta de mais algumas pessoas bosque adentro.

Allison olhou Adam fitando a grama.

— Era o Charlie? — Sua voz embargada transmitia seu nervosismo.

— Creio que sim.

— Porque isso está acontecendo com a gente? O Ted... — Seus olhos ficaram marejados. — E agora o Charlie? É isso? Todos vão ter o mesmo fim? — Ergueu a cabeça com lágrimas nos olhos e com o rosto vermelho.

— Eu não queria que fosse assim, Adam. Mas infelizmente, tudo que a gente pode fazer no momento é descobrir a ordem. Quem morria depois do Charlie na sua visão?

Allison teve de segurar seus ombros e o chacoalhar para que ele pudesse lhe falar. O garoto não precisou de muito esforço para dizer quem eram os próximos.

— Depois do Charlie eram o irmão do Ted e o mágico!

Allison olhou ao redor, Paris não estava lá. As duas precisavam se comunicar. E o celular poderia dar a ela uma luz.


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— O Freddy? Acho que está trabalhando, por quê? — Paris tremia com o celular na orelha, temendo ser Freddy o próximo.


E assim, seu medo se concretizou, quando Allison falou:

— Não posso e nem consigo explicar agora, Paris. Só quero que vá atrás do Freddy e impeça sua morte, ele é o próximo! — Allison se segurava para não jogar tudo para o alto. — Em alguns minutos eu chego na fábrica, ta?

Paris não disse nada e desligou.

O ônibus enguiçado estava parado em uma esquina de uma rua movimentada. Carros buzinavam devido à sua demora. Muitas pessoas estavam indignadas e gritavam com o motorista por não tê-lo tirado dali. Não adiantaria ele explicar que a batida contra o poste lhe renderia mais alguns minutos ali parado. E todas as tentativas de apaziguar a situação com os outros motoristas e com os passageiros, que antes estavam no ônibus, eram em vão.

Paris não queria saber do motivo, e sim, da maneira mais fácil de chegar até a fábrica. Roubar um veículo de algum desatento? Não, seria arriscado demais. Ir a pé até lá? Seria cansativo demais. Pegar um táxi? Não dá, estou sem dinheiro. Pedir uma carona? Não seria má idéia. A jovem olhou ao redor, tentando avistar algum veículo de alguma alma caridosa. E nada.

Não poderia esperar mais, a vida de Freddy estava em jogo. A via de seu namorado. A única maneira de sair daquele turbilhão de pensamentos e aflição era correr até a fábrica. Aquilo lhe traria dor na cabeça e dor nas pernas, mas o importante era ter Freddy vivo. Além do mais, era somente alguns quarteirões, segundo sua conta, até chegar à fábrica. Então, se desvencilhando na inundação de agonia, correu por entre os carros parados no trânsito e seguiu pela rua caótica em direção ao local onde seu namorado trabalhava.


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Uma fresta da persiana do escritório de Samuel deixava que um pequeno raio de sol marcasse um local específico em sua mesa, iluminando-o. Neste local havia uma gaveta. A gaveta que guardava as fotos de seus filhos, Adam e Lucy. O olhar de Samuel bateu nas fotografias, sem que seus olhos ficassem marejados. Era impossível encarar os rostos felizes de seus filhos nas fotos e não pensar em como tudo mudou. Em como uma onda de sofrimento inundou sua vidas, transformando-as em uma completa dor. Guardou uma das fotografias, permanecendo com uma delas, a menor.


Ele sabia que havia pouco movimento no escritório, era quase fim de expediente para a maioria dos funcionários, com exceção de sua secretária, Kelly, que ficava na sala ao lado até ele sair também.

Assim que se ergueu de sua poltrona giratória de cor escura, caminhou em sua sala, ainda fitando a imagem sorridente de sua filha caçula, que estava em um lugar melhor agora. Na foto ela segurava seu ursinho de pelúcia preferido, o Sr. Bubble, e que Samuel lembrava-se muito bem dele, do dia em que o dera a ela.

Um flash momentâneo de lembranças de sua filha percorreu sua mente, trazendo uma sensação de nostalgia para o homem. Longe dali ele lembrava-se dos cabelos loiros da filha, do seu sorriso maroto, das noites que ela ficava sem dormir e lhe pedia proteção. De repente, sob efeito das lembranças, Samuel acabou por escutar um grito. Era um grito de desespero, de agonia. Era um grito de sua filha, chamando pela mãe.

Lucy gritava ao pé de seu ouvido.


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Bruce estava na sala de espera do hospital. O avô de Betty não passara bem e ele teve de levá-lo para o hospital pela segunda vez. Ele havia apresentado os mesmos sintomas, e Bruce temia ser algo mais grave, então o médico exigiu que fizessem todos os exames possíveis do idoso, para que não restasse nenhuma dúvida. O mágico olhava para todos os lados freneticamente, pensando na morte e em todo o perigo que representava em sua vida, agora, mais ainda. Além de Patrisha, Bruce já havia recolhido depoimentos diversos sobre outras pessoas que já sabiam da lista: Chase Bray, Owen Spooner, Heather Diamonds, entre outros. E já estava ciente do perigo iminente que corria.


Uma gota de suor escorregou em sua testa, caindo no estofado do sofá em que sentava. Uma sensação agourenta invadiu seu corpo, deixando-o desconfortável naquele ambiente. No ambiente que deveria lhe afastar da morte, o mesmo em que aproximou Betty dela.

— Bruce Yanovski? — O médico que antes atendia o avô de Betty, agora olhava para Bruce com uma papelada em mãos.

Bruce parou de pensar em Betty e em seu triste fim, e decidiu seguir na direção do médico.

— Sim, sou eu.

— Queria lhe avisar que o Sr. Stewart precisará ficar internado aqui, pelo menos por esta noite.

— É algo sério, doutor?

— Oh, não. Não fique preocupado, é que a bateria de exames vai demorar um pouco para sair e também precisamos colocá-lo em observação até amanhã.

— Eu fico sem problemas. — Bruce voltou a sentar no sofá.

— Aconselho que volte para casa e descanse. — O médico sorriu de lado. — Pode chegar amanhã bem cedo, se preferir.

Bruce decidiu não hesitar, então agradeceu ao médico e saiu do hospital, a caminho de casa.

Ainda no meio do percurso ele recebeu uma ligação.

Alô, Bruce?

— Sim, é ele.

Nossa, que bom que consegui falar com você. Já estava começando a ficar desesperada. — A voz ofegante da pessoa dizia tudo.

— Quem fala?

Bruce, sou eu, Ginger. — Bruce começava a lembrar — Aquela sua amiga do colegial.

— Nossa! Há quanto tempo. — Ele deu um leve sorriso — Como conseguiu meu número?

Eu tenho meus contatos. — Então, Ginger deu uma risada — Mas não era isso que queria falar. Na verdade, queria saber se você queria trabalhar na festa de aniversário de minha filha.

Bruce assentiu, e só depois percebeu que Ginger não o via. Mas ela continuou:

Bom, não é nada demais, mas é que você sabe como são as crianças de hoje em dia, não ligam para muitas coisas como antes. Apesar disso, minha pequena Chelby queria muito um show de mágica.

Bruce silenciou por breves segundos.

Então, o que me diz?

— Claro que aceito. Seria um prazer.

Está combinado, então! Amanhã eu te ligo para eu lhe passar o horário e o endereço. Além de conversarmos sobre o pagamento. — Fora perceptível tamanha empolgação no tom de voz de Ginger.

— Até logo, Ginger. — Bruce sorriu e os dois desligaram juntos.

O mágico continuou caminhando pelas vielas úmidas da cidade. Olhou para o céu, e a noite se aproximava mais rápido do que ele imaginava. E ele já sabia que não conseguiria dormir àquela noite.


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Freddy andava por entre as gigantescas máquinas que trabalhavam na produção da bebida mais famosa da região. Naquele dia as máquinas estavam menos agitadas, até chegava a parecer um silêncio proposital. Entretanto, zumbidos e ruídos eram inevitáveis. Enquanto caminhava, com uma prancheta e caneta em mãos, analisando a produção, ele pensava sobre sua noite com Paris. A noite prometida, como os dois chamavam desde o mês anterior. Desde antes do acidente. Não chegara a pensar em como tivesse seguido sua vida se Paris tivesse tido um fim trágico no Comet Circus, nem se ele mesmo tivesse ficado lá dentro antes do acidente.


Agora, depois de saírem antes de a tragédia acontecer, ficaram sentenciados a serem perseguidos pela morte a todo instante. Assim como aconteceu com Ted, mas estava confiante de que a driblaria, mesmo sendo conhecedor de que uma fábrica não era o local mais seguro do planeta. Conseguintemente seguiria para o final da lista, porém, até lá ele tinha um tempo precioso para pensar no que fazer.

De repente Freddy viu um vulto passar na sua frente, e este lhe despertou dos seus pensamentos. Espantado, ele deixou que a prancheta caísse e deu um passo para trás. Não dera tempo de olhar para trás para ver o que havia ali, foi quando ouviu o barulho da engrenagem.

— Droga! — Disse, enquanto via a manga comprida de sua blusa enroscar na engrenagem.

Olhou para todos os lados e logo notou que não tinha ninguém junto dele. Freddy estava sozinho naquela ala da fábrica. Então se desesperou, pois quanto mais ele tentava se soltar da armadilha de metal, mais ela consumia o tecido de sua blusa. E logo quando este acabasse, começaria a consumir sua pele.

— Que merda! — Ele deu um impulso para frente e nada aconteceu. A engrenagem continuava a girar, consumindo mais ainda o tecido de sua blusa. Foi de súbito que viu a manga toda de sua blusa ir em direção ao círculo metálico que girava freneticamente. Sua pele já começava a ser rasgada, mas antes que o ferimento pudesse se tornar profundo, ele conseguiu se desvencilhar e caiu ao chão, aliviado.

Uma lâmpada acima de si piscou, mas parou em seguida.

— Quer dizer que eu... Consegui?


x-x-x



Paris estava cansada e com as pernas doloridas. Com a pele avermelhada e várias gotas de suor sobre a testa, ela chegou até ao portão frontal da fábrica. Um guarda estava ali, do lado de fora.


— Preciso falar com um funcionário! — Falou ela, passando por ele.

Ele agarrou seu braço no último segundo e a encarou.

— Quem é você?

— Sou a namorada de um dos funcionários. Olha, é muito importante, ta? A vida dele corre perigo!

— Você quer mesmo que eu acredi...

Paris não o deixou terminar de falar e se soltou no homem, correndo para dentro do local.

— Volte aqui! — Gritou o homem, correndo na intenção de barrá-la.

Paris achou que conseguiria passar, mas ao entrar completamente na fábrica de bebidas, encontrou dois homens que conversavam.

— Parem esta garota! — Gritou o segurança bem atrás de si.

A jovem continuou a correr, sem se importar com a ordem do homem. Os dois rapazes que conversavam perceberam a movimentação e tentaram pará-la, porém Paris empurrou um e continuou correndo, até encontrar e se bater de frente com um homem baixo e careca. Ele parecia ser algum funcionário superior, pois estava vestido diferentemente dos demais.

— Que barulheira é esta? E quem é você?

— Não há tempo para explicações, eu preciso encontrar meu namorado, Fredderick Blake! Ele trabalha neste setor! — A adolescente viu o homem careca segurar seus punhos.

Freddy observava tudo de cima de uma plataforma de metal. Ele só conseguia enxergar seu supervisor, outros funcionários e o segurança parados de frente à entrada da fábrica, mas não via com quem eles discutiam. Foi quando viu uma garota correr por entre as máquinas, gritando pelo seu nome. Não demorou muito para que ele soubesse que se tratava de Paris.

— Que surpresa! O que faz aqui? — Disse ele de cima da plataforma.

Paris ficou de frente para ele, mas continuava embaixo, ao lado da máquina.

— Eu tive que vir, é urgente!

Freddy se sentiu gelado.

— O que aconteceu?

— Você é o próximo! Eu não entendi, mas pelo que a Allison me disse, é você quem está na mira da morte agora! — Ainda gritava, como se Freddy não pudesse escutá-la.

Sua namorada começou a subir as escadas que davam na passarela. E foi na velocidade em que vinha que Paris esbarrou em um painel ao lado da máquina, mudando uma alavanca de posição e ligando um botão verde, entre muitos. Quando chegou lá em cima, Paris olhou para baixo e viu que o misturador da grande máquina que ficava abaixo da passarela metálica, ligou. Agora, as hélices que estavam mergulhadas na bebida, giravam ferozmente, fazendo o líquido girar na mesma sincronia.

— Fique tranqüila. Eu acho que já estou a salvo. — Freddy falou lhe abraçando.

Paris recebeu o abraço como se fosse o último.

— Por que você está dizendo isso?

— Agora a pouco eu quase fui engolido pela engrenagem dessa máquina aqui. Quase perdi metade do corpo. — Ele já sentia um grande alívio.

A adolescente que o abraçava ainda não acreditava que ele pudesse estar a salvo.

— Então, você foi automaticamente para o final da lista?

— Se o que a gente descobriu sobre a lista estiver certo, sim. — Os dois se afastaram lentamente, e Freddy foi para a lateral da passarela, se segurando na barra de proteção e olhando para baixo. — Foi você quem ligou o misturador?

— Não sei. — Paris cruzou os braços. — Vamos descer? Eu não sei você, mas estou com uma sensação agourenta.

— Também senti essa mesma sensação antes da engrenagem comer parte da minha blusa. — Brincou. — Mas não há mais perigo nenhum, já estou bem, não estou? — Sorriu.

Duas lâmpadas que estavam bem acima eles piscaram. Os dois se entreolharam.

— Isso deve ser... — Paris tremeu.

— Oh, não. — Freddy olhou para cima e viu um grande gancho chacoalhar e de seus cabos saírem faíscas. — Desce! — Gritou ele, empurrando a namorada. — Agora! Desce!

Paris assim o fez e correu na direção das escadas, mas o grande gancho foi mais rápido e despencou sobre a passarela, batendo em sua lateral e inclinando-a completamente para o lado. Um dos braços de Freddy, exatamente o que estava sem a manga, foi atingido pela extremidade do gancho e o loiro foi jogado na direção da máquina. Atingiu o líquido fortemente, submergindo por alguns segundos.

Paris conseguiu segurar em uma das barras, e ficou suspensa na passarela. Não conseguia olhar para baixo, mas sabia que o namorado havia caído e seria fatal se não pedisse ajuda.

— Socorro! — Gritou.

A passarela rangeu. Então, Paris colocou a outra mão sobre sua parte plana e conseguiu olhar para baixo. Viu Freddy se debater sobre o líquido, lutando para não submergir novamente. O tanque do misturador era fundo o suficiente para Freddy conseguir fôlego e voltar até a superfície antes de dar de encontro com as furiosas hélices da máquina.

— Paris! — Freddy gritou, vendo a terrível expressão de agonia e medo no rosto da namorada.

— Alguém nos ajude! Socorro! — Paris gritou o mais alto que pode e se segurou mais força na barra de proteção da passarela. Alguns metros abaixo estava o grande misturador.

De repente Freddy se sentiu fraco e seu corpo ficou pesado demais para ele agüentar. Não havia nada em que pudesse segurar, e deixar submergir poderia ser a idéia mais genial que já tivera.

— Eu te amo, meu amor! — Disse, antes que perdesse totalmente as forças.

— O quê? Por que você está... Não, Freddy! Não! Nós vamos viver! Você vai viver! — Os olhos da jovem soltaram lágrimas que dançavam em seu rosto.

Uma das lágrimas caiu sobre o rosto de Freddy e se misturou às suas.

— E quanto à nossa noite... — Engoliu uma grande quantidade de bebida, fazendo-o engasgar e tossir, enquanto se debatia. — Celebre mesmo assim!

— Claro! Porque você vai viver! — O rosto da adolescente já estava inchado e vermelho.

— Não. Por que, eu vou estar lá. Vivo ou morto!

Quando terminou de dizer aquilo, despejou o resto de suas lágrimas no líquido e afundou.

— Não! — Paris gritou e choramingou desesperada. — Eu te amo também!

Freddy foi afundando, o líquido já estava ficando escuro. Seu mundo já estava ficando escuro. Foi quando o tom avermelhado tomou conta da bebida, que agora parecia vinho. Freddy sentiu seu copo se partir, rasgar, dilacerar, moer. As hélices fatiaram o corpo do loiro que a engrenagem não conseguiu consumir.

Paris, em meio ao choro descontrolado, só conseguia enxergar uma coisa sobre o manto vermelho: o que parecia ser o coração do namorado.

Notas finais
Por favor, qualquer errinho, pequenino que for, me avisem nas reviews. Isso, para que eu possa rever e consertar. Posso ter deixado algum erro passar na revisão do cap. Por isso, me ajudem! Hehe.

Até logo! o/