Wellington e Kennedy se levantaram para pagar a conta do que haviam tomado naquela cafeteria vazia, não tão vazia até o momento em que Wellinton, antes de se virar para o balcão onde estará o caixa, percebera que alguém familiar se encontrava no estabelecimento, e não era um conhecido qualquer, era alguém propiciamente que ele queria encontrar.

– Kennedy, você pode pagar pra mim e indo na frente, eu encontrei uma pessoa cuja qual quero debater alguns assuntos. – O seu companheiro, sem reação, imaginando que aquilo era uma desculpa para Wellington não pagar, resmungava caçoando do seu colega.

– Eu disse, vai acabar ficando duro qualquer dia desses, mas tudo bem, faça o que quiser. – Kennedy havia se virado para a direção onde Wellington olhava, e percebera duas garotas por volta dos 20 anos conversando em uma mesa no canto do salão. – Você por acaso não está pensando em partir pro ramo da pedofilia, né? – Comentou Kennedy enquanto guardava sua carteira novamente no bolso do paletó surrado.

– Isso é algo que caiu do seu, meu caro, acho que o Natan vai ter que esperar. – Dando uma piscadela para Kennedy, o detetive foi na direção das garotas que, ao notarem um senhor com um sobretudo marrom se aproximando, já o fitaram com estranheza e desdenha.

– Eu posso ajudar? – Indagou Raíza enquanto parava de tomar seu milk-shake olhando para Wellington.

– Por acaso você seria a Raíza dos noticiários? Eu não sei porque pergunto, pois sei que é! Antes de mais nada, não sou da polícia, nem um repórter de site de fofocas sensacionalistas.

– Então quem é o senhor? – Na frente de Raíza estava Mônica, uma jovem da mesma idade da amiga, com a pele negra e cabelos enrolados, mas um olhar devastador que impusera medo em qualquer homem.

– Digamos que eu quero apenas ajudar. Sou um detetive particular, por mais que as senhoritas devam achar que, tal profissão, hoje em dia, só se cabe em romances policiais da década passada.

– Sim, é o que eu estava começando a pensar, sua roupa também está bem clichê, se tenta imitar o Sherlock Holmes ou o Poirot, acho que deveria apostar em marcas mais...finas, sabe. – Raíza tinha uma língua afiada, ela voltara a tomar seu milk-shake como se estivesse ignorando a presença do homem em sua frente.

– Bem, ainda me falta verba, mas creio eu que os tempos vão melhorar. – Wellington levava suas duas mãos ao bolso do seu sobretudo, ficando a observar as garotas como se fosse uma indireta para Raíza convidá-lo para sentar.

– O que foi? Eu não tenho nada pra dizer, tudo que eu disse pra polícia era tudo, não tem mais nada.

– Eu disse que não sou da polícia. Talvez a minha visão os fatores que a senhorita provém, seja totalmente oposta à da polícia.

– Então não confia na polícia? – Mônica parecia querer se intrometer na conversa, o que deixara Wellington um pouco desconfortável.

– Eu trabalhei lá a bons anos, claro que confio, mas eles tem um senso profissional que, digamos assim, não se pode passar de certa linha imposta, enquanto a mim, um autônomo, posso ir muito além.

– Ok, ok, eu entendi, se eu falar o que tenho vai nos deixar tomar o milk-shake em paz e cair fora? – Raíza não parecia demonstrar muita vontade em falar com Wellington, que se sentia reprimido, mas não desistiria de uma pequena ‘coleta de informações’.

– Eu vou pra outra mesa, sério, eu prometi que não iria mais me envolver nessa história. – Mônica se levantou e deu lugar à Wellington. O comportamento da menina fez com que o detetive ficasse um pouco triste por Raíza.

– Sua amiga te abandonou?

– Ela só está cheia dessa conversa, assim como eu, assim como todos que estavam naquela maldita chácara.

– Eu sei que o que aconteceu não pode ser esquecido, mas sei que, se você for inocente no caso, irá querer saber quem foi o autor dessas tragédias, não? – Raíza olhou torto para Wellington ficando ereta em sua cadeira.

– Claro que quero, todos querem, querem fazer aquilo que chama de justiça, mas quatro dos nossos morreram e nada vai trazê-los de volta.

– Na verdade e, foram três. A Amanda ainda está viva e se recuperando bem. – As palavras de Wellington parecia ter chocado Raíza, que não parecia aliviada, mesmo com a notícia.

– Eu não sabia! Já pensei que ela tinha ido dessa pra melhor, afinal, falaram que foi muito veneno.

– Sim, foi, mas ela é uma guerreira, e sei que vai sair dessa.

– Você leu a carta que ela deixou? – Perguntou Raíza enquanto olhava diretamente nos olhos de Wellington.

– É claro que li, várias vezes ainda.

– Talvez ela seja a chave desse caso, ela pode saber de algo, por que não espera ela acordar?

– Enquanto eu espero, me encontro com pessoas e tiro algumas informações delas. – Wellinton deu um sorriso irônico para Raíza que já começara a se estressar aos poucos.

– Ok vamos logo com isso, o que quer saber?

– Eu não quero saber de maiores detalhes, só tenho uma pergunta a lhe fazer. – Dessa vez, foi o momento de Wellington sorrir.

– Uma pergunta? Olha eu não sou nenhum gênio da lâmpada mas pode perguntar mais, você não tomou o lugar da Mônica por nada.

– Mas o fato é que sei dos outros fatos, exceto alguns, e sei que um deles você poderia ter conhecimento.

– E qual seria?

– De quem você desconfia?

– O quê? – Raíza começou a pensar que aquele velho em sua frente era um tanto biruta, mas fora sincera logo para evitar maiores incômodos.

– Se fosse pra dizer agora, seria o Natan.

– O quê? O que dizem ser o mais inocente do caso? – Wellington se assustou com a resposta da garota. – E por quê Natan?

– Oras, é quem eu acho, não foi o que me perguntou?

– Sim sim.... e por que acha que o Natan é suspeito? Me dê bons motivos.

– Você mesmo não vê? – O cara foi o primeiro a encontrar o corpo da Isabela! Ele também foi o primeiro que viu Yago morto. – Os olhos de Raíza, naquele momento, pareceram lacrimejar.

– Que eu saiba, ele estava longe da cena do crime quando Carlos morreu.

– A morte do Carlos foi suicídio! Tudo indica isso. – Wellington começou a perceber o nervosismo da garota em sua frente, e tentou sorrir e demonstrar certa tranquilidade para acalmá-la.

– Tudo acabou ok? Não tem porque se preocupar, estão seguros. – Com as palavras do detetive, Raíza começou a chorar levando as duas mãos para cobrir seu rosto pálido.

– Eu só não queria ter ido lá, eu fui porque meu irmão me chamou, foi meu irmão que queria muito ir!

– Seu irmão é o João? – Wellington tinha uma certa intriga quando o nome do João vinha à tona.

– Você pelo visto sabe de tudo, e pelo seu olhar, deve suspeitar muito dele, assim como a polícia.

– Não que eu queira suspeitar dele, mas houve fatos estranhos em torno do mesmo. A falta de álibis, o depoimento contraditório para o Igor, o falso sinal que ele achou no celular minutos antes do Carlos morrer. – Wellington começou a vaguear em seus pensamentos, até que uma ideia assombrou sua mente.

– Enfim, eu ainda acho que o Natan fez isso, ele foi um dos únicos que estava perto do Igor, quando ele deixou a arma em cima da mesa e saiu correndo pra fora. Pensa bem, a luz tinha acabado! O Igor não esperou nem 10 segundos e já foi pra fora, deixando sua arma em cima da mesa, somente alguém que estava perto o suficiente dele pode ter visto ou ao menos ouvido.

– Não tinha a possibilidade de quando a luz acabou, uma pessoa clarear o local?

– Não nego que sim, mas eu não lembro de ninguém ter feito isso imediatamente.

– Então só sobra uma possibilidade – Wellington coçou seu bigode olhando para o ventilador de teto de madeira com uma aparência bem antiga.

– E qual seria? – Raíza, pela primeira vez, se sentia intrigada com o diálogo.

– Que alguém já sabia, antes, que Igor colocaria a arma em cima da mesa e iria pra fora. – As palavras do homem chocaram Raíza, que logo entendeu seu raciocínio.

– Quer me dizer que alguém combinou isso com o Igor?

– É claro que não! Ele trabalha a mais de 9 anos na polícia, jamais suspeitaria dele.

– Mas aí voltamos à estaca zero.

– Bom, eu não vou mais lhe perturbar, preciso ir, logo mais estarei na casa do Natan.

– O senhor pretende mesmo continuar essa investigação? Acha que conseguirá algo? Só porque salvou aquele casal no ano passado?

– Foi a dois anos minha querida, e sim, acho que vou conseguir, não quero travar uma competição com a polícia, se eles conseguirem também, ótimo! Tenha um bom dia, e não se preocupe, ok? – Wellington se levantou, pegou o seu sobretudo, e o recolando, saiu para fora do estabelecimento, deixando Raíza pensativa enquanto mexia seu milk-shake.

Ao pisar na calçada, Wellington, como não era nada bobo, logo percebeu que a janela de um scort 2001 preto do outro lado da rua subiu rapidamente quando ele saiu da cafeteria, e agora o carro partira, parecendo acelerar mais do que o comum.

Algumas horas depois, assim como prometido, Wellington foi até a casa de Natan. Era um bairro de classe média, um lugar aconchegante de se viver, aquilo lembrava demais Paulínia, a cidade onde ele cresceu, sentia saudade de sua infância, de quando se apaixonava lendo romances policiais, mas o que hoje em dia, se torna entediante, visto que sempre se pega imaginando que aquelas coisas poderiam acontecer na vida real, mas nunca acontecia.

– Boa noite, eu procuro o Natan, ele é filho da senhora? – Ao tocar a campainha, Wellington dava de cara com Teresa, mãe de Natan.

– E quem gostaria? – A mulher não parecia muito feliz com a visita do homem.

– Wellington, sou detetive particular, eu soube que seu filho fez um ótimo trabalho junto do Igor na chácara, e ele disse que poderia colaborar pra nossa investigação. Combinei com ele hoje de se encontrar comigo para esclarecer alguns fatos. – A expressão da mulher ainda era de alguém desconfiada, não queria seu filho metido em problemas, depois de tudo que ele passou.

– Espero que seja rápido, Natan ainda tá traumatizado com tudo, apesar de parecer forte, eu conheço meu garoto. – Quando Wellington entrou na casa, percebeu que não havia mais ninguém por lá. Pensou em perguntar para a mulher se ela era casada, mas aquilo poderia parecer estranho. Após observar a casa mais atentamente, Wellington pode constar que os dois moravam sozinhos ali, o que explicara a preocupação da mãe para com a única pessoa que ela tem no mundo.

– Você pode esperar lá no quarto dele, ele tá tomando banho mas logo sai, é o segundo quarto a esquerda. Na, o policial veio aqui te ver, vai logo! – Teresa gritava para Natan que parecia não ter ouvido. Wellington fez cumprimento para a senhora de longos cabelos negros e pele bem cuidada e se dirigiu ao quarto de Natan.

Entrando no cômodo, Wellington se surpreendeu, para um rapaz da idade dele, era um quarto bem maduro. Tudo estava bem organizado, não havia pôsteres de banda, adesivos, nem nada do tipo. Apenas seu computador, muitos livros e um aquário no fundo do quarto. Em cima da escrivaninha, o detetive se deparou com um título bem interessante. Os Crimes ABC, de Agatha Christie, um livro que havia lido a muito tempo mas ainda se recordava. O dia hoje estava nostálgico para Wellington, sentindo os velhos tempos, o homem decidiu folhear o livro apenas para sentir o cheiro de antigo e recobrar algumas memórias de quando ainda sua mãe era viva, eis que, em meio às páginas, o homem encontrou um papel solto e bem dobrado. Abrindo-o, começou a perceber algo bem estranho. Parecia ser a planta de uma casa, pensou que Wellington pretendia morar sozinho, ou seria uma nova casa que sua mãe iria comprar, até que o homem se atentou ao fato de que fora da casa, havia a planta de um galpão. Ele começou a se atentar mais ainda ao papel em suas mãos e percebeu que aquilo não era casa nenhuma. Era a planta da chácara onde os três assassinatos aconteceram. Welligton ouviu Natan saindo do banheiro e decidiu guardar o papel no meio do livro novamente e colocá-lo no lugar onde encontrou. Talvez Raíza, no final, tivesse um pouco de sensatez, pensou consigo mesmo o detetive que parecia bem animado.