– Eu realmente sinto muito se te fiz esperar! – Algo naquele garoto me parecia ser bem peculiar. Isso eu já sabia, bem antes de conhece-lo. Ele era um tipo de jovem que se afastava dos demais para viver uma vida única, sem seguir um parâmetro determinado, e eu apreciava isso, não se preocupar com aparências, e ser quem você deseja ser, mesmo que seja apedrejado e julgado todos os dias, a recompensa final é o orgulho de si mesmo por ter ido tão longe em um mundo sozinho. Minha conversa com Natan não seria mais natural, como eu havia imaginado antes de pegar aquela planta da chácara. Aquilo poderia ser uma pista incrível, se ele fosse o autor dos assassinatos. Eu não queria desconfiar de um garoto assim, mas detetives trabalham com provas também. Eu tento não seguir somente um método, de explorar o psicológico humano ou então ir apenas atrás de evidências, gosto do equilíbrio, portanto quero me aproximar desses dois lados nessa investigação, portanto, não citarei o que vi, até porque, seria feio pra um detetive confessar que espiou as coisas do quarto de um jovem que tem as melhores notas de sua classe.

– Imagine filho. Só por ter me recebido aqui já é algo. – Eu sentei na cadeira que Natan havia puxado, ele se sentou na cama, e então, começaria a linha a jogá-lo contra a parede, o que era meu trabalho, por mais que eu percebesse que o garoto estava preparado para qualquer investida mais brusca.

– Então, você conseguiu alguma coisa?

– Eu espero conseguir com você, haha.

– Olha, bem que queria poder ajudar, mas depois de tudo, me sinto um cego andando na escuridão.

– Você e o Igor fizeram um bom trabalho, ajudaram bastante com os depoimentos na chácara, mas, eu não quero saber de detalhes técnicos, evidências ou provas, eu quero saber pelo lado pessoal, Natan.

– Quer saber minha opinião sobre o caso, certo?

– Ainda bem que você é um garoto direto. – Senti muita firmeza no posicionamento do rapaz, ele era alguém que, se não fosse mesmo o assassino, poderia muito me ajudar, pensei que aquela noite não seria desperdiçada.

– Muito bem, você quer que eu diga quem eu acho que fez tudo isso?

– Eu não seria tão direto como você mas, suspeita de alguém?

– Sinceramente? Não. Por mais que eu tenha sido um expectador mediante àquelas atrocidades, e conhecesse muito bem quase todos os suspeitos, eu diria que não posso desconfiar de ninguém em específico. – Estranhei essa resposta do garoto, pensei que ele ao menos tivesse alguém em mente, ele não parece do tipo omisso, muito pelo contrário.

– Ora, mas, nem um chute? Alguém que você desgosta? Por que não desconfiaria de ninguém?

– Os motivos. Eu pensei muito desde que voltei daquele inferno, e me perdoe pelo termo, mas aquele lugar será sempre lembrado como inferno. Isabela tinha uma fucker doença terminal, Carlos era um playboy que ninguém amava mas também não odiava, e Yago, cara, o Yago era a pessoa mais gente boa que conheci, eu deitei aqui na minha cama e fiquei por horas pensando enquanto olhava fixamente para o teto, o ‘porquê’.

– Todo crime tem que ter um motivo, isso eu concordo. Quando dizem que as pessoas, algum psicopata serial killer sedento por sangue, mata apenas por matar, é uma bobagem. Já estudei muito psicologia humana, ainda mais agora, que trabalho somente com minha mente, sem ajuda da polícia, eu percebo que por mínimo que seja, por mais que esteja no subconsciente, existe sempre um motivo, e aquelas cartas não negam, certo?

– Eu pensei nisso também. Se não fosse pelas cartas, eu acharia que foi um crime doentio, apenas pra saciar a raiva de alguém, a sede de sangue.

– E o que acha das cartas? A perícia e profissionais calígrafos estão investigando, mas parece que não é a letra de nenhum dos seus ‘amigos’ vivos. Muito curioso.

– O que eu acho? Qualquer um que estivesse lá e fosse uma pessoa que gosta de fantasiar, não pensaria duas vezes ao dizer que aquilo foi obra do capeta, demônios ou espíritos.

– Mas não você, certo?

– Não eu.

– Entendo. Duas das cartas foram escritas por Carlos e Yago, e a terceira, não foi identificada ainda. Ou seja, dois mortos, três cartas, a última não poderia ser da Isabela?

– Não faria sentido, já que ela foi a primeira a morrer.

– Então acho que você pensa como eu meu jovem.

– De que Yago e Carlos eram cúmplices? Ou então, um dos dois era cúmplice, e um deles foi ameaçado para escrever a carta, mas isso teria que acontecer antes de ser morto, e como seria possível? Sendo que estávamos juntos o tempo todo.

– Esse é um ponto importante. Como seria possível eles escreverem as cartas na chácara? Digo, a carta achada no galpão, era de Carlos, certo? Mas só descobriram que era dele, depois que o mesmo estava morto. Antes de morrer, seria possível que o assassino o tivesse ameaçado para ele escrevê-la, ou teria ele feito-a antes? Eu acredito na segunda possibilidade. Estava chovendo, e ele estava lá fora. Como alguém poderia escrever uma carta na chuva? Tirando que Carlos não chegou a entrar no galpão, não quando vocês estavam por lá, mas ele pode ter muito bem ido antes, deixado a carta, já imaginando que Isabela ou alguém morreria no galpão e alguém acharia a carta. O intuito dessas cartas é claramente fazer com que todos pensem que isso é obra de algum ser sobrenatural, algumas pessoas e até mesmo parte da imprensa, ainda especulam isso! Soa absurdo, mas as pessoas gostam de ver aquilo que não existe. Gostam de criar polêmicas e algo ‘novo’. Mas comigo é diferente, eu não me prendo a essas bobagens. Como já constataram, a carta foi mesmo escrita por Carlos.

– Sim Wellington, ela foi, mas se ele morreu, ele não é o assassino.

– Então vamos colocar Carlos como sendo um cúmplice?

– Pode ser. Mas de algo tenho certeza, ele não concordaria com alguém matar Isabela. Ele a amava, mesmo sendo um mulherengo, eu sentia isso!

– E por que pode ter tanta certeza? – Os olhos de Natan naquele momento pareciam lacrimejar. Eu senti uma aura pesada no quarto.

– Porque eu também a amava. Droga, é difícil pensar nisso.

– Me perdoe por lhe fazer ter memórias ruins... Mas precisamos pensar. Sei que quer justiça. Todos queremos. Aparentemente, essas pessoas mortas eram pessoas boas, eu não consigo ver nenhum motivo, assim como você. Mas voltando ao fato das cartas, a possibilidade de Carlos ser cúmplice é quase concreta, e se ele não concordaria em matar Isabela, então o assassino o enganou?

– Isso pode ser possível, ainda mais, depois do comportamento dele depois da morte da Isa. Ok que tinha uma pessoa morta, todos estavam desesperados, mas ele, que sempre falava muito, não dizia nada. Ele ficou calado por vários minutos com os olho arregalados apontando para o nada. Mas isso não diz muita coisa. E você acredita mesmo que ele se suicidou?

– De forma alguma meu jovem, isso também já é um fato quase concreto. Carlos foi morto. Os ferimentos em seu pescoço não era de um enforcamento comum, ele foi enforcado por trás, com alguém puxando a corda, e ele mesmo não poderia fazer isso, ninguém no mundo consegue. Já foram feitas várias pesquisas, se ele quisesse se matar, só seria possível com o suicídio por corda tradicional, mas o que aconteceu foi que alguém amarrou a corda por trás em seu pescoço e o asfixiou, e depois, o pendurou na árvore para tentar parecer que foi suicídio. A pessoa que fez isso tinha que ser muito rápida, e mais, ela teria que levar Carlos até esse local, o que supõe-se que ele era MESMO cúmplice. O assassino sabia que Carlos estava sempre de mochila, e era o único, e com isso, quando Carlos se distraiu por algum momento, o mentor do crime colocou a corda em sua mochila, e combinou com o mesmo de irem até aquele ponto cego atrás da churrasqueira, para que eles pudessem trocar alguma informação sem que ninguém os visse. Estava chovendo, todos estavam ‘separados’, a pessoa que o matou o enganou muito bem, ela provavelmente abriu a mochila do Carlos dizendo para o mesmo que pegaria algo, quando na verdade pegou a corda e o matou, jogando-a em seguida no galho da árvore e puxando o corpo do rapaz. E convenhamos, pra fazer isso, precisa de muita força.

– Então acha que foi um homem?

– Eu não sei, não quero ter uma linha de raciocínio tão rasa! Hoje em dia há mulheres com uma massa muscular bem mais alta do que muitos homens que fazem academia por aí.

– Sim, isso é. E nesse caso, você me descarta dos suspeitos, certo? Eu estava com Igor nesse momento. – As palavras do jovem me fizeram pensar novamente naquela planta. Eu queria comentar o que havia achado, mas se eu fizesse isso, Natan poderia se esquivar de todas as perguntas posteriores. Eu não queria isso, mas ele estava certo, e Igor confirmou isso, ele não participou na morte de Carlos, e como foi constatado que não fora suicídio, então ele não é o assassino (?)

– No momento, sim. Você não matou Carlos.

– Mas ainda acha que eu poderia ter matado Isabela ou Yago, né?

– Você seria o mais suspeito, se eu fosse alguém que possui um senso comum.

– Eu sei, eu sei. Fui o primeiro a encontrar o corpo dela, e estava perto da mesa quando Igor deixou sua arma, é aceitável desconfiarem de mim.

– Mas Isabela era o seu amor, e Yago um dos seus melhores amigos certo? Se não temos motivos para as mortes, então, temos pelo menos motivos para você não matar.

– Mas acho que a polícia não acreditaria em motivos sentimentais assim.

– Isso é fato. Porém, voltemos aos ‘motivos’. As cartas queriam mesmo passar a ideia de um demônio fazendo tudo aquilo? Isso é certo meu caro?

– Não foi o que você disse? É o mais óbvio!

– Mas então, quem seria A.G? Por que colocariam aquela assinatura? E você sentiu as indiretas nas cartas? Que pecados vocês cometeram? Aquilo era um aviso, e está aí, o nosso motivo!

– Acha então que foi por vingança? Quem cometeu os crimes, queriam se vingar de todos os ‘pecados’? Então, por que os três? Se aparentemente, todos ali tinham pecados.

– Isso me faz pensar que as mortes podem ter sido aleatórias, Natan. Poderia ter sido qualquer um! Qualquer um poderia ter tomado a bebida envenenada que a Amanda tomou. Qualquer um poderia estar no lugar do Yago na hora do tiro, qualquer um poderia ser a Isabela no galpão.

– Você pensa mesmo que então foi isso?

– Penso. E as cartas meio que confirmam isso. Se o assassino queria matar qualquer um, já que todos eram ‘culpados’, seria bem mais fácil do que escolher os alvos. Carlos era um cúmplice, mas ele não imaginava que Isabela iria morrer, aliás, se Isabela não estivesse morta, ele estaria vivo agora, ou não. Digo isso porque ele morreu apenas para ser calado. Ele pode ter ajudado o assassino com a carta e poderia ter ajudado o mesmo com mais planos futuros, mas depois da morte da Isabela, ele ficou louco, o assassino, com medo, teve que o silenciar. Quanto à Yago, bem, isso eu não sei! Se ele não é cúmplice nem nada, eu fico perdido. Como ele escreveu a carta? De toda forma, se descobrirmos o que é esse A.G, podemos chegar bem perto de uma grande pista.

– Eu descobrirei o que é A.G, eu acho que posso ter uma noção. – Naquele momento, me lembrei que Natan havia de me contar algo que havia ocultado da polícia, e antes que me esquecesse novamente, foquei na pauta.

– Aliás meu caro, você disse que tinha algo ‘único’ para me contar. O que seria? – O garoto se calou na minha frente, olhou para baixo, mas depois de algum tempo, se firmou, e foi dizendo:

– Eu sei quem escondeu as chaves dos carros, depois que Guilherme as guardou.

– Hm...e por que ocultou isso da polícia?

– Porque a pessoa que fez isso está no hospital agora.

– Amanda? Ora ora...

– Eu a vi, colocando as chaves dentro da mochila do Carlos. – Aquela informação me chocou. Eu não esperava por isso.

– Mas as chaves foram encontradas no banheiro depois! – Indaguei.

– E isso eu não sei como. Mas vi muito bem quando ela fez isso, quando voltamos do galpão, eu não sei como ela encontrou as chaves, ok que todos procuramos mas... eu não imagino muito menos, porque ela fez isso. Queria culpar Carlos? Ou se ela fez isso...

– Ela poderia ter colocado a corda, e também matado Carlos.

– E os outros...

– Natan, isso é muito importante. Você tem certeza de que viu isso mesmo? – Eu não conseguia acreditar no rapaz naquele momento. Tudo pela maldita planta que eu havia visto. Tudo poderia ser um blefe para livrá-lo.

– Eu juro. Podemos confirmar quando ela acordar, ela terá que confessar.

– E você acha que ela confessaria? E se envenenaria de propósito?

– Seria um bom método de se inocentar, não?

– Um ótimo método, eu concordo... – Depois de mais algumas perguntas, eu finalmente voltei para minha casa, com mais dúvidas em mente, e no dia seguinte, enquanto tinha um ótimo sonho com um rocambole de morango gelado, meu celular tocou me deixando bem frustrado.

– São 6:30 da manhã, Kennedy maldito.

– Você não quer ajuda? – A voz de Kennedy parecia eufórica. Aquilo me despertou completamente.

– O que vier é lucro.

– Então você precisa saber que nessa madrugada, Natan foi atacado em sua casa. Ele foi espancado e está no hospital agora. – Aquela notícia, não poderia deixar as coisas ainda mais confusas.