Prelúdio da Morte
15 Plano
Sentado em um banco do lado da cama de Raíza, Wellington parecia encarar o chão enquanto esperava a enfermeira medir a pressão da garota. Havia se passado uma semana desde que a menina tomara uma faca nas costas, por sorte, a lâmina não acertou nenhum ponto vital, e a garota já estava quase recuperada.
– Sabe, foi difícil pra poder entrar aqui. Eu sinto falta de quando era policial. – Dizia Wellington enquanto coçava sua barba, impaciente, ao ver a enfermeira se afastar enquanto o olhava com certo desprezo.
– Eu peço desculpas por isso, não queria ser uma celebridade nem nada haha. – Raíza por sua vez, parecia animada, ela ainda sentia dores, mas o pior já havia passado.
– Eu que peço desculpas por vir aqui te encher com mais perguntas, mas sabe que é necessário, ainda mais depois de tudo.
– Sim, eu entendo. Eu não pedi pra tomar uma facada, mas, enquanto eu estive aqui, o que aconteceu ‘lá fora’? – Raíza olhava para Wellington com uma expressão de preocupação, era aproximadamente 9 da noite, no dia seguinte, a garota teria alta, ou assim era o que esperava.
– Vou tentar resumir. Quando você apareceu toda ensanguentada aqui, logo pensei que era obra mesmo de um demônio. Primeiro Amanda, depois Natan, e então você. Todos da chácara estavam vindo pro hospital, isso me lembrou o filme Premonição, mas acho que não é o caso de vocês estarem fugindo da morte, porque você já estaria morta quando aquele suporte do soro caísse em seu pescoço movido por um acidente inusitado. – Raíza sorriu com a brincadeira mórbida de Wellington, era uma das únicas vezes que via a menina sorrindo. – Bom, naquela noite eu comecei a imaginar tudo que havia acontecido, até então. Tive uma conversa com Amanda, no dia seguinte, ela já estava conseguindo falar, aquilo foi um coma alcóolico e tanto, e pensar que jovens poderiam passar dos limites assim, haha. Enfim, Amanda não me contou nada relevante, ela confirmou o seu alcoolismo, e realmente, verificando novamente, não havia veneno no whisky que ela tomou, ao contrário do que imaginavam. Amanda não me contou muitos detalhes, ela parecia confusa e ainda com medo, acho que agora ela nunca mais vai tomar nem um copo de vinho. Ela saiu do hospital e já está bem, o mesmo vale pra Natan. Ele ficou por uma noite aqui, os ferimentos dele não eram tão graves quanto o seu, mas com ele a conversa foi mais longa. Natan me disse que foi atacado por um homem, mas essa história tem alguns furos, incluindo o modo como o agressor poderia ter entrado em sua casa. Sem contar outro detalhe. Guilherme e Phelipe foram presos por tráfico de drogas mas logo em seguida soltos, pois o irmão do Guilherme confessou que a droga era dele, os dois eram apenas usuários, mas ainda estão sendo investigados, o pai do Guilherme pagou a fiança para o mesmo, mas o irmão não teve a mesma sorte. – Raíza percebeu a pausa do detetive, e perguntou:
– Mas e o Phelipe?
– Bom, é isso que quero falar com você. – Raíza franziu os olhos ao ouvir o homem com o tom de voz um tanto suspeito.
– O que?
– Você se lembra de quem te atacou?
– Não, eu só vi que foi um homem, mas ele estava de capuz.
– Um capuz preto?
– Isso mesmo.
– Usava calça jeans?
– Como sabe disso?
– Ele te atacou em sua casa?
– Na frente dela, quando eu voltava.
– E isso fica perto de uma praça?
– Poucos metros.
– Viu Phelipe por lá quando voltava? Aliás, de onde voltava?
– Phelipe? Não! Por quê? O único que encontrei no caminho foi meu irmão, mas ninguém conhecido. Eu voltava do boliche, mas o que isso tem a ver?
– Quem te trouxe pro hospital?
– Isso tudo já contei antes pra polícia... – Raíza parecia repulsiva para com Wellington.
– Eu sei que a polícia veio aqui hoje cedo e já perguntou tudo isso, mas, eu não sou a polícia.
– Tá, tá, eu sei. Eu não sei quem me trouxe. Eu estava com a visão turva, eu não enxergava nada, a pessoa que me trouxe me deixou aqui e foi embora, segundo o que me contam.
– E por que diabos uma pessoa deixaria uma garota com uma facada nas costas no hospital e iria embora?
– Não sei, ela estava assustada? Pode ter sido alguém que queria ajudar, mas que sei lá, não queria se envolver.
– Ou pode ser que tenha sido o seu agressor.
– Eu já pensei nisso. Mas por que ele faria tal coisa?
– Por que ele não queria que você morresse (?)
– Então acha que ele só queria me assustar?
– Assim como fez com Natan. Mas não creio muito nisso.
– Crê no quê então?
– Eu ainda não tenho certeza, mas é muito estranho. Natan e você agredidos em poucas horas de diferença...
– A pessoa tem que ser bem burra pra se arriscar assim! – Raíza parecia inconformada.
– Não acho isso não. A pessoa que fez isso tem muita astúcia.
– Por que ela não matou de vez então, se tu diz que não foi só um susto que ela queria dar?
– Eu ainda estou pensando nisso, mas voltando ao Phelipe, ele está sendo investigado, como suspeito por ser o seu agressor. No momento do crime, ele estava na praça Rui Barbosa.
– Isso é verdade? A polícia não me contou isso!
– A polícia não te contará nada querida, por isso espero que confie e se abra mais comigo, eu já disse, não sou ‘a polícia’.
– Ok, ok, eu entendi. Mas confirmaram se foi ele?
– Revistaram a casa toda, mas não encontraram a faca nem nada, e aliás, tem algo bem paradoxal aí.
– O que seria?
– Supondo que quem lhe atacou, foi a mesma pessoa que lhe trouxe pro hospital, então, essa pessoa teria que ter carro, certo?
– Sim?
– O problema é que, das pessoas da chácara, só Guilherme e Amanda possuem carro, e Amanda estava no hospital na hora do ‘crime’.
– E o Guilherme onde estava naquele momento?
– Phelipe e ele dizem que estava em sua casa, mas pode ser que o Phelipe esteja encobrindo o amigo, eles são muito grudados, e se as suspeitas cessarem sobre Phelipe, os dois estariam livres.
– Mas não foram procurar na casa do Guilherme?
– O problema é que já foram. Sem facas, sem sangue, sem sangue no carro. Ok que ele pode ter se livrado de tudo mas... – Wellington fez uma pausa e balançou a cabeça negativamente.
– Por que está falando isso tudo pra mim? – Raíza parecia não entender toda espontaneidade do detetive para com ela.
– Eu me pergunto porquê também. – Wellington mentia. – Uma última questão minha jovem, quem das pessoas que estavam na chácara você menos gostava, ou digamos, com quem você menos se dava bem? – Raíza olhou Wellington com maus olhos depois dessa pergunta repentina.
– O quê? Como assim?
– Exatamente o que perguntei.
– Desconfia de mim?
– Pretendo perguntar isso pra todos.
– Todos que estava lá?
– Exato.
– Eu não sei qual a lógica disso! Meu Deus, cara, você acha que é um detetive mesmo? Pra mim tá mais pra um policial aposentado maluco querendo bancar de Poirot, mas ok, eu serei sincera, não tenho porque esconder, a pessoa que menos simpatizo dos que estavam lá é o Natan. – Wellington sorriu com a resposta da garota.
– Ora ora, então é isso. Não perguntarei os motivos, mas, quem você acha que seria a pessoa de lá também, que João, seu irmão, menos gostava? – Raíza parecia ter ficado com dó de Wellington, e depois de uma longa bufada, respondeu.
– Meu irmão é um livro aberto, ele odiava o Carlos, acho que porque ele tirava o seu destaque. Mas é isso?
– Sim, isso era tudo. Muito obrigado por seu tempo Raíza. Agora preciso me retirar, e ah, parabéns pela alta, e eu deixo aqui esse convite pra você, e espero que compareça. – Wellington retirou um papel do seu paletó e entregou para Raíza, a garota o abriu rapidamente, e nele continha um endereço e um horário, e esse endereço, para espanto da menina, era da chácara onde tudo aconteceu.
– Você tá me zoando? – A garota parecia sorrir enquanto estava internamente furiosa.
– Por que estaria? Isso é sério, quero que todos compareçam lá, eu preciso verificar uma coisa, se você não for, as suspeitas recairão sobre ti, e o mesmo vale para outros que se ausentarem, bem, se me permite. – Wellington fez um cumprimento com a cabeça e se retirou do quarto do hospital, deixando Raíza com um olhar furioso.
A próxima pessoa que o detetive visitou, mais uma vez, era Natan. Depois de ter ouvido muito da mãe do garoto, Wellington finalmente se encontrou sozinho com o jovem, que já estava recuperado do suposto espancamento.
Wellington fez a mesma pergunta que fizera à Raíza, e a resposta de Natan foi Phelipe, o detetive também questionou sobre quem Natan imaginava ser a pessoa que Raíza menos gostava dos integrantes da chácara, contando com os que foram mortos, e sua resposta foi Amanda.
O homem prosseguiu para o próximo suspeito, João. A resposta de quem o rapaz não gostava foi a mesma que a que Raíza havia dado, Carlos, e quando Wellington perguntou sobre quem ele achava que Natan não gostava, João respondeu Carlos também.
Seguidamente, o rapaz foi até a casa de Amanda, a mesma foi bem objetiva e respondeu João na primeira pergunta, e quando Wellington perguntou a provável pessoa de quem Yago não gostava, ela disse João.
A próxima parada foi a casa de Bianca, e o homem deu sorte pois Julianna se encontrava nela. Bianca respondeu Amanda para a primeira pergunta, e quando Wellington questionou sobre Isabela, ela respondeu Guilherme. A resposta de Julianna foi igual, exceto para segunda pergunta, quando questionada de quem a própria Amanda desgostava, Julianna respondeu que era dela mesma.
Kelly havia respondido Isabela para a primeira pergunta, e quando questionada sobre quem Julianna não gostava, ela respondeu João. Para Phelipe, a resposta um fora de Natan, e a resposta sobre quem Bianca não gostava, foi a de Isabela, surpreendentemente. Com Guilherme, a pessoa que o mesmo desgostava era Raíza, já a pessoa que Kelly não gostava, ela respondeu Isabela. Todos ficaram confusos com as perguntas de Wellington, mas finalmente, depois de um longo dia, e depois de ter entregado a mesma carta que entregou à Raíza para todos, ele se sentou em sua poltrona com um caderno de anotações com uma folha com tais escritas:
Guilherme não gostava de Raíza, e segundo ele, Kelly não gostava de Isabela.
Phelipe não gostava de Natan, e segundo ele, Bianca não gostava de Isabela.
Kelly não gostava de Isabela, e segundo ela, Julianna não gostava de João.
Bianca não gostava de Amanda, e segundo ela, Isabela não gostava de Guilherme.
Julianna não gostava de Amanda, e segundo ela, Amanda não gostava dela mesma.
João não gostava de Carlos, e segundo ele, Natan também não gostava de Carlos.
Natan não gostava de Phelipe, e segundo ele, Raíza não gostava de Amanda.
Raíza não gostava de Natan, e segundo ela, João não gostava de Carlos.
Amanda não gostava de João, e segundo ela, Yago não gostava de João também.
Soma:
Mais Odiados:
João: 3 votos (Amanda, Yago¹, Julianna¹)
Carlos: 2 votos (João², Natan¹)
Isabela: 2 votos (Kelly², Bianca)
Natan: 2 votos (Raíza, Phelipe)
Amanda: 3 votos (Bianca, Julianna, Raíza¹)
Raíza: 1 voto (Guilherme)
Guilherme: 1 voto (Isabela¹)
Juliana:1 voto (Amanda¹)
Phelipe: 1 voto (Natan)
Pessoas sem votos: Bianca, Yago e Kelly.
Legenda:
Nomes sem potências: Votos diretos das pessoas.
Nomes com potência ¹: Votos de pessoas que achavam outras não gostarem.
Nomes com potência ²: Votos que coincidem entre pessoas que achavam e votos diretos.
– Entendo. – Wellington fechou o caderno e ajeitou o óculos em seu rosto. – Não tem como dar errado.
Fale com o autor