Prelúdio da Morte

16 Análise de Wellington Parte I


Finalmente, era o dia esperado. Meu plano havia seguido com sucesso até o momento, porém, ainda faltavam alguns pequenos detalhes. A polícia já tinha quase certeza de que Phelipe era o culpado, mas eu não. Não que eu queira discordar dos métodos policiais, afinal, a alguns meses atrás, eu fazia parte dos ‘homens da lei’, onde a verdade dita deve ser absoluta, mas tomei um rumo solitário e frio, tentando enxergar tudo com olhos diferentes dos quais eles veem o horizonte, sou o rato que entra no esgoto pra fazer o trabalho sujo, e nesse momento era o que precisava fazer.

Por que me chamou aqui? – Kennedy tragava o seu cigarro que sinceramente, nunca vi um odor tão horrível, ok que todos os cigarros eram péssimos, mas aquele parecia tão forte e ruim que estava quase retirando-o de sua boca e me arrependendo de tê-lo chamado.

– Quero que analise algo que fiz. – Peguei a pequena cartolina que estava embaixo do meu braço esquerdo e entreguei para Kennedy. Estávamos mais uma vez naquele café vazio, mas nesse dia, Raíza não estava por lá, nem as dúvidas que eu tinha semanas atrás.

– O que diabos é isso? A linha da evolução da história? Quer me dar aulas agora? – Kennedy dava de ombros para o que havia visto. Em sua frente, eu havia feito uma linha do tempo de todos os acontecimentos envolvendo aqueles jovens, até então. A mídia já estava quase esquecendo o caso, havia sempre, todos os dias, algo importante, ainda mais na maior cidade do interior paulista. Mas eu não esquecera tão rápido, aquilo já era quase questão de honra, afinal, se eu deixasse de lado, minha ‘promissora’ e inicial carreira como detetive seria motivo de chacota.

A linha do tempo estava organizada dessa maneira:

Evento número 0: O churrasco.

Aparentemente, Julianna reuniu seus ‘melhores’ amigos para realizar um churrasco para sua despedida, já que a garota ia para o exterior. Ela chamou apenas os mais chegados, e amigos desses mais chegados. Era pra ser um churrasco pequeno com doze pessoas no máximo, e eu me pergunto, por que tão pouco? Julianna é uma pessoa de classe média alta, assim como a maioria desses estudantes de direito, suas famílias são bem de vida, e durante esse período investigando, pude constar que eles possuíam famílias com um bom poder aquisitivo, além de terem vários amigos em todas as turmas de direito, então por que somente 12 pessoas? Julianna mesmo tinha muitas outras amigas, um fato isolado que ocorrera naquele mesmo dia, um festival de música eletrônica, que fizeram com que alguns convidados recusassem automaticamente o convite. Quando conversei com Julianna, a provável lista continha 22 nomes, mas no final, só 12 compareceram. Supõe-se, depois de tudo, que esse crime era premediado, dadas todas as circunstâncias, então, o culpado, deveria saber desse churrasco pelo menos uma semana antes para planejar tudo, então, na certa ele devia conhecer Julianna muito bem. Mas ainda em um diálogo com a garota, descobri que todos os jovens organizaram o churrasco 4 dias antes do mesmo acontecer, não digo que seja uma regra o assassino ter que saber uma semana antes o evento, mas o fato é que Julianna divulgou o local 3 dias antes, a única pessoa que sabia bem de antemão, eram Isabela e Bianca.

Evento 1: As cartas. – As cartas são eventos de extrema importância no cenário, diria que os mais importantes. Cartas ameaçadoras e de alguém que busca vingança. Ainda não descobrimos o que significa A.G, tudo que se sabe é que elas foram escritas de antemão também, exceto a de Yago, que segundo as análises da tinta, fora feita no dia dos crimes. Conclui-se que Yago fora ameaçado para escrever essa carta, minutos antes dele ser assassinado, ou talvez, isso tenha sido uma ameaça para mantê-lo vivo, ou ele era, assim como Carlos, um cúmplice. Falando de Carlos, o mesmo havia escrito a carta exatamente 5 dias antes de tudo acontecer, e é aí que chego à conclusão de que o assassino sabia bem antes, do churrasco. Mas como ele poderia saber se somente Bianca e Isabela tinham conhecimento? Carlos certamente não é o culpado, um cúmplice, é quase 100% de certeza, e mesmo investigando sua casa, família e amigos, nada fora constatado. As únicas pessoas que Carlos tinha contato fora da faculdade eram Phelipe e Guilherme, seus únicos amigos. O garoto era mesmo odiado por muitos, e ninguém nunca o via conversando com outras pessoas se não flertando garotas de outros cursos. Julianna estava em sua classe e sentava do lado do mesmo, eles trocavam conversas aleatórias, e já que ela chamou Guilherme que era um dos seus melhores amigos de infância, se sentiu na obrigação de chamar Carlos. Se Carlos escreveu a carta cinco dias antes, ele tinha de ter conhecimento do churrasco, e isso era fato, não do churrasco em específico, mas de um evento reunindo algumas pessoas.

E o que falar da carta achada no banheiro? Esse é o relato de Phelipe, mas ou ele está mentindo, ou Natan está mentindo, pois depois que Natan saiu do banheiro e não achou nada, Phelipe relatou ter encontrado a carta, sendo assim, Natan teria que tê-la visto, ou não, não há como confirmar se uma pessoa pode enxergar um objetivo visível sua frente, ainda mais em momentos angustiantes e de medo, mas é algo a se questionar, sobre o relato de Phelipe.

A última carta fora escrita por alguém que não fazia parte das 12 pessoas na chácara, e isso é o que mais me intriga. Havia alguém por fora participando? Ou o culpado sabia mudar sua letra muito bem? A polícia analisou várias e várias vezes a caligrafia de todos eles, e o resultado foi negativo. Descartasse absolutamente que a carta seja de algum dos sobreviventes, exceto por Carlos, Isabela e Yago, que não puderam ser testados por motivos óbvios. Pegando as anotações dos três, a letra não pareceu semelhante, mas as pessoas podem mudar de caligrafia quando querem, alguns tem habilidade pra isso, e uma dessas pessoas, era Isabela. Nos cadernos do ensino médio da menina, haviam várias letras diferentes, os pais da garota confirmaram que ela mudava sua letra em várias fases da vida, além da mesma ser ambidestra.

Há o fato também da primeira carta no galpão, onde não haveria possibilidade de ninguém tê-la colocado lá depois de Isabela ter morrido, ou seja, a carta estava lá bem antes, e só foi achada por Igor porque ele adentrou à fundo no galpão, e se a carta fora colocada bem antes, significa que alguém esteve lá antes, mas a única pessoa que esteve lá era Isabela e Natan, que ninguém o viu lá quando achou Isabela, então poderia ser plausível que o mesmo possa ter colocado a carta nesse momento, ou então Julianna, Bianca e Guilherme, que foram no dia anterior vistoriar e dar uma breve limpada na chácara, mas todos os três relataram que não viram ninguém entrando no galpão naquele dia.

Mesmo com isso, não podemos tirar provas de um morto, daí então, partimos para os motivos do porquê das cartas. Analisamos todos os alunos de direito, nenhum deles tinha nomes associados com A.G, exceto uma garota do terceiro ano chamada Amanda Gallo, mas a mesma comprovou que não teve participação alguma em nada com vários álibis. O que seria A.G? Alguma abreviatura? Eu comecei a pensar na hipótese de que aquelas cartas não eram nada mais do que uma distração. Perdemos tempo demais com aquilo.

Evento 03: A Morte de Isabela. – A morte de Isabela, em minha opinião, foi o alavanque de tudo, era algo esperado, apesar de no começo achar que fora aleatório, dado a participação de Carlos, que a amava. Mas quem confirma mesmo que ele a amava? O rapaz era um mulherengo nato, ele devia ir atrás de várias, e agia com todas, assim como agia com Isabela, demonstrando estar apaixonado, pois a maioria das garotas apreciam essa atitude. Não se pode afirmar que ele a amava ao ponto de não conseguir vê-la morta, por mais que alguns achem que sua morte tem a ver com a da Isabela, não é o que penso. Carlos sabia da morte de Isabela, e ele não estava nem aí. Voltando ao óbito, a garota morreu em um lugar bem incomum. Um galpão velho e abandonado, cheio de porcarias e mofo, e Isabela, como todos conheciam, era uma garota delicada e até mesmo ‘fresca’ no dialeto popular, então, o que uma garota assim faria sozinha em um lugar desses? Supõe-se que alguém tenha chamado a mesma no local, mas, pra quê? Os únicos com motivos pra isso eram Natan e supostamente Carlos. De que outra forma Isabela aceitaria ir com uma pessoa a sós em um lugar daqueles? Não é algo impossível, mas não muito provável. Sendo assim, não há também como provar nada nesse caso, visto que, poderíamos supor que Amanda tenha chamado Isabela para lá para contar um segredo, sem que ninguém esteja por perto, ou até mesmo Kelly, que se encontrava chorando metros de onde a garota foi assassinada.

Evento 04: Chaves Desaparecidas – Depois da morte de Isabela, todos se reuniram para tomar providências, eu imagino que não era um momento onde todos estavam raciocinando, mas a atitude de não ligar diretamente da polícia foi um tanto quanto suspeita, alguns, segundo relatos, queriam ligar, já outros eram contra, assim como Guilherme que escondeu as chaves dos carros para que ninguém pudesse sair. Esconder as chaves do carro é no mínimo intrigante, o que todos fariam em uma situação daquelas era ir embora imediatamente, ainda mais Guilherme, que não tinha motivos para se vingar de Isabela que não era lá sua amiga, então, por que ele tomou essa atitude? Tudo bem que estava drogado, fora de si, mas ainda assim, isso o coloca na grade de suspeitos, assim como Julianna, que ligou para o seu pai ao invés de ligar na central policial, e a atitude de Igor foi um tanto descuidada, se bem que no lugar dele, para apartar uma suposta briga de adolescentes, eu mandaria no mínimo dois policiais, dos mais novatos, então não o culpo. Guilherme mais tarde disse que escondeu as chaves na calha atrás do banheiro, mas futuramente, quando todos foram procura-las, não estavam mais lá. Guilherme jura que não mexeu mais no local depois das chaves terem sido escondidas por si mesmo, então, como alguém poderia saber onde as chaves estavam sendo que ele colocou em um lugar bem estratégico? A calha atrás do banheiro ficava em um corredor estreito, onde poucos eram capazes de se locomover, por exemplo, Yago que era mais gordinho, não conseguiria fazer isso. No final as chaves foram encontradas, em um lugar aleatório. Guilherme estaria mentindo ou alguém encontrou as chaves e escondeu consigo?

Evento 05: A morte de Carlos – Um dos eventos mais intrigantes, a morte de Carlos é 99% dita como assassinato, visto as marcas em seu pescoço da corda sendo puxada para trás, mas há muitas contradições nisso tudo. Todos, exceto Natan e Igor, estava lá fora, procurando sinal em seus celulares, antes de Carlos morrer. Quem matou Carlos foi rápido e perspicaz, alguém que ele conhecia, e que ele confiava, só assim para que Carlos fosse pego por trás em um ponto cego. A corda fora colocada em sua mochila pelo assassino que apenas queria silenciá-lo, ele não trazia consigo traços suicidas, por mais que no início essa tenha sido uma possibilidade. No pescoço do garoto havia uma marca com o A.G, que fora feita por um canivete que foi achado no dia seguinte metros de onde o jovem foi executado, mas sem digitais. Isso comprova que ele não pode ter se matado, mas nos faz pensar se uma mulher poderia mesmo ter feito isso com um garoto saudável que fazia academia.

Evento 06: A morte de Yago – Uma morte incoerente. Se minha teoria for correta, não seria muito, seria um dos motivos principais da chacina. Mas os meios como ele foi morto é o que é mais estranho. Todos estavam na sala principal da casa da chácara debatendo o que fariam, os celulares de todos estavam sem sinal, ainda à procura das chaves, eles tentavam entrar em um acordo com a chuva forte caindo lá fora. A chuva fez com que um blecaute ocorresse, e com isso, Igor deixou sua arma em cima da mesma (sua segunda negligência) e partiu para fora para tentar trazer a energia elétrica de volta, e com isso, alguém dos jovens pegou a arma e atirou em Yago. Antes pensava que essa pessoa estava atirando no escuro e queria matar qualquer um, mas analisando tudo que tenho ‘visto’ nesses últimos dias, tudo me faz pensar que Yago era mesmo uma vítima certa, ainda mais, por ter escrito a segunda carta, que fora achada perto do seu corpo. No meio do escuro, ninguém conseguiu enxergar nada, mas a pessoa sabia que havia um revólver em cima da mesa, e essa pessoa sabia usar uma arma para dar um tiro tão preciso. Há algo de muito errado aí. Algo mais estranho envolta da morte do jovem foi o sumiço do seu corpo, quando todos voltaram da caminhada para tentar sair dali. Não havia ninguém lá, então quem poderia ter jogado o corpo do garoto na represa que fica a alguns metros da casa? Desde que nasceu morreu, todos os jovens não entraram mais naquela sala onde estava o seu corpo, então como? Havia mais alguma pessoa? Os policiais não conseguiram encontrar ninguém nas redondezas, o que me faz pensar que quando Phelipe, supostamente, fugiu de lá, ele pode ter entrado na sala, pegado o corpo de Yago, jogado no rio e depois Igor o encontrou no processo? Mas por que Phelipe faria isso? Algo que me faz questionar sobre a carta escrita por Yago: Por que Yago escreveria algo assim, não sendo um cúmplice, e ficando calado depois? Oras, eram várias pessoas contra um assassino. Carlos estava morto até então, Yago não tinha motivos para temer, se ele fosse o rapaz que diziam ser, ele certamente faria algo a respeito, ninguém podia ameaça-lo dessa maneira, mas é 100% comprovado que a carta foi escrita por ele, então como? Poderia ser que ele escreveu isso na beira da morte? Por exemplo, supõe-se que ele não morreu mesmo quando foi baleado, estava só inconsciente, esperando a morte. Todos ficaram aterrorizados pensando que ele estava morto, mas nem se quer mexeram no corpo, apenas deixaram o garoto jogado na parede, tanto que a perícia médica constatou que nenhum órgão vital foi atingido, ele morreu por perda de sangue. Poderia o assassino ter ameaçado Yago para escrever a carta quando ele estava morrendo, em troca de não mata-lo de uma vez? A letra estava bem bagunçada, era de Yago, mas normalmente ele não escrevia daquela maneira, o que me faz pensar que isso pode ser verídico. O problema é como seu corpo foi movido mesmo dali, ainda mais, sem deixar rastros de sangue. –

Naquele momento, Kennedy começou a ficar atento e interessado, ele ouvia minha explicação, esperando pelo restante dos eventos daquela linha do tempo.