Prelúdio da Morte
5 Na Dúvida, Atire
Era quase impossível com que Carlos tivesse sido morto por alguém. Aquilo tudo era muito estranho, eu me sentia em um tabuleiro de xadrez, sendo uma peça que apenas observava as outras caírem, uma a uma. Como fui parar ali? A chuva não dava tréguas, parecia propícia para o momento, e enquanto Igor começou a ler a cantar com um olhar descrente, eu olhava, agora, sem medo ou aflição, para o corpo morto de Carlos, e aquele sinal de A.G em seu pescoço. Aquilo estava lá antes? Era algum tipo de assinatura? A leitura de Igor começaria a me responder.
– “Caros colegas futuros advogados, ou será mesmo que esse futuro vai chegar? Eu não, eu não daria certeza de nada nesse momento, afinal, vocês quebraram a regra mais importante, agora o futuro está nebuloso, será que haverá escapatória? Ninguém que entrou no inferno conseguiu sair, e isso eu falo com convicção, já senti as chamas percorrendo meu carne e defumando minha carne, o odor de podridão invadia minhas narinas, mesmo assim eu não morria. Eu tentei de várias maneiras me libertar, e a cada dia preso naquele caos, notava que não me deixavam partir. Agora sou o medo, o medo dentro dos seus corações, sou uma lenda que não terá fim, até que todo sangue necessário seja derramado. Purgai-vos da tentação, que caíste sobre o cálice que estenderam em minha mão, mas que se deteriorou antes da conclusão. Eu sou agora o demônio dentro de cada um, a besta louca por sangue, então me façam o favor, poderiam me proporcionar um bom show? Nenhum de vocês tem como fugir, nenhum de vocês tem como pagar seus pecados.” – AG.– Isso é mentira, certo? – O que eu acabava de ouvir da boca de Igor me fez rir internamente, apesar de estar tremendo por fora. Aquela carta parecia uma piada de mal gosto, mas devido ao contexto impregnado naquela maldita chácara, não podia crer que ela não fosse se não, real. – Eu não quis contar a ninguém porque de início pareceu uma brincadeira sem graça, uma bobagem, e todos iriam entrar em mais pânico ainda, mas agora que vi isso no pescoço do Carlos, lembrei da assinatura dessa carta. Quem é A.G? A única aqui que começa com A, é a Amanda, certo? – Igor guardou novamente a carta em seu paletó, ele parecia ofegante, mesmo sem se mexer.– Fez certo, acho que isso iria deixar todos com a cabeça mexida. A Amanda se chama Amanda Cardoso, não tem G no nome dela, e duvido que o assassino deixaria suas iniciais pra ser pego, sendo que só tem ela com A aqui. – E então, o que você acha? Quem pode ter feito essa carta? Com certeza foi quem matou Isabela. Mas essa carta parecia estar lá antes da Isabela entrar, não? Quer dizer, você foi o único a entrar no galpão, tirando a Kelly certo? Depois disso, pelo que você disse, você o trancou e ninguém mais entrou, tirando eu naquele momento, ou seja, a pessoa que matou a Isabela, já planejava isso antes! – Igor começou a ter um forte vislumbre de luz em sua frente.– De fato, quando achei o corpo ninguém entrou, as pessoas não poderiam ter jogado a carta, se não, eu teria visto. E eu tranquei o galpão até você chegar, ninguém mais pode ter colocado a carta, considerando que lá não tem janelas, e nem por baixo da porta dá pra jogar. Essa carta estava lá antes, isso é quase certeza, então a pessoa já planejava isso? Quer dizer que ela pôde ter chamado a Isabela pra lá? – Comecei a ficar com mais ódio em meu coração, eis que me deparei com algo que poderia ser uma chance. – O que foi? Lembrou de alguma coisa? – Perguntou Igor.– Poderia me deixar ver a carta?– Claro. – Igor a retirou do seu paletó novamente e entregou em minhas mãos. A árvore que serviu de apoio para a morte de Carlos também nos protegia um pouco da chuva, mesmo assim cobri bem o papel para que não se molhasse, aquilo poderia e ERA uma evidência importante.– Você ainda não percebeu?– O quê? – Igor parecia ansioso por minha resposta.– Essa carta foi escrita à mão! Se foi alguém daqui... – Igor já entendeu onde eu queria chegar.– Podemos achar o assassino com isso? De fato é uma caligrafia estranha e diferente, mas se pedíssemos pra todos escreverem esse mesmo texto em um papel para compararmos, o assassino já iria se tocar e fazer uma letra diferente. – Concluiu Igor, enquanto eu já estava preparado para refutar tal hipótese.– Sim, ao menos que já tenhamos a letra de todos em um papel. – O quê? Mas aqui?– Aqui. Julianna é a responsável direta por essa...er, festa, então ela coletou os nomes de cada um em um caderno, pra saber quem viria. Se não me engano é a agenda que ela sempre usa, e pelo que vi, está com ela por aqui. – Mas acha que poderíamos identificar só pelo nome?– Certamente, olha pra essa letra! – A letra em questão era uma caligrafia bastão, o que era raro de se usar. – Então com isso podemos estar perto... Vamos voltar pra lá e ver isso imediatamente! – Depois que Igor proferiu tais palavras, um barulho foi ouvido atrás da churrasqueira. Meu coração acelerou instintivamente, e com o timing do som, Igor pegou seu revólver e deu a volta por trás, se deparando com Yago.– O que diabos?– Calma cara abaixa isso aí po! Eu só estava aqui porque me pediram... – Yago estava aflito, seus olhos arregalados e seu corpo encharcado pela água faziam o parecer uma figura estranha.– Como assim? Quem pediu? – Perguntou Igor enquanto meu susto passava. – O pessoal oras, eles queriam ver o que vocês estavam conversando. – E você sabe da carta então? – Perguntei.– Sei...E acho que deveríamos agora mesmo comparar as letras, eu não tenho letra bastão então to de boa. – O surgimento de Yago por ali era bem suspeito. Ele não era o tipo de pessoa que faria isso, achei bem anormal. Voltando para dentro da casa, eu expliquei a situação para todos e pedi para Julianna sua agenda. A garota felizmente estava com ela dentro da bolsa, e continha a assinatura de todos ali.
– Ei ei ei, calma ae, por que tá segurando o revólver? – Phelipe se afastava de Igor ao vê-lo com a arma em sua mão. – Isso é o combinado. Acharemos o suposto assassino ao olhar essa agenda, então eu estou prevenindo que ele não corra ou faça alguma graça, pois obviamente é alguém daqui. – Naquele momento, todos ficaram gélidos.– Que absurdo! Comparar letras pra achar quem matou a Isa e o Carlos? As pessoas tem letras iguais, sabia? – Amanda não se conformava com o que lhe fora imposto, e eu não tiraria a razão dela, se a letra na carta não fosse tão peculiar.– Amanda, a letra na carta é diferente, dificilmente alguém teria igual. – Antes que eu pudesse explicar, Yago fez isso por mim, o rapaz parecia calmo e sublime como sempre, novamente. Antes de tudo, Igor havia lido a carta e explicado tudo para o restante, que não conseguiu acreditar.– Tudo bem então? Quero que todos se afastem, fiquem sentados enquanto eu e Natan analisamos isso. – Todos ainda pareciam desconfortáveis com aquela ideia, mas sem escolhas, obedeceram Igor que junto de mim, começou a comparar as letras. Começamos por todas as pessoas que estavam ali. A letra da Amanda era uma letra bem linda, nada a ver com o que estava na carta. Seguimos por Bianca, Julianna, Kelly e Raíza. As garotas estavam descartadas, como já previmos. Aquela letra era de homem com certeza, eu sei porque sou um e já vi várias garotas escrevendo. Fomos para Yago, que realmente não tinha a letra bastão. O próximo foi Phelipe, que conseguia ter a letra pior que a da carta, e em seguida eu, que possuía a letra bem grande, Guilherme, que fazia garranchos ao escrever, João foi o último da nossa análise, e surpreendentemente, constamos que ninguém dali, tinha a letra igual da carta.– O que foi? Não acharam? – Perguntava Julianna se levantando com o olhar bem tenso. Olhei para Igor, e olhei para todos que estavam sentados na sala, voltando a olhar para Igor novamente.– Não é de ninguém aqui, pelo visto. – Quando falei isso, Guilherme já se levantou. – Porra, que ingenuidade! A pessoa que escreveu a carta não faria com a letra igual, vocês são trouxas? – Bianca pegou a carta e a agenda, sem ao menos pedir, e começou a analisar. – Viu? Não é de ninguém, todo mundo aqui tem a letra muito diferente da que foi escrita. Talvez Guilherme tenha razão... – Antes de dizer mais alguma coisa, Bianca me olhou com a face coberta de espanto.– O que foi? – Perguntei.– A pessoa está aqui nessa lista, sim. – “MAS O QUE?” – Rapidamente me aproximei da menina tentando entender onde ela queria chegar. – Onde? – Bianca apontou o dedo nas letras da carta, e em seguida, na assinatura de nada mais nada menos do que Carlos.– Carlos!? – Eu quase gritei seu nome, quando todos se espantaram.– Como assim? Isso é sério!? – Kelly parecia a mais surpresa do local. Todos se reuniram em volta da agenda e da carta e era quase que 100% de comprovação que a assinatura dele, batia com as letras da carta.– Então foi isso? Carlos matou a Isabela e se matou. Aquele cara sempre me pareceu doente, mas agora é certeza. – João parecia aliviado, mesmo com duas mortes sob seu nariz. – Não...não faz sentido... – Carlos não mataria Isabela, disso eu sei. Ele era uma pessoa arrogante e egoísta, mas não um assassino. E mais, ele era mulherengo e jamais faria mal algum para uma mulher, ele até as defendia, ao menos era essa sua fama.– Acho que é isso mesmo. – Concluiu Igor. – Essa carta e assinatura explicam tudo já. – Com as palavras do policial, um forte clarão foi visto no fundo, um relâmpago violento que foi ouvido por todos, fez com que a energia da casa acabasse. Era por volta de 18:05, e devido à chuva, a escuridão predominava. – Pessoal? Todos se acalmem, vamos iluminar tudo com os celulares. – Acendi meu celular ao ouvir o desespero de todos ali, afinal, quem não ficaria com medo, no escuro, depois de duas pessoas morrerem. Dois colegas de curso.– Porra que caralho, eu quase enfartei. – A primeira pessoa que vi foi Phelipe que também segurava seu celular.– Eu vou lá fora ver o gerador, tem um aqui certo? Ao menos a caixa de energia? – Igor abriu a porta e saiu correndo para atrás da casa tentar religar a eletricidade, mas segundos depois que o mesmo saiu, eis que um estrondo foi ouvido novamente. De início, pensei que era outro relâmpago forte, mas eu já estava atordoado com tudo que estava acontecendo por ali, quanto percebi o cheiro de pólvora. Logo raciocinei corretamente. Aquilo era um tiro!– AAAAAAAAAAAAAAH! – Eu ouvi o grito de Amanda, as pessoas começaram a se jogar uma para cima da outra meio a escuridão, todos queriam sair para fora, até que, em um flash, a energia havia voltado.– Cacete, o que foi isso? Eu to surdo! – João colocava as mãos em seus ouvidos.– Pessoal... – Julianna olhava para o canto esquerdo da sala enquanto suas pernas tremiam e ela caía de joelhos no chão. Percebi que não queria olhar naquela direção, mas com o berro de Kelly, não tive escolhas. Meus olhos foram tomados mais uma vez por uma visão infernal. O corpo de Yago estava encostado na parede com um buraco em seu peito que derramava sangue como uma cachoeira. O revólver de Igor estava posto em cima da mesa, deixado ali pelo mesmo, enquanto fumava saía de seu cano. Todos estavam dentro da sala, com exceção de Igor.
Notas finais
Mortos:
Isabela
Carlos
Yago
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