O que estava acontecendo ali? Por um momento pensei que estávamos todos mortos, e aquilo era apenas o purgatório. Estamos sendo castigados por alguma coisa que fizemos? Eu não me lembro de ter sido alguém tão mal no passado, eu bati em algumas pessoas e menti diversas vezes, mas nada que me fizesse merecer isso. Eram três mortes já, três colegas que foram mortos impiedosamente. Por que ainda estávamos ali? Aquela chuva, uma chácara distante da cidade, era uma grande coincidência, eu já pensei que aquilo tudo foi proposital, meu cérebro se negava a acreditar que uma tragédia dessas fosse acontecer.

Quando todos viram o corpo de Yago encostado na parede, imediatamente saíram da casa. Ninguém mais aguentava ver sangue.

– Ei, não tá acontecendo né? Diz que isso é mentira. – João, o que se mostrava mais estressado e eufórico das pessoas ali, dessa vez tremia e chorava, ele e arrastava pelas paredes por não conseguir andar.

– CHAMEM LOGO A POLÍCIA PORRA! – Bianca gritava enquanto tentava correr para fora da chácara, mas era impedida por Julianna.

– Calma, alguém deu um tiro no Yago, e pode ser o Igor! – Julianna olhava atentamente tentando procurar o suposto policial. De certa forma eu também o considerava suspeito naquele momento, até que o mesmo voltou correndo do outro lado da casa, sem saber o que havia acontecido.

– Foi você filho da puta? É você? – Guilherme encara o policial com certo medo, seus punhos fechados e lábios cerrados já diziam sua vontade.

– O que foi? Alguém usou meu revólver? O que porra aconteceu aqui? – Igor estava todo molhado devido à chuva que não dava trégua, pelo contrário, começava a chover mais forte naquele momento, uma chuva com vento que não perdoava as pobres almas já atormentadas presas naquele círculo do medo.

– Você deixou ele em cima da mesa ao sair? Por quê fez isso? – Perguntei enquanto ainda tentava fazer passar a ânsia de vômito ao ver Yago morto. Um dos meus melhores amigos.

– Eu saí correndo pra fazer com que a energia voltasse! Eu estava com o revólver nas mãos naquele momento, todos viram. Eu deixei em cima da mesa pensando que seria mais eficiente, sem levá-lo... – Enquanto falava, Igor se aproximou da sala principal da casa, e antes de entrar completamente, bateu o olho no corpo de Yago e balançou a cabeça negativamente olhando espantado para todos ali. – O que tá acontecendo aqui?

– EU QUE PERGUNTO! – Amanda se abraçava com Kelly, as duas estavam assustadas demais para se quer ficarem em pé.

– Juro por Deus que não fico mais um segundo se quer nessa merda! Vou de a pé mesmo, aliás, todos deveriam fazer isso. – Raíza puxava seu irmão para junto dela, tentando leva-lo consigo.

– São 90 km! Com essa chuva, acha mesmo que chegarão até a cidade? Aliás, vocês estão brincando comigo, né? Eu saí por alguns minutos! Como alguém pegou minha porra de arma e atirou em outra pessoa, sendo que estava um breu só? – O que Igor dizia era real, como aquilo foi possível? No momento eu não estava em condições de raciocinar. Ninguém estava.

– Certo, vamos aos fatos. – Tentei respirar fundo, pois percebi que ninguém ali poderia fazer nada, todos estavam apáticos e sem reação. – Estávamos todos na sala, com exceção de você, Igor. Ao contrário do que disse, não estava um breu, algumas pessoas estavam clareando o local com o celular, como eu. Você disse que antes de sair deixou a arma em cima da mesa, mas a pergunta é, no escuro, como alguém saberia que você deixou a arma em cima da mesa sendo que fez isso, já no escuro? Quando você saiu, se passaram poucos segundos até o disparo, no máximo dois minutos. Como a pessoa sabia disso? Ela clareou a mesa? E deveria ser alguém que estava perto da mesa.

– Eu discordo. Poderia ser alguém que estava longe. A pessoa poderia estar clareando o local, ela viu a arma em cima da mesa e sabia onde Yago estava, pois pelo que lembro, ele ficou encostado naquele mesmo local desde que entrou. A pessoa pode ter pego a arma, atirado, colocado a arma na mesa e voltado para o seu ‘lugar’. – Julianna, incrivelmente, se mostrou totalmente fria ao proferir aquelas palavras.

– Isso não é o mais importante, como alguém poderia fazer isso? Por que estão matando todo mundo? – Kelly se levantava, seus olhos inchados agora estavam já secos.

– A pessoa que fez isso matou Isabela e Carlos, não é alguém qualquer, é alguém preparado, alguém que planejou tudo e está pronta pra se sujar de sangue. – Igor pegou sua arma novamente verificando-a.

– Mas não foi o Carlos que escreveu a carta? Todos constamos isso! – Raíza tocava em um ponto que eu queria retomar.

– A letra era dele mesmo... como isso? Será que ele está morto mesmo? – Perguntou Guilherme.

– Não duvide da perícia de um policial moleque, ele está totalmente morto. – Igor tentava desesperadamente contatar a polícia para pedir ajudar, mas ainda não conseguia.

– Considerem isso então... A carta foi mesmo escrita por Carlos, ele matou Isabela, e então alguém o matou, a pessoa que ele trabalhava junto. – A constatação de Bianca, que já tinha se acalmado, deixou todos ali ansiosos.

– Acha então que Carlos tinha um cúmplice, e por medo de Carlos o trair, ele o matou, e agora matou Yago? – Enquanto eu dizia aquilo, olhava para Igor, para ver o que ele considerava.

– É possível... – Naquele momento, todos olharam para Guilherme.

– O que foi!? Eu nem era amigo dele cacete, só falei com ele poucas vezes, pode perguntar pro Lipe. Aliás, cadê o maldito? – Todos se tocaram de que Phelipe não estava por ali.

– Agora mais essa? Ele sim, parecia amigo do Carlos! Os dois chegaram juntos aqui, e agora ele some! – Raíza foi para o lado de Igor, com medo.

– Vocês fiquem aqui entenderam? Eu vou atrás desse caralho, ninguém vai embora, pode ser perigoso. – Igor pegou novamente o seu revólver e entrou na casa à procura de Phelipe. Ficamos todos ali sem saber o que fazer.

– Natan, acha mesmo que foi o Phelipe? – Julianna me perguntou com a voz rouca.

– Sinceramente? Eu não sei, não sei de mais nada. – Eu estava quebrado. O choque da morte da Isabela e do meu melhor amigo não saíam de minha cabeça. Não podia encarar de vez aquela realidade. Confesso que a morte e Carlos não me chocou, mas três mortes em menos de duas horas era demais pra todos ali. Ninguém conseguia dizer ou fazer nada, apenas queriam sair daquele lugar.

– Isso parece uma maldição, essa chuva não para...eu só quero sair daqui.. – Amanda voltava a chorar enquanto todos concordamos em irmos para o outro lado da casa, pois o cheiro de sangue era perceptível naquele lado.Chegando nos fundos, Raíza se atentou à algo que nos surpreendeu.

– Mas que diabos é aquilo? – Todos olhamos na direção em que a jovem olhava, e de cima do morro, descia alguém com uma capa de chuva e uma espingarda em mãos.

– Não é o Igor, né? – Perguntou Kelly.

– Então será que havia outra pessoa? É ele? – João já se preparou para correr dali, mas eu o parei.

– Se acalme, ele está gritando alguma coisa. – Ficamos todos em silêncio tentando ouvir o que aquela pessoa tentava dizer.

“Ei, tá tudo bem? Cês tão bem? Eiiii”. – A voz era nitidamente de um homem, de um senhor, para ser preciso. Ele apertava o passo, e enfim, chegara próximo da casa.

– Devemos confiar nele? – Me perguntou Julianna.

– Somos a maioria aqui, com uma espingarda ele não poderá fazer muita coisa. – Fui o primeiro a me aproximar do senhor que tirava o gorro da capa de chuva de sua cabeça. Ao contrário do que pensei, não era tão velho, tinha por volta de 40 anos, era careca e bem gordo, parecia um morador rural.

– Eu ouvi um tiro. Foi um tiro não foi? – O rapaz perguntou sem ao menos se apresentar.

– Você mora aqui perto? Pode nos ajudar? Por favor nos leve pra sua casa! – Amanda implorou para o homem que estava sem entender nada.

– Calma! O que acontece fi? – Ele me fitou me questionando enquanto entrava embaixo das telhas da varando ao fundo para se proteger da chuva.

– Três pessoas foram mortas aqui. O senhor mora aqui perto?

– O quê? E cadê a polícia? Quem matou quem? – O senhor parecia nervoso e eufórico, mas depois de algumas explicações, ele parecia menos agitado.

– Vamo todo mundo pra casa então. Eu tava pescando aqui do lado, eu ouvi o tiro e peguei minha espingarda, pensei que era algum ladrão, por sorte eu sempre ando com ela, já penso se o assassino tivesse sozinho?

– Ei, cadê o Igor caralho? – Guilherme e todos ali se questionavam sobre o paradeiro do policial, até que Bianca olhou para o horizonte do lado esquerdo da casa e viu ele descendo correndo junto de Phelipe.

– Será que foi o Phelipe? – Raíza perguntou com medo.

– Aquele moleque que é o matado? Virgem Maria. – O senhor aparentemente havia mudado de ideia quanto ao verificar o que havia sido o barulho que ouviu.

Quando Igor chegou com Phelipe, todos se afastaram temendo que o garoto fosse o assassino.

– O que foi gente? Eu não fiz nada, eu apenas queria ir embora...

– Eu peguei ele correndo pra fora daqui. Ele tava atolado na lama. O caminho tá foda pra passar. – Igor olhava atentamente para o senhor que ali estava.

– Que porra é essa? Quem é você?

– Gerônimo, eu ouvi o barulho, eles contaro o que aconteceu. Vamo todo mundo lá em casa e lá chamamo a polícia.

– Não acho que isso seja uma boa idéia. – Phelipe disse enquanto tremia retirando algo de seu bolso.

– Hã? Tá louco cara? Você é mesmo suspeito! – Raíza esbravejou, e antes que eu pudesse deixar que Phelipe fizesse algo, peguei a folha de papel em sua mão e a analisei.

– O que é isso? Igor foi ao meu lado para ler o que estava escrito.

“ Meus caros, parece que passaram por um mal bocado já. Viram várias pessoas mortas já? É uma pena, pois verão ainda mais. Eu sou o demônio que governa esse lugar, daqui ninguém sai. Avisei vocês, antes de virem.” – Aquilo deixou todos mais desesperados.

– Que besteira! Onde pegou isso moleque? Eu vou ter que te algemar. – Igor olhava para Phelipe que parecia bem amedontrado.

– Calma por favor! Eu achei isso aí no banheiro! Por isso fui embora, eu não quero morrer!

– Demônio? Que caralho de demônio! Alguém tá brincando com a gente. Ei Julianna, vê aí, a letra é do Carlos também? – Julianna pegou a carta e em seguida sua agenda para conferir, e depois de alguns segundos, seus olhos ficaram ainda mais arregalados do que na primeira vez.

– Não foi o Carlos.

– Eu sabia! Então é a letra do cúmplice né? – Perguntou Amanda.

– Ao menos que o cúmplice também esteja morto, porque essa merda de letra, é do Yago.

Notas finais
Mortos; - Isabela - Carlos - Yago Vivos: - Natan - Phelipe - Guilherme - João - Igor - Gerônimo - Amanda - Kelly - Julianna - Raíza - Bianca