O primeiro relâmpago que preencheu meus ouvidos com um enorme estrondo, trouxe consigo as primeiras gotas de chuva que cheiravam à sangue, aquela tempestade que estava por vir era o tempero final que faltava para criar o ápice do medo que dominava aquela chácara que ficava a 90km da civilização.

Seguimos João até a parte da fora da casa, todos pareciam angustiados e acuados, Kelly voltou a chorar, Raíza passava mal, ninguém sabia o que de fato estava acontecendo. Ao chegar junto de Igor à cena do suposto crime, encontramos Carlos pendurado em uma árvore com uma corda em seu pescoço e sua língua para fora de sua boca semi aberta, seu pescoço pendia para o lado esquerdo enquanto seu corpo balançava lentamente, os olhos saltados para fora pareciam dizer que ele não tentou fugir da dor, era ao menos o que me parecia.

– Muito bem, acabou o show, eu vou chamar reforços. – Antes que Igor pudesse pegar seu celular, um raio caiu bem na entrada da chácara, assustando todos que estavam por lá. Igor tentou ligar para alguém, mas por sua expressão, percebi que a operadora estava fora de cobertura devido à chuva, o que não era nada incomum. Parece que tudo estava acontecendo para alimentar o caos.

– Isso só pode ser brincadeira? Não consegue falar? Vamos dar o fora daqui logo! Guilherme seu puto, pega logo as chaves e devolva. – João era o que mais parecia aflito, ele andava de um lado para o outro eufórico.

– Calma gente, logo o sinal vai voltar, agora eu não posso deixar que ninguém vá embora, porque o filho da mãe que matou a guria e o rapaz aí, é um de vocês! – Igor gritava enquanto falava, seu rosto singelo havia mudado para uma forma ríspida e bruta.

– Como assim? Você vai nos segurar aqui pra morrermos também? – Dizia Julianna com a voz rouca.

– Se eu deixar vocês irem, o provável assassino pode escapar.

– Gente, pessoal! – Guilherme vinha correndo da casa ofegante. – As chaves, quem pegou as chaves?

– O quê? Como assim cara? Você que escondeu elas, tá me zoando? – Phelipe se aproximou de seu amigo, bem irritado.

– Ei ei ei, espera aí, você escondeu as chaves dos carros de todos aqui, e agora diz que elas sumiram? – A chuva começava a ficar mais forte à medida que o tempo passava, e ao perceber isso, todos entraram dentro da casa novamente.

– Eu to falando, eu escondi elas na calha atrás do banheiro, mas não tá mais! – Guilherme parecia querer chorar, uma atitude que nunca esperaria do rapaz.

– Isso não é suspeito seu policial? O filho da puta esconde as chaves e agora diz que sumiram? Se foi ele que escondeu, só ele sabia onde elas estavam, e só ele podia sumir com elas! Isso parece desculpa do assassino, pra não deixar a gente ir embora. – João encarava Guilherme com ódio, todos permaneciam sentados no salão principal da casa, como se fossem cachorros assustados se escondendo embaixo da cama no meio de uma queima de fogos.

– Mas antes disso, porra, como ninguém viu matarem o Carlos? Foi atrás da churrasqueira, como pode? Estavam todos lá fora! – Eu não entendia muito bem como era possível ninguém ter visto o assassinato, a área onde as pessoas estavam no meio do interrogatório era pequena, a maioria deles, estava na varanda da frente, sentados, alguém tinha que ter percebido outra pessoa saindo com Carlos para frente.

– Ele tem razão, alguém viu quem foi atrás da churrasqueira com o Carlos? Vocês estavam em 10, não tem como alguém não ter visto! E fiquem tranquilos, eu não vou mais deixar ninguém morrer, não enquanto eu estiver aqui. – Como indireta, Igor passou a mão em sua cintura onde se encontrava seu revólver.

– O problema é que... – Bianca começou a falar e depois se calou.

– O problema é o que? Alguém pode por favor falar! – Igor estava impaciente, e eu também. A atitude de todos ali era muito suspeita, ok que eles estavam com medo e desesperados, mas acho que todos tinham a consciência de que colaborando, as coisas poderiam ficar melhores.

– Na verdade todos nós nos separamos lá fora, enquanto vocês dois estavam aí dentro. Depois que eu saí, sugeri que tentássemos ligar para a polícia mesmo, pois não confiámos em você, só que todos os nossos celulares estava sem cobertura também, a única operadora que pega aqui é a TIM, mas pensamos que se nos afastássemos pra lugares mais altos, poderíamos conseguir sinal. – Raíza ficava em pé, parecia a única a querer tomar partido.

– Então quer dizer que antes do Carlos morrer, cada um foi pra um canto? Mas ninguém foi junto? – Igor começava a olhar para todos ali sentados, desconfiando de cada um.

– Sim! Menos eu e a Ju, que fomos juntas, o resto se separou. – Bianca finalmente completara o que começou.

– Mas porra, nem fomos longe, todos estávamos em um campo de visão, eu ao menos dava pra ver todo mundo. – Guilherme olhou para Igor parecendo estar dizendo a verdade.

– E quem foi junto ou perto do Carlos? – Perguntei sem demandas.

– Que eu lembro foi o Phelipe, a Julianna e a Bianca. – Raíza era devorada pelos três que citou.

– Qual é! Eu tava subindo o morrinho lá atrás porra, tá louca? – Phelipe se levantava chutando a cadeira em sua frente.

– De fato, eu e a Bia estávamos perto do Carlos e vimos ele indo atrás da churrasqueira, mas gente, não dá pra saber ao certo a posição que estávamos! O assassino pode ter matado o Carlos rapidamente e depois corrido pra um lugar distante. – Julianna se juntava à Raíza no meio da sala.

– Não, não tem como, alguém tem que ter visto isso. – Igor olhava novamente para seu celular em busca de sinal.

– E-esperem...eu meio que vi o Carlos atrás da churrasqueira... – Kelly, depois de ficar calada enxugando suas lágrimas, abriu sua boca.

– Viu? Mas você estava atrás da casa! – Amanda logo entrava em cena.

– Justamente, por isso eu vi. Eu fui pro lugar mais alto daqui, que é subindo aquele morro estreito perto do pé de jaboticaba. De lá de cima eu via todos, pude ver todo mundo. – Igor parecia se animar com as declarações da menina.

– E então, o que você viu!? – Perguntei.

– Eu vi Carlos sozinho, não tinha ninguém perto dele, ao menos no momento em que olhei.

– Como assim ninguém? – Igor se desanimou novamente depois dessa frase.

– Eu juro, ele estava isolado lá. A Ju e a Bianca estavam indo pro meio do mato. Vocês dois ficaram por volta de 12 minutos conversando depois que a Raíza saiu, o tempo em que ficamos andando foi de aproximadamente 10 minutos depois do João achar o Carlos morto, depois dos 6 primeiros minutos eu havia descido e vi o Guilherme correndo. – Kelly parecia mais calma, até começava a lembrar de detalhes.

– Então, João achou primeiro o corpo? – Igor olhava para o rapaz que se emputecia novamente.

– PORRA! Vai me achar suspeito agora? Eu estava voltando de lá de trás, eu vi um vulto flutuando no ar e quase me caguei, mas quando olhei mais de perto vi Carlos pendurado, e naquele momento, era tarde demais...

– Tudo isso é bem estranho, bem estranho mesmo! Qualquer um de vocês podia ter matado ele, mas tem um problema, pra se enforcar uma pessoa, à força, é preciso primeiro, ser bem mais forte que o Carlos, e convenhamos, ele era um rapaz de academia. Mesmo a pessoa chegando por trás, seria difícil pegá-lo e enforca-lo, ainda mais, pendurá-lo em uma árvore. Aliás, raramente vejo homicídios de enforcamento do tipo, geralmente as pessoas que enforcam outras, asfixiam as vítimas com uma corda ou fio por trás, pendurá-las em algum lugar daria trabalho, ao menos que a vítima estivesse desacordada. Então suponhamos que alguém tenha chegado por trás de Carlos e com alguma coisa dura, lhe dado uma pancada pra ele desmaiar, e em seguida, amarrar a corda em seu pescoço e pendurá-lo na árvore. A pessoa escolheu atrás da churrasqueira por ser um ponto cego, de frente, ninguém vê nada o que está atrás, do lado direito, a árvore em que ele foi enforcado cobre a visão, de trás, pelo que notei, há um enorme galho da árvore que também podia cobrir a visão, o único canto possível de se enxergar é o esquerdo. Suponhamos que isso esteja correto, por que pendurá-lo em uma árvore? – Perguntou Igor olhando para todos.

– Para parecer que foi suicídio. – Respondi enquanto meu coração se acelerava. Cada vez mais.

– Exato. Mas nesse caso, está parecendo muito mais que foi suicídio do que qualquer coisa, o motivo, eu não sei. Você disse que o Carlos queria algo com a Isabela, certo Natan? Acha que ele se mataria por isso? – Antes que eu pudesse responder, Raíza deu um berro.

– JAMAIS! Carlos não era desse tipo, ele nunca se mataria, além do mais...estávamos combinando de passar alguns dias em São Paulo, só nós dois. A garota começou a chorar olhando para baixo.

– Mas que diabo. Cada hora tem um problema aqui. – Igor balançava a cabeça angustiado. – Ei rapaz, você tem guarda-chuva? Vamos dar uma olhada no corpo, e quero que todos os outros fiquem aqui, ninguém sai. Depois resolvemos o problema das chaves, e não quero ninguém separado ok? Pro seu próprio bem, Natan provou que não é o assassino, pelo menos do Carlos, então acho que ele poderia ir comigo. – Igor havia me chamado, e juntos, meio à chuva grossa que caía, fomos até a cena do crime deixando todos ‘presos’ dentro da sala.

– Ei, o que você acha? Sei que é um rapaz inteligente. Acha mesmo que foi suicídio? É o que mais me parece. – Enquanto analisávamos o corpo de Carlos pendurado, e meu estômago se embrulhava cada vez mais, comecei a pensar, pensar em Isabela. Ela estava morta e não ia voltar, eu precisava descobrir quem era o autor de tudo isso.

– Igor, eu não sei, como você disse, seria improvável alguém ter assassinado ele sem ninguém perceber. E tem a questão da corda, essa corda, ela não estava aqui antes, isso porque eu fui um dos únicos a limpar a chácara. Essa corda apareceu do nada, pra tirar a vida do Carlos. E alguém, de todos que saíram em busca de área do celular, iriam ver, quem estivesse carregando uma corda tão grossa, a não ser quem estava de mochila, que poderia leva-la dentro.

– E quem estava? Perguntou Igor.

– Esse é o ponto crucial. Apenas Carlos estava de mochila..aliás, ainda está.

– E veja ao redor, o chão está ‘limpo’, não houve sinais de briga, suas unhas também, ele não tentou escapar. Ok que alguém pode ter feito o que eu disse, matado ele enquanto ele estava inconsciente, mas ninguém carregava nada tão grande ao ponto de ninguém notar! Isso é um paradoxo. – Igor, indignado ainda, analisava o corpo de Carlos, quando o mesmo se depara com algo que o deixou de olhos arregalados.

– O que foi? – Eu comecei a suar frio só de olhar para o rosto de Igor. O mesmo me chamou e apontando para o pescoço de Carlos, me mostrou o que eram as iniciais A.G, marcadas com alguma lâmina.

– A.G? O que poderia ser A.G? Isso prova que ele foi morto e o assassino fez isso? – Perguntei enquanto Carlos tirava uma folha de papel do seu paletó. – O que é isso?

– Essa é uma carta que achei no galpão, ao ver o corpo de Isabela. Estava dentro da camisa dela, eu não queria mostrar pra ninguém, mas agora não tenho escolhas.