Prelúdio da Morte

3 Mapeie os Rastros de Sangue


O clima não poderia estar mais pesado. Nunca me imaginei em uma situação daquelas, em que uma colega havia sido assassinada, e diante de nós, de onze pessoas, estava o assassino. No mínimo era uma situação saída de algum livro sobre um romance policial inglês famoso, mas ao ficar o tempo todo lembrando do corpo de Isabela caído no chão, sem expressão, com o cheiro de podre impregnando minhas narinas, e ao observar ao meu redor e ver várias pessoas desesperadas e pálidas, eu já tinha total certeza de que aquilo não podia ser mais do que real.

– O que estamos fazendo nessa merda? Cadê o policial logo porra? Eu não vou mais passar nenhum minuto diante de um assassino, vai que ele tá armado. – João era o mais inquieto dali, ele parecia estar desesperado querendo fugir pra um lugar onde ninguém o encontrasse. Estávamos todos reunidos na sala maior da casa, um local arejado e que não tinha quase nada a não ser uma mesa, cadeiras e uma televisão que não pegava. Kelly havia melhorado depois que Amanda lhe fez um copo de água com açúcar, assim como Guilherme e Phelipe tinham entrado em estado ‘zen’, o que acontece horas depois de fumar maconha.

– Isso é perda de tempo, parece que estamos confinados! Tem um cadáver lá fora, um corpo! A essa hora várias viaturas já deveriam estar aqui, vai Guilherme, dá as chaves logo. – Raíza era outra que parecia afobada, aliás, não a culpava, Guilherme agiu de maneira psicótica e suspeita, parecendo que queria nos manter aqui para nos matar.

– Se liga, agora vai esperar o PM chegar, aliás Julianna, como é o seu pai? Ele é barra pesada? – Guilherme questionava Julianna que chorava baixinho em um canto, ainda triste por sua amiga e por sua festa de despedida ter se tornado uma festa sangrenta.

– Ele é gente boa, bem calmo aliás. – Logo depois de sua resposta, todos ouviram o som de um carro estacionando na frente da entrada da chácara. Como se fosse uma explosão, todos correram para ver.

– Ei, não é meu pai. – Julianna olhava atentamente para o homem fardado que acabara de sair da viatura, ele era alto, moreno, e com os olhos bem vivos, apesar da situação, parecia estar bem calmo e atento.

– Quem diabos é então? – Assim que perguntei para Julianna, o rapaz, ao ouvir, me respondeu.

– O José não pôde vir, ele teve uma emergência, pediu pra que eu lidasse com o ‘assunto’. Então, tem mesmo um corpo aqui? – A maneira como o rapaz falou, de modo tão espontâneo, deixou todos ali com um frio na espinha.

– Caralho cara, desculpa, mas cadê o resto? Uma ambulância? Outras viaturas? Tem um assassino aqui! – Amanda começou a ficar indignada ao ver um rapaz sozinho e despreocupado em sua frente.

– Jovens, preciso que se acalmem, primeiramente, Julianna pediu pro pai dela vir sozinho, ela disse que saiu uma briga, por que eu chamaria mais alguém?

– Por que você perguntou se tinha mesmo um corpo aqui? Como você sabia? – Carlos foi logo ao ponto em que eu queria chegar. Como diabos ele sabia de Isabela, sendo que Julianna só disse que havia saído uma briga por lá.

– Ei, eu falei brincando! O que quer dizer? Alguém morreu? – Todos ficaram em silêncio, o policial, pela primeira vez, pareceu ficar bem preocupado. – Ok, vocês estão brincando né? Quem morreu?

– O corpo tá dentro do galpão ali. – Yago apontou para onde Isabela estava. – Ela foi esfaqueada, aparentemente morreu na hora...

– E vocês dizem que foi uma briga só? Julianna, qual seu problema?

– Todos combinaram isso! As pessoas querem pegar o assassino, se a polícia chegasse em massa, isso iria ser um processo bem demorado. – Disse Julianna com a expressão abatida.

– Então o que me sugerem?

– Que faça um interrogatório com cada um por aqui. Eu pensei em fazer um até você chegar, mas todos negaram, dizendo que sou o maior suspeito. – Eu fui logo ao ponto, não poderíamos perder mais tempo ali. Cada momento em que eu olhava para o galpão, meu coração se enchia de ódio. Jurei que se pegasse quem fez isso pra Isabela, essa pessoa iria pagar caro, eu poderia até ser preso, mas faria justiça.

– Ei garoto, não estamos em um livro do Sherlock Holmes! Eu sou um policial, não um investigador. No momento vou chamar reforços e todos vão ser encaminhados pra delegacia ok?

– Não! Não podemos permitir. – Carlos urrou.

– Como não cara? – O policial parecia estar fora do sério já.

– Você, qual seu nome? – Raíza e aproximou e perguntou o nome do rapaz que ainda não havia se apresentado.

– Igor, e eu vou chamar reforços, ao menos que todos vocês estejam envolvidos na morte da menina.

– Por favor, faça o que o Natan disse, apenas um interrogatório, confiamos em sua habilidade como policial, se não descobrir nada, todos vamos pra delegacia sem reclamar, ok? – Raíza pediu quase que implorando. Não era ela que queria ir embora? Todos queriam sair dali, mas a ideia de pegar o assassino era válida, uma questão de dever ser cumprido, e naqueles tempos caóticos, convenhamos, ninguém poderia confiar totalmente na polícia, no governo e nas leis que regem nosso país.

– Olha, eu vou fazer isso pra coletar informações pra não enrolar tanto quando chegarmos lá, mas ao terminar vou chamar mais viaturas. Antes, preciso ver o corpo. – Caminhamos até o galpão junto de Igor, ele analisou o corpo, sem tocá-lo, e tirou algumas conclusões do que viu.

– Foi um golpe e tanto. Alguém precisa de muita força pra isso.

– Está insinuando que foi algum homem? – Bianca se afastou de mim naquele momento.

– Estou insinuando que a pessoa é forte, nada mais. Já vi casos de mulheres que cortaram membros de pessoas só com uma faca, não existe isso de homens terem mais força, teoricamente, sim, mas há mulheres que conseguem superar a massa muscular de muito homem por aí. Nesse caso, acho que seria possível para qualquer um aqui.

Todos ficaram se encarando por alguns segundos. Ninguém podia confiar em ninguém, um de nós, que até então, estávamos todos se divertindo e conhecendo melhor uns aos outros, um de nós, um ser sem alma e com frieza, tirou a vida da garota que eu amava.

Ao entrarmos novamente na casa, Igor observou os cômodos rapidamente, e decidiu usar a sala maior como local para os interrogatórios. Ele pediu um caderno e uma caneta, e ao se sentar, também pediu para que eu ficasse por lá e pedisse para que uma pessoa por vez entrasse.

– Por que quer que eu fique? – Perguntei sem entender.

– Você parece à par de muitas coisas aqui, vi em seus olhos, acho que poderia ser de ajuda, enquanto eu anoto tudo, você poderia prestar atenção na expressão de cada um e nos movimentos corporais? Isso é até mais importante do que os relatos. Acredito em seu julgamento ao perceber quando alguém se comporta de maneira diferente, e como você conhece todos aqui, poderia distinguir facilmente, se alguém está fora do ‘comum’. Ok que essa é uma situação em que todos ficariam desesperados mas, Natan, uma pessoa que mata uma garota tão bonita e ainda se mantém firme, aqui, entre vocês onze, com certeza sabe esconder as emoções. Quero que fique atento nisso. – Todos concordaram com o interrogatório, apesar de que a maioria ali estava sob efeito de bebida, não poderíamos levar a sério tudo que falariam.

A primeira pessoa que chamei até a sala foi Yago, por pedidos do Igor. Fechei a porta e me sentei do lado do policial esperando para ver como seria feito aquele interrogatório.

– Você é o Yago né? Yago, vou poupar tempo aqui, não preciso ainda dos seus dados nem nada, apenas quero que me diga o que você fez durante as horas que passou por aqui hoje. Se puder descrever dados as horas certas de cada ação, seria melhor. E mais especificamente, o que fez às 15:45. – Yago parecia tranquilo, ele sempre soube demonstrar maturidade, ao se sentar na frente do policial, encheu o peito e começou a falar.

– Olha cara, chegamos todos aqui às 10:00, passamos então 6 horas e meia, até que o corpo foi encontrado. Quando cheguei mais cedo com o Natan e a Kelly, demos uma limpada aqui e organizamos tudo. Vim com meu carro e trouxe os dois, terminamos de limpar 10:30, depois o povo foi chegando, eu dei uma mergulhada na piscina, e meio dia fui pra churrasqueira. Eu revezava com a Amanda e o Carlos lá, mas fiquei a maior parte do tempo vendo a carne. Às 15:00 joguei uma partida de truco com Carlos, Raíza e Phelipe, que inclusive perdi. Às 15:45...eu não posso dizer ao certo, mas eu acho que estava na churrasqueira ainda.

– Acha?

– Eu saí de lá porque minha mãe me ligou e o sinal estava fraco, pedi pra Amanda olhar tudo pra mim enquanto fui lá pra cima pra tentar falar com ela.

– Hm...E isso era que horário mesmo?

– Dentre às 15:00 até às 16:00, não sei dizer exatamente. Isso me coloca no quadro de suspeitos né? Hahaha. – Natan parecia agir de maneira natural, como de costume. Suas mãos tremiam, mas isso era natural, todos estávamos tremendo.

– Sim filho, isso te coloca sim. Mas bom, era só isso. Você pode chamar o Carlos? – Yago saiu da sala e em seguida, teci alguns comentários com Igor.

– Ele pareceu normal pra mim, até mesmo respirava de modo tranquilo. E aliás, por que 15:45? Não me diga que...

– Sim, foi o horário que ela morreu. – Naquele momento, tentei me lembrar rapidamente o que cada um fazia nesse horário, mas Carlos entrou na sala e interrompeu minha linha de raciocínio.

– Você é Carlos, certo? Eu vou direto ao ponto, o que fazia 15:45 aqui?

– Acha que lembro? Eu estou bêbado, isso é uma festa, não nos preocupamos com as horas. – A resposta de Carlos parecia ter irritado Igor, assim como me irritou.

– Tá, certo, então, o que você estava fazendo meia hora antes de acharem o corpo? Isso consegue me dizer né? Ou tem Alzheimer? – Carlos olhava com desprezo para o policial.

– Hahaha, engraçado... Eu só fiquei na mesa conversando com a Raíza, eu fiquei lá de boas com ela depois que os meninos saíram, estávamos jogando poker, aí eles saíram e fiquei lá, até que ouvi o berreiro.

– Alguém pode confirmar que você estava com Raíza nesse horário?

– Ela oras! E acho que o Natan também que passava de lá, assim como o João e a Kelly. Po, onde quer chegar?

– Está certo, muito obrigado por seu tempo Carlos, poderia por favor chamar o cabeludo agora?

– O Guilherme?

– Não sei o nome dele, mas é o único cabeludo daqui.

– Ok. – Carlos saiu da sala e os interrogatórios continuaram. A terceira pessoa foi Guilherme, o mesmo afirmou que às 15:45 estava fumando cigarro com Phelipe no meio do mato, tanto eu como o policial sabiam que não era cigarro nenhum mas Igor decidiu ignorar, não queria criar um problema em cima de outro. Phelipe era o álibi de Guilherme. O quarto foi o próprio Phelipe, o rapaz contou a mesma versão que Guilherme, mas dessa vez, sem medo do policial, ele afirmou que era um baseado, e não cigarro. O quinto foi João, o mesmo disse não se lembrar, pois não ligava para as horas, mas meia hora antes, ou uma hora antes do corpo ser encontrado, ele estava ouvindo música deitado na rede, o que eu podia discordar, pois quando saí de dentro da casa, ao procurar Isabela, ele estava na piscina. João disse que não tinha certeza se alguém o viu deitado na rede. A sexta pessoa interrogada foi Kelly. A garota afirmou com convicção que saiu para ficar um pouco sozinha às 15:30, que estava bem deprimida mas não podia dizer porque, e ficou chorando até o momento em que eu apareci e vi o corpo. Todos a viram indo no pequeno campo onde se abrigava o galpão. A sétima pessoa foi Bianca, a mesma afirmou que das 15:00 às 16:00 ficou com Julianna e Isabela conversando na varando dos fundos, a mesma disse que Isabela saiu 15:30, dizendo ir ao banheiro depois de olhar seu celular. Seu álibi era Julianna. Quando Julianna foi chamada, ela contou as mesmas coisas que Bianca, e que às 15:45 ela saiu para ir ao banheiro também, mas como viu que havia gente, ela foi no mato mesmo, algo que não esperava vir dela. Das 15:40 até 15:54, Bianca não viu Julianna nem Julianna viu Bianca. A nona pessoa era Amanda, a garota chorava no momento do interrogatório, parecia bem abalada, ela disse que ficou na churrasqueira nesse horário, e em seguida, foi servir bebida para as garotas no fundo, quando percebeu que Isabela não estava por lá. Seus álibis eram Julianna e Bianca. Por último, Raíza foi interrogada, contanto a mesma versão de Carlos, que ficou conversando com o garoto enquanto ele a cantava, o que não duvidei, e saía apenas para pegar bebida ou ir ao banheiro, e que às 15:50 foi ao banheiro pois estava com ânsia de vômito. Finalmente chegou a minha vez, sentei na frente do policial e contei tudo que eu sabia, detalhadamente, tudo que eu havia visto.

– É...parece que temos muitos suspeitos aqui. Igor fez uma pequena tabela dos onze suspeitos e dos seus álibis às 15:45.

Yago — Fui atender sua mãe no celular, saindo do local onde todos estavam. Sem álibis.

Carlos — Ficou cantando Raíza. Álibi: Raíza

Guilherme — Foi fumar maconha com Phelipe no meio do mato.Álibi: Phelipe.

Phelipe — Idem Guilherme. Álibi: Guilherme.

João – Depoimento contraditório, Amanda, eu e Yago confirmaram que ele estava na piscina das 15:30 ás 16:10. Sem álibis.

Kelly – Estava chorando sentada metros diante do galpão onde Isabela morreu. – Sem álibis.

Bianca – Possui Julianna de álibi até a mesma ir ao banheiro. Das 15:40 às 15:55 não teve álibis.

Julianna – Foi até o banheiro 15:45, mas como tinha gente no mesmo, foi pro meio do máximo próximo ao galpão. Carlos havia visto a menina ir.

Amanda – Foi levar bebida par Bianca e Julianna, mas ainda falta a confirmação por parte das duas. Sem álibis.

Raíza – Ficou conversando com Carlos. Álibi: Carlos.

Eu – Fiquei conversando com Bianca das 15:53 até 16:05. Antes estava conversando com Yago e Amanda. Álibis: Yago, Amanda e Bianca.

– Olhando pra isso, podemos descartar os que tem álibis? – Perguntei ao policial que parecia preocupado.

– Pelo contrário, não podemos descartar ninguém. Pode haver cúmplices, se esqueceu? No caso de quem tem álibis, Carlos e Raíza, assim como Phelipe e Guilherme poderiam estar trabalhando juntos, o mesmo vale pra Bianca e Julianna. Eu diria que você é o único ‘menos sujo’ por aqui, sem querer me entender errado haha. – Parando pra pensar, percebi que havia algo ali que não se encaixava. Havia muitas pontas soltas em todos os depoimentos. Quando me levantei para analisar a outra folha de Igor, João entrou correndo e ofegante pela porta, mais branco do que estava ao saber de Isabela.

– O que foi? O que aconteceu? – Perguntei enquanto temia pelo pior.

– O Carlos! Ele tá morto! Ele se enforcou na árvore atrás da churrasqueira. – Naquele momento, comecei a pensar que havia algo a mais ali, do que um mero assassino.

Notas finais
Segunda morte: Carlos