– Isso foi mesmo uma boa ideia? – Perguntou Kennedy enquanto olhava constantemente para trás, com preocupação em seu olhar.

– O velhote nos convenceu, veremos agora no que vai dar. – Ao seu lado estava Ricardo, um policial de plantão, os dois estavam no portão da chácara onde aconteceu a morte dos três adolescentes.

Passado mais de um mês, a chácara já havia sido liberada, não havia indícios de que lá havia ocorrido três assassinatos, e certamente, se a imprensa soubesse que os remanescentes do crime, ainda suspeitos, se encontram reunidos novamente naquele local, a repercussão não seria das melhores.

– Isso é brincadeira? Por que temos que vir aqui de novo? Eu to cansado desse lugar! – Amanda reclamava enquanto cruzava seus braços entre seus peitos, fazendo com que Kelly também demonstrasse sua insatisfação.

– Eu não sei porque, mas to um pouco ansiosa, por que os policias ficaram lá fora? Cadê o Wellington?

– Aquele puto falou que viria, mas não chegou ainda, sinto que fui enganado. – João, encostado na parede, também parecia impaciente. Todos os jovens suspeitos foram chamados por Wellington até a chácara, porém, nenhum deles sabia realmente por qual motivo.

– Esse cara é louco, eu to dizendo isso faz tempo! Ele pediu pra que a gente entrasse na sala principal exatamente às 15:00, isso tem algum sentido? Não sei como a polícia concordou em ajudar. – Julianna bufava olhando para o relógio no celular.

– Talvez ele tenha seus motivos. Pelo que conversei com ele, o cara não parece idiota. – Raíza mantinha uma expressão séria em sua face, ela depositava confiança em Wellington.

– De qualquer forma, vamos fazer isso por enquanto, pra falar a verdade, eu to até empolgado. – Todos olharam estranho para Natan depois de sua afirmação.

– Empolgado né panaca? Depois de matar três, deve sentir tesão de estar no mesmo local, isso é uma besteira! Vamos cair fora. – Phelipe parecia o mais nervoso do local, mas Guilherme tentou acalmá-lo.

– Não cai na pilha, você já é o maior suspeito aqui, fica de boa. – O rapaz fitou Natan que deu de ombros, demonstrando sua indiferença.

– Pessoal, já são 15:00, acho que devemos entrar. – Bianca avisou a todos quando finalmente, três da tarde havia chegado.

– Será que tem uma bomba lá ou algo assim? Hahaha, eu imagino que isso seja algum tipo de armadilha. Será que eles já sabem o culpado? – Amanda parecia começar a se descontrair também, mas todos estavam bem tensos. O primeiro a entrar na sala foi João, que não aguentava mais esperar.

– Porra, não tem nada aqui. Fomos realmente enganados.

– Ei, olha ali idiota. – Raíza cutucou seu irmão lhe mostrando uma pequena lousa escolar com algumas anotações.

– Hã? Vamos ter aula agora? – Todos ignoraram o comentário de Phelippe.

Natan foi o primeiro a olhar atentamente o que estava escrito na pequena lousa fixada na parede branca que antes, jaz tinha um cadáver encostado

“Guilherme não gosta de Raíza

Phelipe não gosta de Natan

Kelly não gostava de Isabela

Bianca não gosta de Amanda

Julianna não gosta de Amanda

João não gostava de Carlos

Natan não gosta de Phelipe

Raíza não gosta de Natan

Amanda não gosta de João.”

– Mas que cacete é esse? – João olhou para Amanda que entendeu tudo que estava acontecendo.

– Aquele velho gordo... – Julianna se sentia bem tola, depois de responder as perguntas de Wellington no dia anterior.

– Como assim, cara, o que eu te fiz? – Raíza olhou para Guilherme com insatisfação.

– Mano, isso é zoeira você não tá vendo? – Guilherme tentava virar seu olhar.

– Não, isso não é zoeira. Ontem nos foi perguntado qual era a pessoa do nosso ‘grupo’ que mais desgostávamos, e acho que esses são os resultados.

Naquele momento, todos da sala ficaram tensos, o clima bem silencioso, alguns nem conseguiam se olhar. Era um fato de que Natan e Phelipe não se bicavam, mas o restante até poderia ser uma surpresa, ainda mais Amanda, que acreditava em Bianca e Julianna.

– Não tem necessidade disso! Esse cara vai tomar um processo. – Phelipe ia exclamando quando Wellington sai da cozinha e se junto ao restante.

– Processar pelo quê? Pela verdade? Vá em frente, mas trate de contratar um bom advogado.

– Qual o motivo disso? Natan se aproximou do detetive com o tom de voz alto.

– Eu apenas queria que vocês soubessem, e nada mais. – Wellington, sorridente, olhou para todos na sala que se encontravam furiosos.

– Nos chamou aqui pra isso? Você tem algum problema? – Raíza parecia querer esmurrar o homem, mas logo ele se pronunciou.

– Óbvio que não. Chamei os senhores aqui para uma reconstituição. – Todos olharam com dúvida para Wellington.

– Dos crimes..você diz? – Kelly parecia ainda mais insegura.

– Exato. Vamos recriar aquele dia, e no lugar da Isabela, Carlos e Yago, chamei meus três ex companheiros, eles não são tão bons atores, mas acho que dá pra quebrar o galho. – Ninguém conseguia entender o motivo daquilo, mas no final, todos aceitaram depois de muito chiado.

– Então, Kennedy, você será o Carlos, tem cara de bad boy mesmo. – Kennedy olhou com desejo assassino para Wellington que sorriu de canto. – Ricardo, você será o Yago, é gordinho igual. – Ricardo se limitou a balançar a cabeça negativamente. – E Carla, você será a Isabela, não é tão bonita mas tá valendo.

– Eu posso bater nesse cara né? – A policial perguntou para Ricardo que também possuía a mesma vontade.

– Certo, vamos recriar agora a hora da morte da Isabela, e antes que me esqueça, eu serei o Igor. Até Isabela morrer, eu não estou aqui, então, pensem que não existo. – Todos ainda estavam intrigados com essa ação de Wellington, mas acima de tudo, alguns deles queriam pegar o culpado, e forçaram os sem vontade a irem em frente.

– Certo, no momento da morte da Isabela, Raíza conversava com Carlos, os dois estavam sozinhos em uma mesa ali no canto. – Natan apontou para um canto perto da piscina. – João, se não me engano, estava na piscina. Eu não podia ver completamente porque ele estava embaixo d’água quando passei à caminho do galpão.

– Era eu sim porra! – João começou a se estressar repentinamente.

– Ok, considero que era você. Guilherme e Phelipe fumavam maconha lá no meio do mato, então caiam fora. – Os dois olharam para Natan sem nenhum pingo de compaixão, mas Wellington pediu para que os dois fossem para o local indicado. – Kelly estava chorando a alguns metros do galpão, Yago estava na churrasqueira, Amanda estava levando bebida para Julianna e Bianca, e essa duas estavam nos fundos, conversando esperando Isabela voltar do banheiro mas, como todos sabem, ela não estava no banheiro. – Natan parecia ser o percursor de todo ‘cenário’ que estava sendo montado. Todos se colocaram em seus devidos lugares, mesmo com descontentamento, e Wellington seguiu com o plano.

– Natan, você foi o único que seguiu para o galpão, isso o torna suspeito, sabe, né? – O rapaz se prontificou a responder o detetive rapidamente.

– Estou ciente.

– Bem, Carla, vamos começar. Eu serei apenas um observador, a câmera em todos os lados. Isabela saiu dos fundos da casa, deixando Bianca e Julianna juntas, mas para chegar ao galpão sem que ninguém visse, ela teria que dar a volta por trás. Julianna, minutos depois, também se levantou para ir ao banheiro, mas aparentemente havia alguém lá. Natan se dirigiu ao galpão mas se deparou antes com Kelly chorando. Escutem, pessoal. – Wellington falava em uma entonação alta dessa vez. – Quero que vocês façam exatamente o que fizeram naquele dia. Eu sei que é difícil se lembrar, mas peço que se esforcem.

– Acha mesmo que o ‘culpado’ faria tudo que fez no dia? — A pergunta de Kelly havia feito o detetive sorrir.

– É aí que quero chegar. – Naquele momento, a garota percebeu que o homem queria perceber, diante daquela situação, quem estava mentindo ou possuía inconsistências em seus relatos, em comparação com os demais.

O teste de Wellington havia começado, antes de tudo, o homem instalou algumas câmeras pelos arredores, uma em todos os cômodos da casa, uma no galpão, um na churrasqueira, uma na varanda do fundo, uma na varanda da frente, uma no telhado da casa pelo o ângulo sul e noroeste, e outra no lado oposto, assim não possuía ponto cego, exceto pelo banheiro. O experimento se conduziu de forma tranquila, nada de anormal aconteceu. Ninguém ali se prontificou a matar os policiais encenando os papéis dos falecidos, o que era óbvio, mas à partir disso, Wellington, revendo as filmagens, pôde tirar algumas conclusões.

– Escuta, eu não vejo sentido ainda pra primeira coisa que você fez, colocar aquela lousa dizendo quem odeia quem. Isso pareceu coisa daquelas menininhas colegiais revoltadas que querem acabar com amizades por pura inveja. Você ficou com raiva de alguém? – Kennedy acendia um cigarro enquanto assistia as filmagens novamente junto de Wellington, horas depois, na casa do detetive.

– Claro que faz, aliás, faz mais sentido do que a reconstituição dos fatos. Essas fitas tem pouca importância, eu queria mesmo testar todos ali, ver a reação deles quando souberam da verdadeira natureza dos seus colegas, que agora, não devem ser nada mais que conhecidos. Eu posso ter acabado com algumas pseudo amizades, mas isso não é melhor? Bianca e Julianna fingiam se dar bem com Amanda, quando na verdade, a odiavam, eu apenas abri os olhos da menina para que não caia nos truques das duas, assim como dos demais, ao olhar por esse ângulo, mas isso serviu também para que todos mudassem a reação no momento das encenações reproduzindo o que havia acontecido no dia. Aliás, preciso agradecer o Ricardo pelas câmeras. – Wellington pausava uma das filmagens no momento em que Natan se dirigia ao galpão.

– Como assim? O que mudaria eles saberem que um odeia o outro? – Perguntou Kennedy ainda confuso.

– O quê? Tudo! Pense bem amigo, se no momento, na chácara, quando tudo aconteceu, esses jovens soubessem que uns tem inamizade com outros, seus olhares estariam mais críticos, mais aguçados, é claro que isso não foi possível quando tudo aconteceu, por isso mesmo eles deixaram passar coisas importantes, porque ‘confiavam’ em tese em seus colegas de curso. Eu só fiz com que todos reproduzissem tudo de maneira mais intensa, sem tentar defender uns aos outros, pelo contrário, tentando fazê-los analisar a situação para uma suposta incriminação. Nessas filmagens pude perceber alguns detalhes que, jamais poderia perceber apenas com os relatos.

– Que detalhes?

– Por exemplo, quando fiquei conversando com Natan na sala, depois das entrevistas, você viu como todos se olhavam lá fora, no momento de procurar sinal do celular? É nessa parte que quero chegar! Isabela foi morta dentro do galpão, Yago foi morto no escuro, mas Carlos foi morto ao ar livre. Alguém deve ter notado algo no comportamento de outra pessoa, mesmo sem querer, e ainda não percebeu. Com esse olhar mais crítico sobre os ‘coleguinhas’, agora sim, a memória deles pode ter sido aguçada, feito alguém se lembrar de algo importante daquele momento, como por exemplo, quem estava com Carlos, antes deles saírem em busca de sinal no celular.

– E quem estava?

– Isso eu ainda não posso falar meu caro, mas depois de entrevistar todos mais uma vez, descobri algumas coisas.

– Tá de brincadeira né? Não vai confiar em mim?

– Não é isso, eu só quero ter total certeza do que estou pensando. – Antes de Kennedy pedir mais uma vez para o detetive desembuchar, a campainha da casa de Wellington fora tocada muitas vezes, todas seguidas, parecia alguém desesperado. Rapidamente os dois homens se levantam e vão até o portão, e ao abrirem, se deparam com Raíza, ofegante e com os olhos arregalados.

– O que foi? Parece que viu um fantasma? – Disse Wellington curioso.

– Não foi um fantasma, eu vi, eu vi o capuz da pessoa que me atacou!

– Oi? O capuz?

– No dia em que fui atacada, eu vi... – A menina fazia uma pausa para respirar. – Era igual!

– Quer dizer que viu alguém usando ele hoje de novo? E quem foi?

– Eu estava indo na casa do Natan, pra me desculpar com ele, pelo que lemos na lousa, não queria que ele pensasse que o odeio, pois isso é mentira, mas antes de chegar até lá, vi ele saindo com uma bolsa e usando esse capuz, o inverno chegou e trouxe algumas verdades. – Wellington olhou para Kennedy, e este, fez o mesmo. Os dois voltaram seus olhares para a garota, que parecia dizer a verdade.