Prelúdio da Morte
19 O que é Suficiente?
Naquela manhã eu não sabia mais o que estava fazendo. Talvez eu tivesse mesmo algum problema. Por que estava escondido no quarto, com as luzes apagadas, sem dizer nada? Eu não comi, não bebi, não fui ao banheiro, era um corpo jogado na cama com cobertas em cima de mim, o frio não era tão grande, mas coloquei três cobertores bem grossos para que a luz não pudesse passar, minha respiração ofegante se juntava ao suor do meu corpo e eu não sabia mais se estava dormindo ou acordado. O que era suficiente pra me manter calmo? Quando comecei a pensar, percebi que ainda tinha consciência, o que haviam me falado naquele começo de manhã, fora o que me destruiu por dentro, mas eu havia me esquecido, o choque foi tanto que não consegui recobrar meus instintos, eu estava apenas fugindo de mim mesmo, inventando uma desculpa para se isolar do mundo todo. Por que aquilo estava na minha bolsa? Aquela faca...Eu não me lembro. Eu não lembro de nada. Será que enlouqueci? Pensei nessa possibilidade, pensei seriamente nela, mas eu nunca me dei por louco, era uma pessoa extravagante, confesso, mas saudável, ao menos por dentro, eu nunca pensei em cometer nenhum homicídio, na verdade, eu pensei, por mais que tivesse medo de confessar àquilo a mim mesmo, o meu eu mais íntimo já esfaqueou muitas pessoas na calada da madrugada quando o ódio dominava meu coração. Odiava a sociedade em silêncio, meu único refúgio era ela, então, por que negar, apagar as memórias que eu sabia que estariam bem em minha frente? Tentei me prender em algo que se foi, eu nunca poderia amá-la, mesmo que pensasse que isso estava acontecendo, as lágrimas que derramei, acho que todas foram vazias, tão leves que podiam chegar a estrondar meu coração, meu sangue ficou quente quando lembrei do seu corpo, o que aquilo significava pra mim? O que o mundo significava pra mim? Naquele momento obscuro em que perdi meus sentidos, apenas escutei o som dizendo para fugir, meu maior medo, era de temer a mim mesmo. Ouvia a polícia bater na porta a mais de um minuto, não faltava muito para eles arrombarem, o que faria então, caso fosse preso? Lá eu me encontraria? Aliás, por que eu seria preso? Eu não fiz nada! Quando percebi que eu era um caminhante sem destino, me levantei, fui até a porta, enfrentando aqueles malditos medos.
– O que querem? – Abri a porta violentamente, aquele tal de Kennedy, um sujeitinho mal encarado, estava presente com outros dois polícias, e atrás, bem distantes deles, estava Wellington, cujo qual, no fundo, sabia que iria me foder.
– Você pode nos deixar entrar? – Perguntou Kennedy, já entrando, empurrando meu corpo para o lado. Minha mãe trabalhava naquele momento, eu não tinha um motivo pra não deixá-los entrar, eu faria minhas preces silenciosas, esperando que aquilo tenha sido um mal entendido, mas o olhar preocupante e perspicaz de Wellington me mostravam o contrário. Eu já sabia de tudo que estava acontecendo, eu só não sabia COMO e porquê. Havia algo a mais ali.
– Garoto, temos um mandado, precisamos revistar aqui. – O policial moreno que parecia ser o ‘chefe’ daquela trupe me mostrou um papel qualquer sem importância, eles fariam uma vistoria completa de todo jeito. Eu me mantive calado no início, o que foi um grande erro. Demonstrei calma e frieza, meu segundo erro, o que faria então, agora, caso eu revelasse que tem uma faca com sangue em minha bolsa? Aquilo não estava lá antes, eu diria isso e seria preso na hora. Não importa o que eu dissesse, acho que iria me encrencar de qualquer forma. Mas aquilo de ontem, e o que ouvi hoje cedo... era o certo a se fazer? Deixar que as algemas apertem meus pulsos? Não queria, mas no fundo, me via envolto da culpa. Eu sou nada mais do que um verme que foi esmagado por alguém que ama.
– Vocês vão encontrar uma faca com sangue dentro da minha bolsa, é isso que querem? – Todas as quatro pessoas que se aproximavam do meu quarto pararam no mesmo instante e me encararam com um olhar cômico. Oras, por que isso? Eu não estava brincando.
– Você entende o que acabou de dizer? – Me perguntou Wellington colocando a mão direita em meu ombro em um gesto de consolo, sabendo que eu seria levado dali.
– Eu sei o que pensam, é natural, não vou me esforçar pra discutir ou tentar me explicar, não tem explicação, né? Eu entendo, eu entendo. – Estendi minhas mãos e esperei pelas algemas.
– Natan, o que aconteceu? – O policial moreno correu para o meu quarto, pegou minha bolsa e encontrou o objeto. Ele viu também meu quarto todo desarrumado, parecia que havia acontecido uma briga por ali, e de fato havia. Eu matei meu eu interno, naquele momento.
Fui levado até a delegacia, acharam em meu quarto um mapa da chácara, a faca que atingiu Raíza e um capuz que eu mal sabia o que tinha a ver com o caso, mas que para Wellington era importante. Como todo procedimento necessário, passei por algumas perguntas, mas o que adiantava dizer a verdade? Não tinha remédio para aquilo. Eu fui pego, fui totalmente pego pela ‘bruxa dourada’. Mas que inferno, logo ela?
– Rapaz, não é melhor confessar agora? – Fui colocado em uma sala, uma sala bem mequetrefe, era pra parecer aquelas salas americanas de filmes onde interrogatórios eram feitos, mas aquilo era um quarto 4x4 com paredes velhas e cadeiras de plástico, como é deprimente nossa Campinas.
– Disse tudo que sei ou sabia, exceto por uma coisa. – Me calei, não podia mais continuar.
– Você estava com a faca que esfaqueou Raíza em sua bolsa, o capuz que a menina viu com o cara que a atingiu e um maldito mapa da chácara, que eu mesmo achei antes, mas decidi ficar calado. Então, me diga, se esforce para se proteger.
– No momento não tenho argumentos. Aquilo apareceu lá, e fim. Não sabia do mapa, e esse capuz eu tenho desde 2004, que droga, eu saiu com ele quando está frio, e sabe, está frio! Mas como eu disse, isso é em vão, não é?
– Sim, isso é. – Wellington coçou seu nariz e se levantou. – Porém, não pra mim. Eu acredito em você, mas não totalmente. O que você ainda tem a me dizer.
Não acreditei nas palavras do gorducho. Por que ele acreditaria em mim, se nem eu acredito? É claro, eu queria o bem daquela pessoa. Mas sabia que não podia ter.
– A justiça brasileira ela pode ser uma merda, mas no fim, ela vence, não é?
– Em todos esses anos de profissão, digo, de minha ex profissão, pode lhe dizer meu jovem, que sim, ela nunca perde. Pegamos quem merece. – As palavras do velho eram vagas, ele disse sem brilho nos olhos, sabendo que não há transparência, em nome da justiça.
– Então, vamos logo e me prenda.
– Você já está preso.
– Sabe o que significa A.G, detetive? – Sorri naquele momento. Eu não sabia o que aguardava, mas aquela informação certamente levaria ao desfecho desse nó.
– A.G? Não era um truque aleatório pra desviar nossa atenção?
– Pergunte isso ao assassino. Eu não matei ninguém, mesmo querendo. Wellington, você mesmo disse, sempre há motivos. Aldir Guimarães. Procure por esse nome.
– Jovem, não me faça rir. Sei que está querendo me confundir, não tem nada a ver, esse nome.
– Você acha? – Percebi que naquele momento, os olhos de Wellington ficaram curiosos, confusos com seus próprios pensamentos.
– Sabe que ficará preso, até então, né? Seu advogado foi contatado, juntamente com sua mãe, mas garoto, quer que eu acredite mesmo em você?
– Essa escolha é sua.
– Eu escolhi que sim. Eu tenho uma ideia em mente. Aguente um pouco aqui, certo? – Dito isso, o homem saiu da sala, dando uma piscadela de canto.
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