Meu corpo ficou congelado por alguns instantes. Era como se o tempo tivesse sido parado, em outros contextos, eu acharia isso uma situação positiva, sempre quis parar o tempo, mas vendo os olhos e boca aberta de Isabela, meu coração parecia que tomava um golpe a cada milésimo em que eu respirava, eu me ajoelhei impulsivamente, não conseguia ficar em pé, tudo que eu sentia era o cheiro da morte, não havia dor, nem desespero, só uma melancolia e o que estaria por vir. Confesso que se fosse qualquer um dos outros presentes aqui, o impacto não seria tanto, alguns eu até poderia gostar, afinal, isso é uma cena de um crime, haveria imprensa, haveria caos, a vida monótona sairia de cena pra entrada de alguma coisa interessante, mas eu não podia considerar, no fundo do coração, que uma vida humana perdida de maneira trágica, fosse algo interessante. Me senti frio ao pensar nessas possibilidades, mesmo com o pensamento distante, o tempo ainda continuava parado, eu queria estar sonhando, aqueles sonhos bem reais que você demora pra acordar, mas acho que não era o caso, ainda mais quando Kelly se aproximou do galpão, e na primeira espiada, já soltou um berro.

– Meu Deus, o que aconteceu!? – Yago foi o primeiro a correr para o local, ele saiu da churrasqueira, pulou a pequena cerca que separava a casa da sua entrada e correu até Kelly que se negava a olhar novamente para o corpo de Isabela.

– Natan? MAS QUE PORRA? – Yago sentiu ânsia de vômito ao olhar para o cadáver, qualquer um sentiria, de fato, eu comecei a pensar na merda que isso iria dar, a tristeza e dor não iriam passar mesmo que a enterrassem, mesmo que o mundo acabasse agora. Os próximos a se aproximarem foram Carlos e Raíza, mas antes que eles pudessem olhar para dentro do galpão, eu me levantei e fechei a porta, impedindo que mais pessoas vissem aquela cena horrorosa.

– O que tem lá? Cadê a Isabela? – Todos começaram a se reunir ao redor do galpão, Kelly chorava desesperada, foi quando eu tomei a iniciativa pra falar.

– A Isabela tá morta, morta! Alguém matou ela ali dentro, e eu juro que vou descobrir....eu juro.. – Depois de ter segurado as lágrimas por um tempo, não aguentei mais, me sentei encostado no muro do galpão e comecei a chorar enquanto tremia. Bianca e Julianna começaram a chorar também, foi quando Raíza pegou o celular para chamar a polícia.

– Ei, o que você tá fazendo? – Guilherme pegou o celular da mão da garota, impedindo-a de fazer a ligação.

– Como assim babaca? A Isabela foi morta! Eu vou chamar a polícia.

– Polícia? O filho da puta que matou ela é um de nós! Temos que ir atrás dessa pessoa, sem polícia.

– Como assim sem polícia cara? Você tá noiado? – João pegou o celular de sua irmã novamente, encarando Guilherme com raiva.

– Por que você diria que chamar a polícia não é sensato, Guilherme? – Bianca interrompeu a conversa dos três enquanto enxugava suas lágrimas.

– Pensem bem, a polícia vai chegar e interrogar todo mundo aqui, e depois não vai dar em nada! O filho da puta vai preso e depois de uns anos, é solto e volta a matar por aí. – Todos ficaram em silêncio com as palavras de Guilherme, a maioria sabia o que ele queria dizer, e eu concordava, concordava tanto que me levantei e apoiei sua ideia.

– ELE TEM RAZÃO! Temos que descobrir por nós mesmos quem foi o filho da puta e dar cabo nele, mesmo que só uma surra, não teremos a oportunidade depois.

– Você tá maluco cara? Pensei que era mais sensato Natan. – João estava sendo um hipócrita miserável em minha frente, me deu vontade de soca-lo naquele momento, eu não iria permitir que quem matou a Isa, ficasse livre de punição.

– Eu concordo também, tem que pegar o lazarento e matar, não tem dessa não. – Phelipe se pronunciou pela primeira vez, o vagabundo estava bêbado e mesmo naquela situação, continuava com o copo de vodka na mão, tirando o cheio de maconha que ele e Guilherme estavam. Associei rapidamente a ideia da polícia com a maconha, Guilherme não queria que a polícia fosse até lá, se não ele se foderia.

– Eu acabei de ligar pro meu pai, ele é policial e está vindo aqui, sozinho. Disse que tinha saído uma briga e precisava de ajuda, depois se necessário chamamos reforço. – Julianna estava pálida, e escondida de todos, havia ligado para o seu pai que em poucas horas estaria por lá.

– Porra, quando ele chegar aqui, vai foder com tudo. Vamos começar a ver quem é o culpado logo. – Guilherme parecia estressado, assim como todos por ali. Porém, eu deveria manter a calma, era necessário para descobrir quem matou Isabela. Todos ali eram suspeitos, não tinha como saber. Respirei fundo e tentei parar o tempo novamente, mesmo que por um minuto, eu precisava analisar todos, um por um.

“Pense consigo Natan, olhe pra todos atenciosamente. Yago estava o tempo todo na churrasqueira...será que ele estava mesmo? Ele parece bem calmo agora, mesmo depois de ter vomitado, ele se comporta como líder, não acho que o assassino estaria guiando todos, nessa situação, a não ser que ele seja uma pessoa bem fria. Por outro lado, Guilherme e Phelipe, esses são os mais suspeitos. Quando voltei de dentro da casa eles estavam saindo do meio do mato, parece que tinham ido fumar maconha, mas será que era isso mesmo? Será que eles não querem a polícia ali por causa das drogas ou... Kelly estava chorando, segundos antes de eu achar o corpo. Ela era a mais próxima da cena do crime, e por que estava chorando? Quando cheguei até a varando dos fundos, Julianna não estava por lá, e quando ela voltou, pareceu ter vindo do galpão, isso bate, o tempo perfeito entre matar uma pessoa e voltar. Ela parece bem quieta agora, ligou escondida pro seu pai, já a Bianca estava por lá quando cheguei, mas algo curioso que acabei de me lembrar, quando cheguei, ouvi o som do jogo Dissidia no PSP dela, ao olhar para suas mãos, ela estava com o PSP de ponta cabeças, mesmo parecendo concentrada. Ela era uma pessoa inteligente, não faria algo assim por engano, ela pegou o PSP apressadamente quando eu cheguei por lá, então ela devia estar fazendo outra coisa. João estava na piscina quando saí da casa, mas antes, onde ele estava? Desde que a festa começou, ele só andou pra lá e pra cá, ele não parava quieto, parecia angustiado, e agora, mais do que nunca, parece eufórico, querendo fugir. Raíza parece que sempre permaneceu sentada enquanto era cantada pelos três vadios, mas ela está suando muito, isso posso perceber, só não vejo mesmo tempo suficiente pra ela ter matado a Isa e voltado pra mesa, mais tarde, os meninos podem confirmar se ela saiu ou não. Carlos...esse maldito é o mais suspeito. Ele gostava dela, ele tem cara desses rapazes que batem em namorada por ciúmes, mas ele também estava sentado, na mesma posição da mesa, quando saí da casa depois de procurar Isabela. Amanda é uma grande suspeita, ela saiu pra levar bebida pra três menina da varanda no fundo, mas o engraçado era que Julianna havia ido pegar minutos antes, e quando Amanda voltou, ela não estava com copos na mão. Ela havia deixado em algum lugar, e se bem me lembro, ao lado de Isabela, havia um copo descartável jogado. Todos são suspeitos, não importa o ângulo de onde eu olhe.

– Natan, você tá bem cara? Você deve ser o mais chocado por aqui, todos sabemos do seu envolvimento com ela, digo, ao menos dos seus sentimentos, eu queria poder dizer algo mas também estou sem saber o que fazer. – Julianna se aproximou de mim me dando um forte abraço, ela estava fria e tremia. Será que o correto seria mesmo esperar? Aquilo não era um filme ou história de detetive, o que meros universitários poderiam fazer?

– Gente a Kelly tá passando muito mal, pelo amor de Deus temos que chamar uma ambulância! – Amanda segurava Kelly em seus braços enquanto a menina chorava sem parar, ela parecia passar mal, mas eu não poderia saber se aquilo era um teatro ou real. Eu gostava muito de Kelly, gostava de todos ali, mesmo que alguns só um pouco, mas no momento, eu deveria eliminar a simpatia dentro de mim e ver todos como suspeitos, afinal, algum filho da mãe matou a Isabela, e eu iria descobrir.

– Então Guilherme, filho do Holmes, como você diria que encontraríamos o assassino por nós mesmos? Guilherme? – Raíza olhou para trás e não viu Guilherme. Ao observar Carlos, pude ver que o mesmo estava calado, apenas observando todos ao seu redor.

– Cara, pra onde o Guilherme foi? – Carlos se levantava e olhava mais atentamente para os cantos da chácara.

– Será que ele fugiu? E se ele que matou a Isabela? – Raíza começou a ficar ofegante, foi quando Guilherme apareceu novamente.

– Onde você foi babaca? Todo mundo tem que ficar junto aqui! – João parecia cada vez mais puto com Guilherme.

– Eu sei seu merda, por isso mesmo fiz o que tinha que fazer, ninguém sai dessa chácara. – Os olhos de Guilherme estavam vermelhos, ela parecia ainda mais chapado.

– Como assim fez o que tinha que fazer? – Yago questionou.

– Eu peguei as chaves dos carros e escondi, ninguém vai sair daqui até acharmos o assassino, eu juro. – Com as palavras de Guilherme, João partiu pra cima do mesmo.

– Seu filho da puta! – Antes de acertar um soco no metaleiro, João foi parado por Phelipe que se levantou do chão e empurrou o garoto para longe.

– Vai defender o namoradinho? Seus maconheiros de merda, aposto que foram vocês que mataram ela, dois loucos, por isso não querem chamar a polícia. – João ficava cada vez mais estressado, foi quando me cansei daquele papo furado e me coloquei na frente do rapaz.

– Vamos ficar, até porque, começaremos agora com um interrogatório.

– E por que caralho seríamos interrogados por você? – Carlos, pela primeira vez, havia tomado vida depois de se manter muito tempo calado.

– Porque eu jamais mataria ela.

– Como assim cara? Você foi o primeiro a achar o corpo, é o mais suspeito!

– Eu jamais faria isso com a pessoa que amo, seu lixo.

– Eu concordo, somos estudantes de direito, temos que fazer algo. Natan jamais faria algo assim, eu estou de acordo com começarmos um interrogatório. – Yago aprovou minha ideia, mesmo eu achando que aquilo não daria certo.

– E acha mesmo que conseguiremos algo com isso? – Perguntou novamente Carlos.

– Eu acho.

– Por quê?

– Porque eu já tenho os suspeitos em minha cabeça. – O tempo agora começou a passar de maneira mais rápida, cada segundo ali era importante. Dez suspeitos, todos poderiam ter sido culpados, mas a pergunta principal a ser feita é: Por que alguém mataria uma garota com câncer?