Prelúdio da Morte
14 Indício
Notas iniciais
Eu não queria saber mais nada daquele caso. Isso já estava me cansando, essas crianças astutas uma hora iriam se tocar. Queria apenas voltar a minha vida cotidiana e ir atrás de maconheiros e traficantes, mas parece que não importa a direção em que eu iria, tudo se voltava a esse maldito ‘massacre’ na chácara. Massacre? Foram só três mortes, eu já vi coisas muito piores que nem foram chamadas de massacre, então por que isso estava tendo tanta repercussão? Acho que por conta do Igor, aquele miserável. Por mim ele ficaria afastado por muito tempo. Se ele não estivesse lá, isso seria bem mais fácil. Enquanto eu esperava os dois na mesa da minha sala, Juarez chegou dando o seu aviso.
– Os moleques tão aqui. Vai querer falar alguma coisa Kennedy? – Que saco, pensei eu, não queria me incomodar com isso, mas se eu conseguisse alguma coisa, Wellington pagaria pau pra mim, já pensou, eu descobrir o assassino primeiro que ele? Me vangloriaria pelo resto da vida.
– Tá, vou indo. Foram quantos quilos?
– Sete caralhos quilos de maconha, esses dois praticamente vieram da Bolívia? Haha. – Juarez nunca tinha senso de humor, mas eu já ignorava aquilo, e enquanto me dirigia para a sala de onde Guilherme e Phelipe estavam, acabei pensando em uma coisa.
– Sabe, por que não colocamos a culpa nesses dois merdinhas logo? Aposto que foram eles. Os caras foram pra chácara carregados de maconha, eles estavam bem loucos, puta merda Juarez, chama logo a policial federal.
– Não é fácil, e eles vão pra cadeia já por tráfico, que diferença faz?
– Acho que não vão não. – Ricardo apareceu com seu copo de café típico na frente de Juarez querendo acabar com sua graça.
– Como? Eles tinham quase 10 quilos de maconha, foram as mudas na porra do porão.
– O mais velho confessou que aquilo é do irmão, e o irmão já foi pego, assumiu também. Os dois são a porra de intermediários, dois merdinhas, mas não vão sair daqui sem um pau. – Ricardo parecia bem nervoso com a notícia, acho que todos daqui queriam colocar a culpa nos dois. Quando eu entrei na sala, Guilherme e Phelipe estavam algemados em suas respectivas cadeiras, Guilherme, ao contrário de Phelipe, me olhava dando gargalhadas.
– Você é o terceiro pateta? Demorou.
– Moleque ousado, acha mesmo que vai sair de boa daqui?
– Acho. E você vai apenas retirar minhas algemas enquanto sinto o seu bafo. – Eu senti vontade de enfiar uma bala no rabo daquele imundo, esses dois tinham que ter algo a ver com os assassinatos, eram os mais prováveis.
– Ele tá chapado, ignora só, queremos nosso advogado agora. – Phelipe abriu a boca enquanto se mantinha cabisbaixo.
– Seu advogado tá no inferno, o irmão do Guilherme tá chegando, vocês vão ter uma boa conversa. – Ricardo ria na cara de Guilherme que parecia não estar nem aí.
– Ricardo, será que eu poderia perguntar algumas coisas pros dois? – Perguntei enquanto Ricardo bufou, já sabendo que era sobre a merda do caso sem fim.
– Você tem até o vagabundo chegar, perca tempo aí. – Ricardo e Juarez me deixaram sozinho com os dois, e via que aquilo não tinha lá muito sentido.
– Você vai fazer mais um interrogatório? Puta merda! Eu acho que só falta Deus descer na terra pra me perguntar algo. – Guilherme não sabia mesmo, do que eu era capaz. Acho que eu precisaria mostrar a minha astúcia para ele.
– Sabia que essas paredes são a prova de som? Não é só o FBI que tem isso não.
– Tá me ameaçando velho filho da puta? É só eu gritar aqui que já fica com o cu na mão.
– Então grita seu merda. – Peguei minha arma da cintura e bati o cano contra o rosto de Guilherme, que se virou para o lado direito, logo percebi que um fio de sangue escorria de sua boca.
– Socorrro! Porra! Ele tá me torturando! – Guilherme gritou me olhando furiosamente, mas logo percebeu que eu não estava blefando.
– Porra velho, você é louco? Eu não tenho nada pra falar.
– TEM SIM PORRA! Confessem logo, vocês fizeram algo lá né?
– Fizemos? Além de ficarmos chapados não fizemos nada! – Phelipe começou a se soltar, e eu gostava disso.
– E as chaves? Por que escondeu as chaves seu canalha?
– Eu queria pegar a porra do assassino como todo mundo quer! Eu to do lado de vocês seus porras, então por que isso? – Guilherme parecia ficar cada vez mais acuado.
– Queria? Então devia ter colaborado. Me diga, quem você acha que fez isso?
– Foi a porra do João! – Guilherme pareceu não hesitar em sua resposta, o que me deixou um tanto intrigado.
– Eu também acho. – Respondeu Phelipe com o tom de voz rouco, ele parecia bem desesperado, era um garoto covarde de aparência, que parecia somente querer se beneficiar.
– E por que acham isso?
– O cara tem cara de louco, e ele é! Na escola ele brigava com todo mundo, foi suspenso várias vezes, e sabia que ele já mandou o ex da irmã dele pra UTI? – Quando Phelipe falava, Guilherme o olhou meio em dúvida, o interrompendo.
– Mas Phelipe... – O rapaz em seguida ficou em silencio, o que me levantou algumas suspeitas.
– O que você iria dizer seu maconheiro?
– Não era nada, isso aconteceu mesmo. Eu não conheço muito bem esse cara, mas ele é problemático, e ninguém viu ele na hora do crime né? Agora os motivos eu não sei! – Guilherme pareceu exausto, depois de falar tanto.
– E o que acham do Natan? – Perguntei enquanto os dois rapazes se olharam no mesmo instante.
– Pra mim não cheira nem fede, é um cara normal, ele tem uns gostos estranhos mas não vejo motivo pra ele fazer isso. Yago era seu melhor amigo, e Isabela seu amor. Tirando que o Carlos era o seu rival, ele sempre se deu bem com ele. – Guilherme parecia cooperativo naquele momento.
– E o Carlos? Quem vocês acham que matariam o Carlos?
– Eu sinceramente acho que ninguém poderia ter matado o Carlos. – Phelipe começou a suar frio, e eu percebi isso.
– E por quê?
– Ele simplesmente não era tão conhecido, ok que ele podia ser um galinha filho da puta, mas o cara não tinha inimigos. Era odiado mas só não gostavam dele, enfim ainda acho que foi o João, e tem mais uma coisa que me faz acreditar que foi ele. – Phelipe era observador por Guilherme, que pela primeira vez, se demonstrou nervoso.
– E o que seria? – Perguntei afoito.
– A mais ou menos dois anos, depois que o João espancou o ex da Raíza, ele foi meio que humilhado por todos virtualmente. Fizeram várias páginas pra zombar e criticá-lo, até queriam linchá-lo da cidade, ele postou em rede pública, prometendo um dia, se vingar dessas pessoas. E o mais engraçado é que o criador de uma das páginas era o Yago. – Fiquei um pouco transtornado com essa informação que acabara de receber. Yago era desse tipo?
– Cara, vocês ficam achando que o Yago é santo só porque é playboizinho boa pinta? Ou era, ne, porque virou presunto, mas o cara era mo pilantra, ele tirava dinheiro da vó dele pra comprar suas coisas, pessoalmente ele era legal com todos, ele usava várias máscaras, mas virtualmente ele mostrava suas garras. Era um falso que queria se aproveitar de todo mundo, ele não ficava do lado de ninguém, apenas de si mesmo. – Guilherme parecia bem sério, o que me fez lhe dar mais credibilidade.
– E ele e João conversavam? Por que João foi convidado pra esse churrasco afinal?
– O cara faz direito, e ele não foi convidado! Ele só foi porque a Raíza o arrastou, ninguém nessa merda queria ele lá, tanto que tava todo mundo tesourando ele.
– Guilherme, eu acredito em você, mas sabe, agora pouco saíram os resultados das perícias das cartas, duas delas foram escritas por Carlos e Yago, e a outra, por alguém ainda desconhecido. Como explicam? – Os dois jovens ficaram em silêncio, até que Phelipe se proclamou.
– Carlos escreveu mesmo aquilo? Ele foi ameaçado então.
– Ou então era um cúmplice, assim como Yago.
– Mas se o objetivo era matar Yago, por que ele participaria? Acho que o Yago sim foi ameaçado. – Guilherme parecia bem sensato, estava começando a olhar com outros olhos para aquele rapaz que via como um marginal qualquer.
– Ah! Me lembrei de mais uma coisa! – Para quem não tinha nada pra dizer, Phelipe parecia se lembrar de muitas coisas.
– O que é?
– Tu lembra Gui, o João e o Yago, eles tiveram uma conversa atrás da churrasqueira, foi logo no começo, eles pareciam bem nervosos.
– Eu não vi isso... mas se você diz. – Pra mim, estava parecendo informação plantada por Phelipe, de alguma maneira. Antes de responder o rapaz, meu celular começou a tocar.
– Pronto? Pensei que você me ligaria mesmo, eu to com Phelipe e o cabeludo, eles foram pegos com maconha. O quê? Quando? Ela tá bem? E quem fez isso? Puta que paril! Pela segunda vez, agora podemos ter ao menos um caminho, e isso foi que horas? Ah sim, entendo. Eu vou aparecer aí, me espera. Wellington, não se envolva muito. – Depois daquela notícia, apenas desliguei o celular e propus um pequeno teste aos dois ali na sala.
– Quem era? Seu amante? – Parece que Guilherme havia voltado ao seu normal em ser cretino.
– Enfim, eu quero fazer uma última pergunta pra vocês jovens. – Phelipe, onde Guilherme estava hoje às 9 da manhã?
– Hã? Pra que isso? Ele me mandou mensagem um pouco antes, da casa dele.
– Isso é verdade Guilherme?
– Sim, claro que é! Mas o que isso tem a ver? Que perguntas de merda.
– E Guilherme, onde Phelipe estava a esse horário também?
– Por que não pergunta pra mim? Tá tonto? – Phelipe parecia bem nervoso.
– Eu não entendo, ele disse que tava na praça, ele tava cagando de medo de ser pego.
– Praça? A Rui Barbosa?
– Ei, você tá me perseguindo!? Isso é quebra de privacidade, sabia que posso te processar? – Phelipe parecia com os olhos cheios de lágrimas.
– Eu não te persegui, nem ninguém.
– Então como sabe? – Perguntou Guilherme.
– Porque nesse horário, hoje, Raíza foi espancada, e ela está no hospital, toda cortada e regaçada, e por coincidência, Raíza mora em frente a essa praça. – Quando olhei pra Phelipe, o mesmo arregalou seus olhos mantendo sua boca fechada.
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