Prelúdio da Morte
10 Cacos Espalhados
“Voltamos da Chácara do Pinheirinho, a 90 quilômetros da cidade de Campinas, onde na tarde de ontem, três estudantes de direito da PUC foram assassinatos impiedosamente. Marlene, boa tarde, a polícia já encontrou alguma pista de quem poderia ter cometido essa atrocidade?
– Boa tarde Gabriel, boa tarde Sandra, ainda há movimentação de peritos no local, devido à chuva que só parou por volta do meio dia dessa segunda-feira, às buscas retornaram, os corpos dos três estudantes estão sendo examinados no centro de pesquisas da UNICAMP, mas até o momento os policiais ainda estão no escuro quanto a identidade dos assassinos. Estamos ao vivo com o policial Igor Mantonelli que esteve presente na chamas cara antes das duas últimas mortes. Igor, o caso está sendo tratado como um grande mistério mundial, três estudantes morreram, mas ninguém sabe quem foi. Segundo os laudos, todos foram mortos, mas segundo sua informação nos relatórios anteriores, as mortes de Isabela, Carlos e Yago, ainda continuam um mistério, mas o responsável tem de ser um dos estudantes presentes.
– Boa tarde Marlene, boa tarde ao jornal da tarde, bom, realmente ainda não temos um caminho a ser seguido, mas com as informações que a polícia já possui, acredito que logo encontraremos uma abertura nesse mistério.
– Igor, você esteve presente na chácara e não conseguiu chamar reforços devido ao mal tempo, segundo os depoimentos, Julianna Perenato, filha de Valdir Perenato, inicialmente contatou seu pai para apartar uma suposta briga que estava acontecendo, e por estar ocupado, o mesmo deu essa responsabilidade a você, o fato é que quando chegou no local, Isabela já estava morta. Você não acredita em um envolvimento de todos os estudantes que ainda estão vivos?
– Olha, poderia ser uma possibilidade, afinal, a morte do Carlos foi quase impossível, pois todos disseram que ninguém viu nada, mas eu prefiro acreditar que há só uma pessoa envolvida no caso.
– Você também se envolveu diretamente com a terceira morte, cujo rapaz foi morto com um tiro do seu revólver, que deixou em cima da mesa. Você foi afastado do cargo e está respondendo por vários processos por conta disso e de ter deixado duas pessoas morrerem em sua presença, como você vê isso?
– Primeiro que eu estou ciente de tudo, eu errei ao deixar a arma em cima da mesma ao ir tentar recuperar a energia elétrica da casa, mas não me responsabilizo. Eu fiz aquilo em um momento desesperador, e até o momento não imaginaria que alguém tivesse a audácia de atirar no escuro. No momento estou aqui como um cão farejador da polícia relatando novamente tudo que aconteceu, mas uma coisa é certa, minha honra foi manchada e eu certamente vou procurar quem fez isso, e vou encontrar o responsável.
– Muito obrigado Igor, esperamos que haja sucesso na busca pelo assassino até o fim dessa tarde quente de segunda-feira, depois de um tempestade sem fim que trouxe uma tragédia inexplicável. Voltamos aos estúdios do Jornal da tarde, Marlene Dias.”
– Isso é brincadeira, né? Meu Deus! O rapaz participou diretamente do massacre, ele foi e é considerado ainda um dos suspeitos, e levam ele pra cena do crime novamente, deixando-o das declarações pra um jornal local? A polícia de hoje em dia é criticada e depois vem se defender com argumentos totalmente falhos. – Dizia Kennedy Lopes, tenente da quinta divisão da polícia militar de Campinas enquanto comia alguns biscoitos de maisena colocados em cima da mesa em um suporte de madeira.
– Você é um policial também meu caro, sabemos de todos os nossos defeitos, mas criticar é bem mais fácil do que apoiar. Eu achei a atitude correta, você viu ontem não viu? Todos foram cegados. Não houve progresso algum, mesmo depois dos interrogatórios, parece que não há indícios que leve nenhum dos jovens vivos, a terem cometido os crimes. – Wellington continuava com os olhos da tv daquela cafeteria vazia enquanto respondia seu colega com um tom um tanto irônico em sua voz.
– E por que você abandonou o cargo e decidiu virar detetive particular? Cara, você estaria sendo promovido já se tivesse continuado, todos olham pra você como sendo... – Kennedy fez uma pausa e Wellington continuou.
– Anormal? Sim, toda minha família me critica, meus ex colegas não me respeitam mais, eu mal ganho pra me divertir, apenas recebo casos de traição a serem investigados ou de intrigas pessoas de solteironas com muito tempo e dinheiro de sobra. Ok que eu posso relaxar bem mais assim, eu não pegava um caso a duas semanas, já estava quase decidindo abrir uma banca de jornal com o dinheiro da aposentadoria, mas acho que hoje em dia a internet está barrando todas as formas de comunicação impressas, não é? Eu nem sei como esses donos de bancas se sustentam.
– Acho que a maioria deve ser fachada, e aliás, por que não uma casa de massagem? Falta isso aqui na região.
– Mas isso seria bem engenhoso, além dos custos envolvidos. Como detetive particular eu posso exercer de certo ponto minha profissão, e ainda acompanhar o NFL sem me preocupar com expediente.
– Você só quer um motivo pra relaxar não é? Depois do que aconteceu...
– Não, não tem nada a ver com o caso. Eu apenas me sinto velho demais. Trabalhando sozinho, sinto que consigo mais.
– Ok que você solucionou casos bem difíceis como da morte da empregada Mexicana na zona oeste no mês passado, mas cara, casos assim são raros! Assim como o de hoje, acontece uma vez ao ano, e em 99% das vezes a polícia resolve. Acha que tem tanta sorte assim?
– Ela resolve, tanto que está resolvendo esse caso já, né? Não que eu não confie na polícia, mas eu acho que como ‘personagem suporte’, eu poderia ser bem útil pra polícia e os investigadores.
– Você só quer ser o ser misterioso que fica com todo mérito no final né?
– Quase isso.
– Eu devia saber!
– Mas eu dei uma analisada no caso, na verdade, estou desde a madrugada analisando-o.
– E conseguiu alguma coisa?
– Nada.
– Isso parece perfeito demais. Mortes perfeitas, as cartas dos supostos demônios ou demônio, a chuva, a ponte caída, o sinal do celular, isso é coisa de filme! Nem romances policiais dos anos 60 teriam um roteiro tão clichê e bem elaborado, parece que tudo foi armado, e não foi só por uma pessoa.
– Realmente Ken, não foi só uma pessoa. Nessa minha análise rápida, eu pude constar que seria impossível, humanamente falando, que uma pessoa só fizesse tudo que fez.
– Humanamente? Não descarta a possibilidade de ser algo sobrenatural?
– Descarto totalmente. Eu quis dizer que é quase fato, pelo que pude ver, que somente um ser humano poderia ter dado continuidade em todas as ações que resultaram em três mortes e uma garota hospitalizada.
– Aliás, a tal da menina que tá no hospital depois de ser envenenada, ela fez uma carta bem útil né?
– Sim, eu comecei a investigação à partir dela. Pelo depoimento do Igor, havia outro que não estava envolvido, o tal do Natan.
– Sendo assim, os suspeitos que restam são...
– Phelipe, o garoto que tentou fugir e apareceu com uma das cartas, também usuário de maconha, junto com seu amigo Guilherme, que escondeu as chaves dos carros ali presentes e depois disse tê-las perdidas, e também foi visto por muitos saindo do meio do mato depois da morte de Isabela, além da mancha de sangue em sua bermuda. Temos também João, um rapaz que mentiu no primeiro depoimento dado para o Igor, ainda na chácara, e que costumava se envolver em brigas no ensino médio. Ele já teve várias passagens pela polícia. Já das meninas, Kelly parece a mais suspeita. Ela foi uma das únicas que ninguém viu na morte do Carlos, estava perto da mesma do revólver no tiro no Yago, e sentada chorando metros do corpo de Isabela. Raíza estava de conversa com Carlos, ela também tem essa possibilidade, e Juliana e Bianca, duas amigas inseraparaveis que podiam ser cúmplice uma da outra, as duas foram as últimas a verem Isabela viva. Julianna foi a única que conseguiu usar o celular, antes da chuva, ela ao invés de chamar a polícia ligou para o celular do seu pai e não contou a verdade. Ou seja, todos tem suspeitas.
– Nesse caso, você não iria por eliminação? Foi provado que todos poderiam ter matado os três, exceto pelo veneno dentro do whisky que Amanda tomou!
– Sim, esse é o ponto forte do caso. Em todos os três primeiros assassinatos, todos poderiam ter cometido os crimes. Mesmo com álibis, ainda há e deve ter a possibilidade de cúmplices, como na morte da Isabela e do Carlos. A morte do Yago foi propícia demais, estavam todos, exceto Igor, na sala, já a de Amanda, antes de todos saírem para a casa do fazendeiro, o whisky que Amanda tomou, também foi tomado por Raíza, Guilherme e Julianna. Os três ainda estão vivos e bem, então alguém deve ter feito isso na volta, mas ninguém pegou a garrafa, exceto Amanda, e isso dá a possibilidade de um outro elemento.
– Está dizendo que pode ter sido alguém diferente?
– É provável. Isso explicaria as cartas e o desaparecimento do corpo de Yago que foi encontrado no meio do mato. Por que esconder o corpo do cadáver? Isso não faz sentido.
– Nada nesse caso faz.
– O por quê você diz, Ken?
– Sim, matar uma menina com um câncer violento, um playboy qualquer e um rapaz que todos gostavam aparentemente, beneficiaria quem?
– Meu caro, na maioria das vezes, se mata sem motivos. Apenas por prazer, ou pura raiva. A pessoa que fez isso não precisou de um motivo, só de matar criando um plano bem imprevisível.
– Acha então que as mortes foram aleatórias? Sem conexão?
– Pelo que os policiais constam, sim! Podia ser qualquer um. Quem sobreviveu agora deve agradecer, ou não.
– Você viu o passado deles?
– Eu farei isso hoje mesmo.
– Espera...você pretende ir a fundo nesse caso? Wellington! A polícia não vai gostar de saber.
– Você não irá falar nada, não é?
– Sabe que pode contar comigo, mas quando descobrirem...
– Sim eu sei, não poderei contar com você. Estarei fazendo isso por meu risco, mas eu tenho um ponto para começar.
– Qual ponto?
– Eu já marquei um encontro com Natan, ele me esclarecerá alguns pontos que não falou pra polícia.
– Santos Deus! Ele ocultou informação da polícia?
– Uma em específico.
– E você sabe qual?
– Ainda não, mas descobrirei hoje a tarde.
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