Preferiria Não Saber
5 Lembranças
Notas iniciais
– Ajuda? Tudo bem, mas por que essa cara de nervosa?
– Ah, não sei nem como começar... Sabe o James?
– Sei... Aquele que você disse que estuda no 3º ano A, não é?
– Sim. Esse mesmo. Então... O que eu tenho pra te falar, é que mesmo com esse pouco tempo que estou aqui, James teve coragem de ir à minha casa, e dizer que está apaixonado por mim. Não sei o que fazer agora.
– Nossa, que estranho... Ah, sabe, eu acho que já que você sabe pouco sobre ele... Deveria procurar saber algo mais, conversar com ele ou sei lá, pra poder conhecê-lo melhor, e tomar a decisão sobre o que fazer...
– Mas sabe... É que sei lá, desde que cheguei aqui ele foi tão atencioso, compreensivo, carinhoso e preocupado comigo, que parece que o conheço faz tempo... Sinto-me muito bem quando estou com ele... Menos em algumas situações constrangedoras...
– Nossa você também está apaixonada! É quase como nos filmes, poxa vida! Queria eu me apaixonar assim... Ah, sabe de uma coisa, se você o ama, e sente que já o conhece, vai lá! Embarca nessa aventura, não tenha medo de ser feliz! Aproveite a oportunidade que você está tendo. Mas espera um pouco, que situações constrangedoras?
– Ah, nada demais... Deixa pra lá. Quanto ao que você disse antes, eu não sei...
– Ah, que ótimo! Meu prato chegou, hora de matar o que estava me matando!
Depois disso não falamos mais nada sobre esse assunto, apenas comi com Anne, e fiquei ‘’ouvindo o que ela estava me dizendo’’ sobre um filme que ela tinha assistido, mas no fundo estava mesmo é pensando no que ela havia me dito antes... Ainda estava confusa, não esperava que ela me dissesse essas coisas. Após uns cinquenta minutos comendo e ouvindo Anne falar sobre os filmes, me despedi e voltei pra casa. Cheguei e fui para meu quarto, deitei em minha cama, e fiquei pensando em James, e no que Anne tinha me falado. Mesmo com todo o apoio de Anne, ainda estava confusa.
Será que tenho que ir dizer algo ao James? Será que ele falou sério mesmo? Ele mal me conhece... Não é possível... Acho ridícula essa ideia de ‘’amor à primeira vista’’ ou amor em pouco tempo... Mas parece que é isso que está acontecendo, ou sei lá. Só sei que nada faz sentido. Resolvi me levantar e fui até a janela do meu quarto, que tinha vista pra casa de James.
– A casa é bonita, mas não tanto quanto ele... Ei, Eloise, o que pensa que está falando?! Pare de bobeira!
Fui me deitar pra ver se conseguia dormir... Com alguns minutos na cama, ouvi a campainha tocando.
– Ah, que ótimo. Agora que me deitei, aparece alguém. Agora vou eu levantar e descer até lá embaixo pra chegar, e ser aqueles meninos sem o que fazer que, tocam a campainha e saem correndo. Estou prevendo.
Quando cheguei lá embaixo, não era nenhum menino, abri a porta e fiquei olhando pra ver se encontrava alguém. Até que me deparei com uma carta no chão em frente a minha porta. Peguei-a e entrei, e fui abrindo-a enquanto subia as escadas. Quando consegui tirá-la do envelope, li o que estava escrito.
‘’ Está linda hoje. Mais linda que ontem, mas não mais linda que amanhã. Você é tão bela, que nem a flor mais linda do campo consegue desviar o olhar de ti, quando te vê passar. O brilho de seus olhos é maior que o do sol, porém fica escondido em seu rosto, e só os sortudos o podem ver, enquanto todos já viram o sol. As maiores belezas são aquelas que não ficam escancaradas, mas sim guardadas e reveladas somente algumas vezes, já que a preciosidade é rara. Queria poder acordar todos os dias ao seu lado, e ser privilegiado com tanta beleza logo pela manhã. Sortudo é aquele que tem seu coração, pois o bem mais precioso está em suas mãos. ‘’
– Não havia nomes. Mas sabia muito bem quem havia escrito. -
Uau, se ele queria me conquistar, agora conseguiu. Poxa vida, ninguém nunca me escreveu algo assim.
– Ah, isso não está ajudando em nada, desse jeito vou acabar me rendendo a esse desconhecido! Preciso dormir e esquecer isso.
Eu adormeci, mas acabei tendo um sonho com James. No sonho, eu o via de longe observando a mim e a minha mãe, até que ele vinha correndo em minha direção e me tirava dali, como se estivesse me sequestrando. Muito estranho o sonho, e não havia entendido nada.
Na manhã do dia seguinte convenci minha mãe de que estava gripada, e não fui à escola. A verdade é que não queria ir pra lá e ver James, não tinha tirado minha conclusão ainda, e precisava de um tempo, de preferência sozinha, pra colocar as minhas ideias no lugar. Estava tudo muito estranho, tudo acontecendo rápido demais, e não poderia deixar meus sentimentos tomarem conta de mim sem ter certeza se o que estava sentindo iria ser bom pra mim, no futuro.
Não sei por que, mas sempre que estou em uma situação de pressão e solitária, começo a me lembrar de meu pai. Não tenho muitas lembranças dele, já que quando foi embora tinha apenas nove anos. Apenas me lembro de que ele sempre estava ocupado, com os problemas do trabalho que eram constantes, ficava sozinho em seu escritório quase todo o tempo que não estava fora de casa, lembro também dos telefonemas que ele sempre recebia, e acabava discutindo com minha mãe por conta disso.
Ele apesar de seu enorme comprometimento com o trabalho era um excelente marido e pai. Lembro-me que sempre que podia me levava para passear em lugares lindos, mas em alguns meses antes de partir, parou de me levar, e só me pedia pra ficar dentro de casa brincando. Nada daquilo fazia sentido, mas eu obedecia. Nunca entendi porque ele foi embora, e minha mãe também nunca me deu uma real explicação, na verdade ela nunca gostou de falar sobre ele. E sempre fez de tudo pra tentar tirar minhas lembranças de meu pai, mas não conseguiu.
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