Predestinada - Livro 1
15 Capítulo 15 - Sou uma Nephilim
Notas iniciais
"Tatuagens" de Charlie.
Era uma quarta-feira, e eu estava na aula de biologia, completamente desligada e não me importando nem um pouco para o que o Sr.McFly dizia.
Meu parceiro de biologia ? Por incrível que pareça ele sentou-se ao meu lado, porém não trocamos nenhuma palavra.
No outro lado da sala, Rob nos observava a cada minuto, percebendo o quanto estranho estava eu e Dimitri quietos, mas acho que não era apenas Rob que notara o ar desconfortável entre nós. Giulia cochichava no ouvido de Rob e estreitava os olhos em nossa direção.
Desde quando Rob e Giulia se falam ? ,penso, mas em seguida,descartei o pensamento.
Mas não me importava com o que nenhum deles diziam, não sabiam o que estava acontecendo. O quanto estranha eu sou e o quanto posso levar facilmente qualquer um que se aproxime de mim para o fundo do poço junto.
Estava tão distraída em meus pensamentos, que não tinha percebido que o Sr. McFly estava chamando minha atenção.
– Ouviu, senhorita Stevens ? — perguntou ele arqueando as sobrancelhas.
– Sobre o quê ? — perguntei piscando ainda distraída.
– Senhorita Stevens, não está prestando atenção na minha aula ? — pergunta o Sr.McFly irônico e assenti sarcástica (nunca gostei desse professor). — Eu devo lembrar-lhe que suas notas em minha matéria no último ano não foram das mais admiráveis em comparação ao nível geral do colégio ?
– Vale lembrar também que nunca fui boa em biologia — respondo dando ombros. — Mas acho que não será preciso.
– Então, que assim seja — disse ele sério. — Já anotou a pesquisa que pedi ?
– Se eu soubesse o nome — retruco -, talvez já tivesse anotado.
Dimitri estendeu um papel para mim com o tema anotado. A letra dele era linda, como aquelas escritas antigas das cartas da nobreza, mas fingi que não era nada surreal com que me surpreendesse.
Pesquise sobre sua árvore genealógica– até a quarta geração–.
– Obrigado, Sr. Reese. — agradece o Sr.McFly. — Pelo menos o senhor não anda disperso em minha aula.
Lanço um olhar de tédio para Sr.McFly, que não percebeu por estar procurando algo em sua pasta.
– Obrigada — digo sem olhar, devolvendo o papel para Dimitri após ter anotado a pesquisa.
– Esta pesquisa é bastante simples — explica o Sr. McFly. — Vocês irão buscar apenas a árvore genealógica de vocês, mas somente até a quarta geração. Como seria essa quarta geração ? Bom, contando de vocês até seu bisavô.
– Quando entregaremos esta pesquisa ? — pergunta Clarice com a mão erguida e logo depois, abaixando-se.
– Vocês tem dois dias — anuncia o Sr.McFly. — E eu quero no mínimo dez páginas falando sobre a árvore genealógica de vocês e, manuscrito. A chegada da família na cidade, seus feitos durante a vida, características físicas. Tudo.
Houve um murmúrio de reclamações e até mesmo xingamentos foram ditos na sala de aula, mas o Sr. McFly os conteve por pouco.
– Vocês tem até dois dias, mesmo não sendo o dia de minha aula, este é o prazo. Muitos de vocês não me entregaram as atividades feitas em sala, então terei que encurtar o prazo para ver como seria a reação e o esforço de vocês — fala ele calmo, como se a turma inteira não quisesse o atacar depois da aula. — No entanto, esta possui um grande valor na nota de vocês, no qual não irei divulgar para aumentar o interesse de vocês. A pesquisa é fundamental para o semestre se quiserem ir para o terceiro ano.
– Maravilha — resmungo baixo.
O Sr.McFly deu um sorriso azedo em minha direção e disse:
– Realmente, é maravilhoso.
Assim que aquela aula torturante acabou, eu resolvi matar as próximas aulas indo para casa. Antes de ir, pedi à Rob e Clarice que me avisassem caso algo de importante tivesse ocorrido. E pedi explicações de Rob sobre ele e Giulia.
Rob arqueia as sobrancelhas e solta uma gargalhada escandalosa. Clarice o acompanhou.
– Ciúmes, Charlie ? — pergunta Rob com um sorriso de lado, assim que parou com o ataque de riso.
– Se mata, Rob! — disse eu o empurrando.
– Não posso, senão você chora — disse ele entre risos.
– Eu vou embora, até mais — disse eu abraçando Clarice, que me lança um olhar de espanto.
– Você abraçando as pessoas ? — zomba ela.
– Vocês são ridículos — disse eu dando as costas a eles.
Rob agarra meu braço e sussurra em meu ouvido:
– Pode ficar tranquila, não aconteceu nada demais — beija minha bochecha e saiu andando com Clarice, que me deu um sorriso malicioso e uma leve batida com o cotovelo no braço de Rob.
Eu corei e continue a andar, até esbarrar no ombro de alguém. Esse alguém não era muito agradável, ainda mais na real situação.
– Você é cega por caso ? — fala Dimitri com cara fechada.
– Saí da minha frente — rebato.
– Como quiser — disse ele saindo de meu caminho, mas volta e agarra meu braço.
Ao sentir seu toque eu vi flashes, como se fossem lembranças.
Vi Dimitri e eu sentado em um banco de madeira numa praia, olhando o pôr-do-sol abraçados. Depois, nós em um barco de velejador, ambos sorrindo um para o outro. E por fim, um par enorme de asas peroladas arqueadas conectadas a um corpo que não mostrara seu rosto, mas a sensação de o reconhecer era tamanha.
Meu corpo todo ficou tenso e minha respiração era pesada. Estava em choque com aquilo.
– Você vai matar aula ? — pergunta Dimitri sério, mas sua expressão muda para preocupada ao observar meu rosto com mais atenção.
– E desde quando você se importa ? — pergunto sarcástica, como uma maneira de disfarçar meu nervosismo.
– Não me importo, apenas estou perguntando — disse ele recompondo sua expressão séria.
– Não é o que parece ser — digo olhando dentro de seus olhos.
– Esqueceu do eu disse em nossa última conversa ? — pergunta ele desviando o olhar de mim.
Não respondi, apenas me silenciei e ainda o olhava. Eu tentando disfarça o sentimento estranho que estava sentindo. Algo em Dimitri estava... Diferente.
– Você é uma péssima atriz — disse Dimitri rindo sem humor. — Não sabe disfarçar quando vê certas coisas.
– Do que exatamente você está falando, Dimitri ? — pergunto tentando parece indiferente.
– Das coisas que você vê — responde ele soltando meu braço e sai andando.
Não havia entendido o que Dimitri queria dizer com aquilo, mas simplesmente dei ombros e continue seguir caminho até meu carro.
Ao chegar em casa, sou recebida por uma espécie de interrogatório domiciliar pela minha avó.
– Charlie, querida — disse minha avó neurótica, assim que pus os pés em casa cedo. — O que houve ? Você está bem ? Voltou para casa cedo porquê ?
– Eu tenho um trabalho de biologia para entregar em dois dias — respondo, cautelosa.
– Mas para isso precisa matar aula ? — disse ela menos eloquente.
– Acho que sim, considerando que vale grande parte da nota do semestre em biologia, do qual eu sou um fracasso total, então, sim. Eu tenho que matar aula para isso — respondo sem percebe o quanto grosseira estava sendo.
– Então, vá para seu quarto começar este trabalho — ordena Pearl.
Assenti, mas resolvi voltar-me para minha vó e fazer uma pergunta.
– Vó ? — chamo e olha me olha esperando que falasse. — Qual era o nome da sua mãe ?
Bom, se vamos fazer essa "maravilhosa" pesquisa, tenho que saber por onde começar. E também minha avó nasceu e foi criada em Aberdeen, ela deve ter conhecido ou ouviu falar sobre Gwyneth.
– Porque quer saber, Charlie ? — disse ela estreitando os olhos.
– Curiosidade — digo casualmente.
– Julie — responde ela desviando os olhos.
– De quê ? — pergunto.
– Peterson — diz Pearl.
Será que era alguma irmã de Gwyneth ? ,penso.
– Como ela era ? — insisto.
Eu sei que estava extrapolando os limites, mas era assim, eu tinha que pergunta ou nunca irei entender o que está havendo comigo. Entender porque eu e Gwyneth somos parecidas.
Pearl me observa desconfiada e suspira.
– Ela era gentil, muito protetora, triste e bastante cética — responde ela com um sorriso de lado.
– Cética ? — perguntei surpresa. — Mas a senhora disse uma vez que nossa família é bastante religiosa, não entendo como...
– Na verdade, meu pai quem era religioso, e sou religiosa pela influência de meu pai — disse minha avó pensativa.
– Quantos anos tinha ? — pergunto. — Quando sua mãe morreu.
– Eu tinha seis anos, ela foi encontrada morta — disse minha avó. — Meu pai ficou arrasado, ele a amava muito.
Encontrada morta ? , penso. Será que é realmente... O que restou pensando ?
– Sinto muito — digo.
Pearl mexeu em um colar que usava todos os dias, mas nunca me perguntei o que tinha de tão especial nele. Ela o abriu e lá tinha duas fotos.
– Posso ver ? -- pergunto tímida.
Pearl assentiu e encaminhei-me até ela.
– Este era seu avô — conta ela apontando para a foto de um homem com pele bronzeada e expressões mexicanas. — E este é meu pai comigo quando tinha seis anos — apontou para a outra foto com um homem de pele escura e olhos mel. No colo do mesmo havia uma garotinha, que era a mesma no artigo que havia encontrado na biblioteca quando estava pesquisando sobre o que houve com Gwyneth.
– Essa era a senhora ? -- pergunto tentando manter a calma e não surta de uma vez.
Pearl assentiu dando um sorriso fraco ainda olhando para a foto.
– Bom, acho melhor eu ir começar com a minha pesquisa — falo mexendo na manga de minha camisa.
– Está bem, querida — disse Pearl voltando ao seu café.
Subo para meu quarto atordoada e prestes à ter um colapso mental. Minhas mãos tremiam perante ao desespero que sentia. Fechei a porta lentamente e fui à procura do medalhão de Rob, que antes era de Gwyneth.
Estava revirando o quarto inteiro e não encontrava nada, aquilo me frustrava.
– Droga! Onde está ? — grunhi irada, mas então lembrei que havia colocado no fundo falso do criado-mudo.
Procurei como uma fugitiva desesperada, até que deixo o livro de minha mãe cair abrindo numa página que me chamou à atenção, era a contracapa mostrando o título e todas as informações do livro. Na verdade, o que me chamou atenção foi apenas uma palavra, pois o resto das letras, frases e tudo mais estava embaçado.
Como uma espécie de holografia, a palavra estava suspensa no ar e com as letras embaralhadas. Elas pararam de mudar de lugar simultaneamente e formou a palavra que fez meu coração quer saltar pela boca.
Nephilim
De repente, o quarto todo ficou escuro e soprou um vento forte, esvoaçando papeis e folhas em toda minha volta. Sombras emergiram do chão, elas ficavam sussurrando ao mesmo tempo e tomando formas de pessoas com marcas em todo o corpo.
As sombras aproximavam-se de mim quase me tocando.
– Você é uma de nós — murmurou uma das sombras em meu ouvido.
Senti um frio na espinha, uma onda de medo borbulhando dentro de mim. Eu queria sair correndo e me trancar dentro do banheiro. Mas, se eu não tomasse uma atitude, com toda a certeza me arrependeria amargamente ou morria ali mesmo.
– Como assim uma de vocês ? — me atrevi a perguntar.
– Nephilim — gritando todas as sombras ao mesmo tempo.
Gritos tão agudos que me fizeram levar as mãos aos ouvidos para tapá-los. Sentia uma dor crescendo dentro de mim, uma dor dilacerante e horrível.
Por um momento, as sombras pararam de gritar e me observavam com atenção. E de repetente, sumiram.
Tirei as mãos dos ouvidos com dificuldade, por conta da dor. Minhas mãos tremiam como se tivesse a doença de Parkinson.
– Eu sou uma Nephilim ? — pergunto mais trêmula.
A dor parou instantaneamente me deixando aliviada por ter acabado, mas uma nova dor iniciou-se em dois pontos de meu corpo: entre a lateral direita de minha costela e a cintura; e atrás da panturrilha esquerda. Nesses lugares queimavam como se tivesse levado um tiro à queima roupa, — já levei um tiro, mas de raspão — não conseguia mais permanecer de pé.
Me ajoelhei e queimava a cada instante com mais intensidade, me segurava ao máximo para reprimir grunhidos e gemidos de dor até mesmo gritos que queria soltar, mas pensava em minha avó no andar logo abaixo de mim, fazendo suas tarefas e sendo surpreendida pela neta problemática e psicologicamente perturbada tendo seus ataques de loucura, me faziam aguentar cada momento daquela horrível dor; que aos poucos ia me dominando.
Através de minhas roupas, houve um brilho intenso. Todo o quarto que estava escuro, iluminou-se apenas com aquele brilho intenso e vívido em tons de azul claro. De repente, onde havia a queimação parou, o brilho diminuiu sua intensidade aos poucos estavam morrendo junto com a dor. Tirei minha blusa e observei pasma a lateral entre minha costela e a cintura mostrava uma pena enorme com pássaros saindo da ponta dela, era como se eu tivesse feito uma tatuagem. Retirei minha calça rapidamente e tinha em minha panturrilha esquerda uma âncora com cordas envolta dela e mais pássaros em sua volta.
– O que está havendo aqui ? — balbuciei. — Eu ? Uma nephilim ?
Nas últimas semanas, nas aulas de religião, a senhorita LeClear ainda continuou com a matéria sobre nephilins e anjos caídos. Os anjos caídos e os nephilins tinham uma grande rivalidade entre eles. O motivo ? Muitos não entendem o bastante para dizer por onde tudo começou. Uns dizem porque os caídos exploravam tendo vantagens sobre os nephilins, fazendo com que estes criassem revolta contra os caídos. Já os outros dizem que é pela sede de poder entre as duas raças que originou toda a guerra entre eles. Mas a senhorita LeClear discorda dessas teorias sem fundamento, assim diz. Em sua aula nos explicou tantas coisas que me deixaram de boca aberta. O que entendi, resumidamente, os nephilins eram gigantes violentos, sanguinários e almejavam poder. Eles puseram quase toda a raça humana em ruínas e à beira da extinção por conta de sua cobiça e crueldade. O motivo de terem sido classificados com "extintos", traz à tona um dos capítulos da Bíblia. A arca de Noé. O Senhor Deus disse à Noé sobre o dilúvio que iria acontecer, devastando tudo o que estivesse pela frente, nenhum ser vivo iria sobreviver ao acontecido. Aquelas águas foram para matar, especificamente, os nephilins e todo mal que na Terra habitava feito por eles e os caídos. Aconteceu para dizimá-los, foi o que houve por um tempo indeterminável. Apenas nos deu tempo para preparar caso eles voltassem. Agora, uma das raças mais repulsivas que já existiu — e ainda existe -, eu estava lá fazendo parte. Uma Nephilim. Que maravilha, completamente admirável eu ser um monstro.
– Isso não é real. — digo surtando. — É tudo um sonho como sempre acontece. Isso não é real, não pode acontecer.
E essas... tatuagens que se formaram em mim ?, penso confusa. O que elas significam ?
O que estava acontecendo podia ser real ? Ou apenas mais um de meus pesadelos horripilantes ?
Eu tinha medo de admitir. Medo de acreditar. Talvez fosse melhor que eu continuasse a ser um monstro e não saber. Se eu contasse isso à alguém, seria chamada de louca ? Acho que sim. Definitivamente, sim. Rob entraria em uma crise de risos se lhe contasse uma coisas dessas.
Rob...
Ele era como eu, ele era um nephilim. Mas como ? Rob disse que éramos iguais, mas entendia bem o que aquilo significava. Era isso que ele queria me dizer, mas não podia. Por isso dizia tanto que eu tinha que descobrir sozinha, que fazia parte do processo de mudança. Somos nephilins, primogênitos de anjos.
Eu estava ainda sentada no chão, encolhida. Eu odiava o que eu era. A culpa disso tudo era do meu pai. Por ser um anjo caído. Por ele preferir a ser corrompido e eu ter que pagar por isso.
Será que Jess também era uma nephilim ?
Claro que sim, ela era meu pai com cabelo longo , penso.
Como todas as coisas ruins podem acontecer a uma só pessoa ? Somente eu para ser azarada desse jeito, sinceramente.
Nephilim... Nephilim...
Soava como um toca discos agarrado ecoando em minha mente, martelando o tempo todo sem parar.
Eu não podia ficar pensando naquilo, tinha que me distrair. Mas se isso consiste em fazer minha pesquisa de biologia e ter mais revelações ruins, não sei do que sou capaz de fazer ou até mesmo suportar. Honestamente, eu não quero mais saber, já estou no fundo do poço. Então, tenho como me afundar mais ?
Sim, Charlie. Você tem , penso.
– Eu só vou quebrar a cara, mas fazer o quê ? Já estou ferrada mesmo... — resmungo.
Estava totalmente pronta de encaminhar-me até o sótão procurar algo que me ajudasse na pesquisa, mas, de repente, sinto-me enjoada, tonta e sem nenhum tipo de senso de direção. Cada momento, cada segundo parecia muito lento. Eu estava desmaiando. Apenas senti meu corpo sentindo o impacto com o chão.
Eu vou sentir isso mais tarde... , penso.
***
Gemi de dor. Minha cabeça parecia explodir a qualquer instante. Algo estava intrigando-me, me sentia diferente. Como se algo mudasse e mal tivesse percebido. E se percebi, já era tarde demais.
Levantei-me devagar para estabilizar a tontura e, olhei ao meu redor. Tudo parecia... diferente. De alguma forma, meus sentidos estavam mais aguçados. Pude sentir o cheiro da comida de minha avó sendo cozida. Consegui observar de longe que minha vizinha, Sra. James, estava dançando uma música de discoteca de sua época. Pude ouvir o som do que estava se passando a televisão logo no andar de debaixo, estava passando a série House como reprise, se não me engano sexta temporada. E diversas outras sensações diferentes, mudadas.
Estou me sentindo paranormal , penso. Beleza, agora eu surtei de vez.
Observei o chão e notei que só estava de roupas íntimas. Minhas roupas estavam jogadas no chão, pus minha roupa o mais rápido que pude.
Passei um bom tempo me perguntando o que havia acontecido para eu ter estado largada no chão apenas vestindo roupas íntimas. Porém, cada vez que tentava, não conseguia me lembrar. Era como se esta parte de minha memória tivesse sido roubada e isso é assustador só de pensar.
A única coisa de que me lembro: é que voltei para casa cedo, Pearl fez um interrogatório comigo e lhe fiz uma série de perguntas também; a mesma mostrou-me um foto quando era criança que assemelhava-se a foto da filha de Gwyneth e eu tinha uma maldita pesquisa de biologia para fazer.
Acho que está tudo em ordem, só que não , penso sarcástica.
Encaminhei-me até o sótão procurar algo que me ajudasse na pesquisa. Passei um tempo revirando tudo que fosse parecesse útil, mas de nada adiantou. Bufei frustrada e exausta.
– Charlie, Rob está aqui. — chama minha avó.
– Já estou indo. — respondo.
Estou descendo do sótão, quando vejo a porta do quarto minha avó está entreaberta, algo reluzente brilhava lá dentro e me chamou atenção. Infelizmente, a minha curiosidade era muito impulsiva e sim, eu ia entrar no quarto de minha vó, porque sou curiosa.
Corri rapidamente para dentro do quarto, fechando a porta atrás de mim devagar. Eu nunca entrei no quarto de minha avó, em todos os anos que vim para cá e estou morando, essa é a primeira vez. Ela sempre o trancava. O quarto era pintado de rosa-salmão claro, uma cama de casal king size e cômodas aos lados, bem iluminado, tirando o fato de estar já de noite. No chão, um tapete macio e felpudo, parecia que pisava em plumas. Diversos porta-retratos com fotos minhas, de Jess, minha mãe em todas as fases de criança até a adulta. O quarto de minha avó era um lugar bem agradável.
– Melhor que o quarto de Jess. — murmurei dando ombros.
A coisa reluzente era um porta-retrato em cima de uma prateleira, que estava acima da cama de Pearl. Na prateleira, além do porta-retrato, havia de livros arrumados por ordem de tamanho. No porta-retrato tinha a foto de.... Gwyneth. Ela estava com um vestido vermelho de um ombro só, seus cachos iam na altura de seus ombros. Seus lábios carnudos rosados estavam num sorriso estonteante, olhos brilhando e transbordando de felicidade.
Caminhei tonta até o porta-retrato e fiquei parada olhando durante um tempo.
Ao lado da foto, estava um outro porta-retrato com Gwyneth segurando... minha avó em seu colo. A mesma foto do jornal.
Gwyneth Julie Peterson.
Juntei as peças em minha mente.
– Você é minha bisavó. — sussurro colocando a mão em meus lábios, reprimindo um grito de desespero.
Eu não percebi, mas estava chorando olhando para Gwyneth. Chorando por saber que aquela era eu e ela tinha tido um fim trágico. Senti que alguém estava chegando, sua presença estava mais próxima.
– O que temos aqui ? — pergunta Pearl atrás de mim.
Me segurei o máximo que pude, mas noto que não foi o bastante, pois quando virei para minha avó lancei-lhe um olhar de fúria. Mas ela não parecia me notar, ela olhava através de mim com as sobrancelhas franzidas.
Senti uma leve pressão na nuca e senti que mais alguém estava vindo, e reconheci quem era. Rob aparece atrás de minha avó e me fita atordoado. Mas percebo que não era para mim que ele olhava, era a foto de Gwyneth.
– Vem comigo, rápido. — disse ele. — Não me pergunte porquê e nem diga nada até chegar no seu quarto.
Obedeci. Nunca vira Rob tão sério quanto estava. Eu o segui, me perguntei por que minha avó não me notara ali parada no meio de seu quarto a fitando com uma cara de pasma. Então, tirei a conclusão de que Rob fizera aquilo. Motivo ? Ele me pediu para não dizer e perguntar nada, ele mostrava-se tão concentrado, que era possível ver uma veia em sua testa pulsando tão depressa como se tivesse vida própria.
Chegando em meu quarto, Rob fechou a porta lentamente atrás de si e fitou-me esperando que eu dissesse algo. Mas a esperar foi tamanha que quando ele estava prestes a se pronunciar, eu o entrecortei para tentar entender o que estava havendo.
– Como fez aquilo ? — perguntei.
– Fiz o quê ? — balbucia Rob.
– Minha avó não notar a mim e nem a você — pressiono.
– Eu tive que fazer ela idealizar que você e eu saímos para irmos fazer um lanche e vamos começar a pesquisa de biologia juntos na minha casa — responde ele com os olhos cansados. — É cansativo ter feito isso, ainda estou fazendo ela pensar que está sozinha e tem que ir logo à Igreja.
– Como assim está a fazendo idealizar ? — pergunto franzindo as sobrancelhas.
– Eu sou um nephilim, Charlie — fala Rob.- E você também é uma.
A notícia me afetou como se tivesse levado um soco no meio da cara ou no peito. Eu não tive nenhuma reação, esse foi meu maior problema. De certa forma, uma parte de mim, já sabia daquilo, mas permaneceu oculta de um modo muito misterioso e perturbador.
Ficamos sentados no chão do meu quarto, quietos, num longo e torturante silêncio. Sem dizer uma palavra, apenas trocando olhares e os desviando depressa.
– Você já esfriou a cabeça ? — pergunta ele.
– Você também é um — disse eu tentando fugir de sua pergunta.- E eu... Que merda.
Milhares de coisas se passando em minha cabeça naquele momento. Não sabia o que dizer, ou o que perguntar sem lembrar do que sou.
– Sim, eu também sou um nephilim — disse ele pegando em minha mão.
– O que nós fazemos ? — pergunto.
Rob me encarou confuso.
– Como assim o que fazemos ? Habilidades ? — pergunta ele e eu assenti na segunda pergunta. — São tantas habilidades. Mas, as principais são: força, velocidade, capacidade de ler a mente das pessoas, controlá-las, fazer elas verem coisas, uma espécie de auto-cura para feridas, as emoções em ascensão no processo de transformação e o desenvolvimento corporal.
– Só isso ? — pergunto insatisfeita. — Já que sou um monstro pelo menos tinha que ter mais coisas.
– Você achou que iria virar algum tipo de X-Men ? — perguntou Rob rindo.
– É quase isso — disse eu. — Quanto tempo leva para meu corpo aprender a controlar tudo isso ?
– Não há um tempo exato, mas durante um determinado momento você vai descobrindo mais maneiras de ampliá-las — responde Rob sorrindo.
– Você parece tão calmo quanto à isso — comento.
– É o que eu sou. Não posso mudar isso, mas eu posso e consigo não ser como os primeiros nephilins foram — disse ele pensativo.
– Mas isso ainda faz você ser parte deles de qualquer forma. Não muda em nada — disse eu relutante.
– Você ainda tem muito o que aprender, Charlie — argumenta Rob. — Existe um mundo completamente oculto e interligado com o nosso, são segredos e mistérios através disso. É como se fosse uma outra dimensão, um universo paralelo com o nosso, há uma névoa tampando sua visão clara de tudo. Achamos que sabemos as respostas de quase tudo, mas na realidade não sabemos de nada. Somos idiotas presunçosos que achamos que ter controle sobre algo.
– Okay, Einstein — disse eu reprimindo um riso. Era muito engraçado ver Rob falando sobre essas coisas. Mas minha vontade de rir morreu quando pensei no que vi no quarto de minha avó e perguntei.
– Mas o que isso envolve eu e Gwyneth ?
Rob parou para pensar e estava entrando conflito interno, podia ver pela suas expressões.
– Pergunte à Dimitri — respondeu sem olhar para mim. — Ele vai te responder.
– Porque toda essa confiança nele ? — pergunto estreitando os olhos para ele.
– Apesar de tudo, você deve confiar nele — disse Rob sério. — É bem estranho admitir isso, mas deve o fazer. É melhor para você, embora ele não exale confiança.
Dei uma risada baixa, deitei-me no chão e olhei para o teto.
– A vida podia ser mais injusta ? — indago.
– Dependendo de quem seja, mas, no seu caso, não acho que seja justo — responde Rob mexendo em meu cabelo.
– Isso foi reconfortante, só que não — brinco.
Rob ri baixinho e continua a mexer com meu cabelo.
Senti um pequeno incômodo no meu lado direito do corpo e na panturrilha esquerda, estava dolorido. Levantei um pouco a blusa e me assustei com uma espécie de tatuagem, uma pena enorme com pássaros saindo de sua ponta, que havia entre minha cintura e a costela. Quando lus minhas roupas, eu não tinha a notado sequer sentir minha pele dolorida.
Estava prestes à surtar, quando Rob pôs sua mão sob a minha.
– Não surte — disse ele. — Isso é normal quando a transformação foi completa.
– Mas... O que isso significa ? — pergunto controlando minha respiração.
Eu estava à beira de um surto psicótico. Aquilo era muita loucura. Muita loucura para alguém mentalmente instável como eu.
– Significa seu destino — responde e eu fiz careta. — Eu sei, isso é bem estranho, mas é sua posição na vida. O significado da marca é o que vai influenciar na sua vida. Todo nephilim descobre sobre sua origem, ocorre o processo de iniciação nephilim. Estes têm uma marca de nascença e perto dessas marcas, aparece um símbolo identificando qual é o destino daquele nephilim.
– Você tem uma ? — pergunto.
– Tenho, mas... Não é tão interessante quanto a sua.
– É "normal" — fiz aspas com as mãos. — elas ficarem doloridas ?
– Sim, costuma ficar bem dolorida — disse sorrindo.
– Só na área dela ? Ou em outras também ? — pergunto.
Rob só tinha dito "uma" marca, não mencionou duas. Eu estava suspeitando de que tinha mais de uma.
– O que quer dizer com isso, Charlie ? — pergunta Rob franzindo a testa.
– Eu acho que tenho mais de uma — digo encolhendo os ombros.
– Como assim duas ? — pergunta nervoso.
– Além dessa aqui, acho que tem outra na panturrilha.
– Você tem marca de nascença na panturrilha ? — pergunta como uma criança.
– Sempre tive.
– Quando souber como ela é, me diga — disse ele por fim. — O significado por ter haver com a da costela.
– Está bem.
Após aquele momento, ficamos quietos.
Eu queria afastar toda aquela tensão e Rob compreendia isso. Tínhamos nossos momentos tensos, porém a maior parte, nós dois brincávamos um com outro. Assim, não precisávamos pensar na dura realidade que tínhamos de enfrentar.
Mas parecia que eu não conseguia deixar de pensar em o que eu sou e o mais assustador: o que eu poderia me tornar sem perceber.
– Eu preciso falar com meu pai — disse eu, pensando em toda a situação.
– Não, você não vai — disse Rob sério. — Não sozinha.
– Rob, se eu sou capaz de sentir a presença a sua, quer dizer que ele também pode sentir. Quem dirá quando chegarmos e ele não estiver lá, porque sentiu a presença de mais alguém além de mim ? — disse eu, ríspida.
Esperei que ele dissesse algo, mas simplesmente se calou. Então, continuei.
– Meu pai foi bem claro quando disse para não contar à ninguém sobre ele.
– Você não vai sozinha, Charlie! — rosna Rob.
Me levanto e o encaro subitamente séria.
Quem era ele para me dizer que não posso ver meu pai ? , penso.
– Se eu quiser ir, eu vou. Você não pode me impedir! — falo séria. — Não é você a quem ficam perseguindo ou, tentando matar. Você sabe muito bem que meu pai foi embora por que ele queria proteger a minha família e a mim, de que ou de quem eu não faço a mínima ideia, mas eu não vou deixar as coisas desse jeito. Eu preciso falar com ele.
– Mas eu não vou deixar você ir sozinha, não entende isso ? — rebate Rob. — Não sabemos o que pode acontecer e você é uma recém nephilim, é um farol acesso para qualquer anjo caído.
Rob podia estar certo nesse aspecto, mas fora isso, eu tinha que falar com meu pai.
– Então, você vai comigo — disse eu emburrada. — Mas você vai esperar no carro.
Ele deu um sorriso vitorioso e levantou-se, estendeu a mão para me ajudar a levantar.
– Antes, preciso ligar para ele — falo.
– Deixe-me ver, tem que ser em um telefone público ? — tenta adivinhar Rob e eu assenti. — Seu pai é cuidadoso. Deve ter alguém em específico nessa cidade para ele tentar se esconder assim.
– Ou ele esteja apenas vigiando — completo.
Eu nunca tinha pensado nisso, mas completar ao que Rob disse, me pareceu ter sentido. Meu pai poderia estar vigiando alguém e não tentando me proteger.
– Vamos — disse eu pegando dinheiro na gaveta e um casaco no armário.
Estávamos descendo a escada e minha avó não nos notara. Rob quase cai da escada por fazer muito esforço mental, eu o segurei firme para ele não rolar escadaria à baixo.
– Rob ? — chamo segurando seus braços.
– Estou bem, só foi uma tontura — disse ele respirando fundo e segurando minha mão. — Vamos.
Saímos de minha casa e entramos na camionete de Rob. Procuramos um telefone público e quando o achamos, desci da camionete e corri até lá para ligar.
Na terceira chamada, ele atendeu.
– Deixe-me adivinhar. Charlie ? — pergunta meu pai.
– Oi, pai — digo. — Lembrei de que tínhamos de nos encontrar naquele endereço. Você está nele, certo ?
– Quase metade do mês se passa e agora que lembra ? Ou tem algo que descobriu e quer conversar comigo ? — insinua ele.
– Tenho que conversa com você — insisto.
– Está bem, venha. Mas sem seu amiguinho Rob, ele não parece gostar muito de saber que você vai ver o seu pai psicopata — fala meu pai. Eu pude sentir como se ele estivesse sorrindo ao dizer aquilo.
– Como sabe do Rob ? — pergunto me fazendo de idiota.
– Charlie... Você sabe o que eu sou — disse ele, quase como um sussurro. — Então, pare de joguinhos e venha tirar suas "dúvidas" sobre o que você é com seu pai.
– O que vai me garantir que não irá fugir ? — indago.
– Vai ter que confiar em minha palavra — balbucia e desliga na minha cara.
Bato o telefone com força contra a parte de metal do cubículo do telefone público que estou. A parte de metal amassa e o gancho do telefone quebra.
– Mas que merda!
Sai do cubículo e sigo em direção da camionete de Rob.
– Então ? — pergunta Rob com um copo de café na mão e encostado na camionete.
– Então, que meu pai sabe que você está indo junto e também sabe que eu sei o que ele é — respondo com sarcasmo. — Eu quero o pior dia da minha vida mais uma porção de desgosto, por favor.
Rob ri e toma um gole de seu café.
– Ainda quer falar com ele depois disso ? — pergunta ele.
Sinto uma sensação estranha, como se alguém estivesse em minha mente. Então, presumi o que me pareceu mais condescendente.
– Eu já disse para você não ler minha mente sem minha permissão, seu desgraçado! — digo dando um soco no braço de Rob.
Ele ri do acontecido e volta ler mesmo com a atitude agressiva que cometi.
– Seu babaca– resmungo. — Isso é falta de sexo, por caso ?
Instantaneamente, Rob para de ler minha mente, ergue uma sobrancelha e me oferece um sorriso sem vergonha.
– Tem um jeito de não sentir essa falta — disse ele sorrindo. — É só a gente entrar na camionete, que tal ?
– Você é ridículo — digo o empurrando, ele ri voltando para perto de mim e deposita um beijo em minha testa. — Me ame menos, Robert.
Saímos dali indo em direção ao local em que encontraria meu pai. Ele poderia fugir e não me dar explicação nenhuma, mas eu tinha de conversar com ele, embora não me contentava em vê-lo após desse episódio desanimador. Apesar de tudo, eu queria ter as respostas para as perguntas que gritavam em minha mente. Era isso ou ficaria na mesmice de sempre, completamente confusa e cheia de dúvidas.
– É ali — digo apontando para uma casa de coisa andares bege claro.
A casa era muito bonita. A grama do jardim era bem cortada, havia como forma de cerca, roseiras muito bem cultivadas. Um pouco mais a frente no primeiro piso, tinha um quintal com piso de madeira branco, um banco de madeira com almofadas e um filtro dos sonhos pendurado próximo à porta.
Dei um longo suspiro e lancei um olhar preocupado para Rob, que estava dentro da camionete me observando. Depois de cinco minutos discutindo, ele cedeu à minha vontade de ficar lá dentro.
Toquei a campainha com as mãos trêmulas. Eu estava muito nervosa. Não sabia o que deveria dizer ou até mesmo, como agir sem parecer uma desequilibrada. Senti que alguém estava vindo em direção à porta e esperei ansiosa. Assim que vi a porta se abrindo. Meu coração quase parou.
– O que faz aqui ?- perguntou Giulia com as sobrancelhas franzidas e um olhar de espanto.
Giulia estava diferente. Ela parecia estar oito anos mais velha. O formato de seu rosto quadrado, deixou todo aquele semblante de adolescente e transformou-se numa jovem mulher adulta.
– Desculpa, acho que esse deve ser o endereço errado- falo.
Olhei para o número da casa e era o mesmo que meu pai havia escrito no endereço.
Ele sabia que eu iria descobrir mais cedo ou mais tarde e me enganou , penso. Como sou estúpida.
– Eu acho melhor ir- digo.
Mas eu senti, a presença de mais alguém. Esse alguém era poderoso e eu sentia uma familiaridade em sua presença. E por trás de Giulia apareceu esse alguém.
– Vejo que minha filhinha chegou — disse meu pai com um sorriso galanteador.
Eu e Giulia nos fitamos com os olhos arregalados e atônitas.
– Entre, Charlie. Temos muito o que conversar — disse meu pai quebrando o silêncio que pairou sobre nós.
Entrei na casa e fiquei admirada pela decoração moderna em toda sala de estar. Meu pai fez um gestão para me sentar em um sofá aconchegante de dois lugares. Eu o fiz e, Giulia sentou-se no outro. Ela direcionava seu olhar para todos os lugares até para meu pai, mas menos para mim.
– Quer alguma coisa para comer, Charlie ?- pergunta meu pai ainda de pé. — Algum suco ?
– Não, obrigada — disse eu. Minha voz saiu rouca devido às circunstâncias.
– Bom...- começa meu pai. — Você descobriu não foi ? — assenti. — Tudo ?
– Como assim tudo ?- pergunto franzindo o cenho.
– O que você é e porque é- responde ele.
– Diga-me você- disse eu o desafiando.
Sinto a presença de alguém em minha mente, vasculhando cada pensamento meu. Os mais profundos segredos sendo descobertos naquele instante.
– Você já sabe de tudo. Está tudo dentro de você e acho que não preciso dizer nada.
– Eu não estaria aqui se não estivesse tão confusa- digo enfurecida.
– É complicado, Charlie — responde meu pai ríspido. — Eu não queria ter feito isso, mas olhe a jovem linda, inteligente e deslumbrante que você se tornou. Mal posso acreditar que é minha filha — suspirou. — Eu gostaria que as coisas fossem diferentes. As circunstâncias fossem diferentes, mas não são e, agradeço a cada dia por não serem piores.
– Belo discurso, mas eu gostaria de saber uma coisa.
– O quê ?
– Porque e o que ela faz aqui ? — pergunto apontando para Giulia.
Até que eu percebo, eles estavam juntos. Meu pai tinha dito que amava minha mãe, mas a amava tanto que a deixou ? E nem se importou por ela e a filha terem sido sequestradas ? A mesma estava desaparecida há dois anos e ele se deu o trabalho de procurá-la ?
Meu pai só provou o quanto minha mãe estava certa ao seu respeito em seu diário. Ele era vazio, narcisista, egocêntrico e manipulador.
Ele pegou a mão de Giulia e entrelaçou seus dedos nos dela, me olhando com súplica para que eu entendesse.
– Todos nós temos que seguir em frente um dia, Charlie — disse meu pai firme. — Embora que, para algumas pessoas, não pareça certo.
– O que você é ? — pergunto a Giulia com os olhos irradiando ódio.
Ela me olha com os olhos marejando de lágrimas.
– Sou igual à você — diz deixando as lágrimas rolarem. — Sou uma nephilim antiga.
– Antiga ? — franzi o cenho.
– Sou imortal como os anjos — responde.
– Isso é possível ? — indago dando uma risada sem humor.
– Sim, é possível. E muitas outras coisas são possíveis, Charlie. Basta ter fé que se realizem — disse meu pai sorrindo.
– Eu quero que me explique sobre os nephilins — peço. — E se for possível, um pouco sobre os caídos.
– Porque está tão determinada à querer saber disto ? — pergunta meu pai. — Você pode seguir sua vida como se nunca soubesse que fosse uma nephilim, como os outros o fazem. Eles vivem sem lembrar-se que são nephilins e levam uma vida incrível.
– Porque acho que ser nephilim é o que resultou a que eu e minha mãe fôssemos seqüestradas — disse eu.
– Como pode ter tanta certeza ? — indaga meu pai.
– Poque além de ser óbvio, é o que me parece mais certo de se dizer devido aos acontecimentos recentes. E outros anjos caídos podem ter guardado rancor de você e uma forma de lhe afetar seria atingir alguém que ame. Pelo menos, eles acham que você ame.
– Chegou perto sua teoria, mas não é de mim que guardam rancor e sim de outra pessoa — disse meu pai em forma de enigma.
– Quem seria essa pessoa em questão ? — pressiono.
– Talvez eu sabia — e ele sorriso como se sugerisse algo. — Ou apenas você saiba.
– Pare de mentir para ela, está bem ? — berra Giulia. — Ela não merece mais isso. Chega.
Me surpreendeu a atitude de Giulia. Ela se virou para meu pai e eles pareciam ter uma discussão silenciosa.
– Giulia... — rosna Jonathan.
– Ela vai ter que saber, se não for por você, irá ser pelo outro — disse Giulia com a voz embargada de raiva.
– Charlie, eu quero que ouça bem o que vou lhe dizer — disse meu pai e assenti. — Você é descendente de outro anjo. Você possuí uma linhagem muito poderosa. Descende de dois anjos caídos, que tinham uma posição muito alta antes de cair. Eu sou um deles e outro, acho que você não conheça ainda — meu pai parou para ler minha mente e voltou a dizer. — Não o conhece, ainda bem.
– Ser descendente de dois anjos caídos é um problema ? — pergunto.
– Não exatamente, mas não é nada bom — continuou. — Principalmente no seu caso. E sim, o motivo de ter sido sequestrada implica com você ser nephilim, mas tem algo, algo que não posso te dizer. Eu fiz um pacto que obriga a eu não te contar sobre isso, somente uma pessoa pode. E acho que você sabe de quem estou falando. — por fim ele me lança um olhar preocupado.
Não fazia ideia de quem meu pai estaria falando.
– Mas me diga uma coisa, — penso antes de dizer, falar sobre Gwyneth não parecia ser muito bom no momento e algo me dizia que meu pai não me contaria. — porque essas coisas estão acontecendo ?
Meu pai franzi a testa tentando compreender o que eu queria dizer com aquilo.
– Desde que eu nasci, você ter ido embora, minha mãe viveu fazendo com nos mudassemos sempre de cidade e nós sermos sequestradas. Quem são essas pessoas que fazem isso ?
– Eu queria muito poder te dizer, mas o pacto não permiti — fala meu pai. — Além do mais, se eu ousar te dizer, sou mandado para o inferno.
Sinto meu queixo caindo ao ouvir aquelas palavras. Por mais que estivesse com raiva de meu pai, não poderia pedir para que ele dissesse mais nada. Apenas assenti e me levantei. Eu sabia onde e quem deveria procurar agora. Iria atrás dele naquele instante.
– Obrigada, pai — disse eu indo em direção a porta pronta para sair.
Ele se levanta e me leva até a porta. Meu pai me oferece um sorriso galanteador e me dá um beijo na testa.
– Eu sei que te decepcionei muito — disse ele. — Espero que um dia possa me perdoar.
– Talvez eu perdoe — disse dando as costas e andando até a camionete, onde Rob estava tirando um cochilo.
Isso porque insistiu para vir comigo , penso.
Sinto alguém chegando atrás de mim e esperei este se pronunciar.
– Charlie.
Me viro e olho bem séria para Giulia.
– O que foi ?
– Eu... Eu sei o quanto sente raiva de mim agora e está confusa por eu ter tido um breve relacionamento com Dimitri, mas foi porque seu pai me pediu — explica ela. — Na verdade, eu não quero nada com Dimitri, porque eu tenho seu pai.
– Como assim meu pai pediu ? Ele conhece Dimitri ? Ele sabe que eu o conheço ? — pressiono.
– Ele sabe de tudo, porque eu contei à ele. Seu pai pediu para que eu te vigiasse e o fiz. Tinha que tirar Dimitri de perto de você, ele podia ser um problema para você. Jonathan o conhece há muito tempo, tempo demais para você saber o que ele é.
Aquelas palavras foram como um soco na minha cara.
– Apesar de tudo, eu queria te pedir desculpas pelo o que fiz com você — súplica Giulia.
Mesmo com todas essas justificativas e informações, ainda sentia raiva de Giulia. Por ela ter ousado ter tomado o lugar de minha mãe.
– Obrigada por tudo essa... Informação — digo.
– Sinto muito, Charlie — chora ela.
– Foda-se — entro na camionete e acordo Rob.
Rob acorda assustado olha para mim e depois para Giulia, não disse nada. Apenas ligo a camionete e seguiu caminho.
– Se ousar ler minha mente agora, eu te enforco — disse eu dura.
– Você pode dirigir para mim ? — pede ele nem se importando para o que eu disse.
Noto que ele estava muito cansado, o esforço que ele fez hoje. Não vou reclamar, ameaçar e insultar a ele, embora fosse algo que faço sem perceber.
– Tudo bem.
Trocamos de lugar. Rob encostou-se no banco do carona e nos levei até minha casa.
– Rob — chamo assim que chegamos.
Ele abriu os olhos lentamente e me deu um sorriso preguiçoso.
– Obrigado, Charlie — disse ele. — Acho melhor eu ir para casa.
– Você está muito cansado mesmo — digo. — Rob, obrigada por me levar lá hoje e, desculpe se fui uma idiota com você.
– Sempre pode contar comigo se precisar — e deu mais um sorriso preguiçoso.
– Pode ler. Eu sei que você está curioso.
Rob arqueia as sobrancelhas surpreso e lê minha mente.
Após ler minha mente, ele não fez nenhum comentário. Apenas me olhou desconfiado e assentiu como se pensasse consigo mesmo.
– Rob, o que foi ? — pergunto.
– Você é um farol aceso para os caídos — responde. — Eu tenho que ir agora. Nos falamos mais tarde.
– Tudo bem, então — disse eu saindo da camionete e caminhando até a entrada de minha casa.
À propósito, seu pai é um canalha , disse Rob em minha mente.
Eu sorri e levantei uma das sobrancelhas para ele manobrando a camionete e olhando para mim com um sorriso travesso.
Até mais, diva , disse ele indo embora.
Eu rezei para que Rob não lesse tanto minha mente aponto de saber o plano que bolei.
Eu dei a volta pela minha casa e corri até a cabana que eu e Dimitri nos encontrávamos, na esperança de que ele esteja lá.
Chegando na cabana, nenhuma luz estava acesa. Fiquei indecisa naquele momento, mas segui até a varanda e com o grampo que sempre levava agora em meu bolso, destranquei a porta. Não tinha nenhum sinal de Dimitri.
Suspirei cansada e lamentando pelo esforço feito em vão. Saí da cabana e a tranquei com ajuda do grampo.
Quando estava descendo as escadas, ouvi uma voz em minha mente. Ela me dizia para ir até o lago onde foi encontrado o corpo de Gwyneth.
Eu fiquei parada no píer de madeira observando o lago.
– Tem alguma coisa interessante para observar ? — pergunta alguém atrás de mim.
Me virei olhando estupefata. Eu não senti a presença dele.
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