Predestinada - Livro 1

16 Capítulo 16 - A Verdade


Notas iniciais
Talia mandou um "Oieee :3". Foi mal pela sumida hahaha Edição e revisão completos.

Dimitri estava parado na metade do píer de madeira. Ele estava usando uma regata verde, uma calça de moletom bege claro. Seu cabelo estava na altura do queixo. Assim como Giulia, ele estava aparentando estar oito anos mais velho.

Não respondi. Fiquei muito nervosa, tinha medo do que ele poderia fazer. Afinal, eu não sabia o que se esperar das atitudes de mais ninguém, porque a cada momento, elas mostrando o quanto eu não as conheço e o quanto fui tola em confiar.

— E eu achando que você era a única que não tinha medo de mim — fala ele rindo sem humor. — Você...

— O que você quer de mim? — pergunto entre dentes.

— Tão esperta para odiar, tão burra para entender — murmura.

— Acaba logo com esse joguinho, Dimitri. Eu sei o que você é — menti nessa última parte.

— Você sabe o que sou então? — disse ele levantando as sobrancelhas levemente.

Assenti a sua pergunta.

— Não te assusta?

— Você quer realmente saber? — disse eu enrolando para bolar um plano.

— Sim, assim torna meu divertimento mais interessante — fala Dimitri com um sorriso torto.

— Sinceramente, eu nunca senti tanto nojo em toda minha vida. Ter deixado você me tocar com essas mãos imundas — provoco. — Você é um monstro tão repugnante.

— Acha que me engana, Charlie? — mostrando-se profundamente triste.

— Não sei do que está falando.

— Se pensa que vai conseguir fugir está muito enganada, Charlotte — disse ele calmo andando em passos largos e lentos até mim. — Você não faz ideia do que pode acontecer.

Eu agi apenas por impulso e dei uma joelhada nas partes íntimas de Dimitri e corri o mais rápido que pude.

Parei perto da cabana, tentando achar um rumo. Tudo parecia confuso, por um momento, não sabia mais como voltar para minha casa, não me lembrava de mais onde eu estava e o que estava realmente acontecendo.

Dimitri estava atrás de mim colocando suas mãos na minha cintura, me imobilizando.

— Me solta, seu desgraçado! — berro me debatendo.

— Peça com jeitinho, querida — sussurra em meu ouvido.

Eu sentia uma raiva muito profunda e sombria. Eu queria que Dimitri sentisse dor, queria fazê-lo sentir como se tudo estivesse perdido para ele.

De repente, eu me sinto estranha — sim, mais do que o normal —, alguém estava em minha mente, controlando o que eu podia ver.

— Veja o que quer ser visto por você — disse ele segurando levemente minha cintura e com o outro braço me dando uma gravata, mas não apertava muito.

— Dimitri, seu verme imundo! Me solta! — berro e me debato.

— Não até você se controlar — sussurra em meu ouvido. — Charlie, apenas se acalme. Eu não vou te machucar.

— Como eu posso ter certeza disso? — rosnei.

— Vai ter que confiar em mim — fala ele calmo.

— Confiar em você? — ri sem humor. — Para acabar morta? — dou ombros. — Não, obrigada. Dispenso o convite.

Se for morrer, quero fazer do meu jeito. Ou seja, do jeito mais idiota que tiver. Dimitri estava brincando comigo naquele momento, se divertindo com a presa. Ele estava tirando proveito por eu estar fraca e indefesa, sem saber como usar suas habilidades nephilins em combate. Apesar de me achar um monstro, tenho minhas vantagens nisto, embora não saiba como usá-las.

— Charlie... — disse ele me soltando.

Viro-me para olhá-lo e não penso duas vezes, chuto de novo as partes íntimas de Dimitri e corro para a cabana. Tento, com o grampo, abrir a porta e tentar me esconder.

Como se isso bastasse de algo, Charlie, diz minha consciência.

Mas quem liga certo? Eu estou tentando me proteger. De um jeito covarde, mas era melhor que nada.

Abro a porta e a tranco novamente com o grampo. Tento correr para todos os cômodos e bloquear janelas e a porta da frente com o que estivesse a minha volta. Quando termino e não ouço mais nenhum som do lado de fora, a não ser a brisa de outono pairando pelo ar e levando as folhas amareladas em uma direção.

Estava parada no meio do quarto da cabana com muita adrenalina passando por cada centímetro do meu corpo. Não ouço nada. Nem um pio. Isso é tenso, muito tenso. É como se...

— Eu tivesse ido embora, mas você não tem certeza? Talvez, deusa. Quase acertou — disse Dimitri atrás de mim.

Viro-me com uma expressão atônita.

— Você não confiou em mim — disse com uma expressão de decepção. — Acha que sou quem quer te matar?

— Você age como um psicopata — foi tudo o que consegui dizer.

Ele suspira e caminha até a mim lentamente, mas, a cada passo que ele dava em minha direção, eu dava dois passos para trás. Mas isso não durou muito, pois meu corpo se bateu contra a parede.

A derrota tinha um gosto amargo do qual é inegável de aceitá-la. Por fora, apenas o medo e o pavor me dominavam, mas por dentro, a coisa estava em uma situação mais crítica. Não havia como negar, me sentia como se estivesse de novo em meu cativeiro. Completamente imunda e suja, o cheiro podre e o suor em minhas roupas. O medo que sentia, eu queria fugir, mas não havia escapatória. Era meu fim.

Dimitri me observava atentamente e tocou com uma das mãos meu rosto.

— Não toque em mim — rosnei.

Ele me ignorou e pressionou seus lábios contra os meus, eu o empurrei e ele, mas agarrou pelo braço.

— O que quer de mim? — berro chorando.

Só chorava por medo.

— Você sabe muito bem — disse ele sério.

— Não, eu não sei — explodo a verdade. — Eu não sei o que você é! Eu não sei de nada! Então acaba logo com isso, Dimitri, e me mata.

Como assim você não sabe, minha deusa?, perguntou Dimitri em minha mente.

— Como fez isso? — pergunto trêmula.

— Do mesmo modo que você pode fazer — sussurra ele em meu ouvindo rindo.

— O que é você? — pergunto.

— Vai ter que confiar em mim para saber — responde ele sério.

— Não... — digo receosa.

— Eu já disse que não vou lhe machucar — sussurra com o dedo médio e indicador pousando em minha testa.

Bom... Esse não era bem o fim que achei que seria, mas fazer o quê? Eu vou sentir falta de Rob, da Jess, da minha avó, de meu pai que acabei de conhecer, por mais que tenha sido um cretino e de minha mãe que tentei salvar, mas... O destino resolveu me brincar comigo.

— Feche os olhos — ordena ele.

— Sempre faz isso com suas vítimas? — pergunto sarcástica. — Pede para fechem que os olhos para não verem o que faz com elas?

— Charlie, confie em mim, pelo menos agora — pede. — Eu vou mostrar uma coisa que você vai entender quase tudo. Quase todas as suas dúvidas respondidas.

Fiz o que ele pediu e fechei os olhos, com um medo de ele tirar uma faca do bolso e cortar minha garganta, mas o fiz.

Quando abro os olhos novamente, me vejo parada no meio de um escritório com estantes de livros, uma escrivaninha, poltronas e um sofá de couro no meio da sala. Reconheci aquele lugar. Olhei janela a fora e o céu cheio de estrelas brilhando como diamantes. Eu estava no momento em que Dimitri dizia a Gwyneth sobre a maldição. Viro-me e vejo os dois sentados no sofá.

Gwyneth toca no rosto dele receosa com a reação de Dimitri, mais ainda assim o fez. Embora, eu reconheça que ela esteja assustada.

— Me diz tudo o que preciso saber — disse ela olhando de forma doce e inocente para ele.

— Você foi amaldiçoada há muito tempo. E dessa maldição, você sempre voltar a viver, mas não é tão simples — disse ele com cautela, escolhendo palavra por palavra. — Se você morrer agora e não der continuação à sua linhagem, nunca mais vai voltar.

Gwyneth ficou em choque, mas eu tive uma reação bem diferente, eu ri até dizer chega.

— Até parece! Essa carinha bonita só vem uma vez na vida — rio de minha própria piada.

Mas então, me dou conta de um fato, aquilo fazia completo sentido. Gwyneth era minha bisavó, éramos idênticas, — embora eu seja mais bonita — mas era verdade. Fomos amaldiçoadas. Agora minha maior pergunta é: como, porque e por quem?

— Se isso for uma brincadeira, é de muito mau gosto e eu vou realmente embora sem trocar um olhar sequer com você, Dimitri — ameaça Gwyneth.

— Não é uma brincadeira. É muito sério — disse ele sério.

— E você faz o quê? — pergunta ela cética. — Me protege? De quê e de quem?

— Sim, eu te protejo. É minha obrigação, já quem fui eu que provoquei isso tudo — responde ele. — Bom estas últimas partes, acho melhor saber depois, quando tiver um pouco mais sábia do assunto.

— O que é você? — perguntou ela estreitando os olhos.

— Eu sou um anjo caído — disse. — Eu caí por que além de me apaixonar por uma mortal, eu sou o pai do primeiro nephilim.

— A história do livro... — murmuro encaixando as peças. — É real.

— Quem era a mortal? — pergunta Gwyneth tremendo.

Dimitri a olha como se ela já soubesse a resposta.

— Eu... — disse eu.

— Isso não é verdade! — grita Gwyneth.

— É verdade, por isso estou dizendo para você ir — disse Dimitri calmo.

— Porque você não pode ir comigo? — pergunta ela chorando.

— Eu não posso ter filhos com você, se não te matam de novo e não vai ter mais nenhum sentido eu viver — fala Dimitri colocando as mãos sobre o rosto. Ele estava chorando.

— Dimitri, me tira daqui. Pare! Eu não quero mais ver! — peço.

E assim, ele o fez. Eu abro os olhos e estava de volta à cabana. Nunca fiquei tão exasperada antes.

— Charlie, se acalme — pede Dimitri pondo as mãos em meus ombros, me fazendo olhar dentro de seus olhos.

— Isso é real! Eu não estou dormindo, ou algo do tipo, mas isso é real — me desespero.

Meu corpo tremeu de medo. O suor frio escorria pelas minhas costas, testa e todo meu corpo. Sentia como se minha pressão estivesse caindo.

— Charlie, olhe para mim — diz Dimitri.

— Dimitri, o que houve com...

Tentei achar seus olhos, mas tudo escureceu. Desmaiei, acho. Assim que acordo noto que estou caída no chão, meu corpo ainda estava dolorido pelo impacto ao se colidir com ele. Quando abri os olhos, a primeira coisa que fui capaz de visualizar foram as suas sobrancelhas levemente franzidas e seu lindo par de olhos verdes com pequenas riscas azuis, que me fitavam de maneira preocupada e sutil ao mesmo tempo. Dimitri estava por cima de mim, seu corpo gigante cobrindo o meu, segurando uma de minhas mãos. Corei instantaneamente. Apesar das circunstâncias, eu ainda tinha sentimentos por Dimitri.

— Você está bem? — pergunta me olhando sério.

— Não sei, eu... Eu... — gaguejo.

Não conseguia organizar meus pensamentos, estava tudo uma bagunça.

— Fiquei calma — disse ele com a voz tranquila. — Eu estou aqui.

— Aquela história do livro... Eu era aquela mulher que deu a luz ao primeiro nephilim? — pergunto com os olhos marejando de lágrimas.

Dimitri desviou seus olhos dos meus por um instante, deu um longo suspiro e voltou-se com eles para mim. Seus olhos fixaram-se nos meus e disse:

— Sim, Charlie. Eu... Sinto muito por isso — fechou os olhos e respirou fundo. — Eu não queria que nada disso tivesse acontecido com você.

— Me explica o que houve — peço, e ele abriu os olhos, — Por favor — assentiu.

Ele se levanta, ficando de pé, e com sua mão me puxa para levantar. Levanto-me com sua ajuda e espero ele começar.

— Eu estava numa missão na Terra, estava tentando me habituando novamente com meu corpo, as sensações e emoções estranhas, nunca tive contato com um humano naquela missão até te conhecer. — conta. — Eu passei um tempo tentando entender porque os caídos tinham tanto interesse naquele vilarejo. E depois que percebi, já tinha sido um pouco tarde demais. Os caídos haviam matado seus pais e marido, quase mataram você, mas eu tinha conseguido chegar a tempo. Por pouco, eu quase te perdi.

— Você me salvou, porque se apaixonou por mim? — pergunto com cautela.

— Eu passei muitos anos naquele vilarejo, Charlie — explica. — Eu conheci seu pai, ele era um escravo. Ele era completamente apaixonado pela sua mãe. Apenas o ajudei com sua mãe e depois de alguns anos você e sua irmã nasceram, sempre observava você de longe ― abre um sorriso fraco. ― Eu já estava me apaixonando e não percebia, até te salvar.

— Como aconteceu de nós... ? — pergunto. — Você sabe, ficarmos juntos.

— Eu te salvei e depois passei a lhe ver todos os dias — ele sorriu se lembrando. — Você dizia que era uma das melhores partes do seu dia era quando eu iria a visitar. Após certo tempo, nós apaixonamos e ficamos juntos até você engravidar.

— Como assim ficou até eu engravidar?

— Eu tinha sido convocado no céu alguns dias depois de ter exposto nosso relacionamento e fui acusado por algumas regras violadas e caí — disse com os olhos mostrando o semblante de tristeza. — Você soube o que eu era, quando me viu dentro de uma cratera perto do riacho. Nunca te vi tão assustada antes, porque acordei com você gritando e chorando, achando que eu tivesse morrido. Mas o que me surpreendeu, foi você ter ficado admirada com minhas asas.

As respostas de Dimitri batiam de frente com tudo o que sabia. Eu não frequentava sempre a Igreja, mas eu tinha um grande conhecimento sobre sua ideologia. Estava em um enorme conflito interno. Aquilo era tão surreal. Tão inimaginável que me assustava.

— Pelo o que eu sei, os anjos são tão puros quanto às crianças — disse eu o encarando, esperando uma resposta plausível. ― O que aconteceu para se corromper assim tão fácil?

— Isso é uma ideologia verdadeira, mas não é tão simples quanto parece ser — diz ele. — Nós, anjos, não somos promíscuos a pecar como os humanos que já tem a mancha do pecado dentro de si, mas pode acontecer.

— Você caiu por causa dos seus pecados, não caiu apenas por mim — digo engolindo em seco. — Teve algo a mais, certo?

— Eu ficava admirando a vida de vocês no alto das nuvens e me perguntava como seria ter uma vida humana. Como seria ter uma família, como seria envelhecer. Era o que eu queria conhecer antes, mas... — responde.

— Existe um "mas"? — zombo.

— Mas nunca foi o certo para nenhum anjo — disse. — Eu fui contra meus irmãos quando estavam querendo ter um controle sobre o que queriam fazer e estavam indo contra os princípios que nos foram ensinados, na época antes da queda.

— Se parar para analisar, isso é muita ironia, sabia? — indago irônica. — Você que era contra a escolha dos seus irmãos e depois de um tempo, você caí e trás o primeiro nephilim a Terra — ri sem humor e bati palmas. — Parabéns, Dimitri, você conseguiu ser um hipócrita.

O doente mental simplesmente deu um sorriso e me encarou

— Você acha que eu fiz isso por que quis? — pergunta.

— Não está óbvio? ― ironizo.

Dimitri apenas solta um longo suspiro e desvia seu olhar de mim. Sabia que tinha algo a mais que ele não queria me dizer, mas não importava; eu tinha que saber a verdade, ou isso iria me matar.

― Você está agindo assim porque é a melhor maneira de lidar com a situação ― disse dando ombros, mas sem olhar para mim. ― O sarcasmo é sua forma de defesa quando as coisas estão difíceis, não é de admirar-me você reagir desta forma com tanta informação de uma só vez sendo despejada assim.

Eu não sabia era reagir com um Dimitri maduro e sábio que estava em minha frente. Tudo o que eu perguntava, ele me dizia sem hesitar. Dizia-me na lata. E isso me intrigava. Por quê? Simplesmente por ele está certo. Essa era a minha melhor forma de reagir a essa situação, pois havia tanta informação para absorver e digerir sem ter que surtar por achar que você está finalmente mostrando-se que é louca, mas ao mesmo tempo, você sente aquela aceitação de que já sabia no fundo de tudo isso. Apenas precisava de alguém para lhe dizer sem hesitar, como Dimitri fez. Ele não se importava caso eu esteja surtando ou não, ele apenas disse o que precisava ser dito, assim não precisa de toda aquela enrolação para me contar. Até porque, o idiota me conhecia. Sabe que eu sou direta quando quero respostas.

― Preciso saber de uma coisa ― digo após um longo silêncio que havia se instalado entre nós.

Dimitri direciona seu olhar a mim, sério.

― Diga.

― A maldição ― falo sem hesitar, pois queria respostas. ― Me conta sobre ela.

― Você tem certeza de que quer saber sobre a maldição? ― pergunta erguendo as sobrancelhas.

― Não questão de vontade, mas sim por necessidade de saber ― digo sem rodeios. ― Sei que de alguma forma isso me afeta hoje e muitas pessoas estão envolvidas nisso, e acho que possa haver com meu sequestro.

― Isso tem haver literalmente com seu sequestro ― diz me analisando seriamente. ― Será que não é tão óbvio? Qualquer um que tiver a chance de te matar irá fazer isso com prazer, ainda mais sabendo da sua maldição.

― Então, fala de uma vez ― rosnei.

Dimitri deu um longo e profundo suspiro.

― Se lembra da história do livro? ― pergunta com seriedade.

Assenti e esperei que continuasse.

― Ela resumiu um pouco do que aconteceu lá naquele dia. O livro omitiu algumas partes, o porquê eu não faço a mínima ideia. Axel ficou muito transtornado e deve ter enlouquecido ao o escrever. Tendo que se lembrar do que houve foi doloroso demais para ele.

― Espere Dimitri ― peço confusa. ― Quem é Axel?

― Vou explicar já essa parte ― fala dando ombros, como se fosse um detalhe sem importância alguma. ― Antes de cair, antes de te conhecer, havia um anjo que era minha irmã. Ela sempre foi apaixonada por mim, mas eu nunca via nada além de uma irmã. Eu desconhecia o que era amar.

― Essa é o anjo que matou a mim e meu filho? ― pergunto incrédula.

― Sim, ela quem deu a ideia de maldição em cima de você. Sabe que eu fui obrigado a ver as mortes do meu filho e sua, certo? ― pergunta e eu assenti. ― Bom, antes disso, ocorre às condições de sua maldição. São condições complicadas, mas é possível, afinal você está aqui como nephilim.

― E quais são elas?

― Você teria que ser a única menina e a mais nova dos filhos dos seus pais, essa é a parte fácil e você sempre nasceu como mais nova. Depois que cresce é complicado, você não poderia se envolver com um anjo caído, nem ter um filho deste, ou você morre de forma agonizante e nem eu sou capaz de lhe ajudar. Você pode envolver-se com um nephilim, dando à luz a segunda geração nephilim, isso não lhe afetaria, embora eu ache isso um preconceito.

― Não vi nada de complicado até agora ― murmuro dando ombros.

Dimitri me lançou um olhar que não consegui decifrar, porém tampouco me importava o que ele estava dizendo.

― Se você der à luz a um menino, continua sua linhagem normalmente até morrer e pode repetir esse ciclo de vida para sempre ― continua ele ainda com aquele olhar esquisito. ― Mas... Se for uma menina, é destinado que você nasça como nephilim após quatro gerações, e então esse ciclo de vida acaba. Se você morrer agora não tem volta, Charlie. Agora é complicado para você?

Agora tudo fazia sentido. O porquê de Gwyneth ser minha bisavó. Quatro gerações depois dela, eu nasci. Fazia sentido. Mas fiquei confusa em algo.

― Como pode ter tido uma continuação de linhagem se eu e meu filho morremos? ― pergunto me estressando. ― Só se eu tivesse uma irmã ou irmão e este continuasse a linhagem, mas mesmo assim, teria que partir de mim a linhagem.

― Você está quase certa ― riu sem humor. ― Você perguntou do Axel. Bom, este tal Axel, era seu filho também, ele era filho do seu falecido marido. E sim, você tinha uma irmã, só que ela não podia ter filhos, mas você a deixava cuidar do Axel como se fosse seu. Fora que, vocês eram diferentes. Ninguém dizia que você e Carmela fossem irmãs. Isso que salvou Axel de não morrer, ele parecia com sua irmã e seu marido também.

Aquele pequeno garoto do sonho e a mulher que era eu. Talvez fosse...

― Um sonho? Era real, Charlie. E seu nome era Kayla ― disse ele engolindo em seco ao dizer meu antigo nome.

Fiquei intrigada. Ele leu minha mente e eu nem havia percebido. Mas como? Tudo bem que ele era um anjo caído, mas fala sério, como ele entra em minha mente sem eu me dar conta? Por mais que eu seja lenta para tudo, tinha noção de que alguém estava em minha mente.

― Você leu minha mente? ― rosno.

― Sempre fiz isso, não é agora que irei deixar de fazer ― responde dando um sorriso arrogante.

Eu queria resposta para minhas perguntas, por isso, não iria discutir com Dimitri por bobagem ― embora ler minha mente não seja bobagem ¬― pelo bem da minha saúde mental, que está à beira de um colapso. Normalmente, quando tinha meus colapsos ― o que é raro acontecer ― precisava que alguém me segurasse ou tirasse todos os objetos com ponta de perto de mim, caso contrário, eu iria cortar a mim mesma ou outra pessoa em minha volta. Eu ficava descontrolada, achava que todos queriam me machucar. Foi assim durante meses após meu sequestro. Por essa razão, estou tentando manter o autocontrole antes que eu surte e tente matar Dimitri.

― E o que quis dizer antes sobre Axel? ― pergunto. ― Tinha haver com o livro.

― Foi Axel que escreveu "A Vingança Nephilim" a pedido dos nephilins originais, já que este viu tudo. Sua morte o enlouqueceu. Você era tudo o que ele tinha de família, além de sua irmã e o marido. Você havia pedido antes de morrer que eu tomasse conta dele. Eu o fiz, o máximo que pude, mas ele ficou tão obcecado por vingança pelo que fizeram com você que nem se importou com o futuro que ele tinha. Axel morreu depois de dois anjos caídos terem o torturado por saberem do livro. Ele mal tinha visto seus filhos gêmeos.

Era muita informação para processar. Dimitri sabia cada detalhe, não deixava escapar um sequer. Pensei bastante sobre o que perguntar a ele, pois a cada resposta que ele dava a mim, mais dúvidas surgiam, me deixando cada vez mais confusa e exasperada com minha real situação.

― Como eu posso ser destinada a ser nephilim se precisaria de um anjo caído no momento perfeito para engravidar... ― digo e me dou conta do porque meu pai tinha dito em sua carta de despedida à minha mãe.

Meu pai pedia para minha mãe na carta não permitir que eu entre nesse mundo em que eles vivam, mas já era tarde pelo visto. Querendo ou não, eu fazia parte daquele mundo e isso ficou tão claro nesse momento que não conseguia mais compreender o motivo de tudo.

― Minha mãe... ― sussurrei deixando as lágrimas escorrerem.

― Charlie ― chama Dimitri com a intenção de que eu olhasse para ele. ― Você leu até o final daquele livro?

Apenas neguei com a cabeça, mas percebo que Dimitri queria me dizer mais coisas.

― Por quê? ― pergunto desconfiada e semicerrando os olhos para ele.

― Você é promessa de guerra que irá haver entre nephilins e caídos.

― Por que com os caídos? ― pergunto franzindo a testa e a voz embargada. ― Por causa da antiga rixa entre eles e os nephilins?

Dimitri deu um suspiro impaciente.

― Você é o motivo da rixa. Você trouxe o primeiro nephilim a Terra e lhe puniram por isso. Os nephilins originais, que foram os primeiros após a morte de seu filho, eles juraram vingança por estarem sendo caçados por caídos com a intenção de se reconciliar com o Céu; por isso os nephilins eram tão ruins naquela época, por que ninguém fez nada para impedir de matar você e um bebê de sete meses. Você foi amaldiçoada e estes anjos que fizeram isso de fora injusta, caíram. Por essa razão que existe uma rixa entre nós ― explica bufando de raiva. ― Mas eu nunca liguei para essa briga idiota de dois lados. Eu tinha que cuidar de você até que esse momento chegasse. Eu tinha que estar ao seu lado, porque o que virá não será nada fácil de passar em todos esses séculos que já vivi, Charlie. Estou tentando te proteger, nunca passou pela minha cabeça te matar e nem vai.

Suspiro e tento pensar com clareza, mas os pensamentos estavam embaralhados e revirando-se em minha mente como se fosse flashes e mais flashes de tudo o que tive que analisar e entender do que Dimitri me explicou.

Queria entender onde meu pai se encaixava nessa história, por qual razão ele resolveu entrar vida de minha mãe. Ele sabia da história e o que aconteceria. Para falar a verdade, acho que no fundo, meu pai queria que a guerra se iniciasse. Eu teria que decidir o que fazer até que ela chegasse.

— Então, o que fazemos? — pergunto perdida. — Eu não faço ideia do que fazer.

— Vamos primeiro achar sua mãe. É o que podemos fazer agora — disse pegando em minha mão e entrelaçando na sua. — Eu sinto muito, Charlie. Sinto muito por fazê-la ter que passar por isso.

Eu estava perdida e desamparada. Não sabia o que fazer. Só me sentia pior do que já estava. A dúvida me mutilava por dentro. Sei que a vida não estava sendo injusta comigo, que isso era predestinado. Era para acontecer. Contudo, após tudo o que passei, pensei que eu pudesse ter uma vida melhor, mas pelo visto, só tende a piorar.

Apenas sei que soltei a mão de Dimitri e o abracei. Este me envolveu com seus fortes braços e acariciou meu cabelo e minhas costas.

— Você não tem culpa de ter amado. Você simplesmente agarrou a chance de amar alguém — digo com a voz abafada contra seu peito.

— Mas... — tenta contradizer.

— Dimitri, eu não estou com raiva de você por isso. Só não sei o que fazer e tampouco o que pensar — interrompi-o. — Posso te perguntar uma coisa?

— Qualquer coisa — disse após beijar minha testa.

— Porque está mais velho? — pergunto lembrando sua aparência madura.

Ele ri.

— Você vai entender depois, mas... Você gostou? — fala com um sorriso malicioso.

— Você é um imbecil — murmuro revirando os olhos. ― Como conhece minha avó?

― Desde que ela nasceu ― fala. ― Eu fui praticamente o segundo pai dela.

― Você está brincando comigo, certo? ― ri sem humor.

― Não, eu cuide de Pearl junto com o pai dela ― explica. ― Eu fui quem falei para Gwyneth casar-se com Miguel. Ele era um bom homem.

Após hesitar um pouco, assenti entendendo. Era muita informação para uma só pessoa. Além de toda essa informação ser pura loucura.

— Charlie, eu preciso que a partir de hoje você tome mais cuidado do que todas as vezes que lhe pedi que tomasse — pede sério.

— Então acho que vou ficar trancada em meu quarto — respondo sarcástica.

Dimitri ri e em seguida assumi uma expressão séria.

— Estamos bem agora? — pergunta segurando meu rosto com uma das mãos.

— Acho que sim, mas... Isso não significa que não esteja zangada com você.

Dimitri arqueia as sobrancelhas e ri.

— Você é muito cabeça-dura, minha deusa — disse dando um beijo no canto de minha boca.

Eu o afasto pelo quase beijo. Eu estava completamente apaixonada por Dimitri, mas no momento eu tinha que pôr minha vida em ordem antes de tomar qualquer decisão de ter algo com ele.

— Embora eu saiba de quase tudo e que você se esforçou para me manter viva durante todo esse tempo, quero me acertar primeiro antes de termos algo — digo o soltando de meu abraço. — E... Eu preciso de você ao meu lado, mesmo que não estamos juntos. Entende?

Ele assente e suspira.

— Antes, eu posso fazer só uma coisa? — pede.

— O quê? — pergunto.

― Isso.

Dimitri segura minha cintura e me beija. Ele me segurava com delicadeza e ao mesmo tempo ferozmente. Seu beijo era intenso, parecia que ele precisava daquele beijo mais que tudo. Dimitri me levou contra a parede fazendo com que minhas costas colidam, ele me levantou do chão e colocou-me em seu colo.

Eu estava deixando a levar-me por este beijo, mas o parei abruptamente e pule de seu colo. Por mais que sentisse vontade de beijá-lo, não iria contradizer o que havia dito. Tinha de ser firme no que disse. E eu serei.

― Dimitri, eu disse que não ― rosno ofegante.

― Mas eu lhe avisei ― ele sorri de um jeito cafajeste.

― O que eu faço agora? ― pergunto perdida.

― Qual é! Eu não te beijei tão mal assim, você nem me deixou terminar ― fala como se tivesse o ofendido.

Apesar da aparência madura, Dimitri continuava o mesmo idiota de sempre. Uma criança em forma de adulto.

― Dimitri, deixe de ser infantil e egocêntrico. Estou falando o que faço agora sobre isso ― esbravejo.

― Eu sei que está ― disse pegando minhas mãos. ― Conte a Pearl.

― Tenho medo de como ela pode reagir por eu saber da verdade ― digo apreensiva.

― Não é apenas sua avó que deve chamar ― disse sério.

Franzi a testa com receio do que Dimitri poderia estar dizendo.

― Como assim não só minha avó?

― Chame a todos ― fala. ― Inclusive sua irmã se possível.

Eu tinha medo do que poderia acontecer daqui por diante, mas eu tinha que enfrentar. Eu morria ou não. Simples assim. Se eu quisesse ter minha mãe de volta, eu arriscaria tudo. Estou pondo tudo a perder, mas se for por alguém que você ama, valeu completamente à pena.

Ж

Notas finais
Oieeee, meus leitores lindos >.< ♥ Tudo bem com vocês ? Ficaram com saudades ? Eu sei, vocês querem me matar ♥ Mas me perdoem por ficar tanto tempo sem postar. Estou escrevendo duas histórias ao mesmo tempo e estou tentando colocar minha vida em ordem. Fora que, eu fiquei uns finais de semana viajando com meus amigos pelo um projeto que fazemos e eu nunca estudei tanto na vida, realmente precisava descansar. Estava esgotada. Gostaria de avisar a vocês que não vou deixar de publicar Predestinada, sei que demoro muito, mas não quero dar um capítulo todo mal corrigido e feito de qualquer maneira para vocês. Este capítulo ainda não está no ponto em que queria, mas eu fiquei pensando em quanto tempo vocês estão sem Dimitri, sem Charlie, a fofa da Clarice que vai aparecer nos próximos capítulos.