Predestinada - Livro 1
17 Bônus - Rob
Notas iniciais
Caí no chão pela décima vez em duas horas. Já não estava aguentando mais. Motivação para continuar, quase zero. Determinação, acabada assim que vim para cá. Dignidade, perdida há tempos.
― Levante seu perdedor! Ou será que não aguenta?
Tentei levantar-me, mas estou muito exausto para fazer qualquer tipo de esforço, então caí novamente ao chão ofegante. Se fosse por mim, eu dormiria nesse chão de terra imundo só pelo fato de estar terrivelmente cansado.
Foram dias e dias de treinamento sem parar. Há quatros dias que não durmo. E quando finalmente consigo descansar um pouco, sou acordado aos gritos pela pessoa terrível que me treina.
― Parece que alguém é muito fraco mesmo como dizem ― disse a pessoa mais irritante do mundo para mim. ― Como irá proteger sua paixonite desse jeito? Ela iria morrer pela sua fraqueza.
Não. Não a deixaria morrer. Nunca, penso.
Antes de levanta, penso naquele par de olhos castanho-escuro e da maneira intensa que eles me fitam quando está com raiva. Ela não sabia, mas era linda brava. A forma como nos falamos pela última vez foi horrível. Nossa briga foi por um ato impensado meu. Eu tentei beijá-la e quando ela, praticamente fugiu, meu mundo desmoronou. Não quis a assustar, então fiquei com raiva de mim mesmo, tentei me desculpar com ela; mas deu tudo errado por causa dessa maldita mudança de humor. As mudanças de humor por causa da transformação são as piores que passar pela puberdade. Basicamente, era assim com todo nephilim, tínhamos que passar "duas" vezes pela puberdade em nossas vidas.
― Pelo visto, vou ter a imensa satisfação de tentar sufocar sua amiguinha enquanto você fica jogado no chão desse jeito ― disse dando um sorriso maldoso. ― Mulherzinha.
Se ela encostasse um dedo em Charlie, eu a mato. Ninguém vai mexer com ela. Ninguém! , penso.
Enfim, eu fiquei de pé. Não iria dar esse gostinho de perder tão fácil assim.
― Finalmente levantou o perdedor. Mas eu quero ver você me ganhar agora ― desafia.
Não ataquei, apenas cerrei os punhos com força. Esperei apenas que visse até mim, e a idiota o fez. Simplesmente, quando Melanie veio correndo em minha direção, lhe acertei com apenas um soco, antes que ela pudesse cair dei uma chave de braço nela.
― Você desiste agora? ― pergunto com um sorriso sorrateiro enquanto apertava seu pescoço.
― Não! ― grunhiu ela.
― Então, está bem ― apertei mais seu pescoço. ― Vai desistir ou não? ― ela não respondeu, apenas tentou arranhar meu braço, e apertei mais.
― Rob... ― disse ela ficando roxa. ― Chega.
Eu a soltei. Não me preocupei de seu corpo ter caído pesadamente no chão, apenas senti pura satisfação de ter feito isso com ela finalmente. Depois de tanto tempo dela me batendo.
― Nunca mais fale de Charlie ou eu não vou ter piedade ― digo com firmeza. ― Eu vou te matar se encostar um dedo nela.
Clap! Clap! Clap!
Virei-me de costas e vejo Lauren se aproximar de nós com um largo sorriso e batendo palmas juntos com outros atrás dela.
― Era isso o que eu queria ver ― disse Lauren me abraçando. ― Estou orgulhosa de você.
Lauren era uma nephilim que parecia ter vinte e cinco anos, embora que não seja essa sua idade. Loira dos olhos verde-esmeralda. Ela agia como se fosse nossa mãe.
Deve estar se perguntando onde eu estou. Bom, estou em um dos centros de treinamento para recém-nephilins. Como e porque isso? Simples. Há uma guerra sendo esperada por milênios entre nephilins e anjos caídos. Desde a rixa entre nós e eles, os nephilins vêm recrutando outros nephilins de todas as partes do mundo e os treina. Temos a opção de aceitar ou não ser um aliado a causa. Se recusarmos, podemos viver livremente nossas vidas, mas se tivesse alguma ligação com anjo caído além de seu sangue; este será caçado e morto. Se aceitarmos, temos que treinar fisicamente de forma dura por semanas, fora a parte que temos que aprender a como dominar nossas mentes e manipular as dos outros. Não é algo que eu me orgulhe de ler a mente de alguém, mas há pessoas que mentem e precisamos saber a verdade.
Se tornar nephilim é a parte mais fácil que me contaram. O difícil é esperar pela guerra e sobreviver a ela. Todos sabiam da história da nephilim líder prometida a nascer e levar nosso povo à vitória, que nesse caso, é Charlie. Ela seria nossa líder no campo de batalha, assim dizem nossos líderes. Só que eles não conhecem Charlie como eu conheço, e pelo o fato de conhecê-la bem, sei que não iria entrar em guerra nenhuma.
― Obrigado, Lauren ― digo sorrindo.
― Você demonstrou um grande desenvolvimento desde que chegou aqui, Rob ― disse Lauren sorrindo amigavelmente. ― Mas, receio que ainda não posso liberá-lo, precisamos que passe por uma avaliação.
― Que tipo de avaliação? ― pergunto.
Lauren franze os lábios, como se a notícia não fosse boa.
― Lauren? ― chama alguém.
Quando me viro, está lá parado Dimitri encostado numa das pilastras com um sorriso arrogante.
― Dimitri? ― pergunto confuso.
Ele estava diferente desde a última vez que o vi. Ele estava com barba por fazer, cabelos longos na altura do queixo. Mas o que me chamou atenção foi sua aparência completamente madura, parecia ter envelhecido uns oito anos, como se fosse um universitário.
Ele era um anjo caído. Eu sabia por causa da sua presença. Existe uma diferença para saber quando é um nephilim está próximo ou um anjo caído. Quando é um anjo caído, nós sentimos como um arrepio na nuca. Um nephilim, uma leve pressão na nuca. Mas nas primeiras semanas como nephilim, é muito fácil confundir, porque parecem ser a mesma sensação, mas é diferente. E sabia o que ele era, por causa da história.
― Ora, ora, se não é o Robert ― disse Dimitri. ― É uma surpresa vê-lo aqui, embora já soubesse que era um nephilim.
Todos os nephilins presentes na sala de treinos ficaram a postos e esperando uma ordem de Lauren para atacar.
― O que quer? ― pergunta Lauren ríspida.
― Precisamos conversar e isso inclui seu novo bichinho de estimação aí ― disse dando ombros.
― Venha Rob ― me puxa Lauren, antes que fôssemos, sussurrou. ― Fique em seus postos, se precisarem, ataquem sem hesitar.
Caminhamos até Dimitri e esperamos que dissesse algo. Sua expressão era relaxada, mas ao mesmo tempo está em alerta.
― O que quer nos dizer? ― pergunta Lauren com educação.
― Ela está se tornando nephilim ― disse Dimitri sem rodeios. ― Li a mente dela essa noite, ela está desconfiada de algo esteja errado.
― Ela sabe que é uma? ― pergunto.
― Não. Ela tem que saber sozinha, se alguém interferir, sabe o que acontece ― responde Dimitri.
― O que acontece? ― pergunto.
Lauren olhou para mim com os olhos tristes.
― Ela morre Rob, só Dimitri pode contar a verdade. Mas nesse estágio em que ela é nephilim há uma série de restrições sobre o que pode ser dito e o que não ― conta Lauren.
― Como ela pode morrer? ― pergunto insistindo em saber.
― Há uma parte da maldição sobre contar a verdade quando ela visse como nephilim, ela teria que descobrir sozinha ― explica Lauren. ― Se alguém além de Dimitri contar, ela morre. A alma dela implode.
Meu corpo ficou petrificado com aquelas palavras. Não acredito que Charlie vai passar por tudo isso e fora que, o destino dos nephilins estava em suas mãos. Era muita coisa para uma pessoa só suportar, ainda mais ela.
― Então eu vou tomar conta dela ― digo firme.
Lauren sorriu com orgulho, já Dimitri gargalhou alto e em bom tom.
― Você? ― zomba ele. ― Você irá proteger Charlie? Sinto muito, mas esse posto já é meu.
Sinto uma onda de raiva passando por dentro de mim. Quem era ele para dizer que não poderia proteger Charlie? Ele a deixou morrer inúmeras vezes.
― Se você tivesse a protegido como deveria, ela não teria sido sequestrada e muito menos teria que passar por tudo isso ― respondi.
Dimitri me olha com ódio e sei que ele pensa em me matar agora, mas eu tinha que dizer aquilo. Ele falhou na missão de proteger Charlie, agora eu iria a proteger. Ele querendo ou não. Afinal, ele quem provocou tudo isso, o mínimo que poderia fazer era a manter viva e protegida.
― Você não sabe de nada, moleque ― ele aponta o dedo em meu rosto.
― Rob, Dimitri sabe o que é melhor para Charlie ― fala Lauren pousando a mão em meu ombro.
Sabia que até mesmo Lauren entendia que isso não era verdade, apenas disse para evitar um conflito aqui.
― A única pessoa que sabe o que é melhor para Charlie, é ela mesma ― disse eu relutante.
Quem era ele para decidir por Charlie?
― Bater de frente comigo não irá mudar as coisas, Robert ― debocha Dimitri. ― Enquanto você está aqui, eu cuido de Charlie sem problemas. Talvez... Eu cuide até demais, se é que me entende ― e lança uma piscadela dando um sorriso malicioso junto.
Cheguei ao meu limite. Tentei dar-lhe um soco, mas alguém me impediu.
― Se eu fosse você, não faria isso ― avisa John segurando meu pulso com força. ― Pelo seu próprio bem, garoto, não se meta.
Ele era um nephilim... , penso.
― John, solte-o, por favor, ― diz Lauren com os olhos repletos de ódio. ― não queremos confusão desnecessária.
John me soltou e me olhou duramente.
Babacas... , penso.
― Nos insultar mentalmente é muita falta de educação, Robert ― disse Dimitri sorrindo sarcástico. ― Ou devo lhe chamar de Roberta?
― Apenas isso o que queria dizer? ― pergunta Lauren sem paciência.
Fiquei pasmo em ver, pela primeira vez, Lauren perdendo a paciência ou com raiva. Ela sempre foi um doce de pessoa, sempre cuidando de todos os nephilins, cada um de nós. Vê-la dessa forma, só me faz pensar em como Dimitri é inconveniente, irritante e totalmente sarcástico.
― Mais uma coisa ― disse Dimitri e olhando seriamente para mim. ― Não quero você contando nada sobre isso a Charlie quando voltar. Saiba que com certeza ela irá perguntar sobre o tempo em que você ficou fora, então trate de dar uma desculpa a ela, se não, eu vou me dar o luxo de te matar.
― Porque não tenta agora? ― desafio.
― Porque seria muito fácil, além do mais, não é matando o melhor amigo da garota que você quer ficar, vai fazer com que tudo dê certo, não é mesmo? ― ralha.
― Acho melhor pararmos por aqui ― diz John puxando Dimitri pelo braço.
Não sabia o que estava fazendo, mas algo me dizia que eu deveria entrar na mente de John. Dei um jeito de entrar em sua mente, e descobri coisas muito interessantes. Como por exemplo, John era filho de Dimitri. Afinal, era óbvio. Os dois eram idênticos, só tirando o fato de ser John uma muralha humana e é loiro. Ele tem uma quedinha por Clarice, isso era pura pedofilia, a diferença de idade deles era tremenda; fora que ela era uma criança. Ele também já foi marido de Charlie em outras vidas, mas nunca sentiu amor por ela, apenas fazia de tudo para ficar perto de seu pai.
John se virou e me encarou sério.
― Desculpe... ― digo engolindo em seco ― Eu não deveria ter feito isso.
― Na próxima vez, eu vou fazer sua mente virar um inferno.― ameaça. ― Sabe como é lá ?
Nego com a cabeça.
— É o pior lugar que alguém poderia ficar — responde.
— Dramático... — cantarola Dimitri.
— Lauren, ― chama John ― cuide para que esse imbecil não estrague tudo, por favor.
Eles dois se viraram para os portões de madeira maciça, abrindo-as e foram embora.
― Você passou ― disse Lauren sorrindo.
― Passei no quê? ― pergunto confuso.
― Na avaliação que eu iria pedir que fizesse antes deles chegarem ― conta. ― Era para entrar na mente de um nephilim antigo, e você entrou na de John. Você está quase pronto, Rob. Só precisa praticar mais.
Sorrimos alegremente por aquilo.
Ж
Respiro fundo para me acalmar, eu precisava ter aquela conversa com minha mãe.
Abri a porta de seu escritório, mas antes bati na porta me certificando se poderia entrar. Assim que minha mãe respondeu, entrei.
Minha mãe estava sentada na cadeira de rodinhas de couro, lendo algo artigo sobre design de interiores.
― Olá, filho ― disse minha mãe sorrindo para mim, desviando seu olhar da tela do computador. ― Como foi na casa do seu pai?
Hesitei antes de dizer algo.
― Mãe, eu... ― digo, mas ela me interrompeu.
― Antes que diga qualquer coisa, Charlie veio aqui alguns dias atrás procurando você. Ela parecia preocupada, mas não disse nada ― diz. ― Aconteceu algo entre vocês dois?
Charlie veio aqui? , penso.
― Não, só... Não sei ― gaguejo.
― Não digo nada sobre vocês dois ― deu uma risada baixa.
Vou ignorar essa risada, só porque sei que ela pensa de mim e Charlie. Ela acha que somos um casal. Bem que isso poderia virar realidade...
― Hã, mãe, a gente precisa conversar ― digo me sentando em uma das cadeiras.
― Sobre o quê, querido? ― pergunta casualmente.
― Quem é meu pai? ― pergunto sem rodeios.
Minha mãe assume uma postura tensa e desvia o olhar quando responde.
― Que tipo de pergunta é essa, Robert? ― fecha a cara.
― Só responda ― peço calmo. ― Eu sei que sabe o que sou.
Ela olhou para mim, paralisada. Seus olhos estavam marejando e seu rosto se reprimindo
― Rob, me desculpe... ― chora.
― Mãe, não se desculpe. É o que eu sou não posso mudar isso ― disse eu tentando assumir uma pose madura. ― Só diga quem é.
― Eu não sei ― ela responde chorando. ― Eu não sei. Eu e seu pai tínhamos terminado duas semanas antes do noivado, eu bebi e conheci um cara. Estava bêbada e aconteceu. Eu só fui descobrir que o filho não era do seu pai, porque eu me lembro daquele cara.
Ela soluçou derrotada.
― Eu me lembro do rosto dele ― diz com a voz falhando. ― Ele me contou o que era e depois continuamos a nós ver, mas ele simplesmente sumiu depois que disse achava que estava grávida. Então, soube que seu pai estava mal pela separação e eu... Voltei para seu pai, porque eu sei que seria melhor para você.
― Meu pai nunca desconfiou de nada todos esses anos? ― pergunto controlando minha raiva.
Minha mãe devia ter contado. Meu pai aceitaria, porque ele a amava, mas o que ela fez foi... Idiota.
Minha mãe me encara e tentando controlar as lágrimas.
― Não, ele sempre disse que você se parecia comigo ― responde.
Assenti com a cabeça, pensativo.
― Rob, onde esteve então todos esses dias? ― pergunta ela.
Respirei fundo. Sabia que se eu a contasse não ia gostar, mas não iria mentir sobre isso.
― No campo de treinamento nephilim em Watertown ― respondi.
― Você aceitou a proposta? ― pergunta gritando. ― Porque fez isso?
― Para proteger todos nós ― digo firme.
― Isso não é proteger, isso é ser um suicidada! ― berra.
― Eu só voltei porque estou numa missão e não posso falhar ― disse eu me levantando.
― Você não vai fazer isso, Robert!
― Eu já fiz ― disse andando até a porta. ― E eu não posso deixar que nada aconteça com a Charlie.
Ж
Lá estava ela. Linda como sempre.
Eu a vi sair de casa e a segui até o centro comercial de Aberdeen. Perguntou-me porque ela ainda não comprou um carro, mas sabia que ela gostava de andar. Ela parou num restaurante, que em frente estava Clarice e John.
Eles conversaram por um instante e entraram. Senti a presença de Dimitri e John de longe, porém senti a presença de mais um nephilim, esse nephilim era antigo.
Eu não podia me intrometer, então esperei do lado de fora, no outro lado da rua. Sentado e com uma camisa com capuz encobrindo o rosto, ninguém poderia me reconhecer agora. Estou muito diferente.
Quase meia hora se passou e eles finalmente saíram, e eu pude ver a nephilim. Era uma ruiva de olhos cinzentos. Eu a conhecia de algum lugar, mas não me lembro de onde.
Observo Dimitri abraçando a ruiva, aquilo me deu ânsia de vomito. Até que vejo o rosto de Charlie, ela parecia triste e... Droga, ela estava gostando daquele imbecil.
Ela e Clarice se falam por um instante e eu a sigo.
Ela estava passando por um beco, onde a perícia estava no local. Havia faixas mostrando que o local tinha sido fechado. Senti a presença de um anjo caído, próximo de onde Charlie estava. Não pensei duas vezes de ir até ela e agarrar seu braço.
― Continue andando ― sussurro em seu ouvido.
Charlie apenas se virou com os olhos surpresos.
― Rob? ― perguntou incrédula.
Meu coração bateu mais rápido naquele instante. Queria a abraçar ali mesmo, mas eu tinha que a tirar dali.
― Charlie, faça o que eu te disse. Depois nos abraçamos e tudo mais ― digo.
Ela apenas obedeceu ao que eu disse e seguimos até o estacionamento em que estava minha camionete.
― Entre... ― digo mais fui interrompido pelo seu abraço.
O que me surpreendeu muito, porque Charlie não abraça ninguém.
― Eu senti tanto sua falta ― disse ela com voz de choro.
― Eu também senti sua falta ― disse eu a apertando mais contra meu corpo.
Deus, como eu amo essa garota , penso.
― Nunca mais suma de novo ― fala Charlie soltando-me para poder melhor, mas eu estava com capuz sob o rosto. ― Eu fiquei muito preocupada com você, tem noção disso? Eu quase tive um colapso nessas duas semanas sem você.
Eu ri do seu pequeno ataque histérico. Deixava-a mais linda e com um brilho mortal nos olhos. Devo admitir, ficava muito sexy nela aquele olhar.
― Mais alguma coisa? ― pergunto.
― Sim, tire a merda desse capuz ― diz zangada.
Eu tirei o capuz conforme ela tinha mandado. Eu pude notar que Charlie deu um alto suspiro, mas não notara.
― Satisfeita? ― indago com um sorriso simpático.
― Na verdade, ― começa ela ― não. Você some não me dá nenhuma notícia. Liguei várias vezes para você, fui à sua casa, falei com sua mãe ― aumentou o tom de voz. ― E agora você volta misteriosamente e todo mudado menos a porra desse cabelo.
Eu a olhei por um instante prendendo o riso, mas foi impossível. Ela tinha o dom de ficar nervosa e fazerem os outros rirem.
― Você não fazia ideia de como eu sentia falta de você histérica ― disse ainda rindo.
― Histérica? Quem está histérico? ― berra enfurecida. ― Eu não estou histérica, quem está é você.
― Ninguém está histérico. Vamos, vou te levar para casa ― disse eu, com uma baita dor de tanto rir.
Acho que, como uma forma de me calar, Charlie aproximou-se mais de mim e me abraçou.
Devia ter acontecido muita coisa enquanto estive fora. Amaldiçoei-me por eu ter a deixado tanto tempo sozinha.
― Não me deixa nunca mais ― choraminga contra meu peito.
― Nunca, nunca vou te deixar ― prometo acariciando suas costas.
Charlie se solta e finalmente entra na camionete. Quando entrei, ela aninhou-se em meu ombro enquanto eu dirigia.
― Rob ― chama.
― Sim? ― disse eu olhando para a estrada.
― Onde você esteve esse tempo todo? ― perguntou. ― Sua mãe disse que você estava na casa de seu pai, mas você faltava aulas e nem me ligava, não tinha notícias suas.
Droga... Eu não posso dizer o que houve para ela, penso. Só aquele imbecil do Dimitri pode.
― Eu vou lhe explicar tudo quando chegar a hora ― respondo com cautela.
― Tudo bem, decida quando estiver pronto ― falou se ajeitando em meu ombro.
Parei na esquina da casa de Charlie. Eu segurei em sua mão e entrelacei meus dedos nos seus, acariciando repentinas vezes.
― Como você está? ― pergunto repentinamente.
― Estou bem, quer dizer, eu tive umas péssimas notícias nesses últimos dias, mas fora isso ainda estou... Bem ― respondo escolhendo palavra por palavra.
― Sentiu alguma coisa estranha? ― insisto em perguntar.
― O que quer dizer com isso ? ― virou-se para me encarar.
― Você tem se sentido estranha ou algo do tipo? Viu algo em você que lhe assustou? ― pressiono.
― Sim, parece que vem tudo em ascensão quando sinto e... Eu me machuquei uma noite e de repente sumiu do nada. Achei que fosse coisa da minha cabeça e então, resolvi testar de novo e... ― explica. ― Era coisa da minha cabeça mesmo. Nada demais.
Ela já estava no meio da transformação. Está mais rápido que o normal. Lauren precisa saber disso o mais rápido possível. Se o Conselho souber, eles levaram Charlie para a Base Central Nephilim na Bulgária.
― Tudo bem... ― assenti.
― Você me disse aquelas coisas no telefone por quê? ― pergunta franzindo as sobrancelhas.
Essa briga idiota... , penso. Malditas mudanças de humor!
― Eu estava sendo um cretino, me desculpe. Eu só... Eu sempre quis você, Charlie ― digo com o rosto próximo do seu.
― Eu sei, mas você sabe... Sou uma lerda para entender qualquer coisa ― diz envergonhada.
― Como sei disso ― disse rindo.
― Você sempre gostou de mim? ― perguntou com os olhos brilhando.
Desde que vi Charlie passando por mim no corredor e, desastrosamente, esbarrou em meu ombro me pedindo desculpas, foi o momento que me apaixonei por ela. Eu sei que é idiota e muito gay, mas eu nunca senti nada por ninguém. Não como sinto por Charlie. Depois daquilo, tentei me aproximar mais dela, embora todos no corredor a achavam estranha, e não queriam a ter como amiga pela fama de Jess no colégio, por acharam que Charlie era igual. Mas na verdade, elas podiam ser irmãs, mas nunca tinha nada de parecido. Jess nunca teria nem mesmo seria como Charlie.
Eu sei que ela está me perguntando isso com medo de que tente a beijar novamente, mas eu prometi a mim mesmo que só a beijaria se me pedisse. Não tentaria forçar como fiz da última vez. Deu em uma briga desnecessária e fez mal aos dois.
― Pode ficar despreocupada, eu não vou te beijar se é o que está pensando. Eu disse a mim mesmo que só faria se você me pedisse ― respondo observando enquanto ela pensava.
Ela sorriu e me abraçou, mas em meio ao nosso abraço. Pude sentir o corpo de Charlie ficando tenso. Não tinha entendido até notar o jeito como estava respirando e encolheu-se quando expirei em seu pescoço. Ali era um dos seus pontos fracos.
― Eu tenho que ir ― disse me afastando e olhando em seus olhos.
Eu tinha que ir até Watertown para notificar a Lauren o que estava acontecendo. Ela havia pedido que não nos comunicássemos ao celular, por razões óbvias de caídos invadirem redes de comunicação para obter informações nossas.
― Tudo bem ― fala Charlie meio triste abaixando a cabeça.
Eu coloquei uma de minhas mãos em seu rosto para que ela pudesse me olhar.
― Eu... Não vou sumir de novo, relaxa ― disse eu sorrindo.
― Se você sumir de novo, quando voltar eu te mato ― diz séria.
― Tudo bem, — eu ri ― diva.
― Eu vou indo ― disse Charlie quase saindo da camionete e voltou dando um beijo em minha bochecha. ― Até mais, princeso.
― Vou vir... ― digo sem graça pelo beijo na bochecha. ― na sua casa amanhã ― manobro a camionete. ― Me espere.
― Vou está ― disse ela parada sorrindo.
Naquele momento eu sabia que nunca mais iria ficar longe de Charlie. Não desistiria dela nunca.
Ж
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