Predestinada - Livro 1
18 Capítulo 17 - Planos de Última Hora
Notas iniciais
Pois é. Nephilim. Quem diria certo? E promessa de guerra? Não se escuta isso todo dia, chega a ser um tanto bizarro toda essa situação em que me encontro.
Para falar a verdade, eu nunca saberia de nada se não fosse pelas mudanças estranhas no corpo, mente; enfim, em tudo.
Eu estou mentalmente cansada, exausta. Queria ir dormir e logo depois, acordar, para ter certeza de que tudo isso não passa de um sonho. Só que não iria adiantar de nada, eu continuaria sem minha mãe e mal resolvida com a vida. Na verdade, mal resolvida com tudo. Porém, é um alívio saber a verdade. Saber o que eu sou. Embora, meu destino esteja traçado diretamente de ser uma promessa de guerra nephilim entre anjos caídos. Lamentável, mas eu não iria para guerra nenhuma. Tirar vidas, por mais que sejam anjos caídos. Não é certo fazer isto, não é justo eu tirar a vida de um ser por causa de uma rixa idiota, seja que tendo motivos ou não; não cabe a minha decisão de quem vive ou morre.
— Está tudo bem? — pergunta Dimitri.
— Você quer que eu minta ou diga a verdade? — pergunto dando ombros.
— Os dois — ri.
— Idiota... — murmuro.
Dimitri e eu estávamos sentados no sofá de minha casa, esperando algumas pessoas chegar, incluindo minha avó. De acordo com Dimitri, iria ter uma reunião em "família", ele contatou a todos. Não fazia a menor ideia de quem ele havia chamado. Fiquei pensando no choque que minha avó teria quando soubesse que eu sei a verdade, quer dizer, todos sabendo. Na verdade, eu sei quase tudo. Sei que Dimitri ainda não me contou tudo, sabia que tinha muito mais informações de onde vinham estas. Pois apenas com a explicação básica, eu consegui surtar. Eu iria ter que ir para um hospício mais cedo ou mais tarde. Se é que tudo está acontecendo não pode se considerar loucura demais.
— Está preocupada pela forma que Pearl irá reagir? — pergunta Dimitri. — Quando souber que você sabe a verdade.
— Será que pode parar de ler minha mente? — resmungo.
Dimitri aproxima-se de meu ouvido.
— Nunca — sussurra.
— Sério isso? — retruco revirando os olhos.
— Acho que alguém vai entrar naqueles dias... — murmura rindo. — É uma pena, eu queria brincar hoje à noite.
— Seu pervertido! — soco seu braço.
— Do que você está reclamando? — pergunta como se estivesse ofendido — Ontem à noite você não falou nada disso! Disse até que queria mais... — lançou piscadela e dando um sorriso malicioso.
— Dimitri, fique quieto! — berro sem paciência.
— Estou brincando. Tenha calma — pede fazendo bico.
— Você consegue ser muito infantil — digo — e safado também.
— Eu sei que você gosta disso — lança outra piscadela.
Na mesma hora, minha avó abre a porta da frente e adentra na sala de estar. Seu rosto estava perplexo, como se acabasse de ver um fantasma.
— Vó, o que aconteceu? — pergunto me levantando e correndo em sua direção.
Dimitri avisou a todos, menos a principal pessoa, minha avó. E pelo visto, ela deve ter visto certo alguém lá fora. Meu pai.
— Não é possível... — murmurou quase sem voz.
Antes que ela pudesse responder, eu senti. Senti a presença de um anjo caído, mas aquele anjo era conhecido. Era meu pai.
Acertei miseráveis! , penso.
Mas ele não estava sozinho. Estava acompanhado de um nephilim, Giulia.
— Deixe-os entrar, Dimitri — falo e Pearl me encara pasma.
— Charlie... O quê...? — ela questiona.
— Vó, eu sei de tudo — digo firme. — Eu sei que sou uma nephilim. A promessa de guerra entre nephilins e caídos. A coisa toda.
— Pois é ela descobriu pequena Pearl — comenta Dimitri andando descontraidamente para abrir a porta, dando de cara com meu pai.
Eu e minha avó observamos o modo como Dimitri estava completamente calmo e extrovertido que ele estava agindo naquele momento tão tenso.
Qual era o problema dele, eu não fazia a menor ideia, e nem gostaria de saber.
— Ora, ora, se não é meu irmãozinho Jonathan — diz Dimitri na porta.
— An... — fala engasgado meu pai e com o rosto pasmo.
— É Dimitri — disse sorrindo.
— O que faz aqui? — fecha a cara meu pai.
— Entre, por favor — pede Dimitri sorrindo sarcástico.
Eles dois pareciam que estavam tendo uma discussão mentalmente. Até que meu pai adentra junto com Giulia e todos fomos para a sala de jantar, nos sentando as cadeiras e um silêncio mortal se instalando no local.
— Estão todos aqui? — pergunto quebrando o clima pesado que estava.
— Está faltando duas pessoas — disse Dimitri relaxado na cadeira.
A campainha tocou e me virei para Dimitri.
— Não olhe para mim. Eu já atendi a porta da primeira vez — fala. — É sua vez, deusa.
— Idiota... — resmungo.
— Eu ouvi isso — diz.
— Era para você ouvir mesmo — respondo levantando e encaminhando-me para atender a porta.
Antes de sair da sala de jantar, pude ouvir meu pai dizer:
— Essa é minha garota.
Ao abrir a porta, apenas encaro John. Não sabia que ele viria.
— Charlie — cumprimenta John.
— John — digo.
Notei que atrás dele, vinha Rob.
— Até você? — pergunto franzindo a testa.
— Pois é — ri Rob.
— Entrem — peço.
Fechei a porta e levei-os até a sala de jantar, juntando-os com os outros.
— Bom, já estão todos aqui, vamos conversar sobre Charlie — começa Dimitri. — Todos aqui sabem da maldição...
— Dimitri, desculpe, mas... E Jess? — perguntei pela minha irmã.
— Jess não pode saber disso por enquanto. Desculpe — fala Dimitri assumindo uma pose séria.
Ele tem sérios problemas de personalidade, só pode ser, penso.
— Ele está certo. Jess não pode saber que você finalmente virou nephilim, isso implicaria em outras questões que ainda não podemos fazer com que você lide com elas sem a prejudicar — fala meu pai.
— O que isso quer dizer? — questiono.
— Quer dizer que Jess não pode saber de nada até segunda ordem e pelo seu bem estar — disse Rob. — Sabemos que é sua irmã, Charlie, mas não podemos ter certeza sobre outras questões que a envolvem, e envolva você também.
— Está bem — disse eu querendo cortar o assunto.
Não estava entendendo nada. Jess era minha irmã, não éramos coladas, mas ela tinha que saber que eu sei de tudo. Eu sei que alguns nephilins não sabem o que são talvez Jess não saiba de nada. Tinha que avisá-la sobre o mundo que fazemos parte e que podem a perseguir por ser minha irmã.
— Voltando, — diz Dimitri — Charlie sabe sobre tudo, é de nossa responsabilidade ajudá-la a entender o que se passa agora. Ela sabe que é promessa de guerra.
— Não estamos aqui para falar disso, Dimitri — digo ríspida.
— Temos que ajudá-la a chamar Samantha — diz Dimitri após um longo suspiro.
Houve um grande silêncio sob nós. Muitos com as testas franzidas, já outros com a expressão preocupada.
— Está bem — disse meu pai. — Como podemos...
John interrompeu meu pai, que o olhou de maneira mortal.
— Charlie, qual é sua marca? — pergunta John.
— Que marca? — pergunto.
— A marca que apareceu em seu corpo quando descobriu que é nephilim — explica John.
— Foram duas — disse eu. — Elas...
— Desculpe, deixe-me ver se entendi. Você disse que apareceram duas marcas? — pergunta John atônito e olha para Dimitri, como se pedisse uma explicação.
— Isso é impossível — disse minha avó após muito tempo calada. — Isso a torna muito visível para os caídos. Como nunca perceberam antes?
— Dimitri, você sabia disso? — pergunta John.
— Não, eu sempre leio a mente dela e se ela sabia, não consegui ler — explica Dimitri. — O que é, tecnicamente, impossível de bloquear um pensamento para uma nephilim no nível dela, para uma recém-nephilim isso é muito complicado. Só se alguém bloqueou isso por ela... — Dimitri encarou Rob, em seguida meu pai.
— Você não é o único que tem truques, irmão — disse meu pai.
— Você não tem o direito de se intrometer... — esbraveja Dimitri.
— Eu tenho todo o direito, eu sou o pai dela — berra meu pai dando um soco na mesa. — Você que fez toda essa bagunça, então não reclame feito um bebê caso nada saia como planejou. Você não é o único que quer a protege durante todo esse tempo.
Eles dois se encaram durante um curto tempo, mas foi o bastante para entender o quanto estavam tendo o resto da discussão mentalmente.
— O que essas duas marcas querem dizer? — pergunto para cortar a discussão mental deles.
— Além de seu destino, você descendente de dois anjos caídos e dependendo dos antigos escalões deles no céu, quer dizer que você é muito forte — responde Giulia.
— Os escalões contam como um forma de poder que o nephilim pode descender ? — pergunto.
— Sim, eles contam — responde meu pai. — Meu escalão era Dominações. Seu descendente tinha um escalão de alto nível também, ele era do escalão de Serafim.
― Um Serafim? ― gagueja Dimitri. ― Só caíram três Serafins...
― Tente descobrir quem ele é ― desafia meu pai dando um sorriso sombrio.
— Isso é extremamente raro, já que quando isso acontece às mães e seus bebês morrem durante o parto ou no sexto mês de gravidez — explica Rob. ― O escalão conta muito na força, tática de guerra do nephilim. Poderia ser uma máquina de matar.
— Para alguém que é promessa de guerra ter duas marcas de dois anjos com altos escalões, isso não é bom — comenta John franzindo a testa, preocupado. — Se o Conselho souber disso, a mandarão para um treinamento psíquico e físico imediatamente. Ninguém jamais teve um linhagem com dois anjos diferentes, só... — ele não termina. Deixou a questão em aberto.
Percebi que alguns na sala haviam captado a mensagem de John, inclusive minha avó. Ela sabia de muito e o necessário para me proteger.
— Conselho ? — pergunto.
— Os nephilins originais, eles representam toda a raça — explica Rob. ― Eles adorariam saber sobre você, ainda mais quando se trata da sua linhagem.
— Mas eu não fui a única a ter isso — disse eu nervosa.
— É raro esse tipo de nephilim, o Conselho irá fazer de tudo para que Charlie esteja a favor deles — conta Giulia. — Eles não conseguem controlar um nephilim com duas linhagens fortes.
— Quais são as marcas? — pergunta Dimitri após um silêncio inquietante.
— Uma âncora e uma pena gigante — digo. — Quais são os significados delas?
— Âncora significa esperança. A pena têm muitos significados e um deles é liberdade. As marcas podem estar conectadas e serem uma só coisa, talvez — fala Rob. — Vai depender de você, Charlie.
— Espera, achei que elas fossem o meu destino.
— Elas são, mas não tão simples assim — responde Dimitri.
— Como não? — questionei — É o que irá acontecer?
— Depende de você — disse minha avó. — Você tem o caminho traçado da sua vida, dois caminhos distinto. O que irá escolher vai ser o seu, seja ele bom ou ruim. Apenas dependerá de suas escolhas, criança. Lembrem-se, as escolhas dos homens que o levam para seu fim, para evitar o fim, escolha bem seu caminho.
Aquelas palavras me atingiram em cheio. Agora, pude entender o lado de minha avó quando ela dizia que não me queria ver sendo uma pessoa amarga e cheia de ódio; ela não queria que eu soubesse da verdade e ficasse transtornada com toda a situação e disto, provesse ódio e a escolha que tomaria. Minha avó não chamava de criança há anos, apenas falava quando queria me dizer algo sério. E isso é completamente sério. Não sei como lidar com isso, mas estou disposta a tentar.
— Tem razão — tudo o que consigo dizer. .
— Enfim, — disse Dimitri limpando a garganta — Jonathan estava perguntando, se não me engano, sobre tentar acharmos a mãe de Charlie.
— Sim — disse meu pai. — Por onde iremos começar?
— Charlie se lembra de como era o lugar — responde Dimitri.
— Lembro, sim — digo. — Era uma espécie de galpão abandonado.
— Se lembra de como ele era? — pergunta John.
Sou forçada a lembrar do pior lugar da minha vida, quer dizer, desta vida. Todos esses anos tentando esquecer e agora, tenho que lembrar para salvar minha mãe.
— Era bem fechado. As paredes eram de concreto, quente e tinha...
— O que tinha Charlie? — pergunta Rob.
— Água. Tinha água por perto — digo.
Dimitri soltou um suspiro pesado e caminhou até meu lado. Pousou o dedo indicador e médio sob minha testa e fechou os olhos. Fechei os meus também e deixei Dimitri saber dos detalhes.
Eu pude ver todo meu sequestro passando como uma espécie de filme. Lembrei-me de todas as torturas, as feridas abertas em minhas coxas, do cheiro de sangue. Toda imundície, toda dor sendo trazida à tona. Era demais para suportar. Até que assisti minha fuga e notei três coisas que passaram por despercebidas para mim todo esse tempo. Ao lado do galpão, havia uma fachada de um logo, era uma marca que só havia na Dakota do Sul, mas especificamente em Aberdeen, o logo de uma antiga fazenda dos FH*, que trabalhava com trigo e industrializava para toda Dakota do Sul. O segundo ponto, era a floresta, não havia quase nenhuma vegetação como aquela em Detroit. Terceiro ponto, como eu havia conseguido chegar à Detroit, se meu sequestro foi o tempo todo em Dakota do Sul?
— Não consegui ver nada — disse Dimitri com a testa franzida.
— Eu vi tudo — digo ofegante.
— O que viu? — pergunta minha avó.
— Nunca estive em Detroit todo aquele tempo — respondo transtornada. — Eu estive aqui sempre.
— Em Aberdeen? — pergunta meu pai.
— Não, mas próximo à área — digo. — A fazenda FH, eu vi o logo no galpão abandonado e tem a barulho da água que eu pude ouvir.
— Se você esteve aqui o tempo todo, porque quando a encontraram estava em Detroit? — pergunta Rob.
— Eu não sei, porque nunca me lembrei de como apareci naquele parque de Detroit.
Assim que consegui fugir do meu cativeiro. No meio da fuga, eu apaguei literalmente, e quando acordei estava deitada no chão de um parque em Detroit, um grupo de moradores estava tentando me ajudar, fazendo perguntas e eu não conseguia entender nada do que estava acontecendo.
— Vamos fazer uma busca à beira dos rios próximos daqui — anuncia Dimitri. — Qualquer tipo de pista que encontrarem nos informe, não haja por impulso. Tenho certeza de que são anjos caídos por trás disso.
— Quando vamos iniciar as buscas? — pergunta meu pai.
— Amanhã à noite — disse John.
— Bom, já sabem o que fazer. Agora vão — disse Dimitri sendo completamente "sutil".
Todos se despediram logo apos essas palavras de Dimitri muito confortadoras. Meu pai me deu um beijo na testa e Giulia falou de longe comigo, assim como John. Dimitri disse que iria ter que resolver alguns assuntos e no dia seguinte iria vir me ver.
Minha avó estava chegando à cozinha, enquanto eu preparava um chocolate quente para nós três (sim, Rob estava na minha casa ainda. Vamos fazer um quartinho para ele logo, por enquanto vai dormir no jornal que vou forrar para ele). Rob tinha ido ao banheiro.
— Charlie, eu... — começa minha avó.
— Eu sei que só queria me proteger e que não podia contar a verdade, eu morreria se dissesse. Entendo sua preocupação com tudo, vó — digo segurando o choro. — Me desculpe se fui uma idiota, irracional e sem escrúpulos.
— Tudo bem, minha criança — disse ela acariciando meu rosto. — Você se tornou uma jovem muito bonita, inteligente, doce e tem um brilho intenso dentro de si, que nunca vi em todos meus anos de vida. Não perca esse brilho intenso que faz você ir além do que os olhos podem ver.
— Não vou — prometo.
Ouço a campainha tocar.
— Pode cuidar disso para mim por instante? — pergunto.
Minha avó assente e encaminhei-me até a porta, dando de cara com alguém. Achei que não fosse mais ter problemas com esse alguém.
— Charlotte Thompson Stevens, eu avisei que iria voltar — disse a detetive Scarlett.
Meu corpo gelou naquele momento. Tentava engolir a seco, mas havia um nó em minha garganta que não queria descer por nada.
O que aconteceu agora, meu Senhor?, penso.
— Posso ajudar em alguma coisa? — pergunto.
— Sim, venha comigo para delegacia — responde ela.
— Mas por quê? O que fiz? — pergunto tentando não parecer nervosa.
— Precisamos sobre seu depoimento do caso do homem morto no beco, Sr. Harry West — informa — e a morte de Hayley Wright.
— Mas eu já disse o que vi — digo. — Espere, Hayley está morta? Quando e como?
A detetive Scarlett assente com as sobrancelhas franzidas, como se esperasse uma resposta diferente.
— Srta. Stevens, eu possuo um mandato que obriga a vir comigo até a delegacia. Pode registrar seu depoimento em anonimato, não precisa ficar nervosa — disse.
— Charlie, o que está havendo? — pergunta minha avó chegando à porta e Rob apareceu logo atrás dela.
— A senhorita não tem escolha — insiste.
— Eu vou com você — disse Rob. — Irei acompanhá-la.
— Namorado? — Scarlett arqueia as sobrancelhas em surpresa.
Porque todos insistem em dizer que somos um casal? , penso.
— Não — responde Rob. — Depende do bom humor dela para isso.
Bufo frustrada e me despeço de minha vó.
— Na sua viatura ou vou no meu carro? — pergunto querendo me livrar dela logo.
— Estarei atrás de vocês — responde ela.
Ninguém merece, cara , penso.
Rob e eu fomos à camionete dele rumo à Delegacia de Polícia de Aberdeen. A última vez em que estive nesse lugar, foi para dar meu depoimento sobre meu sequestro pelo quarta vez em dois meses, em Detroit foram mais vezes.
Chegamos à delegacia, esperamos sentados em um banco pela detetive Scarlett, que tinha entrado em uma sala com outro policial.
Senti um arrepio na nuca. Um anjo caído estava naquele lugar e estava próximo. Aquilo não era nada bom.
— Rob, sentiu isso? — sussurro.
— Sim, tem algo caído por aqui — falou baixinho. — Fique atenta para qualquer coisa.
A presença do caído estava chegando perto, quase como se ele estivesse em minha frente...
— Bom, vamos? — disse a detetive Scarlett parando em nossa frente com outro policial, que fez meu corpo inteiro gelar.
Era uma dos meus torturadores. Os meus torturadores tinham codinomes, o dele, era Klein. Ele sempre fazia questão de tentar me tocar, e sempre eu negava, então, ele fazia corte em minhas coxas; a maioria das cicatrizes era por causa dele. Klein era alto — parecia ser maior que John —, loiro, com olhos violeta e muito forte. Seus músculos transpareciam na sua farda apertada.
— Srta. Stevens poderia nos acompanhar? — perguntou ela com um sorriso. Que eu considerei maldoso.
Charlie mantenha o controle, disse Rob em minha mente.
— Para onde? — pergunto, escondendo minhas mãos nos bolsos do casaco. Estava tremendo e sentindo o suor descendo pelas minhas costas.
— Sala de depoimento — ri Scarlett.
Eu e Rob levantamos prontos para seguir até a sala, mas Klein segurou Rob pelo braço.
— Só ela, garotão — disse firme.
— Infelizmente, não poderá acompanhá-la — disse Scarlett tocando levemente no ombro de Rob. — Não iremos demorar apenas fazer algumas perguntas.
— Rob... — choramingo.
Me ajuda, penso e olho diretamente para Klein.
Acompanhei-os até a sala de depoimento. Antes que pudesse ir, dei uma última olhada para Rob.
Não se preocupe. Eu não deixarei que nada aconteça com você, disse Rob.
Entramos numa sala cinza com uma luz fluorescente branca, que era bem fraca por sinal. Apenas havia três cadeiras de metal e uma mesa do mesmo material. A sala não era tão grande, havia um espelho em uma das paredes. Eu sabia que era um espelho dupla face e qualquer movimento que, quem quer que fosse, considerasse suspeito, eu teria sérios problemas.
— Sente-se, por favor — pede Klein sorrindo.
Obedeci e sentei-me nervosa. Vi a detetive Scarlett colocando um gravador sob a mesa de metal e o colocando para gravar.
— Bom, Srta. Stevens, você foi à última a conversar com Hayley Wright antes de a assassinarem — começa a detetive Scarlett. — O que tem a nos dizer sobre isso?
— Eu não sabia da morte de Hayley até você aparecer na minha porta e dizer — respondo.
Não percebi a forma como aquilo soou rude. Arrependi-me de falar daquela maneira sem motivo.
— Mas você a procurou, certo? — perguntou Klein.
Pude ver no seu distintivo que estava escrito seu codinome.
— Nós havíamos conversado — digo. — Nem sempre nos falávamos, mas cada vez que nos víamos, conversamos sobre o mesmo assunto.
— Sobre o quê? — insisti Klein erguendo uma de suas sobrancelhas.
— É um assunto pessoal — respondo franzi as sobrancelhas. Sabia que estava fazendo uma expressão de raiva naquele instante.
— Srta. Stevens pode nos dizer, por favor? — pede a detetive Scarlett.
— Sobre minha mãe — disse eu olhando diretamente para Klein.
— O que exatamente sobre sua mãe, Srta. Stevens? — perguntou ele sorrindo de um jeito maldoso.
— Temos mesmo que falar sobre isso? — digo com a voz vacilante.
— Infelizmente, sim — disse a detetive Scarlett. — Eu li sobre sua ficha aqui e o caso do desparecimento de sua mãe ainda estava em aberto, mas as procuras foram suspensas há menos de dois meses.
— Hayley não sabia nada sobre isso, ela achava que ainda estavam procurando por minha mãe.
— Engraçado você dizer isso, por que... Fazia um bom tempo de que você tinha sido avisada sobre as procuras terem sido suspensas, o que me faz pensar que você está mentindo — calcula a detetive Scarlett. — O que foi falar com Hayley?
— Eu já disse o que foi fazer — insisti na mentira.
Ravenna se estiver por aí, é melhor você bloquear alguns pensamentos e lembranças agora, penso.
Eu pude sentir Klein lendo minha mente, pela sua expressão não conseguiu ver nada. Ele me olhou com as sobrancelhas franzidas.
— Bom, já que é isso que diz tudo bem — disse a detetive Scarlett. — Conte-nos sobre o que viu na noite do assassinato de Harry West — ela ligou o novamente o gravador.
Contei a eles tudo o que aconteceu naquela noite, exceto por achar que quem havia matado aquele homem fosse meu pai. Que ainda não tive a oportunidade de colocá-lo contra a parede para falar sobre isso.
— Acho que já acabamos por aqui — me encara a detetive Scarlett, medindo cada movimento meu. — Obrigada pelo seu depoimento, Srta. Stevens
— Não há de que — digo me levantando da caseira indo até a porta.
— Sargento Klein, poderia levar a Srta. Stevens até seu namorado — pede a detetive Scarlett.
Porque diabos essa mulher pensa que aquele doente mental é meu namorado?, penso.
— Claro — disse Klein se levantando com um sorriso maldoso.
Estava torcendo para que o corredor estivesse movimentado.
Assim que eu e Klein saímos da sala de depoimento, por pura ironia do destino, estava vazio o corredor, o que só aumentou meu desespero. Apressei meus passos o mais rápido que pude sem parecer que era uma fugitiva.
— Está fugindo de mim, minha Charlie? — perguntou Klein agarrando meu braço e me empurrando contra parede.
— O que faz aqui? — pergunto com a voz trêmula.
— Estava com saudades — disse roçando os lábios em meu queixo. — Você não sabe o que quanto — sussurrou.
— Não toque em mim — digo tentando espaçar. — Me solte.
— Você ainda não sabe usar seus poderes, mas que decepção — disse Klein.
Ele pegou meus pulsos, segurando-os com uma mão e com a outra segurando minha cintura. — Está mais linda sem toda aquela imundice. Não sabe o quanto eu desejei seu corpo desde que foi embora.
Klein desceu sua mão que estava em minha cintura até minha coxa e apertou-a levemente. Debati-me para que parasse com aquilo e ele subiu a mão de volta para minha cintura.
— O que quer comigo? — pergunto entre dentes.
Klein não respondeu ao invés disso, me beijou ferozmente. Seus lábios eram macios e suaves ao toque, às isso não queria dizer que estava gostando de ser beijada por aquele maníaco. Eu tentava sair daquele beijo, mas toda vez que fazia aquilo ele apertava minha cintura com força. Quando fiz mais uma tentativa de sair, ele alertou minha cintura com muita força que eu gritei de dor, mas com os lábios ainda colocados nos dele.
Ele parou de me beijar e riu.
— Ninguém vai te ajudar — sussurra em meu ouvido.
Klein arfou em meu ouvido, o aperto de suas mãos estava ficando fraco. Seu corpo veio a desabar no chão. Quando fui notar, Rob tinha cravado um pedaço de metal em suas costas. Bem, onde deveria estar às cicatrizes em forma de V invertido que eram suas asas.
— Você o matou? — pergunto assustada, e foi à primeira coisa que pensei em dizer.
— Não, por enquanto ele só está imobilizado, assim podemos dizer — respondeu. — Precisamos tirar o corpo dele daqui.
— Isso é muita loucura! Sem falar que é pura ironia: ocultação de cadáver dentro de uma delegacia — digo surtando baixo.
— Charlie, ele não está morto — diz Rob revirando os olhos.
— Você entendeu muito bem o que eu quis dizer, Robert — digo enfurecida.
Peguei as pernas de Klein, enquanto Rob segurava seu tronco. Rob ficou procurando por uma saída, até que avistou uma janela um pouco atrás da sala de depoimento.
— Você não está pensando... — disse eu com medo de a detetive Scarlett sair de dentro daquela sala e nos ver segurando um corpo "semimorto" de um policial.
— Você tem uma ideia melhor? — ralha Rob.
— Seu idiota grosseiro — disse ofendida.
Levamos o corpo de Klein o mais depressa que podíamos até a janela. Rob a abriu e inclinou o corpo para fora.
— Rápido Rob — apresso.
O corpo de Klein caiu na mata e com isso, fechamos a janela e saímos o mais rápido possível daquela delegacia. Para nossa sorte, as câmeras não estavam ligadas, pois Rob leu a mente de um dos policiais que estava na sala de segurança e as câmeras estavam em manutenção e só voltariam amanhã. Ou seja, demos muita sorte.
— Que loucura! — digo ao entrar na camionete com Rob.
Levantei um pouco minha blusa para ver como tinha ficado minha cintura. Tinha esquecido algo, melhor alguém. Ergui a cabeça e vi que Rob estava olhando para mim de um jeito estranho.
— Ele fez isso com você? — perguntou Rob carrancudo.
― Ele pode se recuperar enquanto está com aquilo nas costas? ―
— Sim, ele pode.
— Então, vamos.
― Não irá me dizer por que ele fez isso com você? ― insiste Rob.
— Isso não é metade das coisas que ele já fez comigo — disse eu abaixando a blusa. — Vamos sair daqui logo, por favor.
Rob não falou mais nada, tampouco se deu o trabalho de ler minha mente. Acho que ele já havia entendido. Ele me levou até em casa e fez questão de dizer que iria passar a noite em minha casa. Não contestei, pois tinha sido um longo dia.
Assim que adentramos em casa, veio minha avó cheia de perguntas sobre o que havia acontecido. Contei-lhe sobre que encontraram o corpo de Hayley e queriam apenas meu depoimento, contei que a procurei perguntando sobre meu pai. O que me fez lembrar que Hayley estava com medo de meu pai. Será que ele a matou por ter me contado sobre onde ele estava?
Eu sacudi a cabeça para tirar esse pensamento de mim. Estava farta. Era muita informação para um dia só, para uma pessoa. Subi para tomar um banho. Tinha que esfriar a cabeça. Tinha tantas coisas que eu tenho que fazer, perguntar e agir.
Ravenna se estiver aí, precisamos conversar. Tenho muito para lhe falar sobre o que está havendo. Embora, eu sei que está vendo tudo que se passa, mas gostaria de sua opinião, digo para Ravenna mentalmente.
Então, enquanto terminava de trocava de roupa. Ravenna resolveu aparecer e responder o básico. Ela estava mudada demais. Não havia mais cicatrizes, a pele não estava pálida. Seu rosto parecia angelical. Suas asas se tornaram rosadas e cheias de plumas. Seu rosto, eu conhecia de algum lugar. Era muito familiar, sinto que não fazia muito tempo que havia visto esse rosto. Mas de onde? A cor daqueles olhos, eu já vi. Lembrava-me alguém que eu vi em uma floresta. Não sei por que, mas isso que vinha em minha mente. E por mais que tentasse lembrar, era quase impossível, pois era como se a memória não existisse mais.
— Me chame quando estiver sozinha, minha querida — disse Ravenna. — Sabe que ninguém pode saber de minha existência, somente você.
— O que houve com você? — perguntei pela sua aparência.
— Não se preocupe, não estou usando sua energia — sorri. Noto que seus dentes estavam brancos e perfeitamente alinhados. — Quanto, a saber, que é uma nephilim, estou feliz que tenha descoberto. Eu irei a ajudar no que for preciso, Charlie. Afinal, o que seria de mim sem você... — e com essas palavras, Ravenna sumiu, se dissipando como a névoa.
Deitei em minha cama, bufando de tanto cansaço físico e mental.
— Como está? — pergunta Rob entrando em meu quarto e deitando em minha cama.
Abusado esse nephilim, penso.
— Cansada. Hoje foi um dia cheio — disse eu observando as gotas de chuva escorrendo pelo vidro da janela. — E você, como está?
— Não posso reclamar — responde Rob dando ombros e rindo. — Vai tudo dar certo, Charlie.
— Assim espero — digo bocejando.
— Basta você ter um pouco de fé que dará tudo certo — disse Rob mexendo brincando com meus dedos.
— Falou o garoto que vai à Missa de Domingo beijar as garotinhas — disse eu rindo.
— Ciúmes, Charlie? — ergue as sobrancelhas.
— Eu? Ter ciúmes de você? — ironizo.
—Sim, você mesmo — ri.
— Cresça Rob — digo.
Rob ri e me puxa para deitar em seu peito. Fui sem queixar-me por que ele é um excelente travesseiro. Também porque não deixaria dar nada entre nos dois, somos irmãos, certo? Da minha parte.
— Sabe que dia é hoje? — perguntou Rob de repente.
— Não faço a mínima ideia — digo.
Realmente, não fazia ideia em que dia estávamos. Para falar a verdade, nem sei em que mês estamos.
— Acho que já estamos em outubro — disse Rob.
Outubro? Minha mãe faria 40 anos no dia 31. Eu mal me lembro da ultima festa de aniversário que fiz a ela, mas nos últimos anos, minha avó fazia questão de que eu saísse de casa para pegar doces ou ir numa festa de Halloween. Acabava que eu saía fantasiada com Rob para pegar uns doces e ficamos andando pelas ruas conversando e cantando músicas animadas.
— Vamos fazer a mesma coisa que sempre fazemos todos os anos? — perguntou Rob.
— Não sei, acho que... É a hora de mudar — digo pensando.
Ж
— Sério isso? — falo com Dimitri que estava ao celular comigo.
— Apesar de tudo, tem que levar sua vida como se ela fosse normal — disse Dimitri. — Há caídos na cidade, temos que fazer com que você continue sua rotina para ver se algum deles resolve te atacar. Mas... Antes que me conteste, terá alguém lhe vigiando de longe.
— Quem? — pergunto.
— Você tem muito amor por ela — ri Dimitri. — Principalmente agora que é quase uma segunda mãe para você.
Pensei um pouco e não acreditei nas palavras de Dimitri. Naquele momento, quis o matar.
— Repita isso de novo e eu quebro seu pescoço — esbravejo.
— Adoro quando você furiosa — disse rindo. — Estou imaginando como você fica linda desse jeito.
Ignorei Dimitri e desliguei. Peguei minha mochila e saí de casa em direção à escola como Dimitri determinou. Pior que ele tinha razão, saberíamos que caídos e quantos deles estavam por perto.
Cheguei próxima a meu armário, sinto alguém me abraçando. Era Clarice.
— Oi — disse ela levantando o rosto para mim e sorrindo.
— Oi, Clarie — digo devolvendo o sorriso.
— Tenho algo muito importante para lhe dizer — disse ela.
Senti uma leve pressão na nuca, indicando a presença de nephilins se aproximando de nós. Parei de escutar Clarice quando vi Giulia e Letícia andando juntas e nos observando.
Letícia também é nephilim, penso.
—... Então, o que acha? — pergunta Clarice.
Droga! Eu não tinha prestado atenção.
— Acho uma excelente ideia — minto.
Não iria mostrar minha distração à pobre Clarice. Então, o que quer que ela tenha dito, eu irei concordar.
― Jura? Quer mesmo me ajudar na decoração da festa de Halloween? ― disse ela pulando animada.
Mas é o que... , penso.
― Oh, Charlie. Obrigada, obrigada, obrigada ― cantarolou me abraçando. ― Eu queria muito sua ajuda, porque você tem ótimas ideias para sobre coisas de terror e sobrenaturais.
― Eu tenho? ― pergunto ainda em choque.
Como é que eu vou ajudar na decoração? Eu mal consigo vestir-me direito quanto mais ajudar na decoração de uma festa da escola.
― Claro que sim. Você é ótima ― disse Clarice. ― Eu tenho que ir agora. Eu te vejo mais tarde.
― Está bem. Até mais tarde ― digo acenando para ela.
Clarice deu meia volta e seguiu pelo extenso corredor, virando na segunda curva para o laboratório de química.
Estava fechando meu armário e indo em direção à próxima aula, quando alguém segura meu braço.
― Charlie ― chama Dimitri.
Não tinha sentido a presença dele. Virei-me para o olhar.
― Você não voltou como disse que iria voltar ― resmungo.
― Sem ataques, por favor ― pede ele. ― Nós não encontramos a fazenda. Procuramos ontem por todas as cidades próximas daqui.
― Então, isso quer dizer que nós nunca vamos encontrar minha mãe ― digo segurando o choro.
― Nós vamos a encontrar. Só precisamos de mais pistas ― disse pensativo. ― Você precisa se lembrar de mais do que houve naquela noite.
― Você não entende, eu não consigo lembrar ―digo sentindo meu esforço para segurar as lágrimas sendo falho. ― Toda vez que eu tento, é como se...
― O que, Charlie? ― pergunta Dimitri com preocupação.
― Alguém tivesse feito um bloqueio para eu não lembrar...
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