A hípica localizava-se em um ponto mais afastado na cidade, era meia hora no máximo de carro até minha casa, a metade do caminho foi silencioso, tão silencioso que me dava medo de falar algo, Kyle estava com uma cara fechada, como se tivesse chateado e eu não tinha a mínima ideia do porque, quem deveria esta chateada sou eu! Foi ele que não me ajudou quando cai do cavalo!

– Como você conseguiu cair? — Kyle olhou-me curioso, abri a boca para respondê-lo, porém ele me interrompeu antes. — Hoje à tarde sofremos um acidente, Kath! Você não pode ficar se machucando toda hora!

– Eu não cai de propósito, Kyle, Ghost se assustou com… — Parei de falar subitamente.

– Com o que? Uma cobra? Não me diga que um cavalo do porte de Ghost tenha medo de uma cobra.

– Tem, mas não foi isso que o assustou… — Dei uma pausa e olhei para o horizonte, pensativa, deveria contar-lhe tudo, afinal ele é meu melhor amigo, mas sabia bem como Kyle era, ele adora esses assuntos que envolvem o sobrenatural e é bem dedicado em tudo que faz, e se eu lhe contar, possivelmente ele iria achar que aquilo era obra de extraterrestre e irá começar uma pesquisar sobre esses acontecimentos que estão ocorrendo comigo. Não o queria enfiado no computador pesquisando esse tipo de assunto até de madrugada feito um louco. — Eu não queria ter caído, tanto que segurei as rédeas o máximo que pude.

– Eu vi. — Ele me olhou de canto de olho, duvidando.

– O que foi Kyle? — Perdi a paciência por aquele olhar. — Por que esta agindo assim?

Ele passou um bom tempo pensando, o que me obrigou chamá-lo.

– Não sei, ok? A vida esta tão confusa esses dias… E ainda tem vários trabalhos da faculdade para entregar! — Kyle parecia que estava realmente perturbado.

– Kyle… Não temos nenhum trabalho para entregar, estamos de férias. — Ele suspirou e me olhou. — Foi por causa daquele garoto, o Isaac? Kyle, ele apenas me ajudou.

– Também, não confiei nele, alguma coisa nele não me agradou.

Achei engraçado quando Kyle falou isso, pois pelo contrário, Isaac me pareceu um bom garoto, atencioso, educado e bonito.

– Não fica muito perto dele, serio. — Kyle continuou.

– Kyle, isso é bobagem. — Sorri.

– Pode ser. — Ele voltou a olhar para frente, fiquei olhando-o antes de olhar para o por do sol a nossa frente.

Suspirei abaixando a cabeça. Havia algo de estranho em Kyle, poderia ser a mãe, que não é muito presente e vive brigando com ele. Kyle era meu amigo de infância e eu raramente a vi realmente feliz, acho que essas coisas o magoaram com um tempo.

///

Quando atravessamos a porta de entrada sentimos um vazio imenso, a casa estava escura e calma.

– Acho que saíram. — Comentei e Kyle virou para olhar-me com uma cara de surpreso falsa.

– Você acha?

Suspirei e o ignorei andando casa adentro.

– Vocês! — Tomamos um susto com minha mãe, virei-me bruscamente para olhá-la descendo as escadas, meu coração estava disparado. — Onde estavam?

– Na hípica… — "Aonde mais poderíamos esta?" — Você mesmo nos levou para lá.

– Mas vocês demoraram.

– Meu carro demorou para chegar, sinto muito…

— Vocês não sabem que tem um assassino a solta? Querem morrer? — Mamãe interrompeu Kyle.

– Mãe…

– Como assim? — Kyle não tinha visto o noticiário. — “Assassino”?

– Uns adolescentes foram assassinados um dia desses. — Respondi.

– Foram? — Ele se assustou. — Como?

– Ah meu filho, da pior forma possível. — Mamãe pousou sua mão no ombro de Kyle. — Por isso que preocupo com vocês, entende?

– Entendo, sim, senhora. — Kyle respondeu educado. — Mas tomaremos cuidado, ok? Prometemos.

– Vocês ainda vão sair hoje?

– Não, senhora. — Respondi. — Iremos tomar banho e dormir.

– Não vão querer comer algo? — Olhei para Kyle esperando sua resposta, eu morta de fome. — Bells pediu pizza.

– Ah que ótimo! — Exclamei. — Diga a Bells que eu a amo!

– Obrigado, senhora Campbell. — Kyle sorriu e segurou minha mão para subirmos as escadas. — Quem foi que morreu? — Já subimos as escadas quando ele perguntou assustado.

– Não sei, vimos no noticiário ontem à noite.

– Será que era aluno da faculdade? Não ouvi nada hoje a respeito.

– Nem…

Gritei ao senti fortes mãos me empurrarem, Kyle me segurou graças ao seu bom reflexo, impedindo-me de cair.

Olhei para trás assustada e não encontrei o que me empurrou.

– Tudo bem, Kath? — Ele perguntou ainda me segurando.

– Tudo… — Finalmente o olhei. — Sentiu o que senti?

– Não, o que você sentiu?

Olhei novamente escada a baixo. Senti-me naqueles filmes paranormais, e fiquei com medo, comecei a senti um frio tremendo… Naquele momento só queria sair de lá.

– Vamos para o quarto. — praticamente o arrastei para o quarto.

– O que houve?

– Algo me empurrou! — Soltei.

– Não, Kath. — Kyle sentou-se na cama. — Você só se desequilibrou.

– Tem alguma coisa muito, muito estranha acontecendo comigo desde a véspera do meu aniversário.

– Kath Kath. — Ele suspirou levantando-se e colocando as mãos sobre meus ombros.
– Isso é bobagem.

"Isso é bobagem" foi o que eu lhe falei quando ele me falou sobre Isaac.

///

Estava correndo muito rápido, como eu nunca havia corrido antes, estava muito escuro, árvores passavam por mim.

Apoiei-me em uma para ganhar fôlego e olhei para trás, meu coração estava tão acelerado que pensei que teria um ataque cardíaco, meu corpo estava frio, mas não era por causa do clima… Estava com medo, algo assustador estava atrás de mim, não sei o que era, porém eu realmente estava com muito medo.

Continuei a correr dando pequenos olhares para trás até que cai no chão coberto de folhas secas do outono.
"Espera! Outubro? Aonde está a neve?"

Percebi o que vestia, um lindo vestido azul bebê estilo princesa, agora sujo. Comecei a ouvi uma música tocar, como uma canção de ninar assustadora.

Levantei-me e corri apavorada ao ouvir um estrondo e uma voz masculina dizer: "I’m gonna make you suffer"

Corri o mais rápido que pude me desequilibrando a cada passo. E bem quando achava que estava à salva, gritei, gritei apavorada e o mais alto que pude.

O encapuzado estava bem em minha frente, meu coração acelerou bruscamente. Consegui ver seus olhos, a única coisa que consegui ver. Eles eram tão… Assustadores e eletricamente azuis que senti minhas pernas tremerem.

Virei-me bruscamente para escapar, mas o encapuzado agarrou meu braço fortemente, suas mãos eram grandes e brancas, elas ardiam sob minha pele.

Gritei.

///

– Kath! Kath! — Quando abri os olhos Kyle estava na minha frente me sacudindo com uma expressão desesperada. — Kath acorde!

– Estou acordada! — O afastei levemente sentando-me. — O que houve?

– Como assim o que houve? — Ele entendeu, como se eu tivesse falado russo. — Você estava gritando como se alguém tivesse te matando!

Fiquei calada pensando, não acredito que gritei mesmo, o sonho… Ou melhor, o pesadelo, me assustou tanto a ponto de me fazer realmente gritar desesperada.

– Você me assustou. — Kyle continuou percebendo que não iria tão cedo falar.

– Sinto muito. — Passei as mãos pelo meu rosto, e notei que soava frio. — Tive um terrível pesadelo.

– Percebi, Kath… Você quer um pouco de água? — Ele estava realmente preocupado. — Você esta bem?

Olhei para os lados confusa e encontrei o relógio.

– Não, acho melhor dormimos…

– Você esta bem? — Ele repetiu.

– Estou, Kyle, só foi um pesadelo. — Falei enquanto Kyle voltava para seu colchão me olhando duvidoso. — Estou falando sério, temos que acordar daqui a pouco.

– Tudo bem.

Sorri para conforta-lo e deitamos novamente, voltando a dormir.

///

Abri meus olhos por causa da claridade que entrara no quarto, passei minhas mãos em meu rosto e sentei-me, sentindo um ardor em braço, achava que tinha dormido em cima dele.

Kyle ainda dormia tranquilamente. Pisei no chão frio do quarto e andei sonolenta até meu banheiro mexendo meus braços com o intuito de aliviar a dor.

Levei meu rosto e me assustei com o que vi, iria gritar se não minhas próprias mãos impedirem-me. Virei-me rapidamente para checar se havia acordado Kyle com meu grito interrompido.

Kyle continuara dormindo, olhei para meu braço ao passar o mão nele e senti um ardor quase insuportável, nele havia uma queimadura, mas não uma queimadura qualquer, uma em um formato de uma enorme mão. Parecia que o homem-chama havia segurado meu braço.

Corri para dentro do banheiro e fui tomar um banho, não havia razão para ter me queimado, ainda mais desse jeito, que eu me lembre nenhum homem segurou meu braço com luvas de fogo. Único que segurou meu braço, nesse exato lugar foi… Foi o encapuzado, mas foi em um sonho, sonho não é realidade.

Vesti uma roupa de manga comprida ao acabar e fui acordar Kyle do melhor jeito possível.

– Acorda, Kyle! — Joguei um travesseiro em suas costas.

– Hmm…? — Ele gemeu sonolento tentando me olhar. — Que horas são?

– Hora de ir à faculdade. — Joguei outro travesseiro em seu rosto. — Acorda.

– Ah garota chata. — Ele pegou o travesseiro e jogou de volta em mim, porém foi direto em meu braço e sentir-me obrigada a gemer de dor. — Que foi?

Kyle sentou-se e me olhou preocupado.

– Nada. — Menti.

– Te machuquei? — Ele me examinava com os olhos, procurando algo de errado. — Você esta bem?

– Eu estou bem Kyle, tudo bem. — Kyle era igual Bells, sempre se preocupa ao extremo com os outros que se importa.

Ele se levantou e ficou em pé na minha frente, ainda me examinando.

– Kyle, para, isso já esta ficando desconfortável. — Avisei e sua mão segurou meu braço no mesmo lugar da queimadura.

Fechei os olhos controlando-me o máximo possível, é claro que ele percebeu e levantou a manga de minha blusa.

– O que foi isso?

– Nada… — Tentei puxar meu braço, porém Kyle não deixou. — Kyle…

– O que foi isso, Katherine? — Ele perguntou firme e ainda falou “Katherine” e não “Kath”, como se fosse um irmão mais velho e preocupado que nunca tive.

– Não foi nada. — Consegui retomar meu braço e descer a manga da blusa. — Agora vamos! Se vista, pois estamos atrasados.

Comecei a andar sem nem olhar para trás. Sei que Kyle não era de esquecer facilmente, ele vai me encher o saco até saber o porque da queimadura.
Fiquei esperando-o na sala até o mesmo descer.

– Você vai me contar. — Ele soltou quando estávamos a caminho da faculdade. — Cedo ou tarde.

///

Kyle me perguntou algumas vezes sobre a queimadura durante o dia, não respondi e falei que iria contar-lhe, porém depois, acho que ele aceitou. Ele havia ficado na faculdade fazendo não sei o que e estava vindo para casa pensativa.

"Será que aquilo é mesmo possível? Digo, minha queimadura poderia ter sido feita pelo encapuzado no sonho? Na realidade não, claro que não! Porém onde mais poderia ter me queimado daquele jeito?"

Ao chegar, estacionei o carro de mamãe na garagem e sai, encontrando Matthew Collins.

Ele estava tirando um pouco da grossa camada de neve de seu carro grafite. Era impressionante sua beleza, sua pele era tão branca que parecia brilhar, o que dava o contraste perfeito com seu cabelo preto e olhos azuis… Ah seus olhos, nunca vi ninguém com olhos assim, sem ser Isaac.

– Algum problema? — Sua voz fez-me parecer que estava olhando-o.

– Não.

– Perdeu alguma coisa?

– Não, só estava vendo… — Pensei em algo rápido. — Seu jardim.

– Meu jardim? — Matthew ergueu as sobrancelhas não acreditando. — Morto.

Nos dois olhamos para os galhos secos e sem vida de seu jardim por conta do frio

– Você tem que cuidar melhor dele, vou… Vou já entrar. — Virei-me balançando a cabeça para mim mesma. Fui idiota.

Meu coração acelerou ao ouvi-lo pronunciar meu nome, virei-me novamente e Matthew me chamou para perto. O atendi.

– Você esta bem? Soube do acidente. — Segurei meu braço involuntariamente e ele me olhou duvidoso.

– Estou, só foi uma grande falta de atenção minha, ainda bem que não foi nada grave.

– Tinha mais alguém com você, certo?

– Certo, meu amigo, Kyle e… — Aquela pergunta me fez lembrar do acidente, mas especificamente da pessoa que me livrara do carro, lembro-me de olhos azuis claros e me veio a pergunta. "Por que ele(a) não tirou Kyle do carro também?"

– E…? — Ele esperava inclinado.

– Esquece. — Matthew arrumou-se na posição correta e olhou bem nos meus olhos com seu incríveis olhos que me deixavam sem ação. — Matthew.

– Senhorita.

– Como soube do acidente? — Perguntei.

– Ao chegar aqui, em Holmes Chapel percebi que essa é uma cidade muito pequena, consequentemente… — Ele foi interrompido por uma sirene e nós dois nos viramos para seu sentido. Virei-me tão rapidamente que meus cabelos bateram em meu rosto.

– O que será que aconteceu? — A sirene se aproximava e logo deva para ver a ambulância chegando em alta velocidade. — Meu Deus! — O chamado era para essa rua, meu coração acelerou nervosamente. — Oh Deus! — Corri o mais rápido que pude quando vi a ambulância parando em frente à casa de Poppy.