Precious Blood
9 Apple Pie
Meu coração batia rápido enquanto galopava o mais rápido que pude sem olhar para trás por entre a floresta.
Não demorou muito até eu ver Kyle, porém quando eu cheguei perto dele Ghost empinou, não havia parado há tempo.
– Ah, sua louca! — Ele recuou assustado, mas logo notou minha expressão. — O que aconteceu?
– Eu vi! — falei ofegante e desesperada. — Eu o vi!
– Viu quem?
– O encapuzado! — Gritei. — Ele... ele estava matando alguém!
– Como assim? — Aquilo o atingiu visualmente. — Aqui?
– Sim, Kyle, aqui! — Me relaxei em Ghost e passei as mãos pelo meu rosto.
Só estava falando isso para Kyle por que ele sabe de tudo que está acontecendo comigo, é o único, mas quando vi um sorrisinho malicioso em seus lábios, me arrependi.
– O que foi? — Perguntei recuando.
– Onde exatamente?
Aquela pergunta me despertou e consegui saber exatamente o que ele queria.
– Ah, não! Não, não! — Ia dar meia volta porém Kyle foi mais rápido e colocou Silver a minha frente, uma ideia péssima, pois deixou Ghost com raiva. Tive que acalma-lo acariciando-o. — Não vamos para lá, Kyle!
– Por que não? — Ele ainda estava com aquele sorriso no rosto. — Pode ser divertido.
– Divertido? — Não acreditava. — Kyle, já te falei sobre o encapuzado! Ele não tem nada de divertido! — Eu realmente não acreditava que Kyle queria fazer algo tão perigoso assim! — Desde quando perseguir um assassino é divertido?
– Kath! — Ele parecia sério. — Para de ser chata.
– Cala a boca, Kyle, não sou chata.
– Então vamos — Ele se esticou para pegar a rédeas de minhas mãos.
///
– Olha, Kyle, juro que se algo aparecer. — Kyle me ajudava a descer de Ghost. — Eu corro e te deixo sozinha.
Ele me olhou com cara de tédio:
– Você não faria isso. — Assim que Kyle sentiu meus pés firmes no chão, senti suas mãos me soltarem. Ele virou para olhar floresta a dentro. — Onde foi que você o viu?
– Ali. — Apontei o lugar, não muito longe.
– E ele foi para onde?
– Bom, — Começamos a andar sobre as folhas secas. — Eu não sei, Kyle, ele me viu e só pensei em correr.
Ele me olhou pelo canto dos olhos, chegamos ao local e Kyle ficou sem entender, na verdade, nós dois. O corpo da moça não estava lá, não havia nenhum sinal indicando que havia ocorrido um assassinato ali, nem uma mínima gota de sangue que seja.
– Onde está? — Perguntei.
– Se você não sabe, eu que deveria? — Kyle me olhou rapidamente.
– Não! — Me abaixei observando com cuidado. — Deveria estar aqui!
O encapuzado havia tirado todas as pistas, até as mínimas.
– Deveria...
– Olha, Kyle! — Me levantei bruscamente apontando meu dedo a ele irritadiça pela sua desconfiança. — Sei o que eu vi! Tinha uma mulher morta aqui! — Parei ao vê-lo congelado, como se tivesse assustado. — Kyle.
– Kath... Kath. — Ele parecia sem fala.
– O que?
Kyle realmente estava me preocupando, até que sua mão ergueu-se levemente e pude saber que algo estava atrás de mim.
Fechei meus olhos e respirei fundo antes de virar e ver o encapuzado. Minhas pernas tremeram, queria sair de lá o mais rápido possível.
– Vamos, Kath! — Kyle pegou meu braço e começou a correr, porém ele caiu desajeitado nas folhas secas.
– Cuidado, Kyle. — O ajudava a levantar sem tirar os olhos do encapuzado. — Vamos!
Kyle se levantou e continuamos a correr. Respirei aliviada ao ver os cavalos próximo de nós, mas o encapuzado apareceu entre eles fazendo com que empinassem e relinchassem.
– Não vou mais não. — Kyle deu meia volta me levando junto.
– Kyle, temos que pegar Ghost e Silver! — Avisei.
– Não temos não! — Corremos para o outro lado e o mesmo aconteceu, era como se o encapuzado estivesse em todos os lugares ao mesmo tempo. — Que droga! — Kyle descansou os braços. — Qual é a desse cara?
– Não é um cara. — Observava-o, Kyle estava desesperado. — Calma, Kyle.
– Calma? — Ele me olhou. — Ele fica aí parado causando terror e eu tenho que ficar calmo? — Kyle me apontou o encapuzado.
Nós dois o olhamos e ele começou a vir em nossa direção.
– Droga, por que eu fui falar? — Ele pegou meu braço e correu me puxando.
///
Kyle andava de um lado para o outro passando a mão nos cabelos enquanto eu colocava Ghost no estábulo. Ele parecia perturbado, como na primeira vez em que vi o encapuzado. Suspirei dando uma ultima acariciada em Ghost antes de chegar ao portão do estábulo e olhar para Kyle.
– Kyle...
– Eu quero saber quem... — Ele só esperou a primeira palavra para soltar tudo que estava em sua cabeça. — Quem, não, o que é aquela coisa!
– Kyle, fica tranquilo. — Me aproximei.
– Quando você me disse, eu não pensei que fosse assim, Kath! Quando eu olhei para ele me desesperei!
– Kyle, acalme-se! — Peguei em seu rosto e olhei diretamente para seus olhos. — Como você conseguiu vê-lo?
Ele parou e franziu as sobrancelhas.
– Não... Não era para eu te-lo visto?
– Não. — O soltei e olhei para baixo. — Quer dizer... Sei lá. Achava que ele só aparecia para mim.
Ele suspirou e olhou em direção a floresta.
– Onde será que ele escondeu o corpo? — Ele falava mais para si do que para mim.
– Não sei. — Também suspirei e voltei a olhá-lo. — Devemos chamar a polícia?
– A polícia não vai pegar um vampiro. — Ele bufou. — Nós temos que pegá-lo.
– Agora vai querer ser caçador? Ótimo! — Levantei as mãos e me afastei.
Que bobagem!
///
Cheguei em casa minutos depois de deixar Kyle sozinho no estábulo com a ideia de se tornar um caçador.
– E aí? — Sentei no sofá no meio de Bells e mamãe.
– Como foi o passeio com Kyle? — Mamãe perguntou.
– Foi legal... — Falei vagarosamente por conta da mentira, não era muito boa em mentir.
– Saiu com Kyle? — Bells tirou sua atenção do livro em que estava lendo para perguntar. — Tipo... Um encontro?
– Não. — Respondi de imediato. — Foi apenas uma corrida pela floresta da hípica.
– Já pensou se vocês ficassem juntos? Ia ser fofo, não? — Ela voltou a ler seu livro.
Peguei o seu livro com cuidado para não desmarcar a página e o virei para ver a sua capa:
– Explicado. — A devolvi o livro e suspirei pegando o controle remoto.
– Filha, você não vai almoçar? Acabei de fazer. — Mamãe falou enquanto ligava a televisão.
O canal de notícias foi o primeiro a aparecer e eu congelei ao ouvir sobre mais um assassinato, não o da floresta, mas outro. Ia mudar, mas mamãe impediu.
O repórter falava sobre, não apenas um assassinato, mas cinco. Uma família inteira havia sido morta em sua casa do outro lado de Holmes Chapel. Uma mulher, um homem, dois garotos e uma garota, todos mortos.
– Meu Deus! — Mamãe sussurrou incrédula.
– Não gosto de ver essas coisas. — Falei por fim, levantando-me. — Vou para o quarto, está bem?
Esperei resposta, mas não houve, resolvi ir assim mesmo.
Entrei no quarto e logo deitei na cama, peguei meu celular e liguei para Poppy, ela não atendeu então fiquei deitada na cama, até dormir.
///
Abri meus olhos e pisquei várias vezes até me acostumar com a luz, virei meu pescoço para olhar o relógio, eram 7:34pm.
Me sentei passando as mãos nos cabelos e predendo-os em seguida. Levantei da cama e sai do quarto, ouvi um barulho que me levou até a cozinha.
– O que vocês estão fazendo? — Perguntei encostando-me na parede.
Elas estavam brancas por conta da farinha de trigo e havia várias coisas em cima da bancada, ingredientes, tijelas, colheres.
– Estão fazendo um bolo? — Perguntei franzindo as sobrancelhas.
– Uma torta. — Bells respondeu contente. — Na verdade três.
– Três tortas... — Me aproximei e olhei para dentro da tijela, onde havia um creme bege cremoso, olhei mais para longe, para a bancada e vi em cima da tábua várias fatias de maçã cortadas. — De maçã. — Conclui. — Para quem?
– Para os novos vizinhos, não sabia que nossos vizinhos se mudaram? — Mamãe perguntou e me lembrei de Matt no dia em que ele se mudou.
Carro grafite chegando em alta velocidade pela rua, eu e Bells observando-o pela janela e os seus olhos azuis.
– Sabia apenas de um. — Falei por fim vendo mamãe tirar as tortas do forno enquanto Bells pegava as fatias de maçã cortadas.
– Tem uma família que se mudou hoje aqui para frente, eu vi o caminhão hoje cedo. — Bells falou. — E o outro do lado... Sinceramente não sei quando ele se mudou.
– Vocês vão entregar? — Dei a volta na bancada para lavar minha mão e ajudá-las.
– Nós iremos. — Ouvi mamãe em meio ao som da água caindo da torneira e a fechei rapidamente.
– Nós?
– São três tortas, Kath, e somos três pessoas. — Ela respondeu e fui ajudá-la calada.
Não seria muita vergonha ir bater na casa do vizinho com uma torta na mão? Seria, mas mesmo assim eu fui, Charlie com certeza já deve está falando de mim para minha mãe, não queria arriscar ficar com mais pontos negativos.
– Não! — Falei quando me deram a casa de Matthew Collins para entregar a torta. — Por favor, não.
– Por que não? — Mamãe perguntou.
"Porque não quero encara-lo depois de todos os acontecimentos estranhos com ele. Como quando ele me protegeu de Hector na minha festa de aniversário, do encapuzado no cemitério ou quando ele invadiu meu quarto", isso era o que eu realmente queria falar, mas acabei me calando:
– Você fica com ele e eu fico com o desconhecido do outro lado, ok?
– Tudo bem. — Sorri enquanto mamãe suspirou. — Não sei porque você não quer ir com ele, mas tudo bem.
Sorri novamente virando-me e atravessando o gramado para a casa do vizinho, quando fui me aproximando, senti o ar mais pesado, como se a energia no ar não fosse boa.
Segurei firme a torta em minhas mãos e fui até a porta da entrada, eu não conhecia os antigos moradores dessa casa, eles quase nunca saiam de casa, e não eram muito comunicativos.
Bati na porta, de primeira ninguém atendeu, esperei um pouco e bati novamente depois de um suspiro, achava que não havia ninguém na casa, porém quando ia virar-me a porta abriu.
Cabelos dourados, feições afiladas, pele branca e olhos azuis eletrizantes, como poderia me esquecer desse ser? Ele era o garoto que me falou que Poppy iria suicidar-se, felizmente ele estava errado.
Ele era incrivelmente bonito, do tipo de garoto que deixava todas as mulheres aos seus pés, porém eu não era "todas as mulheres", senti calafrios quando ele colocou aqueles olhos assustadores em mim.
– Catarina. — Quando ele falou essas palavras notei que não era seus olhos que eram assustadores e sim ele que estava assustado, como se eu fosse um fantasma.
– Não me chamo Catarina.
– Pois deveria mudar de nome, pois você parece muito com alguém que eu conheço... Conhecia. — Ele mudou seu semblante, agora me olhava como se fosse superior a mim, ele que estava me deixando assustada e sem graça. — O que faz aqui? — Meu corpo involuntariamente foi um pouco para trás por conta da grossura de sua voz e ele olhou para a torta em minhas mãos. — Não, não quero comprar nada.
Ele estava prestes a fechar a porta na minha cara quando o impedi falando:
– Não estou vendendo nada, minha mãe fez essa torta para você!
– Para mim? — Ele pegou a torta de minhas mãos e voltou a mesma posição de antes, encostado na porta e me observando. — Qual é a comemoração?
– É uma torta de boas-vindas, minha mãe faz isso para os novos vizinhos. — Expliquei, mesmo ele não merecendo.
– Entendi... — Ele olhou algo além da rua. — Os outros ganharam também? — Ele esperou minha resposta, como não houve alguma, ele olhou para a torta. — É de que sabor? — Antes que eu pudesse responder ele já estava passando seu dedo grande no recheio da torta e colocando-o na boca. "Qual é?! Ele não viu as fatias de maçã enfeitando-a?" Pensei. — Maçã, não gosto de maçã.
Olhar para aquele garoto me dava raiva, acho que era por conta de sua postura de "eu sou melhor que todo mundo".
– Poderia apenas agradecer! — Soltei. — Pode não parecer, mas minha mãe gastou uns minutos da vida dela fazendo isso para você!
– Não fui eu que pedi para ela fazer. — O seu corte me atingiu profundamente. Como ele podia ser assim? Ignorante! Mas mande meus sinceros agradecimentos à sua mãe... Por ela ter gastado alguns minutos da vida dela comigo. — Ele virou-se para colocar a torta em uma mesa que havia perto da entrada e voltou a me olhar. — Mas alguma coisa?
– Não, só... — Não havia terminado minha frase e já tinha ouvido o som da porta bater fortemente.
Um calor de raiva subiu pelo meu corpo, pensei em bater novamente na porta e lhe falar o quão mal-educado ele era e ensina-lo como se tratar uma garota como eu, mas não fiz, fui para casa com a minha raiva.
– O que aconteceu? — Mamãe perguntou enquanto entrava em casa.
– Nada, mãe. — Tentei sorrir e fui para a cozinha beber um copo de água. — O que está fazendo aqui? — Perguntei.
– O mesmo que você. — Não tinha visto o copo de água em sua mão. — Você está bem?
– Não muito... — Parei ao perceber sua cara sorridente, não iria estragar sua alegria falando de novo vizinho estúpido. Franzi as sobrancelhas. — Já vai subir para dormir, Bells?
– Não agora, ainda vou ficar um pouco com a mamãe até Charlie chegar.
– Estarei no quarto então, ok? — Deixei meu copo na pia.
– Tudo bem.
Sorrimos e subi as escadas, desejando uma boa noite a minha mãe. Iria direto para meu quarto se não fosse algo me interromper.
Esse "algo" seria a porta do primeiro quarto aberta, geralmente o usávamos para parentes ou visitas, não era costume ele estar aberto.
Entrei no quarto, ele com certeza era meu favorito da casa, todo branco e madeira escura, era uma suite bem maior que a minha, sem dúvida.
A varanda estava aberta, deixando entrar vento, fazendo as cortinas balançarem. Me dirigi para fecha-la e não acreditei no que vira, a varanda do quarto de hóspedes tinha vista para o quarto do vizinho que não gostava de maçã!
Sorri sozinha do "vizinho que não gostava de maçã", é um bom apelido já que eu não sei o nome dele, e nem queria saber tão cedo.
Voltei a olhar o vizinho e ele estava tirando a blusa, seus músculos eram incríveis me deixaria encantada se não fosse pelo enorme corte que sangrava em seu peito.
Ele sentou na cama, praticamente de frente para mim e perdi o ar com a cena que vi.
– O que... ? — Sussurrei e pisquei fortemente meus olhos.
O profundo corte estava sumindo, impressionantemente. Projetava meu corpo para frente tentando controlar minha miopia, porém caindo no chão, fazendo um enorme barulho.
– Droga. — Sussurrei ainda no chão.
Levei minha mão involuntariamente à minha cabeça e levantei, arregalando os olhos.
Fui parar do outro lado do quarto, batendo a parte de trás de meu corpo violentamente.
– O que estava fazendo me espionando? — Perguntou o vizinho que não gostava de maçã com um olhar furioso e a mão em meu pescoço.
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