Preciosa
1 Capítulo 1
Acordar. Uma simples tarefa que todos praticam, obviamente por estarem vivos. Mas isso é um pouco mais complicado. Não estou viva, mas também não estou morta. Sou apenas uma sobrevivente.
Se um dia alguém me perguntar, a razão por ainda continuar lutando, mesmo sendo pisoteada como um inseto asqueroso, pela vida, só irei responder o seguinte: Não é por mim, sinceramente, não é por mim. E sim, pela esperança que eu ainda tenho de tentar encontrar uma saída, uma verdade. A verdade, que mesmo não admitindo, eu realmente, não acredito mais. Mas a busco mesmo assim.
—Enarya! Enarya! Acorda logo, eu só tenho cinco minutos para deixar tudo pronto. Eu vou me atrasar para o trabalho- puxei o cobertor fino, que já fora usado por três pessoas de uma mesma família, e falei rapidamente- Eu não estou brincando garota, eu te ajudo e você me ajuda. Loah está dormindo, você só precisa dar o café a ele e tudo ficará bem — Enarya desviou o olhar e cobriu a cabeça de novo.
—Ok
—Tudo o que faço é por você e Loah...só por vocês- Eu me levantei e peguei a minha bolsa- Ficar revoltada com a vida não vai ajudar em nada...Mas apenas tente...Se ajudar — Bati a porta atrás de mim e respirei fundo. Nos últimos cinco meses, eu ainda não conseguia olhar nos olhos de Enarya sem me lembrar daquela noite. Não que eu não conseguisse perdoa-la, eu só...não conseguia aceitar.
Logo avistei o carro de Jay estacionado do outro lado da rua. Percebi que estava com a barba por fazer, isso significava que algo estava o incomodando; estava preocupado.
—Oi Jay- abri a porta e sentei rapidamente. Só conseguia olhar para a frente, contato visual não seria bom naquele momento.
— Estamos ferrados.
— Como assim? Por que?
— O governo transmitiu o Aviso, ontem a noite, na rádio.
—Sério? Que ótimo...por que estaríamos ferrados? Era o que a gente queria.
Fechei os meus olhos lentamente e por uma fração de segundo, eu me imaginei bem. Sorrindo. Como se tudo estivesse bem...eu só estava...feliz. — Quais são os requisitos? — Cruzei os meus dedos, discretamente, eu só precisava de sorte naquele momento. E Jay sabia disso, porquê logo em seguida, desfez a minha mão e entrelaçou os seu dedos com os meus. Fechou os olhos lentamente e começou a dizer:
—Trabalho fixo...
—Confere...- respirei fundo.
—Ficha Limp....
— Certo....
—Ser declarante e provado pobr...
—Ok...Certo- Eu não conseguia respirar, sinceramente.
—Ter no máximo três membros na família...
—....Certo- Eu só conseguia sorrir.
— E Ser homem.
Naquele momento o mundo tinha se quebrado como um espelho. Toda a minha esperança tinha se partido em mil pedaçinhos de pura desgraça. Agora eu soube o porquê de estarmos ferrados. Jay não tinha ficha limpa e eu era mulher, isso significava que as nossas chances de tentar participar da Missão seriam praticamente nulas.
—Talvez haja um geito, eu não sei, talvez....
— NÃO TEM SAÍDA, JAY! NÓS NÃO VAMOS PODER PARTICIPAR DESSA DROGA, E AGORA ESTAMOS CONDENADOS A VIVER NA MISÉRIA...NA VALA DA SOCIEDADE....- Eu não tinha percebido, mas eu estava gritando, chorando até. Jay só conseguia olhar para a frente, para o vazio.
—Vamos trabalhar agora...não podemos nos atrasar, você sabe.
—Tudo bem. Vamos embora- coloquei o cinto e enxuguei uma lágrima que persistentemente caiu.
— Eu vou dar um geito, Raíra....Eu prometo.
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