Preciosa
2 Capítulo 2
Quando cheguei no serviço, meu chefe veio direto até mim. Eu já sabia o que ele queria e mesmo assim nunca iria dar.
— Bom dia Raíra! Dormiu bem?
—Bom dia senhor Chagas. Eu dormi muito bem e o senhor? — eu sempre tentava ser o mais profissional possível, mas depois daquela noite, as coisas nunca voltariam ao normal.
—Mais ou menos — ele se aproximou e cochichou no meu ouvido — A Minha cama estava muito grande e fria só comigo nela.
Gelei. Eu sabia o poder que aquele nojento tinha na sociedade, ele chefiava todas os trabalhos em minas no território desde que eu me entendia por gente, então não poderia dar o braço a torcer, eu realmente precisava daquele emprego.
— Qu-que pena senhor.
—É uma pena mesmo, Raíra. — ele piscou para mim e voltou para a sua sala.
Eu respirei fundo e segui em direção à cozinha, eu precisava falar com uma amiga, as coisas estavam cada vez mais difíceis para todos e não poder participar da Missão era só mais um tapa na cara que eu tinha levado da vida.
— Toc-toc...
—RAÍRAAA
—SHHHH!!! — eu a abracei forte — fala baixo, Emily senão aquele velho nojento vai vir aqui — ela revirou os olhos.
— Você está certa amiga! Então me fala, e os requisitos para a seleção? — Emily não se interessou quando saiu a notícia que haveria a Missão. Não que ela gostasse da vida que estavamos levando. Ela só não tinha mais esperança que algo poderia melhorar um dia...
— Péssimas notícias. Eu não vou poder me candidatar por ser mulher e o Jay por não ter ficha limpa. É uma droga, Emily, se eu podesse participar... Tanta coisa ia mudar, meus irmãos teriam um lar digno, eu não ia precisar me preocupar com comida e nem água. Eu teria paz, por saber que a minha família estaria em segurança.
— Mas e se o Governo não cumprir com a promessa de cuidar dos familiares dos alistados? Você estaria em uma Missão sem ao menos saber pelo o quê está lutando e ainda por cima, os seus irmãos estariam na mesma ou pior.
— É, eu sei disso. Não há garantia de nada, mas existe uma chance Emily, e eu não posso desperdiçar...só em saber que existe uma chance de viver bem e deixar de sobreviver sem dignidade alguma já é o suficiente pra mim. Eu quero essa chance mais que tudo nesse momento.
— Nossa Raíra, você quer muito mesmo né?
— Sim, muito.
— Então, eu vou te colocar dentro daquele avião. Fecha a porta!!! — ela se abaixou em frente a gaveta do gabinete e pegou um envelope pardo de lá. Eu me apressei e tranquei a porta.
— O que é isso?
— Isso minha amiga, é o seu passe — livre para a "Grande Missão" — ela falou com desdém e ainda revirou os olhos.
—Como assim, Emily? — ela tirou vários documentos do envelope e me passou um deles. Uma Carteira de Trabalho. Quando ví o nome e identifiquei de quem era, senti um arrepio na espinha.
— Você tá louca, Emily?! Por quê você tá me dando os documentos do seu irmão??? — Luka tinha falecido a menos de um mês, em um confronto por água com outro território. Ele servia o exército desde os 10 anos, que era a idade mínima para servir, e seus pais não perderam tempo, afinal qualquer entrada de dinheiro era bem vinda. E naquelas condições a idade não era um problema.
— A morte de Luka ainda não foi registrada, isso se realmente for, você sabe como as coisas funcionam. O governo não quer adimitir a morte de nenhum soldado. Então... — ela me passou o envelope pardo — ...você se passará pelo Luka.
— Você pirou? Por favor né, essa ideia é insana!
— Raíra, pensa bem. Vocês tem quase a mesma idade, e quando éramos pequenas sempre te confundiam com o Luka, e além do mais, você não é muito feminina né? — ela segurou o riso e me mediu dos pés a cabeça. Bem, ela tinha razão, eu tinha músculos, por trabalhar desde cedo na mina com o meu falecido pai. E por ser pobre, eu acabava usando roupas masculinas por serem mais batatas.
— Eu não sei não ein...
— Pensa nisso hoje a noite, e se concordar com a ideia me procura, porque vamos ter que te matar...
—Oi? — arregalei os olhos e fiquei sem entender.
— Bom, se você for assumir a identidade de outra pessoa, é melhor acabarmos com a sua primeiro, senão nada vai dar certo.
— Você tem razão.
— Eu sei -ela abriu um sorriso e foi em direção à porta, destrancando-a.
— Ah, só mais uma coisa — eu fui em sua direção e a abracei por trás.
— O que foi?
— Eu sei como é difícil pra você tocar nesse assunto, ainda é tudo muito recente. — eu beijei sua cabeça e a abracei mais forte — Eu Te Amo!
— Eu sei! — e soltei um pequeno sorriso.
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