Prazeres Sombrios - Indômita

26 Capítulo XXV - Encurralados


Notas iniciais
BATI UM RECORDE !!! KKKKKK Três capítulos em um dia, eu merecia um pedestal agora kkkk
Sou boazinha *.* E vocês me roubam todos os GOSTOBOYS da história ç...ç'
Eu merecia pelo menos um né ?
Meu tio disse que vinha pegar eu e meu primo às 16hrs. São 17. A pontualidade da minha família é quase britânica kkkkk Acho que como a minha mãe, ele esqueceu da gente. Sério, ela já e deixou no colégio até as oito da noite. Eu: mãe, não vem me buscar ?
Ela: E ONDE VOCÊ ESTÁ ?
Eu: No colégio...
Ela: Ah, é, tinha que te pegar... To na academia, ja ja eu termino :D
Acho que é de família -..-''
Enfim, boa leitura! kkkk

CAPÍTULO VINTE E CINCO

Encurralados

O coração de Leonor tornou-se uma pedra de gelo: duro, áspero e frio. Olhou para o flagelo de homem diante de si, resistindo ao ímpeto de lançar-se sobre ele e estrangula-lo. Grigori tirou um punhal de seu cinto de couro e apontou a ponta da folha prateada para o ventre levemente arredondado dela. Leonor permaneceu estoica, impassível, olhando com dissimulados desprezo e ódio nos olhos do homem. Se ele sequer pensasse em fazer mal ao seu bebê, ao filho de Duncan...

O sangue dela fervia nas veias, em um lento calor que pressagiava seu desejo por matar. Respirou fundo.

-- O que está esperando? – espetou Grigori, tocando seu ventre com a lâmina. A fúria queimou dentro dela, o instinto protetor materno superando qualquer pensamento racional. No entanto, Leonor manteve a mente livre de qualquer coisa que a fizesse falhar. Olhou docemente para Grigori. Oh, ela era uma ótima atriz. Ótima o suficiente para ser capaz de enganar quem quisesse. A dor em seu coração fez-se presente ao recordar cada uma de suas palavras a Duncan. Ele era forte, era um guerreiro e Erik e Mary estavam lá para impedi-lo de fazer alguma tolice. – Eu mandei você fazer algo, mulher.

Leonor recuou. Ele avançou.

-- Meu pai... – tentou alegar – Meu pai, ele...

-- Me vendeu você. É minha.

Sua paciência esgotou. Ela riu amargamente.

-- Você não pode me ter.

Grigori franziu as sobrancelhas.

-- Por que não?

Leonor lhe lançou um olhar gélido. Usando o fator surpresa a seu favor, ela recuou tão rápido quanto um gato e, girando nos calcanhares, chutou o interior do pulso de Grigori. O punhal voou de sua mão, deslizando pelo chão do salão. Ele urrou e avançou para ela com uma fúria assassina, esticando as mãos para agarrar-lhe o pescoço. Leonor esquivou-se, debilitada pela gravidez, mas nem por isso menos ágil e habilidosa. Seja forte, implorou ao filho que crescia em seu interior. Grigori a agarrou pelos cabelos e a puxou para si, machucando-a brutalmente. A mão enorme e calejada que estava livre ocupou-se de cobrir seu ventre, fazendo pressão. Ela ofegou.

-- É arisca, não é?

-- Não – grunhiu entre dentes – Sou indômita.

Com um movimento totalmente indigno de um guerreiro, ela recuou o quadril apenas o suficiente para ter espaço o bastante para atingi-lo entre as pernas com uma joelhada. Grigori a largou e gemeu, praguejando impropérios torrencialmente. Antes que ele se recuperasse, ela lhe deu uma cotovelada na cabeça. Ele caiu de joelhos no chão, apoiando o corpo com as mãos, a respiração entrecortada. Enquanto ele recobrava forças, Leonor correu para o outro lado do salão, lançando-se debaixo da mesa e engatinhando. Sua única certeza era a de que sua vida dependia da sua velocidade para agarrar aquele maldito punhal.

-- Maldita rameira...!

Leonor amaldiçoou entre dentes. Esticou a mão para pegar o punhal quando dedos fortes fecharam-se ao redor de seus tornozelos e a puxaram para fora da proteção da mesa. Ela esperneou com toda a força que tinha, mas não era párea para ele. Diabos. O foco de Grigori era atingir sua barriga. Um arrepio desceu por sua coluna como um presságio para algo muito ruim. Grigori segurou seus tornozelos e ergueu o punho fechado, descendo-o com toda a força e toda a fúria que possuía. Apavorada, Leonor se contorceu e cruzou os braços em X, usando-os de escudo. A força do golpe a fez trincar os dentes para não gemer de dor, mas manteve-se firme, aguentando o outro murro que lhe foi desferido.

Por quanto tempo aquilo duraria?

Uma sombra moveu-se atrás de Grigori. Leonor engoliu as emoções ao ver quem era para não delata-lo e permaneceu lutando pela própria vida, até que Grigori estancou onde estava. Sua mão a libertou e ele arregalou os olhos vidrados no nada, perdendo rapidamente a cor.

As mãos dela tremiam e foi com grande esforço que levantou-se, os joelhos fracos ameaçando derruba-la. Afagou o ventre como se dissesse ao bebê que agora estava tudo bem, que ele fora forte, mas temia que de algum modo o tivesse prejudicado.

Olhou para Grigori. Drustan retirou o pontudo fragmento de porcelana que tinha em mãos, os olhinhos fixos no sangue que escorria por sua improvisada arma. Grigori voltou a cair de joelhos no chão. Leonor pegou o punhal e aproximou-se dele, olhando-o friamente por cima.

-- Traidora – ele cuspiu sangue a seus pés.

Ela negou com a cabeça.

-- Apenas um homem tem minha lealdade, como guerreira e como mulher. – ela disse, tocando a garganta dele com o punhal – Já sei o que vocês planejam. E acredite-me... – um frio sorriso repuxou seus lábios quando sussurrou ao ouvido de Grigori – Duncan McGregor não é o diabo sem merecer.

Com isso, atravessou sua garganta com o punhal.

Estava amanhecendo. O sol subia no horizonte, espalhando as cores alegres do alvorecer pelo céu que clareava lentamente. Leonor encolheu-se, olhando para a belíssima paisagem refletida no mar. Drustan aconchegou-se a seu lado, dormindo como um gatinho perto da mãe. Ela deixara Grigori morto e nu no salão como um aviso a Hugh. Seu pai não era tolo e compreenderia que fora manipulado por uma mulher.

Pela própria filha.

Ela estava traindo seu sangue, sua herança, tudo por Duncan. Sabia que era o certo, não tinha dúvidas, mas a decepção por perceber que seu pai não era como ela esperara ainda a entristecia profundamente.

Trajando as vestimentas de Grigori McDonald e com o cabelo ocultado por um gorro que surrupiara de um pobre escudeiro que cruzou seu caminho, conseguira escapar do castelo, sendo reconhecida apenas como um escudeiro qualquer. O punhal estava muito bem escondido nas dobras de suas vestimentas e Drustan, coberto por um manto, passava-se por um anão. Deus, a pobre criança tivera de mancar para imitar uma atrofia. Leonor o abraçara algumas vezes, temendo tê-lo traumatizado pela morte de Grigori.

Não deveria surpreender-se, mas estava espantada pelo garoto ter quebrado um jarro no quarto e usado um fragmento – o mesmo que quase matara Grigori McDonald – para tirar os ferrolhos da porta. Era um garotinho muito genioso e ela se orgulhava enormemente dele.

Leonor expirou em um suspiro quase pesaroso. Sua mãe lhe dissera que o pai passara a vida desejando a paz, mas era mentira. Hugh estava cego por vingança, pelo desejo da vitória. E a decepção dela era profunda. Ele não era o herói que imaginara, o homem bom que erguia a espada para proteger quem amava. Talvez sua mãe tivesse mentido para ela nunca ter deixado de amar o pai, mas agora... Dera de cara com um impenetrável muro de decepção. Por mais que lhe doesse admitir, seria capaz de matar Hugh Knightley se ele ousasse machucar Duncan. Seu McGregor era imbatível e letal, mas não lutaria tão a sério. Não mataria o pai dela porque a magoaria. Leonor o conhecia muito bem. Mesmo com ódio, Duncan ainda se preocupava com ela.

Mas seria capaz de aceita-la de volta?

O objetivo dela era te destruir, as palavras de Grigori ecoaram em sua mente. Mas era ela quem estava verdadeiramente destruída.

De repente o horizonte tornou-se borrado e seus olhos arderam. Sentia saudade de Duncan a ponto de lhe doer a alma. Queria ouvir sua voz, ver sua carranca outra vez para logo substitui-la por um sorriso, sentir suas mãos lhe percorrendo o corpo, os lábios conquistando os seus, lutar com ele, brincar com ele...

Não pense nisso.

Sim, não pensaria. Não ficaria se torturando quando tinha de ser forte para salvar a si mesma e a Drustan. Endurecendo seu coração, tocou o punhal escondido em busca de coragem.

Mesmo que não acredite em mim, eu vou salva-lo. Tenho o tempo a meu favor e ele poderá preparar as tropas para aguentar o que meu pai está prestes a fazer. Eu posso ajuda-lo.

Só esperava que ele a ouvisse.

Piscou, espantando as lágrimas já frias e... Estreitou os olhos.

O que era aquilo?

As pessoas no birlinn amontoaram-se nos parapeitos, esticando-se curiosamente para identificar as sombras no horizonte. O coração dela ficou dividido entre a esperança de serem reforços e o desapontamento por serem inimigos. Eram doze birlinn, mas traziam brasões diferentes, de três Casas distintas. Franziu as sobrancelhas. Eles não tomavam o caminho de quem pararia em Sleat, mas de quem seguia para Dunvegan ou... Trotternish. Sim, Trotternish. E mais uma vez: amigo ou inimigo?

Drustan remexeu-se a seu lado, mas não despertou. Ele estava cansado da noite passada, até ela estava, mas não podia simplesmente esmorecer. Milhares de vidas dependiam de seu recado.

As embarcações pareciam seguir a dela. À medida que o tempo transcorria, mais claro ficava que estavam indo para o mesmo ponto. No entanto, o transporte dela limitava-se a Dunvegan e Trotternish estava muito distante para ir a pé ou a cavalo. Dias de viagem. Ainda mais estando tão grávida. A barriga não era escandalosa, mas era perceptível. Seu disfarce a fazia parecer um guerreiro rechonchudo, mas se prestasse bastante atenção...

Diabos.

Ela contava os segundos. Rogava a Deus para que o tempo fosse mais benevolente com sua situação. Precisava estar em casa o quanto antes, precisava ter sua espada em mãos para estar bem, precisava... Sentir os braços dele ao seu redor.

Argh! Estava absurdamente impaciente. Queria o quanto antes ver as Cuillin Hills, pois eram um sinal de que estava perto, mas seus olhos apenas viam o mar. O mar e um litoral muito distante.

Hugh logo partiria de Sleat com um exército ainda mais grandioso que o que fechava o cerco ao redor de Dragon Seafront Castle. Apesar de ela estar na frente, qualquer mínimo erro poderia significar um massacre. Se não fosse por Drustan, ela seria capaz de ir nadando de Dunvegan até Trotternish. Cansativo, sim. Perigoso, muito. Mas seria mais rápido que ir correndo e muito menos arriscado.

Massageou as têmporas, a dor de cabeça tornando-se tão presente quanto os malditos enjoos que a aporrinhavam. Pela primeira vez, ela vomitou três vezes ao matar e isso era vergonhoso de admitir até em pensamento.

Os birlinn estavam distantes, mas realmente seguiam para Trotternish. Não havia motivos para irem a Dunvegan. Ela tamborilou impacientemente os dedos nas coxas, resistindo ao desesperado ímpeto de gritar e tomar a galera para si. Seria ridículo, havia guardas ali e eram muitos para ela em seu atual estado... Tinha de ser paciente.

Mas como?

Não havia tempo sequer para negociar com um McLeod para conseguir uma aliança.

Grunhiu de frustração. Por que não ia mais rápido? Por que o tempo não estava ao seu favor ao menos uma vez?

Seus nervos estavam à flor da pele. Tudo o que sabia era que estava desesperada para ver Duncan, para... Encolheu-se de medo. Nunca fora covarde, mas de repente temeu o que pudesse ver nele. Deus, ela fora cruel, era óbvio que jamais a receberia. Acreditava que ela dormira com Grigori! Engoliu em seco. Como chegar a ele? Como fazê-lo ouvir? Ele não acreditaria nunca que ela planejara uma forma improvisada para salvar a todos e... Livrar-se de Grigori. Planejara pegar Hugh desprevenido, mas não perdera tempo procurando-o na fortaleza. Ele tinha mais vantagens e ela tinha de se preocupar com Drustan e seu bebê.

Trincou os dentes com força. Tudo estava começando a dar errado e isso a deixava mal-humorada. No entanto, manteve a mente fria e calculista. Certo, Leonor, pense. Pensar nunca foi tão difícil. Soltou imprecações em um sussurro. O tempo estava passando e ela estava muito longe de chegar lá. Olhou para o horizonte outra vez. Além das doze galeras de guerra, havia mais oito logo atrás, bem mais distantes e o instinto dela a alertou de que aquelas eram as de Hugh Knightley. Ele estava vindo. Ela não teria como avisar Duncan a tempo.

O sol já estava no meio do céu quando as galeras passaram pelo birlinn. Leonor viu com desesperança sua própria embarcação aportando em Dunvegan e distanciando-se do que ela realmente desejava fazer. Quando desceram para a praia, a mente dela funcionava rapidamente, abrindo um leque de opções para salvar Dragon Seafront Castle, inclusive o plano totalmente falível de roubar uma galera ela mesma.

-- Leonor?

Aquela voz calma e baixa tão familiar lhe acalmou os nervos. Com o coração batendo na boca, ela se virou bruscamente e abriu seu primeiro sorriso sincero em dias. Por muito pouco não se jogou nos braços dele, feliz por saber que estava bem.

-- Iain! – ela disse alegremente. Ele balançou a cabeça negativamente ao ver que ela usava calças e uma blusa maior que ela própria, além do gorro e da capa para o frio. Tudo roubado do filhote de cadela que era Grigori. – O que você faz aqui?

Ele colocou a mão em seu ombro como se essa fosse sua forma de abraça-la, de dizer que estava feliz por vê-la. Avaliou-a, certificando-se de que estava bem, até que seus olhos pousaram no delicado formato de sua barriga. Seus olhos azuis brilharam de ternura e ele sorriu.

-- Vim conseguir uma aliança – Iain explicou. Algo na expressão dele fez Leonor pensar que ele também queria ser pai. Bom, Mary adoraria ter uma penca de pirralhinhos meio-vikings também.

As palavras dele foram lentamente absorvidas por sua mente irrequieta. Então ela olhou por sobre o seu ombro, arregalando os olhos para a imensa quantidade de soldados bem armados com o brasão McLeod em seus escudos, todos esperando pacientemente a hora de partir para a guerra. Leonor sorriu ainda mais, mas a alegria durou pouco.

-- Apresse-se, Iain – ela disse apreensiva – Hugh já passou por Dunvegan. Ele... – ela tinha certeza de que ficara muito pálida, porque ele franziu as sobrancelhas e a olhou com maior atenção. Inapropriadamente, a cabeça dela girou e sentiu enjoo. A próxima coisa que viu foi que ele a sustentava pelo cotovelo, olhando-a com uma imensa preocupação. Leonor estava fraca, era verdade, mas não podia descansar. Não quando Duncan estava em perigo.

-- Você está bem? – ele lhe perguntou.

-- Sim... – a voz dela tremeu e ela amaldiçoou por isso – Não tive os melhores dias da minha vida ultimamente... Está tudo bem. Apenas se apresse. – ela tentou se afastar, mas os joelhos fraquejaram e Iain teve de ampara-la outra vez.

-- O que está acontecendo, minha senhora?

Ela respirou fundo.

-- Hugh armou uma emboscada. Por isso deixou parte do exército em Trotternish. Ele ia me usar como isca, mas eu fugi.

-- Esteve capturada?

Ela lhe contou o que acontecera, desde a traição de Arian e Fergus até o dia que encontrara o pai no jardim, quando lhe foi dada as duas escolhas mais terríveis de sua vida: Duncan ou sua gente. E ela criou uma terceira opção e pagara caro por isso. Quando terminou de dizer que fazia apenas muitas horas que escapara de Sleat, Iain permaneceu estoico, nada agradado com as informações que recebera. Tremendo e se sentindo furiosamente à beira do desmaio, respirou fundo de novo e continuou:

-- Enquanto Duncan estiver lutando para expulsar os invasores que nos sitiaram, Hugh fechará o cerco pelas montanhas e o empurrará para o mar, onde oito galeras McDonald estarão esperando. Será um massacre, Iain. Eu... – mordeu o lábio inferior – Quero lutar. Mas eu não posso.

-- Está tudo bem – ele lhe garantiu – Cobrirei as costas dele.

-- Então vá logo! Eu ficarei aqui com Drustan se for preciso, depois que tudo estiver bem, pode vir busca-lo.

-- E você? Acha mesmo que meu primo vai deixa-la aqui?

Pela primeira vez, ela não se importou de que alguém visse as lágrimas que tanto tentara esconder. Ela estava sofrendo.

-- Eu sei o que eu fiz com ele – disse friamente.

-- Moça – ele soltou um suspiro de impaciência, como se falasse com uma criança – O diabo te escolheu como companheira. Ele não vai te deixar livre nunca.

Ela abriu a boca para responder, quando viu que os homens McLeod afastavam-se para dar passagem a alguém. Iain também se virou e Drustan escondeu-se atrás dela, repentinamente tímido. Leonor observou a pequena e delicada mulher aproximar-se deles. Seus soldados curvaram-se em uma formal reverência, demonstrando respeito e obediência por ela. A mulher tinha os cabelos da cor do mogno em uma juba lisa que formava halos nas pontas e os olhos de um azul tão escuro que por pouco não eram roxos. Era jovem, provavelmente da idade de Leonor. Seu vestido verde era feito do mais fino e caro dos tecidos, com laços dourados, o que só mostrava seu status. Ela sorriu para Leonor.

-- É um prazer conhece-la – disse a pequena mulher – Iain falou muito bem de você, senhora de Dragon Seafront Castle.

Leonor arqueou uma indagadora sobrancelha.

-- Essa é Elizabeth McLeod – Iain lhe disse – Nossa aliada.

Elizabeth corou levemente.

-- Ouvi o que conversaram e... Bom... Se quiser, pode ficar conosco enquanto os rapazes cuidam da guerra.

Leonor suspirou com alívio.

-- Obrigada – disse – Se puder me dar um lugar para ficar...

-- Leonor – Iain disse bruscamente, atraindo a atenção das mulheres. Os olhos dele estavam sombrios, o que a deixou em estado de alerta mais uma vez – Duncan virá busca-la.

Ela esperava que sim.

Forçou um sorriso.

-- Está tudo bem, Iain – disse baixinho – Por favor, vá salva-lo. Não deixe que meu pai o machuque.

-- Meu primo não vai morrer nas mãos de um inglês. Lembra-te do que disse quando fomos atacados pelos vikings?

-- A vida dele é minha e só eu posso tira-la – ela sussurrou, engolindo as lágrimas antes que fosse tarde demais – Sim, eu me lembro.

-- Então...

-- Quero te pedir outro favor.

Ele permaneceu inabalável, mas anuiu com a cabeça.

-- O que minha senhora quiser.

-- Cuide da Mary. – ele enrijeceu com suas palavras e algo brilhou em seus olhos turquesa, algo como... saudade. Sim, Mary estaria em boas mãos.

-- Mary ficará bem – ele lhe garantiu, apertando-lhe o ombro – Cuide-se, Leonor.

-- Eu? – ela sorriu com picardia – Cuide do seu traseiro, Iain, ou um maldito inglês vai trespassa-lo por uma lança sem que veja.

Ele sorriu. Iain tinha um sorriso lindo. Não como o de Duncan, que era raro e que lhe acelerava o coração, o que apenas o tornava mais precioso, mas lindo a seu modo.

Iain dirigiu-se a uma galera de guerra, seguido por um batalhão de homens com as cores dos McLeod, como um exército saído do inferno e pronto para guerrear com voracidade. Seus escudos mostravam o brasão da família com orgulho, as espadas empunhadas como a materialização de sua coragem e honra, os kilts orgulhosamente vestidos como símbolo da linhagem... E em cada um daqueles homens, Leonor depositava sua confiança. Esperava que eles nunca desistissem. Ela viu as galeras partindo para o mar, o rufar dos tambores no alto de um escarpado dando sua despedida e esperando seu retorno. Mulheres – esposas, filhas, mães, irmãs – reuniam-se na praia e nos escarpados, prestigiando aqueles que se iam e rezando para que retornassem. Leonor sabia que muitos deles não voltariam. Muitos morreriam com honra, deixando suas famílias e suas histórias para os vivos.

Seu bebê se mexeu e ela levou uma mão ao ventre inconscientemente. Foi uma movimentação quase imperceptível, mas ela sabia que acontecera. Talvez ele estivesse inquieto e... Querendo o pai tanto quanto ela o queria consigo. Com os ombros aprumados, o queixo erguido e um sorriso forçado no rosto, encarou Elizabeth McLeod, que a olhava com complacência.

-- Eles estarão bem – ela lhe garantiu – Bom... Vamos para o castelo, você deve estar cansada e com fome. – e seu olhar pousou sobre um Drustan tímido e escondido atrás de Leonor, agarrando-lhe as roupas. Elizabeth sorriu com ternura – Olá, pequenino. Tenho duas irmãs da sua idade. Quer conhece-las?

-- Não – Drustan grunhiu. Leonor riu.

-- Drustan – repreendeu-o, passando os dedos suavemente pelos cabelos do menino – Não seja rude.

Elizabeth riu.

-- Tudo bem. Deirdre e Gillian também não são tão receptivas a estranhos. – ela disse, depois mordeu o lábio inferior, como se ponderasse – Acho que será difícil encontrar um vestido que caiba em você. Eu sou pequena e minha mãe também era... – seu sorriso infantil tornou-se radiante – Mas podemos encomendar, não é?

-- Obrigada.

-- Disponha.

-- Eu... quero um arisaidh – Leonor disse timidamente – Com as cores dos McGregor. Verde e vermelho.

-- Será feito. Venha – Elizabeth lhe estendeu a mão. Leonor hesitou, mas a segurou – Você precisa descansar e comer bem se quiser que seu bebê nasça saudável.

-- Sim.

Uma escolta de soldados McLeod as seguiram, guiando-as na direção do imperioso castelo de Dunvegan. Leonor não prestou muita atenção nas pessoas, não eram de seu interesse, mas sabia que o lugar era animado. Ouvia os burburinhos, as conversas animadas, o vaivém apressado dos criados, as donzelas costurando ao pé da lareira. Elizabeth McLeod a levou para um quarto luxuoso no segundo andar, onde ordenou que as criadas preparassem um banho e mandassem chamar uma costureira. Drustan não se separou delas um segundo sequer, mas já estava começando a se dar bem com Elizabeth, que era toda sorrisos e cheia de piadas que o faziam rir. Ele logo relaxou e Leonor ficou feliz por ele não estar mais tenso pela batalha.

Elas conversaram bobagens enquanto as criadas traziam os baldes com água quente e fria para encher a tina de cobre, mas quando estiveram a sós, o silêncio que perdurou foi carregado de tensão. Drustan saíra com uma criada com a promessa de ganhar doces. Leonor começou a despir as roupas imundas de Grigori, enojada por ter o cheiro dele impregnado em sua pele.

-- Seu corpo tem cicatrizes – Elizabeth comentou – De batalha, não é?

-- Sim.

-- Sabia que você é uma lenda?

Leonor arqueou as sobrancelhas e olhou para a mulher, completamente chocada.

-- O quê?

-- Histórias sobre uma valkyria foram espalhadas por toda a ilha – ela disse – Uma mulher muito bela que empunha uma espada como homem algum jamais viu. A única capaz de ser a companheira do Mensageiro da Morte. Seus feitos chegaram até nossos ouvidos, sabia? Conheço alguns escudeiros que se apaixonaram por você – Elizabeth riu. Leonor ainda estava em estado de choque – Alguns dizem que é uma selkie, porque já a viram pular de um escarpado em águas turbulentas e sair gloriosamente da água. Ouvi muito sobre você e fiquei muito curiosa para conhecê-la.

-- Eu... – Leonor desviou o olhar, assolada por uma estranha onda de timidez – Sou apenas eu. Não sou uma selkie, ou uma valkyria...

-- Eu sei. Eu queria ter a sua coragem. Meu pai jamais me deixaria pegar em uma espada.

-- A vida é sua, faça suas próprias escolhas e arque com suas consequências depois – Leonor disse dando de ombros.

Entrou na tina e instantaneamente relaxou pela perfumada água morna. Deslizou lentamente até sentar-se, soltando um suspiro de puro júbilo e alívio. A sensação de banhar-se nunca foi tão boa na vida. Elizabeth lhe deu um sabão e pediu licença. Logo que saiu uma criada entrou para banhar Leonor. Outra trouxe um vestido.

Deus, como desejava estar na guerra! Queria lutar ao lado de Duncan. Ele era inigualável e imbatível como guerreiro, mas não tinha quem lhe protegesse as costas. Ela... Ela sempre estava com ele. Queria mesmo lutar ao lado dele, mas tinha de se preocupar com seu bebê. Tudo o que podia fazer era rezar para que tudo desse certo, para que os reforços chegassem a tempo.

Mary engoliu em seco. Duncan não sabia que ela se enfiara no meio de seu exército e temia quando fosse descoberta, mas não podia ficar no castelo enquanto a guerra estourava lá fora. Nunca conhecera o tio Hugh, mas já o odiava a ponto de querer mata-lo ela mesma. Tanto que rogara a Deus para Leonor e Duncan ficarem juntos, e agora isso! Seu coração martelava contra o peito. Com um grito de guerra, esporeou o cavalo – Dubh, que significava Negro em gaélico – adiante, empunhando sua espada com toda a coragem que tinha. O plano de Duncan estava dando certo e ela estava muito feliz por isso. Seis guerreiros McDonald a cercaram, urrando como demônios, erguendo suas espadas. Oh, Deus, onde se metera?

Empurrou para o fundo da mente qualquer pensamento sobre Iain – porque estava preocupada com ele – e concentrou-se na batalha que explodia ante seus olhos. O tinir metálico das espadas se chocando retumbava dolorosamente em seus ouvidos, mesclando-se ao terrível som dos sôfregos gritos de quem era atingido. Ela estava particularmente apavorada. Lutar era uma coisa, estar em uma guerra era outra completamente diferente. Era aterrorizante. Tenebroso. Mary estremeceu. Conhecia muitos daqueles homens. Vira-os treinando com Iain e Duncan. Alguns eram até escudeiros. E boa parte deles jazia no chão, com os olhos enevoados e fixos no nada.

Mary esquivou-se de um ataque e perfurou a garganta de seu adversário com a espada. Retirou-a rapidamente, instigando o cavalo a seguir adiante, já defendendo o ataque de outro guerreiro, que tentara lhe arrancar a cabeça. Era a única ali com um estranho gorro na cabeça, mas não podia lutar com os cabelos soltos. Tirou a adaga de seu cinto e a arremessou em outro soldado que avançou por suas costas, ao mesmo tempo em que cortava a cabeça de outro. Não havia pausa para respirar. Cansar era morrer.

Eles conseguiram cercar o inimigo e estavam usando a vantagem do conhecimento do terreno para vencer, para encurrala-los. Duncan os fazia mudar as frentes de batalha, posicionando cada um como em um tabuleiro de xadrez, controlando tudo com uma sabedoria inigualável. Mary estava confiante de que venceriam.

Então, uma trombeta soou estridentemente. Ela olhou por sobre o ombro enquanto defendia outro ataque e seu coração foi bater nos pés. No alto de um aclive acidentado estava Hugh Knightley, cercado por um exército numeroso. Ela sabia que era ele, seu instinto gritava para fugir. Aqueles olhos diabólicos não enganavam. Mary seguiu seu olhar. Duncan e ele se olhavam nos olhos em um frio e silencioso confronto. Duncan não o perdoaria por ter feito mal a Leonor e Hugh queria vingança por ter perdido tudo. Mary esquivou-se de outro ataque.

Foi surpreendente. A guerra jamais parou, parecia cada vez mais intensa, como se cada guerreiro tivesse redobrado seu desejo por carnificina. No entanto, mesmo sem parar de atacar e defender, aliados e inimigos afastaram-se, abrindo espaço para Duncan atravessar a clareira irregular lentamente, montado em seu imperioso garanhão negro. Seus movimentos não possuíam pressa e ele sequer desviou o olhar de Hugh. E ninguém se aproximou dele. Era como se todos os guerreiros ali presentes temessem sua fúria e já soubessem que não sobreviveriam a uma luta com ele. Hugh instigou seu cavalo cinza para frente, indo ao encontro de um Duncan que em nada se parecia com o que ela conhecia.

Mary estremeceu. Duncan, com suas duas espadas nas costas, estoico como um deus da morte caminhando até sua vítima; Hugh, frio e cruelmente divertido, com os olhos brilhando de crueldade. Aquilo não acabaria bem.

Eles se encararam. Emparelharam os cavalos, olhando um nos olhos do outro, desafiando, confrontando, sem sequer necessitar do uso de palavras. Mary esporeou Dubh, aproximando-se deles sem ser reconhecida, defendendo-se sempre que necessário.

-- Renda-se e pouparei sua gente – disse Hugh.

Duncan não respondeu. Mary achou ser impossível, mas os olhos de Duncan estavam ainda mais negros, tão escuros e profundos que o tornavam desumano. Bestial. Então ela entendeu por que o chamavam de Feto do Diabo, de Mensageiro da Morte. O homem tinha um jeito predatório que aterrorizava mais que a própria foice da Morte.

-- Depois que foi largado por minha filha, perdeu a língua, menininho medroso?

Duncan enrijeceu.

-- Diga o que quiser – grunhiu – Não vai falar asneiras por muito tempo.

-- Está ameaçando o pai da sua mulher?

-- Não. Estou ameaçando o homem que destruiu a vida dela.

Eles trocaram um olhar feroz que continha todas as palavras que não expressavam em voz alta.

-- Você a desonrou como seu pai fez com milhares de outras pobres mulheres – rosnou Hugh, irritado pela falta de reação de Duncan – Desgraçou a vida dela! – Silêncio – O que foi, admitindo seus pecados? – Hugh riu cruelmente – Ela chorou, não foi? Chorou, pedindo clemência, enquanto você a invadia e a machucava. Ela nunca foi muito forte mesmo – apenas Mary percebeu o pulsar de fúria no maxilar de Duncan. A mudança em sua expressão foi leve, mas o suficiente para fazê-la encolher-se. – Sempre foi fraquinha e estranha. Admira-me que não a tenha matado.

Um rosnado retumbou desde o fundo do peito de Duncan até a garganta, os olhos negros densos e ameaçadores.

-- Grigori a montou ontem, sabia? Como um verdadeiro homem faz. É provável que ela tenha perdido o movimento das pernas por algum tempo.

Antes que Hugh risse, Duncan desembainhou suas duas espadas. O cavalo relinchou e se ergueu nas patas traseiras, dando uma patada no rosto do semental de Hugh. O animal cinza recuou e cambaleou, baixando a cabeça. Hugh tentou controla-lo, mas congelou ao ouvir o rosnado diabólico que saiu por entre os dentes de Duncan. Com as espadas gêmeas em mãos e montado em seu garanhão negro e erguido, ele mais parecia um anjo vingador explodindo sua fúria como um possesso. O cavalo cinza derrubou Hugh da sela ao receber outra patada no olho e igualmente derrapou. O terreno irregular o fez deslizar por um declive fundo e áspero, até parar em uma pequena clareira. Duncan saltou para o interior do lutar, vendo seu inimigo levantando-se rapidamente. Mary esporeou seu cavalo para aproximar-se, mas alguém colocou-se em seu caminho. O exército de Hugh avançou como uma onda de guerreiros furiosos, erguendo suas claymores e soltando um tenebroso grito de batalha.

Oh, Deus, quando terminaria?

Eles tiveram de recuar. O inimigo estava em maior número e os cercara em todas as pontas, impedindo-os de se moverem a bel-prazer. O exército de Hugh os forçou a recuar cada vez mais, investindo, atacando, fechando o cerco e controlando a situação. Os arqueiros no alto do aclive lançaram sua chuva de flechas e Mary ergueu o escudo para se proteger. No entanto, uma das setas ainda lhe perfurou o ombro e ela gritou de dor.

Viu muitos de seus aliados caindo, atingidos pelas flechas. Cavalos machucados relincharam alto, outros nem tiveram tempo, pois estavam mortos. Era um banho de sangue medonho. Os inimigos não findavam, pareciam aumentar cada vez mais de número.

Duncan não estava mais sobre seu cavalo. Olhava com desprezo para Hugh, que já estava preparado para travar uma longa batalha com o último McGregor.

O último seria se Leonor não estivesse grávida e Drustan não estivesse vivo. Mas eles estão. Precisam estar vivos.

Assim ela esperava.

Mary foi cercada outra vez. A forma como eles se moviam deixava muito claro que, ou ela recuava, ou ela morria. E ela recuou. Defendendo-se com todas as forças, recuou Dubh, tentando compreender onde estava sendo forçada a ir. Dubh tropeçou em um buraco no chão, mas não perdeu o equilíbrio, já acostumado às irregularidades daquelas terras.

Um homem atingiu seu cavalo com uma lança, mas a armadura negra que apenas os cavalos McGregor usavam o defendeu. O homem recuou e avançou outra vez. Mary desceu a espada sobre sua cabeça, perfurando o crânio, logo retirando a lâmina para defender-se de outro ataque. Ela já estava cansando. Ofegava, os músculos doloridos, o suor escorrendo pela linha da espinha até a base da coluna. Há horas estava naquele impasse. Quando estavam no controle, a situação rapidamente era invertida.

Eles tiveram de recuar até os escarpados. Mary arregalou os olhos ao dar-se conta da emboscada. Oito galeras esperavam por eles, os arqueiros com suas flechas prontas. Os tambores rufaram, enchendo-a de uma terrível ansiedade. Assim que viram as costas do exército McGregor, começaram a disparar as flechas. A chuva desceu sobre eles, derrubando corpos no mar, ferindo e matando a uma velocidade absurda. Não havia como avançar ou recuar. Estavam presos. Ou morriam pela espada, ou morriam pelas flechas.

Ela ouviu um urro bestial que a arrepiou até a alma. Tudo o que viu foi uma espada degolando rapidamente os soldados que a cercavam, como uma sombra vermelha movendo-se por entre os cavalos com seu garanhão malhado.

-- O que faz aqui? – rugiu Erik. Sangue lhe cobria metade da face e banhava seu peito e sua espada. Ela engoliu em seco.

-- Estou ajudando...

-- Vai morrer, moça – ele balançou a cabeça negativamente. – Estamos presos.

-- Eu... Não podemos nos render, Erik!

-- E o que quer que façamos? Flechas pelas costas e espadas e lanças pela frente. Eu não sei como poderíamos sair disso. Você sabe voar? – ele alfinetou – Bom, eu não.

-- Pensemos em algo!

-- Como o quê?

Ela não sabia. Queria um plano, mas não tinha nenhum. Não havia forma de sobreviver. As flechas voavam em um arco ascendente dos birlinn até a beira do penhasco, atingindo os guerreiros pelas costas enquanto o inimigo os perfurava pela frente. Os corpos despencavam no mar e nas rochas, desaparecendo na névoa invernal. A neve caía no alto do céu, acumulando-se aos pés deles, retardando seus movimentos. O frio era absurdo. Mary estremeceu. Podia ver a própria respiração formando pálidos redemoinhos ante seus olhos. Os gritos de quem morria ecoavam em sua mente, reverberando, deixando-a ainda mais aterrorizada.

-- Por favor, Erik...

Eles foram empurrados. Ergueram os escudos para se protegerem. Estavam separados da linha de morte por apenas alguns metros e viam com contido terror a forma como cavalos e homens despencavam; alguns mortos, outros apenas feridos, outros ainda vivos.

Encurralados.

Ela olhou naqueles olhos turquesa do highlander. Ele sorriu para relaxa-la, mas ela viu a tensão em seus olhos, o medo de falhar, não de morrer. Um guerreiro não temia morrer. Não, ele temia falhar para com seu povo. E esse era o terror de Erik: falhar com seu melhor amigo.

-- Quem sabe eu seja levado por uma selkie – brincou ele, mas não havia real humor nas palavras dele – Seria uma boa morte.

-- Não fale besteiras!

-- O quê? Nada melhor que cair no mar e ser abraçado por uma bela mulher.

-- Que vai devorar suas entranhas – ela revirou os olhos – Erik, pense em algo útil, por favor!

-- Sim, claro – ele bufou e deixou a voz mais aguda – Erik, pense algo. Erik, faça algo. – disse em uma ridícula imitação dela. Mary não sabia se ficava pasma ou desesperada porque iam morrer – Não pense que não ligo. Duncan está lutando com aquela... cabra inglesa, enquanto estamos sendo jogados de um por um aos braços da morte.

Ela entendia o lado dele. Mary queria saber o que fazer. Leonor agia melhor em situações de grande pressão, quando tudo parecia perdido. Deus, sua prima estava bem?

A última fileira caiu ao mar, as águas já tingidas de vermelho, levando os corpos para longe. O cavalo de Mary estava bem na beira do escarpado. Ela olhou para baixo, o coração batendo na garganta fechada. Viu as ondas escarlates esmurrando com toda a força a parede rochosa. A terra abaixo de si cedeu um pouco, a neve tornando o terreno escorregadio e Dubh relinchou, lutando para não cair, para não recuar ante o avanço inimigo. Mary e Erik lutaram com todas as energias que possuíam, tentando desesperadamente sobreviver.

Mary viu de relance a batalha travada entre Hugh e Duncan. Duncan era uma criatura gigantesca e de força inigualável. Ela estava bestificada com a forma com a qual ele se movia, desviando dos golpes de Hugh e o atacando com uma precisão letal, atingindo-o nas costelas. Então ela percebeu o quanto ele estava se contendo para não matar Hugh Knightley.

Ela sorriu um pouco ante aquela lógica. Meses atrás, ele não teria hesitado ao ter a oportunidade de matar seu eterno inimigo. Agora... Sua prima realmente tinha um homem maravilhoso.

O coração de Mary se encheu de pesar. Também queria que Iain a visse como Duncan via Leonor.

Dubh escorregou e ela gritou. Ele conseguiu voltar a firmar-se, mas estava a muito pouco de cair. Uma flecha perfurou suas costas e ela gritou outra vez, a dor lhe queimando a carne. Dubh foi atingido nos flancos.

-- Homens! – o grito de Angus ecoou pela clareira. Não precisavam olhar para ele para saber que todos tinham escutado e prestavam atenção – Nossa senhora não está conosco, mas ela nos treinou para esse momento!

A clareza de sua ideia pareceu iluminar os rostos de cada McGregor ali presente. A esperança brilhou nos olhos de cada um, como se a salvação tivesse sido posta em suas mãos e só necessitassem de coragem para usa-la.

-- Por Leonor! – alguém gritou com todas as forças.

-- Por Leonor! –todos repetiram.

O grito de batalha foi em uníssono, tão intenso que o chão pareceu tremer ante a força daqueles homens. Os inimigos pareceram confusos, um pouco surpreendidos pela determinação dos homens de Duncan. A própria Mary não conseguia crer na força de vontade deles, que superou qualquer desesperança, qualquer temor. Duncan e Hugh ergueram suas cabeças rapidamente, boquiabertos ante a cena que se seguiu. Mary viu, um por um, os homens McGregor largarem escudos e espadas, deixando apenas as adagas em seus cintos. Apearam de suas montarias e... Lançaram-se ao mar. O elemento surpresa deixou os McDonald sem ação.

-- Erik!

-- Diabos! – ele urrou – Mesmo sem estar aqui, aquela mulher consegue me surpreender!

Mary riu.

-- Vamos!

-- Vamos – ele imitou – Malditas mulheres que leram A Arte da Guerra.

Ela revirou os olhos, cravando a espada entre os olhos de um McDonald. Saltou de seu cavalo e olhou para baixo com espanto. Vira alguns dos treinamentos da prima com os homens, mas jamais esperou algo daquele nível. Ninguém esperou. Os homens saltavam para as águas violentas, desaparecendo na névoa como fantasmas. Estariam mortos? Então, ela ouviu gritos vindos do interior das galeras.

Seu sorriso ampliou. Os McGregor, armados com adagas e coragem, enfrentavam seus inimigos como sua senhora os ensinara. Saltavam dos escarpados, nadavam encobertos pelas águas escuras e pala névoa e invadiam os birlinn McDonald. Aos poucos, as flechas foram diminuindo. Mary respirou fundo. E saltou com eles.

Duncan provavelmente nunca teve tanto orgulho de ser desobedecido por sua esposa. Ela ensinara seus homens a nadar e os preparara para uma situação que nem mesmo ele teria imaginado possível. Seu exército, em total desvantagem em número, agora usava estratégias para vencer. Eram poucos e com a vontade de muitos. Bàs roimh gèill.

-- Minha maldita filha – cuspiu Hugh, avançando para Duncan. Duncan aparou seu golpe com uma espada e, em sincronia, usou a outra para corta-lo na coxa. O homem mancou, mas não perdeu sua força. – Sabia que deveria tê-la matado assim que nasceu.

A fúria buliu em seu interior, o instinto protetor de defender a honra de sua mulher superando qualquer fadiga ou dor provocada por seus ferimentos.

Hugh tirou uma adaga de seu cinto para equilibrar a batalha. Duncan urrou como um dragão enfurecido e desceu a espada sobre Hugh. O inglês usou a espada para se defender e avançou com o punhal. Duncan desviou para o lado e usou a espada livre para atacar pelas brechas de seu oponente.

Era uma luta longa e estava empatada apenas pelo fato de Duncan não querer realmente mata-lo. Olhava para ele e... Bom, não via Leonor. Não havia nada parecido com ela, nem mesmo um único traço. Mas lembrava-se de quando ela o defendia ferrenhamente, idealizando o pai herói, o pai amoroso, aquele que a seguraria nos braços e lhe contaria histórias antes de dormir se estivesse vivo.

E ele estava. No entanto, era apenas um monstro desalmado como Lachlan McGregor. Um homem cego pelo fulgor da batalha, que esqueceu há muito o que é viver. Aquele pai herói e amoroso para Leonor era Richard Campbell, o tio que a criara.

Então Duncan pensava no próprio filho. Aquele que era seu e dela.

Inferno, estava pensando demais. Deveria apenas mata-lo e ponto. Era guerra, todo mundo morria mesmo.

Mas ele não queria que o cara que destruiu sua vida – além de Lachlan – tivesse uma morte tão honorável. Bons guerreiros morriam em batalha e com a cabeça arrancada. Isso significava que seu oponente o respeitava. Bom, não era o caso. Duncan queria que aquele homem, o mesmo que estuprou e torturou ante seus olhos de menino, fosse visto como um traidor. Fosse desprezado. Que recebesse xingamentos, pedradas, cuspidas... E uma eternidade na cadeia de Edgar. Sim, nenhum castigo seria melhor.

Com um sorriso diabólico nos lábios, Duncan avançou para ele.

Hugh sorriu como a peste.

-- Eu arranquei seu filho do ventre de minha filha essa manhã – Hugh riu – Felizmente, ela sangrou como a cadela que era até morrer agonizando.

O medo frio cravou suas garras no coração de Duncan. E durante aquele momento de hesitação, Hugh atravessou seu peito com a espada.

Notas finais
DUNCAAAAAAN !!!!! :'( Lágrimas de sangue agora.
A Leonor até grávida é uma assassina violenta kkkk Finalmente Grigori morreu *.* Ela disse que morreria antes de pertencer e vestir as cores dos McGregor e aí está ela, toda lealdade e coração doce pro Duncan.
Que levou uma espadada do puto do pai dela.
Enfim... Eu posso dizer de novo que odeio Hugh Knightley ?
Um dia eu quero escrever uma história co Robert The Bruce *ooo*
E, Tatiana, CADÊ NOSSA HISTÓRIA RUSSA ?? kkkkkk
Comentários ? *..* A vida do Duncan depende de vocês hahaha