Prazeres Sombrios - Indômita

27 Capítulo XXVI - Porque eu preciso de você


Notas iniciais
Esse é o último capítulo *.* E depois tem um epílogo, só pra avisar kkk
Hoje vou postar tudo de presente de ano novo pra vocês (meu primo consertou a internet *ooo*)
E aqui na praia é muito inspirador kkkkk Coloca uma pálida de preto na praia e você vê um fantasma xD
Obrigada pelos comentários, nunca pensei que chegaria a 88 *oooo*
Boa Leitura!

CAPÍTULO VINTE E SEIS

Porque eu preciso de você

A guerra durou meses. As doze galeras que se juntaram à batalha eram reforços enviados pelo rei Edgar, o Pacificador, Niall Ashenbert e metade das tropas de Erik Ferguson. Foi uma batalha árdua e cheia de perdas. Os clãs de Skye jamais tiveram um inverno tão rigoroso como naquela época. A neve cobria cada metro de terra, desde as mágicas Cuillin Hills, até os escarpados da Península de Trotternish. A ilha inteira estava envolta pelas brumas, ocultada de qualquer invasor, como se as fadas das montanhas usassem sua magia para proteger aquelas terras tão mágicas e cheias de histórias encantadoras.

Os McLeod mostraram sua inimizade aos McDonald de Sleat ao mandarem mais cinco galeras com seus soldados mortalmente armados, comandados por Iain Sem Sobrenome. Os confrontos eram duradouros e impiedosos, visando a sobrevivência de um clã e o massacre de outro.

A morte de Grigori McDonald foi espalhada pela ilha como sendo o feito da Rainha Fae, ou da valkyria do Mensageiro da Morte, enviada unicamente para fazê-lo pagar por suas atrocidades.

Logo a neve sofreu seu degelo, mostrando uma terra verde e cheia de vida, símbolo do recomeço, da força e da persistência. As flores, antes fechadas, desabrocharam, perfumando o ar com seu aroma, encobrindo o odor da morte. Os animais saíram de suas tocas, as aves voltaram a cantar. Era um ambiente mágico, onde novos amores surgiam e os antigos eram reforçados, onde vidas eram formadas e outras eram postas ao mundo.

Quando a guerra teve seu fim, os clãs – McLeod, McGregor, Ashenbert, Canmore e Ferguson – uniram-se em semanas de longos festejos. Elizabeth McLeod disponibilizou comida e bebida para os McGregor o suficiente até recuperarem-se de suas perdas. As mortes foram choradas, abençoadas por um padre de cada clã e os nomes de cada guerreiro que partira para perto de Deus foram entalhados em uma pedra. A Pedra da Honra. Duncan mandou que Bessie esvaziasse um dos salões da torre leste e pendurou na parede as espadas de seus homens mortos, com a pedra em seu centro. As famílias podiam usar o cômodo para rezar por seus entes, para levarem velas e mostrar a seus filhos o orgulho que deveriam sentir por seus pais. Ou filhos. Ou irmãos. Ou primos. Ou tios.

Os festejos foram duradouros e fartos, com dança ao redor da fogueira, muita música, muita bebida, muita comida e muita gente; todos iluminados pela prateada luz do luar, agraciados pela visão de um céu negro e salpicado por estrelas luminosas e belas.

Era um recomeço. Um novo clã estava sendo formado, por assim dizer. Os McGregor confiavam em seu chefe, estavam dispostos a matar qualquer um que difamasse sua imagem. Livres da tirania de Lachlan, agora tinham quem realmente se preocupava com eles.

Hugh Knightley, Arianrhod e Fergus foram capturados como líderes de uma rebelião, julgados por traição a Henrique e a Edgar e culpados por tentativa de assassinar os protegidos dos reis. A corte os condenou de acordo com o que desejavam. Hugh passaria vinte anos encarcerado nas masmorras até Henrique decidir executa-lo. Arian e Fergus foram enforcados na praça ante o castelo real, em Edimburgo. Tudo estava em paz, como realmente deveria estar. Temporariamente, os McDonald estavam sem um líder, perdidos e deixados a bel-prazer, completamente desgovernados em um caos de desorganização, mas não tardaria até algum parente de Grigori aparecer reclamando a chefia do clã.

E quando isso acontecesse, os McGregor e os McLeod teriam de se preparar para outra longa batalha.

Duncan, sentado em uma cadeira de carvalho tão imperiosa quanto um trono, observava com orgulho a alegria de seu clã. As mulheres servindo ou dançando, os homens bebendo e conversando – ou chamando alguma moça para dançar – os clãs, tantos anos inimigos, agora unidos... Deu-lhe uma profunda sensação de paz.

Mas era uma paz vazia.

Olhou para Mary. Com uma flor lilás em seu cabelo e trajando um belíssimo vestido azul-claro, estava realmente linda. A flor realçava seus olhos ametistas. O rubor preencheu suas faces quando Iain se curvou para sussurrar algo em seu ouvido. Eles estavam sentados na escadaria que levava ao barmkin, apenas assistindo a celebração. Iain sorriu para ela e, timidamente, ela correspondeu. Eles formavam um belo casal e Duncan esperava que seu primo pedisse a mão da moça antes que o pai dela a colocasse para ser cortejada. E Mary Campbell voltaria em poucas semanas para Ulster, onde era seu lugar.

A não ser que Iain fizesse algo a respeito disso.

Então viu Drustan, que dançava alegremente com Elizabeth McLeod, uma pequenina e adorável mulher tão inteligente quanto um chinês. Ela era graciosa e doce. Erik passou a evita-la constantemente desde que descobrira que o pai dela colocara o noivado com sua filha como garantia pela aliança. Iain não era líder de clã e Duncan já estava casado, então não poderia formalizar a parceria. Restara Erik. Seu amigo detestava o casamento e possuía seus motivos para tal. No entanto, teria de casar com Elizabeth McLeod.

Ela sorriu para Erik e acenou, como faria com qualquer um, e ele praguejou e enterrou a boca em uma taça de vinho.

Todos estavam bem e muito felizes.

No último dia de festa, à meia-noite, um barco cheio de velas acesas pelos homens que se sacrificaram pela paz e pelas vidas de suas famílias seria lançado ao mar.

Duncan sorveu um gole de seu vinho. Apesar de tudo, não estava completamente feliz. Sua alegria era vazia e ele sabia por que: Leonor não estava ali.

Em sua mente, viu-a dançando ao redor da fogueira, sua juba negra solta movendo-se com o vento, os lábios rosados repuxados em um sorriso, a luz do fogo envolvendo-a com seu calor e luz como se fosse uma das criaturas mágicas que diziam habitar as Cuillin Hills. Esfregou o peito.

Todos sabiam que era proibido citar o nome dela desde que Hugh dissera que estava morta. Naquele momento, a dor da espada em seu peito foi incomparavelmente menor que a dor de tê-la perdido. Pela primeira vez, sangrando e ajoelhado ante um Knightley, sua visão embaçara. Quando tocara o rosto, sentiu as bochechas molhadas. Não chorou quando foi torturado. Não chorou quando foi abandonado. Não chorou quando foi escravizado e sentiu a garganta arder de sede e o estômago afundar de fome. Mas chorou e gritou como um possesso ao saber que a deixara morrer. Erguera-se, com a espada atravessada no peito e o sangue lhe banhando o corpo. Com a visão escurecida pela aproximação da morte, viu vagamente Hugh recuar e tremer, chamando-o de diabo. Duncan lhe quebrou os joelhos com um chute e lhe arrancou os braços com a espada.

Não pense nisso.

Não podia pensar. Nunca se sentiu tão sozinho na vida.

Distraiu-se vendo sua gente unida aos outros clãs. Niall também estava lá, com sua esposa, Amelia, que estava grávida do segundo filho. Era um casal realmente belo. Ele segurava a mão dela a todo instante e ela lhe sorria docemente.

Grande distração, seu bundão.

Drustan agora dançava com a filha de Niall. Elizabeth, cansada, aproximou-se de Duncan.

-- Sinto por meu pai não poder ter vindo – ela disse, contemplando a mistura de clãs. Os kilts coloridos preenchiam o pátio de Dragon Seafront Castle em uma animação contagiante. – Ele está velho e doente e piorou desde que mamãe morreu.

E a culpa era de Erik. Desde que dormira com a esposa do chefe McLeod e fora perseguido por toda a Edimburgo e forçado a cavalgar nu pelas terras escocesas até encontrar Niall, o pobre McLeod entrara em loucura. Enforcara a própria esposa por traição e logo em seguida arrependeu-se. Sua doença piorou e sequer era capaz de levantar-se do leito.

-- Não se preocupe com isso – Duncan disse sem muita emoção, mas compreendia os problemas pelos quais Elizabeth estava passando – Seu tio veio em seu lugar, não foi?

-- Sim, ele regerá nosso clã até Deirdre casar.

-- Então está tudo bem, aproveite a festa.

Ela sorriu e afastou-se. Duncan estava quase se perdendo em pensamentos outra vez, quando Iain colocou-se ao seu lado, os olhos brilhando de ternura ao ver uma radiante Mary dançando ao redor da fogueira gigantesca. Os cabelos dela pareciam chamas douradas ao reluzir a luz do fogo.

Como o esperado, Iain ficou em silêncio. Era um homem de poucas palavras, mas quando falava, dizia apenas o necessário e o suficiente para te fazer tomar uma decisão.

-- Vai desposa-la? – Duncan grunhiu, como era seu habitual. Iain pareceu momentaneamente triste.

Não respondeu, mas Duncan tinha uma ideia sobre o que ele estava pensando: a diferença de status. Iain não tinha nada a dar a ela e ela era uma duquesa. O pai dela jamais a daria a um homem que sequer possuía sobrenome. Duncan grunhiu outra vez.

-- Não fique com essa cara – rosnou, atraindo a atenção do primo – Você é filho de um Jarl poderoso da Escandinávia, basta reclamar seu posto como lhe é por direito.

Iain negou com a cabeça. Sou um bastardo, não um filho legítimo, o gesto queria dizer. Duncan estava cada vez mais impaciente. Talvez socasse seu primo para fazê-lo entrar em razão.

-- E mata-lo não te daria o que você quer? – prosseguiu – Ela não se importa com isso e você sabe.

-- Pensarei em uma forma de fazê-la minha – Iain disse, em seu tom calmo e baixo de sempre – Mas, você, primo... Pretende ficar quanto tempo sentado aqui?

Duncan franziu profundamente as sobrancelhas.

-- Não me fale por enigmas.

Iain o olhou com a paciência de uma santa.

Santa Iain, rogai por este homem violento.

-- Leonor te acalmava sem precisar falar nada...

Duncan se levantou bruscamente, atraindo a atenção de muitos no pátio. Encarou seu primo com uma expressão feroz, os punhos cerrados com força.

-- Não ouse...

Erik interviu, pondo-se entre eles. Até Niall deixou a esposa, juntando-se ao grupo. Erik o empurrou para longe de Iain, recebendo como resposta um bom soco no maxilar, que o fez cambalear por uns bons segundos. Diabos, odiava admitir, mas estava sofrendo. A perda dela lhe causou uma dor profunda, uma ferida insarável, que era escarafunchada a cada vez que lhe mencionavam o nome. Ele já tinha de conviver com o cheiro dela na cama, com os sonhos que tinha com ela, apenas para acordar em um leito frio e vazio. Ele nunca chorara na vida. Não até saber que Hugh a matara após matar seu filho. Ninguém sabia o peso da dor que guardava dentro de si, da dor não compartilhada e ruminada em silêncio. Uma dor acumulativa, que não sarava, apenas crescia.

Deu as costas aos amigos e dirigiu-se para as escadas. Não voltaria a beber, não era tolo, mas queria ficar sozinho antes que machucasse alguém sem querer. No entanto, Erik colocou-se em seu caminho. Niall e Iain colocaram-se logo atrás, impedindo sua passagem.

-- Quantas bobagens ainda vai fazer? – rugiu Erik – Quer levar um soco a cada dia como tratamento? Podemos resolver isso.

-- Erik – interviu Niall com sua voz de barítono – Com calma.

-- Estou muito calmo! – ele passou a mão pelos cabelos ruivos e soltou uma torrente de pragas.

-- O que ele quer dizer... – iniciou Iain.

-- É que lhe faltou palmadas no traseiro quando era criança – rosnou Erik furiosamente – Somos seus amigos, não seus inimigos, agora, que tal sentar a bunda gorda no chão e ouvir o que Iain estava dizendo?

-- Deixe-me passar.

-- Duncan – Iain disse com mais firmeza que antes – Ela está esperando por você.

Aquela opressão no peito retornou. Esfregou a região, incomodado pela dor.

-- Cale a boca – grunhiu, respirando fundo para se controlar.

-- Não, você vai ouvir – disse Niall.

-- Ela está esperando por você – repetiu Erik, agora menos agressivo, mas esperando qualquer reação violenta por parte de Duncan – Vá busca-la, ou irei eu.

Aquelas palavras o feriram.

Ele ficou em silêncio. Erik amaldiçoou com impaciência.

-- Não sei o que Hugh lhe falou – continuou Niall – mas sua esposa está viva, meu amigo.

Naquele momento, Elizabeth se aproximou. Trazia um olhar de dor em sua expressão abatida.

-- Desculpem-me, mas não pude deixar de ouvir. Duncan – ela limpou a garganta, procurando as palavras adequadas. Ele se virou para olha-la. – Achei que soubesse, mas... Leonor está bem. Eu segurei a mão dela durante o parto. Vocês tiveram um menino lindo, forte e de olhos negros. – ela sorriu com tristeza. O mundo dele veio abaixo. Erik avançou sobre ela, já com a boca aberta para perguntar onde estava Leonor, quando ela recuou e ergueu uma mão para detê-lo – Eu não sei aonde ela foi, ouviu? Pouco depois de recuperada, ela foi embora. A única coisa que pediu para levar foi o arisaidh com as suas cores.

Instintivamente, seu corpo se moveu sozinho e ele saiu correndo para pegar seu cavalo. Não importava onde estivesse, Leonor era sempre sua e ele a encontraria, mesmo que tivesse de ir além do inferno para trazê-la de volta.

Leonor olhou para as terras ante seus olhos. Sua mente foi montando as imagens de como aquilo deveria ter sido no passado. As colunas agora quebradas, que antes sustentaram o teto amplo do salão, os degraus que se erguiam para o nada que antes levavam para o segundo andar, as flores mortas e a terra infértil que antes formaram o jardim do castelo, paredes rachadas ou derrubadas que antes ergueram um imperioso castelo que pertenceu aos Knightley. Ela viu as sombras de seus antepassados dançando naquele salão queimado e destruído. Cada osso que um dia formou um corpo largado ali no chão em sua mente eram pessoas alegres que conversavam durante uma festa.

Todos Knightley.

Seu castelo estava em ruínas, tudo queimado. Escombros. Pedras. Nada mais que lembranças esquecidas. Seus pés faziam ruídos ao andar sobre as pedrinhas, sobre os restos do que deveria ser seu. Parou ante uma lareira destruída, coberta por heras. Por algum motivo, viu em sua mente seu pai abraçado a sua mãe, esquentados pelo fogo, enquanto a colocavam para dormir. Ela, apenas um bebezinho.

Seu filho se mexeu em seus braços. Ela olhou para seu menininho e sorriu. Ele era lindo. Um menino forte, de olhinhos e cabelos negros. Ela o beijou na testa. Estava desonrando os Knightley ao ir ali. Pisando no próprio sangue, desprezando a própria linhagem. Vestida no arisaidh com as cores verde e vermelha dos McGregor e com o filho de Duncan McGregor nos braços, definitivamente era uma desertora.

Deus, ela realmente esperou por ele. Acreditou em Iain e esperou Duncan por um mês. Temia ir até ele e ser rejeitada, então esperou que ele mostrasse qualquer interesse em tê-la de volta. Um mês. Um mês aguardando. Perdendo lentamente as esperanças. Talvez ele não tivesse achado seu recado. Ou, talvez a odiasse o suficiente para rejeitar o recado. Fosse qual fosse o motivo, ele não a queria de volta.

Não podia viver da hospitalidade de Elizabeth. Não podia envergonhar seu tio voltando para ele. Então pediria abrigo a Henrique. O castelo real não era tão longe de onde ela estava.

--Veja, Darius – ela disse amavelmente ao bebezinho aninhado em seus braços – Eu nasci aqui, sabia? – um gemido em resposta – Sua vovó teria amado te conhecer.

Ela não tinha para onde ir. Rogaria a Henrique para deixa-la ficar na corte e não retornar a Duncan.

Mordeu o lábio inferior. Não saberia o que fazer se tudo desse errado. Fugiria, mas para onde?

Talvez morasse em uma choça no meio da floresta. Oh, sim, muito engenhoso. Em seu âmago, sabia que nada disso daria certo. Henrique não a acolheria, ela já pertencia a alguém. E mesmo assim... Talvez tentasse casa-la outra vez e Leonor queria distância de casamentos. Seu corpo e seu coração pertenceram a um único homem e assim seria para sempre. Ele a conquistara. Conseguira dela o que ninguém jamais obteve e agora... Ela estava sozinha.

Ensinaria seu garotinho a lutar. Ele aprenderia todas as artes da guerra, assim como seu mestre lhe ensinara. Seria um guerreiro formidável.

Leonor olhou para as ruínas de Westminster. Tudo começara ali, naquelas terras abandonadas e mortas. Foi ali que os McGregor saquearam, iniciando os eternos conflitos entre os clãs. Foi ali que ela nasceu. Teria crescido ali se Lachlan McGregor e Hugh Knightley não tivessem acabado com tudo. Talvez seu pai tenha dado um baile como início aos cortejos. Ela conheceria muitos homens. Teria dançado com todos, ou apenas boa parte deles, até seu pai escolher um para permitir que a cortejasse. Teria realmente tido sua primeira primavera. E talvez... Talvez ela conhecesse Duncan durante o baile. Impecavelmente vestido e banhado, com aqueles olhos negros postos sobre ela, sondando-a e atraindo-a para as profundidas mais recônditas de sua mente. Eles teriam dançado, quem sabe.

E ela teria se apaixonado por ele.

Não importava o cenário, ou as circunstâncias, ela sempre o amaria em todas as situações. Como o guerreiro montado no garanhão de guerra que a viu de regata saindo do mar. Como o homem que respeitou seus medos e a conquistou para que se entregasse a ele. Como o pai do seu filho, que jamais veria o garoto crescer. Como o misterioso sir que apeara do cavalo na praia apenas para ver se ela estava bem, ou o furioso homem que saltara no mar em busca dela. Fosse como fosse, sendo um selvagem ilhéu ou um lorde conhecedor de galanteios, ela sabia que sempre o amaria.

E era por isso que doía tanto ser rejeitada por ele, mesmo que o compreendesse.

Leonor contemplou os restos de seu castelo. Não valia a pena ruminar o passado. Ergueu o queixo, determinada a seguir orgulhosamente em frente.

-- Achei que nunca usaria minhas cores, inglesa.

Um arrepio desceu pela linha de sua coluna e ela enrijeceu. Seu coração martelou contra o peito ao ouvir o timbre baixo e rouco de sua voz, o tom grave e imperioso dedicado a cada sílaba proferida. Inicialmente, ficou congelada onde estava. Mas todo o seu corpo reconhecia a presença dele, todas as suas células gritavam desesperadamente: é ele! Vire-se, fale algo!

Lentamente, ela se virou. Não sabia que estava com tanta saudade dele até vê-lo. Aqueles meses o tinham mudado. Estava mais alto e mais... Viril. Sim, uma virilidade crua, selvagem. A barba por fazer o deixava ainda mais bruto, os músculos realçados pela camisa de linho, as pernas fortes expostas pelo kilt... O cabelo escuro e rebelde não fora aparado, encaracolando nas pontas, os olhos ainda mais escuros do que ela recordava.

Era o homem mais lindo que já vira na vida.

Então reparou que realmente estava vestida com as cores dele. Tinha esquecido. Suas bochechas esquentaram com o rubor.

-- O que faz aqui? – ela rosnou. A expressão terna no rosto dele indicava que sabia perfeitamente que ela estava usando a raiva para encobrir a dor, para escapar do sofrimento. Ele se aproximou devagar; os movimentos fluidos e cuidadosos como os de um predador. O olhar fixo no dela.

-- Eu que pergunto que demônios está fazendo aqui, Leonor.

-- Não deveria ter me achado.

-- Realmente achou que podia fugir de mim? – ele arqueou uma desafiadora sobrancelha. Ela mordeu a língua para não amaldiçoar. Estava feliz por ver que ele estava bem, mas não o deixaria saber. – Não seja tola, inglesa, nunca deixo partir o que é meu.

-- Eu não sou sua – grunhiu ela, apertando o filho contra o peito. Então, o olhar dele descendeu de seus olhos lentamente para o bebê e... Deus, a expressão dele era impagável. Surpresa. Choque. E ternura. Ele olhou para o bebê como se não pudesse acreditar no que estava vendo. Contemplou cada traço do menino, sem perceber o esboço de sorriso que lhe repuxava os lábios. Então olhou para ela, como se esperasse alguma confirmação.

-- Ele é...

-- Meu filho – ela o cortou bruscamente – Unicamente meu.

-- Leonor – Duncan a repreendeu.

-- Não me venha com Leonor! – ela gritou em frustração. Esperara tanto que ele fosse busca-la, por que só agora? – Estou cansada dos seus joguinhos, sabia? Apenas saia do meu caminho, está bem?

Duncan negou com a cabeça.

-- Aonde pensa que vai?

-- Eu não penso, eu vou! E não é da sua conta.

-- Sim, é.

-- Argh! – ela bateu o pé no chão.

-- Ouça o que tenho a dizer...

-- Eu não quero ouvir. Não quero falar com você, McGregor.

Como um leão impaciente e irritado, ele se aproximou, intimidando-a com seu tamanho, com sua força. Ele ainda tinha o amadeirado cheiro de sândalo e couro. Aquele aroma que desprendia sexualidade. Ficou tão próximo que ela teve de curvar a cabeça para trás para olha-lo nos olhos, a ponto de o pescoço doer. Ele desceu a boca para a dela, mas não a beijou. Ela não se renderia tão facilmente. Hesitantemente, ele ergueu uma mão... E tocou a cabecinha do bebê. A ação a surpreendeu. E a comoveu. Foi um toque terno, mas desajeitado. Era como se ele temesse machucar a criança, como se não soubesse exatamente o quão delicado era um bebê. Leonor reprimiu um sorriso e isso atraiu a atenção de Duncan.

-- O que foi? – ele grunhiu.

Diabos, ela sequer era capaz de odiá-lo, mas se manteria firme.

Desviou o olhar. O que ele queria dela? Se em um mês não fora busca-la, era por que não a queria mais, certo?

Leonor estreitou os olhos para a movimentação no bosque. Esticou-se, franzindo as sobrancelhas. Viu Erik e Iain saindo por entre as árvores e caminhando para eles. Iain a cumprimentou com um discreto movimento de cabeça e Erik sorriu de orelha a orelha como uma criança. Ela acabou por sorrir a eles também, porque realmente estava muito feliz em vê-los tão bem. Erik ganhara uma cicatriz no pescoço, mas isso não tirava sua beleza.

Eles eram sua família.

-- Olá, meninos – ela disse.

Erik passou um braço por sobre seu ombro, ganhando um ameaçador franzir de sobrancelhas de Duncan. O ruivo olhou para o bebê e sorriu, cutucando o pequeno nariz. Darius riu, olhando com curiosidade para Erik, esticando as mãozinhas gordinhas para pegar o dedo de Erik.

-- Vejam só – ele disse baixinho, deixando que Darius agarrasse seu dedo com toda a força que um bebê possuía – É seu filho mesmo, Duncan, tem um punho bom. Espero que ele não tenha a sua mania de bater nos amigos ao invés de dialogar.

Iain e Leonor riram. O som atraiu a atenção do garotinho, que direcionou seus olhinhos negros e brilhantes para a mãe, como se ansiasse por ouvi-la rir de novo. Fazia muito tempo que Leonor não ria.

Duncan grunhiu qualquer coisa em resposta.

-- Como ele se chama? – Iain perguntou. Timidamente, Duncan olhou para ela, esperando sua resposta.

-- Darius.

-- Darius McGregor – disse Erik, fingindo ponderar – Sim, é um bom nome para um líder. Tem força. Duncan, eu já disse como a sua mulher tem bom gosto? Acho que me apaixonei por ela.

Leonor riu e Duncan rosnou. Então todos olharam para o pequeno Darius, que ria alegremente do que via.

-- Leonor – disse Iain com sua típica tranquilidade. Deus, ela sentira muito a falta de todos eles – Acho que você e Duncan têm algo a conversar, então...

-- Posso segura-lo? – a pergunta vinda de Erik surpreendeu até o inabalável Duncan McGregor. Leonor, boquiaberta, sequer soube o que responder. Erik, o libertino, que detestava casamentos e jamais pertenceria a uma única mulher, realmente pedindo para segurar seu bebê? Chocada, anuiu com a cabeça. Cuidadosamente, Erik o tomou nos braços, tentando aninha-lo, tão desajeitado quanto Duncan. Darius esticou a mãozinha e puxou um tufo de cabelo ruivo. – Ei, garoto, essa não é uma boa forma de conhecer seu parente, sabia? Sou seu tio de coração.

Leonor realmente sorriu. Erik tinha jeito com crianças, seria um bom pai. Restava apenas encontrar uma boa mulher para ele. De qualquer forma, ela gostou de ver Darius tão feliz com o escocês.

Iain e Erik foram se afastando, brincando com Darius como se realmente fossem os pais dele, rindo entre si. Então ela percebeu que seu filho seria muito mimado por todos eles se ela voltasse com Duncan. No entanto, estava magoada. Passara muitas noites rezando para que ele viesse logo, até cansar de esperar.

Por fim, estavam sozinhos. Olhou para ele, buscando qualquer vestígio de raiva no mais profundo de seu ser. No entanto, recuou e estremeceu quando o viu erguer o braço e desembainhar uma espada das costas. Ele a mataria? Levara seu filho e agora lhe tiraria a vida? Franziu as sobrancelhas. Ele que não... Duncan lhe estendeu a espada enquanto desembainhava a outra. Para a sua surpresa, reconheceu a arma antes mesmo de ver as inscrições Mo shíorghrá na folha prateada. Segurou-a pelo punho e recuou, ganhando distância. A expressão de Duncan era feroz.

-- Você vai me ouvir, mulher – grunhiu ele. Ela riu em deboche.

-- Desenvolvi uma impecável surdez seletiva nos últimos meses, McGregor. Vai se surpreender com minha capacidade para ignora-lo.

Duncan avançou, usando... A mão esquerda. Ela teria ficado furiosa, mas sabia que ele era igualmente habilidoso com ambas as mãos, que não a estava subjugando. Ela deteve seu ataque, usando o punho da arma para acerta-lo. Como ele recuou o rosto, foi um golpe seco no queixo, não no nariz. Duncan ergueu a espada e a desceu com força. Incapaz de parar o golpe com a própria resistência, Leonor rodopiou graciosamente para o lado, fazendo girar a saia de seu vestido. Para sua frustração, suas roupas pesavam demais, o que a deixava retardada.

Antes que o atingisse pelas costas, ele se virou e chocou a lâmina na dela. Os braços dela tremeram pelo impacto, mas ela não estava disposta a se dar por vencida. Seu sangue estava quente, tanto de excitação pela batalha como de mágoa por ele ter se dignado apenas agora a ir procura-la. Trincando os dentes de raiva, avançou sobre ele, despejando ataques em todas as suas brechas e odiando ver que ele conseguia defender tudo.

Leonor percebeu que os movimentos dele estavam mais bruscos. Teria se machucado na guerra?

Ele avançou como um dragão, usando a vantagem da força sobre ela enquanto ela sequer era capaz de ser tão veloz. Ele fez uma meia-lua horizontal com a espada e ela pulou para trás, já se preparando para avançar, quando outro golpe por muito pouco não a atingiu na garganta. Agachou-se, encolhida e saltou. Duncan recuou e a lâmina passou raspando por seu nariz. Se ela tivesse acertado, teria sua cabeça em um espeto.

O pensamento de machuca-lo diminuiu levemente sua empolgação, mas o instinto dela sabia que ele sempre se defenderia, que ela nunca o machucaria nem quando desejasse. E esse mesmo instinto também sabia que ele se conteria antes de feri-la. Ela quase sorriu, pois recordou de quando treinavam ao amanhecer no pátio, com aquela mesma voracidade de quem acaba de achar um parceiro compatível.

Quando ele avançou e ergueu a espada, ela se preparou para outro golpe que faria seus braços tremerem. Eles se moviam velozmente, percorrendo as ruínas em uma dança letal e cheia de perigosa sensualidade. Porém, o golpe que ela esperara não veio. Ao invés de descer a espada como previra, ele lançou a arma em um arco para a outra mão. Ela nunca vira um movimento tão bem calculado e planejado. Pelo peso das roupas, ela não foi tão rápida, não foi capaz de defender-se... Duncan tocou sua cintura com a lâmina. Não precisou feri-la para mostrar que ele era o vencedor daquele confronto.

Grunhindo como ele costumava fazer, ela lhe deu uma joelhada no estômago. Quando ele se curvou, ela se afastou.

Ainda tinha a espada em mãos. Não se renderia. Ele podia fazer o que quisesse, nunca lhe tomaria a vontade. Suas mãos tremiam. Ela queria gritar: por que não se preocupou comigo antes? Por que não veio logo? Mas as palavras entalaram em sua garganta. Duncan ergueu-se em toda a sua imperiosa estatura e foi até ela como um predador pronto para atacar sua presa.

Os golpes desferidos mostravam fúria, força e... Algo mais. Algo que ela não sabia o que era. Incapaz de fazer outra coisa senão aguentar cada ataque com os braços trêmulos, recuou e recuou, tropeçando vez ou outra em pedras das ruínas, até que cambaleou para trás e pisou na terra seca e áspera. Por um triz quase não defendeu outro ataque direcionado à sua cabeça.

Por algum motivo, os olhos dela se encheram de lágrimas.

Duncan a fez recuar mais e mais, ameaçando-a com golpes que lhe tirariam a vida caso ela fraquejasse. Leonor tentou contra-atacar, mas suas roupas atrapalhavam e ele era muito rápido. Ela tropeçou na barra do vestido, perdendo o equilíbrio, um grito findando em sua garganta, a lâmina da espada dele passando a um milímetro de sua garganta. As costas dela se chocaram contra uma árvore. Fracamente, ergueu sua arma para se defender.

Tudo aconteceu muito rápido, tirando-lhe a oportunidade de qualquer reação. Em um segundo, lutava desesperadamente contra Duncan. No outro, ele jogara a própria espada no chão e colara o corpo masculino e viril no dela, pressionando-a contra a madeira. Ele enterrou o rosto em seu pescoço e ela estremeceu ao sentir sua respiração na pele, arrepiada. Seus olhos se arregalaram, abriu a boca para falar, mas não encontrou a voz. Ele estava suado pela luta, o que intensificava seu aroma. Percebeu que relaxara, apoiando-se naquele peito forte que tantas vezes lhe transmitiu conforto. A espada escorregou por entre seus dedos, caindo com um baque surdo no chão.

-- Cronaim thu – ele sussurrou na curva de seu pescoço.

As lágrimas que passara meses prendendo, engolindo, escorreram quentes por suas bochechas. Tremendo, ela ergueu as mãos até encher os dedos com a suavidade de seu cabelo. Senti tua falta. Aquelas palavras eram tudo o que ela queria ouvir. Tudo o que pedira a Deus para ouvir desde que partira com Grigori.

Ele rodeou sua cintura com os braços e a puxou para si, apertando-a em um abraço que dizia mais que qualquer palavra. Ela não se importou em chorar. Chorou, soluçou e deixou que ele a embalasse, que moldasse seu corpo ao dele em um encaixe perfeito.

Duncan beijou seu ombro antes de se afastar apenas um pouco para olha-la nos olhos. Deixou uma mão em sua cintura e com a outra enxugou suas lágrimas com um carinho que não parecia pertencer a ele.

-- Está mais calma? – ele sussurrou, afagando sua bochecha. Ela repousou a face em sua palma, anuindo silenciosamente. Nunca teria imaginado que ele lutara com ela apenas para fazê-la relaxar e entrar em razão. Para desanuviar suas tristezas. – Não a procurei porque achei que estava morta. – ela viu a sinceridade em seus olhos e teve vontade de chorar cada vez mais. As lágrimas eram grossas e pesadas, ainda mais abundantes – Não chore, Leonor.

Ele a beijou na ponta do nariz e ela riu.

-- Tive medo de que o tivesse magoado a ponto de não me querer mais.

Sua voz nunca soou tão terrível a seus ouvidos.

Ele negou com a cabeça.

-- Eu te amo, Leonor, como pode duvidar disso? – ele tirou a mão de seu rosto, deslizando suavemente por seu ombro, seguindo por seu braço, até lhe tomar a mão. Com os dedos entrelaçados, ergueu as palmas unidas até a altura de seus olhos – Dìleas na comhnaidh – sussurrou com a voz baixa e profunda. Ela sorriu entre as lágrimas.

Sempre fiel.

-- Está tentando me convencer a voltar para casa?

Duncan abriu um sorriso malicioso e aproximou os lábios de seu ouvido.

-- Acabou de chamar o covil do dragão de casa – ele disse – E não, não estou tentando convencê-la, porque sei que vai voltar comigo.

-- Desde quando é tão arrogante, McGregor?

-- Desde que uma inglesa me deu uma cabeçada quando tentei ajuda-la.

Ele levou a mão dela aos lábios. Leonor baixou o olhar, as bochechas enrubescidas.

-- Olhe pra mim, moça – Duncan disse. Sua voz era hipnótica. Ela o olhou nos olhos, a fadiga pelo choro começando a se fazer presente – Não quero vê-la triste. Quando soube que estava viva, viajei por toda Skye em busca de você. Iain e Erik estavam preocupados.

-- Como sabia que eu estaria aqui?

-- Não sabia. Fui a Ulster também.

Ela arqueou as sobrancelhas. Por que estava tão surpresa?

-- Por que foi tão longe?

Ele franziu profundamente as sobrancelhas daquele jeito só dele.

-- Eu iria até onde você estivesse, não importava onde fosse.

Dessa vez, as lágrimas que vieram foram de alegria. Ela se jogou sobre ele, rodeando seu pescoço com os braços. Foi tão brusco, que Duncan perdeu o equilíbrio e caiu com tudo no chão, com Leonor deitada sobre ele. Explodindo de alegria, ela despejou uma chuva de beijos por todo o seu rosto, sorrindo euforicamente, o cabelo negro cobrindo a ambos como uma cortina. Ela riu timidamente. Duncan colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.

-- Realmente me procurou tanto? – pela careta que ele fez, significava um sim – Mo chroí...

-- Sabe... – a mão dele cobriu suas nádegas possessivamente e ele aproximou os lábios dos dela, deixando-os a um suspiro de distância. As respirações se mesclavam em um único sopro. Ela podia sentir o coração dele contra as costelas – Vê-la com as cores do meu clã é muito excitante, Leonor.

Ela corou. Ainda sentia o calor da batalha nas veias.

-- Aqui não – e aproximou os lábios do ouvido dele – Mas quando chegarmos a Dragon Seafront Castle...

Ele tomou seu rosto com a outra mão.

-- ... Vou fazer amor contigo, minha inglesa indômita, até fazê-la dizer por favor.

Leonor riu.

-- Quem vai implorar é você, Duncan McGregor.

Definitivamente, porque ele já tinha se rendido.

Quando os lábios se tocaram, foi como se fosse o primeiro beijo. Uma doce carícia, um saborear viciante que clamava pela irrevogável rendição por ambos os lados, a saudade do calor e da textura. Ele a puxou para si, aproveitando seu suspiro para conquistar sua boca com a língua, aprofundando o beijo até senti-la derreter sobre o próprio corpo. Ele sentira saudade dela como homem algum jamais sentiu saudade de sua mulher. Não importava se estava com medo ou raivosa, ela sempre derretia manhosamente ao receber seus beijos. Duncan amava seu calor, seu perfume, sua voz. Quando rolou sobre ela, cobrindo seu corpo com o dele, ela se entregou completamente, totalmente esquecida de qualquer palavra relacionada a não faça isso aqui. O beijo foi ganhando força e ele sorveu a respiração dela e seus gemidos de prazer dentro da própria boca, deslizando as mãos pelo corpo feminino e curvilíneo, ansioso para despi-la e penetra-la. Ela rodeou seu quadril com as pernas, prendendo-o, puxando sua rigidez de encontro a ela.

Sem sombra de dúvidas, Anna Leonor de Westminster era seu shíorghrá.

Notas finais
Eu achei lindo *.* kkkkkk
E, Morgana Le Fay, o nome dele é Grigori porque eu amo esse nome *o* Eu sei que é russo, eu amo os nomes russos. Na época eu tava numa fase de Grigori e começar a escrever uma história só pra ter um Grigori é osso kkkkkk
Enfim... Revies ?