Prazeres Sombrios - Indômita
25 Capítulo XXIV - Névoa
Notas iniciais
BOA LEITURA !!!
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
→ Névoa ←
Ela estava sonhando com ele de novo. Como em todas as noites em que se dava ao luxo de fechar os olhos, vencida pelo cansaço, sua mente a levava para o que ela mais queria, tecendo uma teia de ilusões mescladas a lembranças das últimas semanas, formando uma grade emocional intensa o suficiente para que acordasse com o rosto sulcado de lágrimas que não se permitia derramar quando estava acordada. Eram imagens tão vivas, que sentia realmente como se estivesse acontecendo. Como se realmente fosse de verdade. Não um sonho.
Vivia intensamente cada ilusão, apenas para abrir os olhos e perceber que nada era real. Que estava trancada em um quarto, tentando proteger a vida de Drustan. E a própria. Que não havia um peito forte no qual se apoiar ou braços quentes que a envolvessem e acalmassem. Sozinha e amofinando naquela prisão, tudo o que podia fazer era procurar algo que pudesse usar como arma, mesmo que fosse para dá-la a Drustan para que se protegesse quando ela não pudesse mais.
Inspirou fundo e cerrou os dentes, enxugando o rosto com a única pele que lhe disponibilizaram para que não morresse de frio. Chorar estava fora de questão. Não era fraca, nunca foi e jamais seria. Negava-se a permitir que a matassem daquela forma. Era uma assassina fria, não uma mocinha ingênua.
Ouviu a tranca da porta sendo destravada. Seu corpo se tencionou imediatamente e fingiu que estava dormindo, apesar de todo o instinto estar em alerta, deixando-a pronta para lutar contra qualquer um que viesse lhe fazer mal. Deixou que seu instinto a guiasse, afiando sua audição. Passos leves e comedidos, respiração ruidosa, perfume intenso de lavanda... Era uma das donzelas que a serviam. Uma de seus cárceres. A única com um cheiro tão doce e áspero para o nariz era Flora, uma mulher roliça e tagarela que se divertia chamando-a de cadela.
Leonor a mataria se se mostrasse como uma ameaça. Serviria de aviso para Grigori e Hugh, mas não fazia parte de seu plano que tivessem conhecimento de suas habilidades. Até agora conseguiu manter a imagem de esposa benevolente e frágil, mostrando-se doente para eles – o que não era tão difícil. Como só a tiravam do quarto quando algum dos homens queria lhe perguntar algo, como a estrutura do castelo, as fraquezas da muralha, o tipo de treinamento militar, o nível das provisões remanescentes para o inverno que já castigava as Cuillin Hills, as armas que possuíam... Ela se aproveitava para observar o ambiente, fazendo mentalmente uma planta do castelo, contando quantos soldados tinham, atenta a qualquer conversa que pudesse ouvir, sem desprezar nada. Enquanto isso fingia ponderar, fazia uma careta de desagrado e praticamente chorava ao dizer sinto muito e começava a falar inutilidades, como roupas, joias e mais roupas. Bom, Hugh estava convencido de que tinha uma filha tola e extremamente banal. Grigori estava quase desesperado para fugir dela. Não tinham paciência para ouvir uma pobre e fragilizada mulher que desejava o luxo. Isso era bom.
O ponto negativo? Não conseguia ficar sozinha com Grigori nem por três segundos.
Flora se aproximou e puxou bruscamente a pele que a cobria, revelando seu corpo ao congelante vento invernal.
-- Levante – ela rosnou – Meu senhor Grigori tem algo a tratar com você.
Leonor a olhou no escuro. Seria muito fácil mata-la. Até mesmo a vela que segurava era uma arma muito interessante. Forjando uma expressão de sonolência, arrastou-se para fora da cama. Não podia deixar Drustan sozinho, poderiam machuca-lo enquanto estivesse fora. Mas pelo o que ouvira das criadas esta noite, Hugh estava muito ocupado com umas coxas roliças para sair do quarto tão cedo. Talvez Drustan ficasse bem. De todo modo, rodeou a cama e o cutucou. Quando ele abriu os olhos, sussurrou para que apenas ele ouvisse que se escondesse e usasse qualquer coisa de arma até ela voltar. Ele anuiu com a cabeça. Voltando para Flora, permitiu que a mulher a despisse e a vestisse com roupas simples, nada dos bons tecidos que estava acostumada. O corpete a apertava e parecia realçar suas curvas, os seios e... Deixando mais perceptível a curva de seu ventre.
Seus ombros estavam expostos, o tecido do vestido era fino e ela parecia uma cigana. Sim, só podiam ter-lhe dado o vestido de uma cigana. Simples e deselegante, conferindo-lhe uma beleza selvagem. Indomável. Ao contrário do que costumava usar, aquilo não lhe cobria absolutamente os braços. Sentia-se exposta e vulnerável, mas extremamente sensual. Para o homem errado. Flora lhe escovou os cabelos, domando os cachos embaraçados.
-- Vamos.
O quarto foi trancado quando saíram para o corredor. Desceram um quase interminável lance de escadas, o que lhe deu bastante tempo para pensar em uma estratégia inteligente. Observou outra vez o caminho que tomavam. Flora empurrou uma pesada porta de ferro, que rangeu com seu esforço. Uma sala. A luz repentina fez seus olhos doerem, mas não demorou a se acostumar. Aquela sala possuía três portas e varias janelas. Janelas que davam para o pátio pedregoso lá embaixo. Certo, muito bem. Flora escolheu a porta do meio. Um corredor. Seguiram adiante, passando por varias outras portas. Dormitórios? Talvez. Dobraram para a direita. À esquerda... Havia outro longo corredor cheio de portas. Grigori dormia com seus soldados no castelo.
Poderia fechar todas as portas e queimar o castelo. Ou derruba-lo. Daria certo se existissem dragões.
Só podia estar enlouquecendo.
Se não fosse por Duncan, Leonor podia se jogar do escarpado e fugir nadando até cansar. Não era tão alto assim, já pulara de lugares mais arriscados. Poderia se banhar em óleo, o que impermeabilizaria sua pele e facilitaria o nado... Mas não podia abandona-lo. Trotternish ficava muito longe dali, mas ganharia tempo...
Não. Nadar estava fora de questão.
Ela empurrou outra pesada porta de ferro. Essa dava para uma sala ampla e de teto abobadado. As paredes eram cobertas por tapeçarias elegantes e caras, havia uma larga e longa mesa de madeira e, ao fundo, uma gigantesca lareira acesa. Janelas retangulares na vertical permitiam que a luz da lua penetrasse no recinto e lhe davam boa visão do mar. De frente para uma delas, admirando a densa noite lá fora, Grigori parecia imerso em profundos pensamentos. Sua longa juba de cobre lhe caía pouco abaixo dos ombros e seus ferozes olhos cinza lhe conferiam uma aparência macabra, animalesca. Ele tinha o nariz torto, provavelmente o quebrara e seu queixo anguloso e firme mostrava antipatia. Ele tinha um porte régio, era corpulento. Não era musculoso e esbelto como Duncan. Parecia um guerreiro aposentado e preguiçoso. Mas ela sabia que ele era muito forte e hábil com a espada. E era muito parecido com seu maldito pai. Como um clone.
O que me faz odiá-lo ainda mais.
Flashes dos terríveis momentos que passara nas mãos de Alasdair McDonald preencheram sua mente. O toque asqueroso de suas mãos, seu cheiro desprezível, sua voz, sua risada, as marcas que deixara em seu corpo... Apenas Duncan a fazia esquecer.
Ele não vai me querer, mas eu tenho de voltar para ele.
Sonhar um pouco a mantinha sã.
Não percebeu quando Flora se retirou e trancou a porta, mas logo estava sozinha com Grigori. Tochas acesas estavam presas em aros de metal nas paredes, iluminando o salão. Ele se voltou para ela e ela sentiu o arrepio do medo lhe beijando a espinha. Grigori a devorava com os olhos, desde os pés descalços, subindo pelo quadril, detendo-se nos seios, nos ombros expostos, na garganta, nos lábios, nos cabelos... Aquilo a enojava, mas manteve-se inexpressiva. Era uma boa atriz. Anos encenando histórias com Mary para seus primos a ensinaram muitas coisas.
-- As roupas lhe caíram melhor do que eu esperava – ele comentou, com um libidinoso sorriso. – É compreensível que seu marido não quisesse deixa-la ir. Eu também não permitiria que uma mulher tão bela me deixasse.
Leonor sorriu docemente.
-- Até quando ficarei no quarto? – disse docilmente – Estava planejando caminhar pela praia.
-- Aguarde mais um pouco, está bem? Logo o plano será posto em prática. Com Fergus e Arian presos, não temos espiões livres por lá e você já fez seu trabalho. Perfeitamente, se me permite dizer.
-- Obrigada.
Ele abriu um sorriso que não lhe chegou aos olhos.
-- Aproxime-se – Grigori disse. Ela o obedeceu, andando lentamente para ele, atravessando a sala, até parar a pouco mais de um metro de distância. Era um espaço seguro, vantajoso para atacar ou para fugir se fosse necessário. – Não tenha medo, não lhe farei mal.
-- Não estou com medo – mentiu.
-- Não é o que parece.
-- Muitas coisas parecem o que não são.
Ele ponderou.
-- De fato. Mas não a chamei aqui para uma conversa entre amigos.
Amigos?
-- Então... – ela pestanejou com inocência – O que quer comigo?
Grigori se aproximou, invadindo seu espaço seguro e ela carecia de muita força de vontade para não recuar. Não cairia em seu joguinho de presa e predador.
-- Seu pai me vendeu você – ele revelou com contentamento e ela teve de engolir a bílis para não vomitar sobre ele – Em troca da minha aliança. Como não posso romper seu casamento com o McGregor, você é meu prêmio de batalha.
Dificultosamente, ela engoliu em seco.
-- Pode... me explicar melhor?
-- Sim, doçura. – ele afagou sua bochecha e por muito pouco ela não fez uma careta de desgosto, de nojo. Forçou-se a sorrir docemente, forçou-se a relaxar. Permitir que a tocasse era repulsivo. Mas tinha de aguentar. Só um pouquinho mais... Só um pouquinho mais. – Amanhã tomaremos finalmente Dragon Seafront Castle. Você é minha escrava de guerra e a quero como minha amante até conseguir arranjar um casamento com Elizabeth McLeod.
☺
Ele decidiu parar de beber. Não estava servindo de nada. Não conseguia esquecer, o álcool parecia realçar a dor em seu peito e a cabeça latejava dolorosamente. Não havia uma válvula de escape no mundo para o seu sofrimento, então, decidira fazer o que fazia de melhor: enfrentar. Depois de dias estando ébrio, estar sóbrio lhe rendera uma enxaqueca infernal e uma fome desesperada. Bessie lhe fizera uma refeição escassa de vegetais e sopa e um suco de alguma coisa que ele não reconheceu, mas lhe serviu para encher o estômago. Mary preparou um chá de ervas especial para revigora-lo. Não estava pronto para treinar ainda, por mais que desejasse.
Do alto da muralha, observava os movimentos do inimigo em plena madrugada. Houve um ataque pela tarde e Erik teve de tomar à dianteira. Bom, Duncan tentou ajuda-lo, mas foi trancado no estábulo e Mary ameaçou castra-lo se fazia mais uma tolice. Os cavaleiros Ferguson se misturavam aos McGregor, levando para a batalha suas cores em diferentes padrões. Tinham um exército forte e extremamente numeroso. Duncan planejava liderar um ataque amanhã, fazer uma surpresa pela noite, cercar os exércitos McDonald e Knightley e força-los para a praia. Expulsaria os filhos de cadelas leprosas de suas terras e mandaria um recadinho para Grigori McDonald.
O inverno era intenso. A neve cobria cada centímetro das montanhas, o vento forte e cortante parecia lhe rasgar a pele e nem seu manto de pele de urso era capaz de protegê-lo do frio cruel. Todos os aldeões estavam refugiados em seu castelo, amontoados no salão, nas torres, nos outros andares, nas cozinhas, na igreja, nos estábulos... Não havia um único lugar que não estivesse ocupado. Não havia mais comida e tudo o que podiam queimar para se aquecer eram os móveis. A prioridade era fortalecer os soldados. Tinham de vencer amanhã. Se seu plano corresse bem, sairia para caçar com os homens logo após a vitória e deixaria Mary no comando das mulheres. Sem os McDonald, o povo poderia voltar a pescar e cuidar do gado e do plantio. Tudo seria decidido amanhã.
A noite, escura como ônix, sem nenhuma estrela, estava envolta por uma névoa densa e gélida, impedindo-o de ver muita coisa. A neve caía em uma chuva forte e dolorosa, mas ele permanecia com seus soldados na muralha. O frio era realmente um castigo, mas ele treinara seus homens para suportar todos os tipos de tortura, inclusive aquele tempo horroroso. Por isso lhe deram o nome de Diabo, de Mensageiro da Morte. Nem mesmo a nevasca o detinha. Nada podia mata-lo. E passara isso aos seus soldados. Tornara-os fortes, capazes de suportar o frio. Depois de anos de treinamento, finalmente eram capazes de lutar na neve e obter vitória sem esforço. E eles se esforçaram muito para obter tal resultado.
No entanto, os homens de Erik não tinham a mesma resistência. As highlands também eram cruelmente frias, mas não chegavam ao nível das Cuillin Hills. Erik não estava acostumado a guerrear em um inverno tão rigoroso e seus homens estavam quase congelados dentro do castelo. Outro ponto negativo contra eles.
O terreno acidentado e irregular era um obstáculo para seus inimigos, mas tornava quase impossível sua movimentação quando coberto de neve. A neve ocultava as irregularidades. As pedras podiam desabar de repente. O chão poderia ceder facilmente. Não saberiam onde pisavam. E os McDonald também não estavam acostumados ao frio, não a um tão intenso. Um meio-sorriso frio repuxou seus lábios. Duncan conhecia bem as terras que tinha. Cada palmo, cada irregularidade, cada pedra coberta de neve e gelo.
As tropas estavam mobilizadas pelo inverno. Se eles não recuassem, Duncan avançaria. E xeque-mate.
-- Você deveria entrar.
Ele caminhou para o outro lado da ameia. Lady Mary, coberta por uma manta de pele de lobo maior que ela mesma, estava lá embaixo, olhando para ele e acompanhada do lobo de Leonor.
Não pense nela. É uma cadela traidora, uma víbora.
-- Não está muito frio aí em cima? – ela perguntou.
Estava, mas não o incomodava tanto. Podia aguentar aquele frio infernal por mais alguns dias, graças a seu pai e aos ingleses.
-- Não.
-- Eu queria conversar com você – ela mordeu o lábio inferior. Estava nervosa. Ela tinha aquela mesma mania. – Posso subir?
Ele deu de ombros.
-- Se aguentar.
Ela acariciou a cabeça do lobo e se dispôs a subir a escada. Duncan voltou para a muralha, o olhar fixo no horizonte. As galeras de guerra estavam esperando seus guerreiros e seus guerreiros estavam todos ao redor de Dragon Seafront Castle.
Aquelas eram suas terras e ninguém as tomaria.
Sentiu a presença de Mary ao seu lado antes que ela estremecesse e gemesse de frio, completamente atacada pelos flocos que cobriram seu rosto e molharam seu cabelo.
-- Meu Deus – ofegou, abraçando o próprio corpo – Como consegue ficar aqui?
-- Costume – respondeu com natural indiferença.
Ele não era muito falador e ela não se importava muito com isso. Claro, era apaixonada pelo mudo do seu primo.
Mary esfregou os braços para se aquecer.
-- Eu... Bom... Acho que Drustan foi com Leonor.
Ele já tinha suposto isso. Drustan era muito apegado a ela e iria a qualquer lugar que ela fosse, mesmo que para o além-mar. Por algum motivo, saber que seu irmão estava com a víbora não o preocupava tanto. Sinceramente, ainda queria voltar a beber até que esquecesse totalmente dela.
-- Ela vai cuidar bem dele – Mary afundou na pele, os dentes rangendo – E... Sei que não quer falar disso, mas esperei muito que estivesse sóbrio para ouvir minhas palavras. Você não entenderia e ainda acho que não está pronto para entender, mas não há tempo.
-- O que quer dizer com isso?
-- Minha prima – ela estremeceu – O que ela te disse antes de ir embora?
Ele pensou um pouco.
-- Para eu parar de fazer estupidez. – respondeu friamente.
Mary revirou os olhos.
-- Não foi isso e você sabe, Duncan.
-- Se veio defendê-la, desista. Volte para dentro do castelo.
-- Ela tinha razão, você é muito cabeça-dura – resmungou a moça com uma careta – Claro que estou aqui para defendê-la. Sabia que não há uma pessoa além de você que acredita que ela foi embora de boa vontade?
Aquilo o estava tirando do sério. Por que ninguém entendia que ele não queria falar sobre aquilo? Não estava interessado em ter uma discussão profunda sobre sentimentos e pontos de vista. E menos ainda com alguém que estava muito disposto a defender Leonor com unhas e dentes. Ou seja, não ia falar com ninguém, porque todo mundo a estava apoiando.
Por Deus. Ele teria dado tudo por ela. Ver aquele punhal direcionado a seu coração doeu mais do que tê-lo cravado no peito. Ele, mais do que qualquer outro, queria acreditar na inocência dela. Mas ela disse tudo o olhando nos olhos. Ela escolheu Hugh de Westminster acima dele. Ela o traíra. Esfregou o peito outra vez, ato que fazia constantemente desde que a conhecia e que piorara depois que partiu.
-- Sim, sei – grunhiu.
-- Abra os olhos, sim?
Quando Mary se foi, ele começou a pensar que todos estavam muito empenhados a lhe lembrar que era um cego. O que poderia estar deixando passar? Ela o deixou. Ponto.
Lembre-se da última frase de Gwyneth para Thorin antes de morrer... O que isso significava? Não recordava das falas daquela encenação. Não de todas, não com clareza. Na hora, estivera muito encantado por ela ser... uma boa atriz. Não, não. Estava se enganando. Sim, devia parar de pensar nisso, sua mente já estava buscando com mãozinhas masoquistas algo para agarrar e ter esperanças. Não podia se deixar levar pelo o que Mary e Erik viviam repetindo.
Não houve nenhuma ameaça dirigida a mim... Poderia ser... Não, não, não. Sua mente estava procurando brechas para justificar as ações dela. Não era real. Ela o deixou para ficar com Grigori. O flagelo não tinha cicatrizes no corpo, não tinha um passado que o deformasse, não a fizera sofrer como ele fez. Você disse que queria absorver minhas dores, por que eu não posso fazer o mesmo contigo? Porque era tudo mentira. Tudo uma maldita fodida mentira. Você é bom de cama, querido. Ele era apenas isso para ela?
Eu vou voltar para você, meu amor... Era isso que Gwyneth havia dito a Thorin quando morreu. Certo? Oh, Deus, não. Não, não podia ser. Ela não podia ter querido dizer isso. Não houve nenhuma ameaça dirigida a mim... Então, o pai dela ameaçou a quem? Teria dito que invadiria Dragon Seafront Castle? Teria...? Mary talvez tivesse razão. Sua Leonor... Ela era uma traidora ou não? Se não fosse, o que lhe estariam fazendo agora?
Odiava admitir, mas tinha medo de se aferrar a ideia de que ela era inocente e sofrer muito mais com outra decepção. No entanto, não conseguiria viver com a dúvida de que ela fizera o que fez por ele. Por todos. Ele mesmo sacrificaria tudo que possuísse para ver sua gente bem e a salvo. Ele daria tudo por ela e por sua família. Então... Havia esperança. Sim, havia esperança. Antes que percebesse, estava descendo a escada para o barmkin, atravessando o pátio a passos rápidos e irrequietos. Não sabia exatamente aonde estava indo, mas não conseguia ficar parado. Se Leonor era realmente inocente, ele tinha de busca-la.
Empurrou as portas do salão e uma rajada gélida de vento e neve o acompanhou, fazendo muitas pessoas estremecerem. Precisava falar com Mary e Bessie. Apenas elas poderiam esclarecer algo a ele, algo que o instinto dele dizia que era verdade. Necessitava disso. Encontrou-as na cozinha conversando com Erik e Seamus. Todos se voltaram para ele como se vissem um fantasma e Erik sorriu, provavelmente contente por ele não estar mais tropeçando nos próprios pés. Odiava debilidade e se afundara nela por tempo demais.
-- Vocês – grunhiu, apontando para as duas mulheres – Leonor realmente estava grávida, não é?
Mary sorriu e Bessie soltou um suspiro aliviado.
-- Sim, meu senhor – respondeu Bessie – Minha senhora está grávida.
-- Merda.
-- Não diga isso! – repreendeu Mary ultrajada.
Ele não deu nenhuma explicação, simplesmente saiu da cozinha e subiu as escadas quase saltando os degraus, sem prestar real atenção a nada que não fosse o próprio curso de seus pensamentos. Leonor carregava seu filho no ventre. No dia em que ela partiu, dissera em alto e bom tom que não estava grávida, que tomara todas as precauções para não ter a semente dele dentro de si e... Hugh a mataria se soubesse disso. Mataria seu filho. Um Knightley orgulhoso como ele era jamais permitiria que sua filha carregasse um McGregor no ventre, mesmo que tivesse de mata-la para retirar a criança.
Que Deus o ajudasse, porque não se perdoaria nunca se algum mal ocorresse a ela e a seu bebê. Ela protegeria Drustan com a própria vida, mas quem a protegeria? A barriga cresceria, e então?
Maldito fosse ele por ser tão cego! Não deveria se deixar levar pela emoção. Ela tentara lhe dizer, tentara avisa-lo que voltaria para ele, mas era uma mentira, porque Hugh a mataria. Por mais ardilosa que fosse sua esposa, não conseguiria ocultar uma gravidez.
Ele ia ser pai. A alegria foi completamente sufocada pelo pavor de perdê-la. Esfregou o peito outra vez, sentindo a angústia e a dor se mesclando em uma tormenta de sentimentos que lhe eram estranhos. Temia pela vida dela, pela de Drustan, pela de seu filho... Ela foi inteligente ao fingir não estar grávida, isso lhe dava mais tempo de vida, o suficiente para planejar uma boa estratégia. Sabia que ela não estaria esperando resgate, sua esposa era uma guerreira, mas ele... Não sabia como faria isso. Não podia deixar o ataque nas mãos de Erik, ele não conhecia o terreno bem como ele. Mas também não podia mandar Erik salva-la.
Por que não?
Porque, como o egoísta imbecil que era, queria ser aquele a segura-la nos braços e a tira-la de lá. Tinha de pensar em algo. Tinha de... Inferno! Confiava na capacidade dela de sobreviver, de fugir, mas isso não mudava seu desejo de salva-la.
Abriu a porta do quarto e a fechou com força quando entrou. Vagou pelo cômodo como um fantasma atormentado. Imagens dela enchiam sua cabeça outra vez. Onde quer que fosse, o castelo estava cheio de lembranças. Lembranças de Leonor sorrindo, lembranças de Leonor cantando, lembranças de Leonor contando histórias ou lendo livros, ou simplesmente... Nua debaixo dele, os olhos brilhando de amor e prazer, a juba escura aberta em um leque e esparramada sobre o colchão, seu corpo curvilíneo e delicioso buscando o dele, o cheiro de sua pele, o calor de seu toque, o som de seu coração batendo aceleradamente por ele... Essas lembranças fizeram a dor em seu peito se intensificar. Por isso bebera tanto. Para não perceber o buraco que ela deixara quando se foi. Acabara de perceber que vinha se enterrando nesse mesmo buraco desde então.
Esfregou o peito outra vez. Tinha de salva-la. Ou liderava o ataque, ou salvava Leonor e Drustan.
Derrotado, sentou na beira da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos. Tinha uma decisão importante a tomar. O mais sábio seria pedir a Erik para trazê-la enquanto ele liderava o ataque. Tinha de separar o dever do pessoal. Tinha de... Droga. Não conseguia pensar direito.
Como não tinha dormido no quarto desde que ela se fora, o cheiro dela permanecia nas cobertas. O suave perfume de canela.
Seja forte, Leonor, eu vou buscar você.
A espada dela ainda estava ali, assim como as dele. Tinha-lhe dado para agrada-la. Afinal, não era isso o que ele parecia gostar de fazer mais que qualquer outra coisa: fazê-la feliz? Treinara com ela muitas vezes. Era a melhor guerreira que já tinha visto, melhor que qualquer um de seus homens, apesar de não conseguir derrota-lo nunca. Habilidosa, calculista, provocante, raivosa... Deus. Ficavam com o sangue fervendo depois dos treinamentos e imediatamente buscavam qualquer refúgio para fazer amor selvagemente.
Sua inglesa precisava dele.
Precisava de mais tempo. Só um pouco mais. Se tivesse mais uns dias... Mas tinha apenas algumas poucas horas para tomar uma importante decisão. Sua esposa ou seu clã?
Seus olhos caíram sobre o livro preferido dela, que estava sobre a mesa, junto com uma pequena arca aberta. Pegou o livro, passando a mão pela capa dura e macia. Ela lera para ele uma vez. Com a cabeça deitada em seu estômago, os cabelos esparramados sobre ele. Via o amor dela pelo singelo objeto pela forma como segurava aquilo contra o peito cuidadosamente, como passava as páginas, pela voz que usava para ler. Era importante para ela. Leonor não deixava o livro fora da arca nem quando terminava de lê-lo. Com sono ou excitada, não importava, ela sempre guardava o livro para depois fazer qualquer outra coisa. Nunca, nem quando estava distraída, cometera o erro de deixar seu volume sobre a mesa, fora da proteção.
Uma estranha sensação o embargou. Seus dedos tremiam. Abriu o livro. Cuidadosamente, passou as páginas e... Ali estava. Ali estava! Não conseguia acreditar no que estava vendo, não conseguia acreditar que... Diabos! Tinha de aprender a ler. Pegou a folha de papiro de dentro do livro e guardou o volume na arca como vira muitas vezes ela fazer. Sabia que era uma carta dela porque conhecia sua letra, cada formato delicado e minuciosamente escrito. Não sabia o que continha, mas era recente, porque ela também não marcava as páginas dos livros com algo que pudesse mancha-las. Sem pensar duas vezes, disparou para fora do quarto, descendo os degraus quase voando. Olhava para a folha em suas mãos com uma esperança gigantesca.
A prova de que ela mentira, de que o amava... Estava ali. Todo aquele tempo, e estava ali! Se ele não tivesse sido tão estúpido, teria mais tempo para ir salva-la. Ela devia saber que ele seria um imbecil, por isso lhe dissera para não fazer nada estúpido. Maldito fosse ele por destruir tudo! Furioso consigo mesmo, andou de um lado a outro no salão, como um leão enjaulado, franzindo as sobrancelhas e estreitando os olhos para as letras. Todas pareciam iguais e diferentes ao mesmo tempo...
Leonor tinha começado a lhe ensinar a ler, mas ele não sabia praticamente nada. Não era o suficiente para ter compreensão do que havia ali.
Amaldiçoou entre dentes. Que demônios havia ali?
A vida dela dependia disso. Leia, leia, leia. Como se assim fosse entender o que havia naquele maldito papel.
-- Se continuar andando assim, vai fazer um buraco no chão – brincou Erik, reprimindo um sorriso implicante. Duncan rosnou e ele riu. – O que é isso que te faz parecer um cachorro?
-- Uma maldita folha – grunhiu Duncan – Você sabe ler, não é?
-- Sim.
-- Leia essa droga pra mim.
Erik arqueou as sobrancelhas e esticou a mão para pegar a folha.
-- Pedindo com tanto carinho, como eu poderia recusar?
-- Não brinque comigo – grunhiu com impaciência. Havia muita gente naquele salão e Duncan não queria testemunhas. Com um gesto raivoso da mão, disse a Erik para segui-lo até as escadas do pátio, saindo do castelo, onde teriam mais privacidade, apesar de a iluminação não ser das melhores. Mas era o suficiente para que pudesse ler. Sentaram-se no primeiro degrau. – Leia.
Erik deu de ombros. O coração de Duncan deu um tombo ao ouvir as palavras lidas por seu amigo. Elas tinham sido impressas naquela folha com pressa e com angústia. Toda a sinceridade de Leonor estava naquela folha, que escondera onde nenhum espião encontraria. Palavras que o atingiram com uma força incomensurável. Só ele sabia o quanto estava sofrendo, como lhe doía ter tido todas as pistas nas mãos e não tê-las notado antes. Era um verdadeiro idiota. Quando ele terminou de ler, a única certeza de Duncan era de que necessitava urgentemente de sua esposa nos braços. Tinha de recupera-la, de alguma forma.
-- E é isso – finalizou Erik, passando-lhe a folha. Duncan a segurou, olhando para as letras familiares e desconhecidas ao mesmo tempo – Vamos, meu amigo, temos uma estratégia a criar, não?
-- E uma guerra a liderar.
-- Sim. Mas... O que está esperando para ter a sua mulher de volta, um sinal divino?
-- Erik.
-- Não me venha com “Erik”. Já sei meu nome, não preciso que o repita a cada cinco minutos. Vou te dizer uma coisa, seu grande bundão: se não for busca-la, vou eu, porque acho que amo sua mulher e a prima dela. E antes que rosne como um cachorro, porque é isso o que está fazendo, te aconselho a pensar logo em um bom plano. Temos uma guerra para nos tirar do tédio, uma mulher grávida e um irmãozinho para resgatar.
E mais uma vez, Erik tinha total razão. A não ser sobre amar sua mulher e a prima dela, porque isso Duncan não gostou nem de longe. As palavras do highlander e as de Leonor retumbaram em sua consciência. O que seria correto fazer?
Duncan,
Você vai me odiar e eu sei disso. Não fui capaz de matar você. Não consigo. Mas o que passamos juntos foi sincero, desde quando te vi pela primeira vez na praia de Ulster, quando pensei que morreria por estar casada contigo, até agora, quando meu pai me mandou tirar a sua vida. Mas eu disse a você que cuidaria de ti, não foi? Parece que não, mas eu vou.
Você me confiou a sua vida e eu a devolvo a você com meu coração. Pode aceitar isso, não é? Não importa o que eu diga – ou tenha dito, creio eu – eu te amo. De tudo que disser ou fizer, nunca duvide disso. Prometo que vou lutar, que não vou desistir. Também prometo que vou voltar para você. Pode confiar em mim?
Eu te amo.
P.S.: Não desista e não negocie. Meu pai não é de confiança e está muito disposto a acabar com você. Eu sinto muito. Perdoe-me por tudo o que eu fizer – ou fiz. Tentarei ter a sua força. Eu colocarei um fim nessa guerra.
Sempre tua,
LMG.
☺
Leonor recuou, os joelhos repentinamente fracos.
-- O que disse?
Grigori abriu um amplo sorriso.
-- Que você será minha amante e escrava.
-- E meu pai concordou?
-- Sim. – ele passou a mão áspera pela bochecha dela, fazendo um arrepio de medo a percorrer, porque o que havia nos olhos dele inspirava o medo, o terror, como a própria maldade condensada em órbitas cinzentas, residindo em uma alma escura, podre, doente de atrocidades. O sangue dela gelou e o ar lhe faltou nos pulmões – É apenas um ponto que deveremos discutir, minha querida.
-- E se eu não concordar?
-- Mas você vai. Porque você está em minhas mãos.
Ela franziu as sobrancelhas.
-- O que quer dizer com isso?
-- Não vou revelar meu plano a você.
Ela sequer conseguia respirar. Sua cabeça girou como se fosse desmaiar, mas tratou de permanecer consciente e forte. Certo. Amante e escrava? Era asqueroso e macabro, mas podia tirar algum proveito disso. Respirou fundo, ignorando o desprezível cheiro daquele homem. Couro e sangue, uma combinação que dava nós em seu estômago. Concentrando-se para não vomitar, forçou um sorriso submisso e dócil, pestanejando com inocência para ele, quando tudo o que queria era pegar uma daquelas cadeiras e quebrar em sua cabeça.
-- Seria... uma honra servi-lo, mas... – olhou timidamente para baixo e fingiu encolher os ombros – Eu não sei como... Eu não sei como agradar.
Ele arregalou os olhos em surpresa.
-- Oh, não? Seu marido não...?
Ela era muito graciosa. Grigori não conseguia acreditar no que via. A pobre mulher não sabia como agradar um homem? Envergonhada, ela lhe deu as costas e abraçou o próprio corpo. Ele estava desesperado para se enfiar dentro dela brutalmente, em sexo áspero e violento, desde que a vira, mas nunca tivera a oportunidade para ficar sozinho com ela. E agora, com aquela roupa sensual, desejava selvagemente lhe morder os seios, lamber a doce e sensível região entre suas pernas e penetra-la impiedosamente até ouvi-la gritar de prazer. Aquele corpinho luxurioso nasceu para ser usado e abusado, para se deixar marcas.
Duncan McGregor era um imbecil por não ter desfrutado daquela carne branca e macia. Deveria tê-la ensinado como agradar um homem. Não fazia falta, Grigori a ensinaria as melhores artes do prazer. Ensinaria a moça a lamber e chupar seu pênis até que ele delirasse e... Oh, sua ereção doía e pedia pela atenção dela.
-- Meu marido – ela soluçou – Só me procurou uma vez quando esteve bêbado. Foi quando perdi minha virgindade. Doeu muito e não quero mais essa dor – a voz dela tremeu.
Ela estava chorando?
Bom, ele não se importava. Ela estremeceu.
-- Há muitas formas de dar prazer sem dor, minha querida.
Mas ele não queria delicadeza. Queria segura-la pelos cabelos, morder seu pescoço, apertar-lhe os seios, enquanto a penetrava fortemente por trás. Estava há muito tempo sem uma mulher e aquele corpinho alto e inglês despertara muitos desejos nele. Desejos que estava disposto a saciar.
Amanhã partiria para Trotternish com Hugh para, por fim, conquistar Dragon Seafront Castle e não iria para a luta antes de dormir com aquela mulher. Faria com que ela se arrependesse de ter casado com o lixo McGregor.
Ela se voltou para ele com os olhos cheios de lágrimas. Ele odiava mulheres choronas e superficiais, mas aguentaria apenas para desfrutar de sua nova amante e escrava.
-- Estou tão cansada – ela suspirou – Não entendo nada disso. E esse vestido me irrita a pele.
-- Então, tire-o.
Era uma ótima sugestão. Mas ela pareceu escandalizada.
-- Não, meu senhor! – disse timidamente, em tom baixo e conspiratório, como se temesse ser ouvida – Isso não seria correto. Eu... Eu... Quero pedir um favor.
Ele estreitou os olhos, desconfiado.
-- Que favor?
-- Amanhã, eu... Queria ir à igreja.
-- Não vai sair daqui.
-- Mas se é apenas para ver a missa matinal...
-- Não. Agora, tire o vestido ou eu o rasgarei.
-- Eu não...
-- Olha, mulher – ele agarrou seu queixo entre o polegar e o indicador com força, apertando para deixar marcas roxas, forçando-a a erguer o rosto choroso para ele. Já estava impaciente com sua timidez. – Se não me obedecer, garanto-lhe que seu pai vai saber do filho que carrega. E, acredite-me, as tentativas para matar esse filhote de flagelo não serão vãs.
Ela empalideceu.
Fale com o autor