Prazeres Sombrios - Indômita
24 Capítulo XXIII - Espadas Cruzadas
Notas iniciais
Hoje eu vou viajar com meu primo (o mesmo que veio dormir na minha casa kkkk) para passar o ano novo na praia com a família. Ele não vive sem mim, sabe ? kkkkk Enfim, a internet lá não pega muito bem (e a cadela leprosa do meu teclado ta engolindo a letra M) e eu não sei se vou poder postar e tudo...
Então, desde já, FELIZ ANO NOVO PRA VOCÊS!! Obrigada por lerem, comentarem, recomendarem, favoritarem, foi o melhor presente de Natal que já me deram *u* Que 2013 seja perfeito pra vocês, que ganhem muito dinheiro, saúde, amantes, dinheiro, felicidade, dinheiro, amantes fornidos e GOSTOBOYS, dinheiro kkkkkk TUDO DE BOM!
E sobre o capítulo, esse é chocante Ç..Ç Eu fiquei aflita. A Miya disse que se não soubesse o que a Leonor planejava, teria odiado ela pra sempre.
Enfim, BOA LEITURA!
CAPÍTULO VINTE E TRÊS
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Duncan não conseguia acreditar. Esfregou o peito outra vez, incomodado por aquela estranha dor no coração. Era dilacerante. Não conseguia sequer pensar com clareza. O que estava acontecendo? Por que Leonor tentara...? Não, ela jamais seria capaz de tentar mata-lo. Certo? Não, não podia... Não podia... As perguntas o bombardearam cruelmente, aumentando de forma exorbitante a dor no peito. Antes que percebesse, Fergus estava levando Leonor embora. Sem pensar duas vezes, Duncan saltou da cama e pegou seu kilt no chão, vestindo-o apressadamente. Não se preocupou em terminar de se arrumar ou se calçar, saiu em disparada para o corredor. Não lhe agradava nenhum pouco a forma como aquele imbecil segurava sua mulher.
Enquanto corria pelo castelo, sentia-se à beira da loucura. Porque não conseguia acreditar que ela seria capaz de mata-lo. Por quê? Quer dizer, que motivos ela teria para mata-lo?
Inúmeros, provavelmente. Fergus não podia ter razão. Antes de ir vê-la, Duncan fora ao calabouço falar com Fergus. Tinha decidido que o mandaria com Arian para serem julgados por Edgar por traição. Mesmo que Edgar não fosse rei deles, tentaram matar os protegidos do rei: Duncan e Leonor. Henrique também não ficaria agradado com a ideia. E seu primo lhe avisara sobre uma conspiração. Que Leonor já sabia sobre Hugh e que pretendia mata-lo naquela noite. Ele não acreditou. Grande tonto! Ficara cego de amor por uma mulher e ela tentou apunhala-lo enquanto dormia.
Eles estavam no barmkin. As pessoas começaram a se reunir diante da escadaria e Fergus apertava tanto o braço de Leonor que deixaria marcas roxas por bastante tempo. Ela não se defendia. Por que não o fazia? Mary tentava falar alguma coisa, mas os berros de Fergus a suprimiam. Leonor sequer tentava argumentar.
Por que aquilo estava acontecendo? Esfregou o peito outra vez.
Sem que percebesse, soltou um rugido do fundo do peito, atraindo a atenção totalmente para si. Fergus, sobressaltado, quase urinou de tanto pavor ao ver sua expressão. Ótimo, porque Duncan não estava com o melhor dos humores.
-- Largue-a agora – rosnou. Assentindo com a cabeça, Fergus se afastou de Leonor. Ela permaneceu inalterada, a expressão congelada, os olhos secos e frios. Não era a Leonor que ele conhecia. Parecia outra pessoa. – Leonor. Olhe para mim.
Ela o olhou. Havia um poço profundo entre eles. Ela não era mais a inglesa alegre e apaixonada que reivindicara seu amor. Aquela era a expressão de uma assassina, de alguém sem compaixão. A dor em seu peito aumentou.
Dane-se todo mundo que estivesse vendo sua fraqueza.
-- Diga para mim que não é verdade – ele implorou – Diga que é um engano.
-- É um engano. – ela disse sem qualquer traço de emoção. Aquilo o estava destruindo.
Ele rugiu de raiva, tentado a quebrar alguma coisa.
-- Maldita seja, mulher, o que está fazendo?!
-- Leonor – choramingou Mary, as douradas sobrancelhas franzidas em confusão – O que está acontecendo?
-- Ela pretendia nos entregar aos McDonald! – gritou Fergus, apontando o indicador para sua esposa – Tudo pelo papaizinho... Tentei avisar sobre a traição, mas ninguém me ouviu. Agora, ela quase matou o chefe dos McGregor.
Leonor abriu um sorriso azedo, venenoso.
-- Não – disse Mary – Ela jamais...
-- Quero minha égua. Agora.
-- Eu tenho prazer em trazê-la para você. – disse Fergus, abrindo passagem pelas pessoas para se dirigir aos estábulos.
Ela o traíra. A pessoa que mais amara na vida o traíra. Tentara mata-lo, desprezara seu amor.
-- Por que está fazendo isso?
Ela lhe lançou um olhar frio, calculista. Depois soltou uma risada amarga.
-- Poupe-me – disse com soberba – Meu pai me prometeu ao filho mais velho de Alasdair, já que Alasdair, que era meu prometido, foi morto.
-- Ele tentou violar você!
-- Me violar? – ela riu – Ele estaria apenas reivindicando uma posse, nada mais. Eu teria me dado tranquilamente a ele.
-- Não está falando sério.
Ela arqueou uma sobrancelha em deboche.
-- Oh, sério que achou que eu te amava? – zombou, revirando os olhos – Você era bom de cama, querido.
-- Você me deu sua virgindade...
-- E daí?
Ela o olhava nos olhos. Ele esperou ver alguma lágrima, mesmo que fosse um pequeno tremular de hesitação, qualquer sinal de dor, de arrependimento. Mas não havia nada. Vestida apenas com a regata de linho, com a postura régia e elegante de uma rainha, seus olhos azuis que sempre brilharam de amor agora estavam enevoados por uma frieza crua e natural, um olhar calculista e predatório, completamente desumano. E na mente dele, a única palavra que ecoava em uma dolorosa pergunta era: por quê?
-- Hugh de Westminster deseja entrar – gritou um soldado do alto da torre da guarda. Duncan desviou a atenção para ele, pois não se via capaz de encarar Leonor sem explodir de raiva – Vem acompanhado unicamente de Grigori McDonald. Diz que veio buscar a senhora.
-- Ele a está ameaçando? – Duncan sussurrou apenas para ela ouvir, aferrando-se com todas as forças à fé que tinha no amor que lhe mostrara noite passada, nos momentos que passaram juntos. Era intragável que tudo fosse mentira. Mas a vida dele não fora isso? Um buraco de mentiras, desde a sua concepção até agora. Porém, ele confiara nela. Cegamente. Deixara-se levar por doces sorrisos, por suaves palavras que ansiara ouvir a vida inteira... – Diga, Leonor... Se ele a estiver ameaçando de alguma forma, eu resolvo isso.
Fergus voltou com a égua e entregou as rédeas para ela. Assim como a primeira vez que a viu, Leonor ignorou qualquer método convencional e, com a graça da guerreira que era, segurou a crina de Vento Selvagem e montou belamente. Ninguém no barmkin ousava dizer qualquer coisa. As expressões chocadas e feridas pareciam refletir a dele mesmo. O silêncio era quebrado unicamente pelo resfolegar da égua.
-- Não houve nenhuma ameaça dirigida a mim – murmurou ela, olhando-o imperiosamente de cima. Ouviu vagamente Fergus dizer que Hugh poderia entrar, mas não foi obedecido. Então, Duncan ergueu a mão em uma silenciosa ordem para que o inglês entrasse com seu aliado. Sem qualquer companhia a mais.
Ele esticou a mão para ela, para ajuda-la a descer. Não se importava se todos os homens estavam vendo seu lado mais fraco. Simplesmente não entendia o que estava acontecendo, ou se negava a entender, não sabia, mas não podia permitir que ela fosse embora. Não podia acreditar que a mulher que fazia amor com ele, que beijava suas cicatrizes sem nojo, era a mesma que mais parecia alguma espécie de rainha de gelo.
-- Venha, Leonor – ele disse em tom baixo. Sua paciência estava no limite. – Volte para casa.
-- Minha casa é com meu pai – ela respondeu de forma cortante – O que houve entre nós... Hmm... Foi divertido.
Divertido?
Ele viu as pessoas abrindo espaço para que Hugh passasse. Montava um belíssimo semental cinza. Ao seu lado, um homem ruivo e cheio de sardas se elevava em um garanhão marrom. Grigori McDonald. Os olhos da cor do mercúrio de Grigori estavam fixos em Leonor com uma luxúria intensa, como se o desejo de copular exalasse por seus poros e impregnasse o ar asquerosamente. Ele avançou com Hugh, até estarem consideravelmente próximos de sua esposa.
-- Olá, Duncan McGregor – disse Hugh. Duncan canalizou sua raiva naquele homem para não arrancar Leonor da égua e acorrenta-la dentro do castelo – Venho em oferta de paz.
-- Seja objetivo – grunhiu Duncan.
O homem sorriu.
-- A guerra não deve mais durar. Alasdair está morto e Grigori prefere ter aliados do que inimigos.
-- Exatamente – apoiou o ruivo, emparelhando seu cavalo ao de Leonor, tomando a mão dela na dele. Os olhos de Duncan ficaram fixos naquele gesto e teve de esfregar o peito outra vez, porque a dor estava mais intensa, mais sufocante. Os dedos entrelaçados... Ela olhou melosamente para Grigori e sorriu – Gostaria de lhe oferecer meu exército quando o necessitar.
-- Em troca de quê?
-- De nada – Grigori devolveu o amoroso sorriso de Leonor e levou sua mão aos lábios em um demorado beijo. Ela suspirou apaixonadamente. – Você já está perdendo demais, não acha?
Hugh parecia brilhar de orgulho ao contemplar Leonor.
-- Sim, ela fez um ótimo trabalho. – concordou o pai dela – Chegou a hora de irmos, minha filha.
-- Sim, papai, estou ansiosa para ver o castelo de Grigori.
-- Vai adorar, minha querida.
-- Claro que sim, amor.
Os olhos dela encontraram os dele.
Aquilo só podia ser um pesadelo. Não podia ser real.
-- Você... dormiu com ele, Leonor?
Ele ficou em silêncio por um momento. A pergunta foi baixa, mas parecia ter sido gritada ao mundo. Por fim, ela soltou o ar em uma lenta expiração e o olhou com pena. E isso o enfureceu mais do que o feriu. Porque odiava que o olhassem com pena e lutou a vida inteira para jamais ver aquele tipo de expressão direcionada a si.
-- Quer mesmo continuar com isso? – ela disse impassivelmente, sem qualquer traço de arrependimento – Claro que dormi com ele. Grigori é... – e olhou para o ruivo, compartilhando com ele um sorriso sonhador – Meu parceiro. Ele me completa sexualmente, é o suficiente para mim. Como eu te disse... Foi divertido entre nós, McGregor, mas acabou.
-- O objetivo dela era te destruir – disse um orgulhoso Grigori – Pensei que o mataria como foi sua ordem inicial. Mas fez muito melhor, não foi? Conquistou o coração dele para quebra-lo diante de todos. É esperta, minha querida.
-- Eu te disse, não foi, Duncan? Eu fui treinada para matar sem sentir nada. Jogos são apenas desafios para mim e você foi meu brinquedinho mais querido. Fique feliz por isso, está bem? – ela soltou a mão de Grigori e, com uma pressão dos joelhos, fez a égua se voltar para ir embora, para fugir dele para sempre. Hugh e Grigori a acompanharam, sempre atentos a ela, como se esperassem qualquer surpresinha. Duncan estava completamente estático, sem saber como reagir.
Eles estavam caçoando dele. Ela o enganara. Movido por uma fúria cega, avançou para eles, correndo como um possesso, desembainhando a espada do cinto de um soldado aleatório em seu caminho. Quando Grigori se voltou, só teve tempo de cair do cavalo pelo forte puxão que Duncan lhe deu ao agarra-lo pela barra xadrez do kilt. Grigori ofegou ao se chocar contra a terra, os olhos arregalados ao ver a espada de Duncan erguida e prestes a descer entre seus malditos olhos cinzentos.
Estava a um segundo de matar o maldito flagelo, quando sentiu uma fria lâmina na garganta. Não precisava se virar para saber quem era, os ofegos de choque das pessoas lhe indicaram perfeitamente de quem se tratava. A mão dela sequer tremia ao ameaça-lo com a espada que arrancara do cinto de Hugh. Ele tinha medo de se virar e ver o que jamais se esqueceria, de ver o que não queria... Mas tinha de fazê-lo. Aqueles olhos frios não mostravam piedade. Ela realmente o mataria se ferisse o flagelo McDonald. Sua Leonor realmente cortaria sua garganta se matasse aquele bastardo.
-- Deixe-nos ir e Dragon Seafront Castle terá paz – ela disse asperamente – Todos poderão viver e a guerra terá seu fim. Apenas nos deixe ir.
Ele apertou o punho da espada e se ergueu até ficar nariz com nariz com ela. Segurou-a pela gola da regata e a puxou para si, tomando o cuidado para não derruba-la do cavalo. Não conseguia entender o que estava fazendo. Ela o maltratava, mas ele era incapaz de feri-la. Isso era ridículo!
-- Você nunca... nunca me viu como homem?
Ela deu de ombros com indiferença.
-- Não.
Grigori se levantou, esbravejando sua raiva. Aproximou-se de Duncan, desembainhando sua espada, aceitando o convite de batalha. Por ela. Por que ele se maltratava tanto? Basta, inferno. Não era nenhum pária para necessitar viver daquela forma. Para sua surpresa, Leonor afastou-se dele como uma rainha em um desfile e apontou sua espada para Grigori, que estancou alguns passos de Duncan.
-- Volte para o cavalo, meu amor, não vale a pena – ela disse, os lábios se repuxando em um sorriso estranho – Vamos embora.
-- Você não escapará, McGregor. – ameaçou Grigori, saltando para a cela de seu cavalo. Leonor olhou para Duncan outra vez.
-- Vá embora, mulher – rosnou Duncan – Antes que eu decida matar a todos aqui mesmo.
Hugh e Grigori tomaram a dianteira, dirigindo-se ao portão. Mais uma vez, ela deu de ombros com indiferença.
-- Só quero que você pare de fazer estupidez – ela resmungou em tom de deboche.
-- E o nosso filho?
-- Não se preocupe, tomei todos os métodos contraceptivos para que a sua prole – seu nariz se enrugou em uma careta de asco – Não se propague em mim.
-- É isso mesmo o que você quer, Leonor?
-- Sim – ela respondeu sem pensar duas vezes, completamente tranquila e inabalável – Lembre-se da última frase de Gwyneth para Thorin antes de morrer e vai entender.
Ele permitiu que se fosse. Ele permitiu que ela partisse. Viu o contorno de suas costas desaparecendo além da muralha, acompanhando o pai e o futuro marido, como se ele jamais houvesse existido. Como se tudo que passaram juntos não passasse de um pesadelo, que ficaria gravado no mais profundo da alma dele até o fim da vida. Esfregou o peito outra vez, a dor de um vazio profundo e escuro retorcendo-se em seu peito como uma estaca cheia de espinhos. Duncan já fora torturado, açoitado, por todos os tipos de armas e técnicas, mas nenhuma daqueles dores chegava perto da dimensão infindável daquela. As outras pelo menos passavam com o tempo. Aquela... Ganhava força. Deixava-o na solidão.
Erik se aproximou, mas Duncan o ignorou. Sentia-se perdido, enjaulado outra vez. Subiu as escadas sem se importar com nada. Não sabia mais o que estava fazendo, pouco lhe importava. Nunca pensou que seria assim, mas sua vida sem Leonor não era nada mais que um buraco. Entrou no castelo e caminhou até a cozinha, ignorando tudo e todos. Agarrou uma jarra de cerveja maltada e puxou uma cadeira de frente para a fornalha, vendo o queimar da turfa. O primeiro gole desceu queimando por sua garganta e seu estômago se encolheu, desagradado com a escolha de alimento para o desjejum.
-- Então é isso? – ouviu a voz de Erik, mas não se dignou a olhar para o amigo. Tudo o que queria no momento era esquecer. – Vai beber até morrer como meu pai?
-- Pensei que seu pai morreu na guerra.
-- E que tipo de filho seria eu se espalhasse para a corte que Magnus Ferguson morreu gordo de tanta cerveja, cercado de putas? – replicou Erik com amargura – Deveria tê-los matado, Duncan. Se Grigori e Hughes morressem, tudo estaria acabado.
-- Faça você se quiser, filho de cadela. – bebeu mais – Não quero pensar em nada disso.
-- Beber não vai te fazer esquecer, só vai prolongar e piorar os resultados.
-- Dane-se.
☺
A viagem para Dunscaith Castle foi longa e cansativa. Primeiro a cavalo. Depois, usaram o birlinn. E em seguida, cavalo outra vez. Leonor estava extremamente cansada, tanto no emocional quanto no físico. Estreitou os olhos para as figuras masculinas que encabeçavam sua transferência de castelo, desejando ter sua espada consigo. Hugh e Grigori conversavam alegremente como velhos amigos, fazendo o que tinham grande êxito desde que saíram de Trotternish: fingir que ela não existia. Oito cavaleiros a escoltavam atrás, garantindo que não fugisse.
Tinham zarpado na praia de Sleat, onde foram recebidos pelos aldeões com alegria e agora seguiam para o formoso castelo no alto de um escarpado. Quando ela estivera ali pela primeira vez, amara a beleza do local, a proximidade com a praia, o ar salgado e o barulho das gaivotas. Havia ali uma sensação de liberdade que ela não sentia mais. Se pudesse visitar o local à passeio, seria muito mais gratificante, como quando conhecera Sleat. Com Duncan, Iain, Fergus, Mary e Tess. Mas agora Iain estava desaparecido em uma missão, Fergus era um traidor, Tess estava com Mary e Duncan não a quereria nem se virasse a Virgem Maria.
Estava com fome e com sede, mas não daria o braço a torcer. Exausta, dolorida e cheia de necessidades. Só se dava ao trabalho de exigir algumas pausar para urinar em algum lavatório da casa de qualquer um que estivesse em seu caminho porque a gravidez a deixara com a bexiga frouxa. Era horrível. Aguentava tudo até o limite, mas não podia liberar certas coisas sobre sua égua. Argh! Seu pai não sabia que estava grávida. Ninguém sabia. Por isso o ritmo da viagem era extenuante e Leonor já não tinha forças. Rogava para que seu bebê possuísse a teimosia dos pais e sobrevivesse até chegarem ao castelo.
Não podia esconder para sempre sua condição, mas até lá... Sabia como poderia sobreviver. Sua barriga não era tão notável, a não ser que ficasse encarando fixamente, e se usasse vestidos mais soltos, poderia prolongar a descoberta alheia. Grigori era sua chave para sobreviver.
Agora que estava sozinha e com um filho para criar, tudo o que podia fazer era lutar por si mesma e pela criança, com unhas e dentes, antes que a sociedade machista a degolasse.
Uma coisa que seu mestre a ensinara era que jamais deveria se curvar ante ninguém. Tudo poderia ser perdido, menos a honra. Assim como a montanha jamais se curva ao vento, um guerreiro jamais se curva ao inimigo. Essa era a sua força, a sua coragem. Seu pai, por toda a sua vida, foi seu exemplo, seu herói imaginário, a pessoa que idolatrou e amou mesmo sem sequer recordar seu rosto. E ali estava ele: um homem cruel e ensandecido pela batalha, por perdas e mortes. Um homem que não se importava com ela. Que não a viu crescer. Que não lhe deu um único presente de aniversário ou um muito bem, minha filha. Um homem que não buscava a paz, mas a vingança. E unido a um semelhante com propósitos iguais. Grigori e Hugh eram os verdadeiros demônios ali.
Ergueu a cabeça como uma imperatriz desfilando pelas estradas de Sleat, a visão perdida no horizonte. Seu instinto a fazia desejar afagar o ventre para acalmar seu bebê, para garantir que estava tudo bem, mas ainda era muito cedo para alguém desconfiar de seu estado. Não era o momento. Ainda não. Se seu bebê podia sentir o que ela sentia, era provável que se voltasse louco. Carecia de uma força hercúlea para lutar por sua vida.
Talvez... Se de alguma forma pudesse escapar... Procuraria Dunvegan. O chefe McLeod poderia ouvi-la. Bom, ela ouvira que ele não se dava muito bem com Erik, mas Leonor estava disposta a chorar de joelhos para que a ouvisse. Se conseguisse uma aliança com algum McLeod e Erik conseguisse trazer seus homens da Escócia para Skye... Eles teriam homens o suficiente para expulsar os exércitos de Hugh Knightley e Grigori McDonald tranquilamente.
Ela não era capaz de matar o próprio pai. Desejava, mas não conseguia. Tudo por causa do sangue que compartilhavam. Fora isso, se matasse Hugh Knightley, o exército dele seria obrigado a servi-la, uma vez que era sua única herdeira. Era um bom plano, mas muito falho. Leonor não tinha tanta frieza a ponto de desprezar os laços familiares e lutar contra ele seria implorar para perder o bebê e morrer logo em seguida.
Um passo de cada vez.
Por enquanto, seguiria com seu plano original.
O castelo era uma imperiosa construção de pedras no alto de um escarpado, com uma vista magnífica para o mar, que arrebentava contra a parede rochosa lá embaixo. A estrada se tornou um aclive e a aldeia foi ficando mais distante, apesar de muitas pessoas os acompanharem. Leonor poderia lutar e fugir, mas não valeria a pena. Queria se certificar de que tudo daria certo antes fazer alguma besteira. Hugh quebraria a promessa facilmente se ela o deixasse muito livre. Leonor podia não ter matado Duncan, mas o destruíra.
Não pense nisso.
-- Meu senhor! – ouviu um soldado gritar. A comitiva estancou e todos se voltaram para ver o que o escandaloso fazia atrás da carreta que acompanhara a viagem deles. Hugh e Grigori esperaram impacientemente – Veja o que achei aqui!
Com muito esforço ele puxava alguma coisa. Grigori tomou a dianteira e esporeou seu cavalo para se aproximar da carreta. O coração de Leonor foi para debaixo da terra ao ver o soldado puxando Drustan pelos cabelos. O menino tivera a inteligência de vestir roupas negras para não revelar seu clã, mas era óbvio que não era um McDonald. Se Hugh o olhasse atentamente, perceberia que era uma miniatura de Lachlan. Mas uma miniatura adorável e que estava prestes a receber uma surra.
-- Quem é você? – Grigori exigiu saber. Drustan se rebelava, tentando se soltar do aperto do soldado, mas era inútil. Lançou um olhar de puro ódio para Grigori e cuspiu em suas polidas botas de couro. – Fedelho...!
Leonor estremeceu ao ver a bofetada que Grigori desferira em seu pequeno. Malditas portas do inferno, uma ova que permitiria que aquele flagelo de homem tocasse em seu menino. Drustan foi ao chão, os cabelos azeviche lhe cobrindo a face, a lateral do alvo rosto avermelhada. Logo, logo ficaria roxa. Movida por um instinto protetor muito forte, Leonor esporeou Vento Selvagem. Acotovelou um de seus carcereiros no nariz, desnorteando-o momentaneamente, enquanto lhe tirava a espada com a outra mão. Armada e furiosa por tudo o que estava acontecendo, soltou um grito de guerra e colocou-se entre Grigori e Drustan no momento em que o McDonald erguera o punho para golpear o menino outra vez. A égua se elevou ameaçadoramente nas patas traseiras, agitando as dianteiras ante o nariz de Grigori. O cavalo dele recuou, inquieto e covarde, cabisbaixo. Quando Vento Selvagem cravou os cascos violentamente na terra e bufou no focinho do cavalo, Leonor ergueu a claymore na altura dos olhos do McDonald.
-- Machuque-o e arranco a sua cabeça – ameaçou friamente. Seu humor estava cada vez mais decadente e não seria uma surpresa se cumprisse sua ameaça naquele momento.
-- Baixe a espada, mulher.
-- Drustan – ela disse sem desviar o olhar de Grigori, atenta a qualquer movimento ameaçador. Esticou a mão livre para o menino – Segure minha mão e suba. Agora.
-- Ele não vai a lugar algum – rosnou Grigori – Não vou ter em minha casa um espião McGregor.
-- Significa que tenho passe-livre para partir também? – replicou Leonor mordazmente – Eu ainda estou casada com Duncan, não importa o que façam.
-- Cale a boca e baixe a maldita espada antes que eu a castigue também.
Ela riu friamente.
-- Vai me bater? Na frente do seu povo? Que homem corajoso! Ou, seria covarde? Todos ouviram sua ameaça, querido. Qualquer marca que aparecer em minha pele será culpa sua. Se trata sua mulher assim, o que fará com sua gente, não é?
Ele esbravejou maldições.
-- Maldita harpia... Está tentando provocar uma rebelião?
Leonor sorriu docemente.
-- Jamais, meu senhor.
Drustan segurou sua mão e ela o ergueu. Ele se sentou na frente dela, erguendo orgulhosamente o queixo para encarar Grigori, que a fuzilava com os olhos cinzentos. Com Drustan em seus braços e a espada na mão, sentia-se mais segura e capaz de fazer algo por eles dois.
-- Muito bem, mulher – Grigori se rendeu – Fique com o brinquedinho McGregor. Mas ele não sairá daqui e ficará sempre com você. Qualquer sinal de traição... – ele estreitou os olhos – E vamos ver até onde vai a resistência de vocês.
Hugh tomou a espada da mão dela. Leonor abraçou Drustan com força e o beijou na bochecha quando os homens lhe deram as costas e continuaram a viagem para o castelo. Ele relaxou contra ela.
-- Leonor – ele sussurrou por sobre o ombro enquanto cavalgavam – O que está acontecendo?
-- Conversamos depois, carinho. Está bem?
-- Estou, não doeu tanto assim. Meu pai tinha mais força na mão.
Um dos motivos para ela querer matar Lachlan outra vez. Morrer todo dia nunca seria o suficiente para aquele homem.
Por fim, os cavalos foram parados. Os homens apearam e Leonor esperou altivamente que Grigori viesse descê-la. Fazer o papel de moça frágil lhe doía às vísceras, mas aguentaria até o fim. Ninguém espera nada de quem nunca deu aparentes resultados, não é? Não se espera que uma flor te mate até o primeiro espinho venenoso lhe raspar a pele, dissera seu mestre. E Grigori veio cumprir seu papel de bom moço, esticando a mão para que descesse. Ela sorriu docemente aceitou a ajuda para apear. Propositalmente, ele a segurou pela cintura também, deslizando o corpo dela pelo dele enquanto a descia. Bom, ela quase vomitou nele por isso, porque seu contato era asqueroso. Ele cheirava a vinho e sangue juntos, um odor adocicado e que lhe provocava o estômago cruelmente. Tentando agir naturalmente, ela o agradeceu e se afastou para pegar Drustan nos braços. Quando esteve no chão, ele se agarrou à mão dela com firmeza, de forma que ninguém os separasse momento algum. Se fosse necessário, ela se banharia com ele para protegê-lo.
Leonor não viu muita coisa depois que Gregori a deixou sozinha com o irmão de seu marido. Foi cercada por mulheres com ordens para banha-la e cobri-la, porque todos em Sleat estavam boquiabertos e de olhos arregalados por ela estar usando nada mais que uma regata de linho, que revelava seus braços e pernas muito mais do que qualquer ser humano além de Duncan deveria ser permitido ver. Tentaram separa-la de Drustan, mas ela praticamente rosnou e se agarrou a ele com todas as forças. Levaram-na para dentro, falando incessantemente sobre como estava desalinhada e selvagem, imunda. Sabia que estavam subindo escadas, mas não conseguia se concentrar em nada. Sua cabeça latejava e ela estava prestes a vomitar. Ouviu quando foi trancada em um quarto com cinco donzelas que não se calavam nem para respirar.
-- Vá para a cama – ela sussurrou para Drustan – Se alguém se aproximar, grite e eu irei a seu socorro.
Ele anuiu com a cabeça e a obedeceu. As mulheres a despiram diante de Drustan sem qualquer reserva e a empurraram para a tina para banha-la. Deus, aquilo seria o inferno.
☺
Banhada, vestida e alimentada, Leonor estava deitada em uma enorme cama com dossel cor-de-rosa, abraçada com Drustan, cantando baixinho para serena-lo. Foi muito exaustivo tentar expulsar as donzelas do quarto e exigir privacidade e silêncio até a hora do jantar. Tudo o que sabia se resumia ao medo de que algo acontecesse a eles se fechasse os olhos por um único segundo. Suas janelas eram lacradas por grades, estava no alto de uma torre de frente para o mar e a porta era resistente o suficiente para não ser derrubada por uma mulher violenta. Também só era aberta quando as donzelas entravam. Apenas.
Como sobreviveria? Ela não aguentava ficar presa. O cárcere a enfraquecia, a deprimia. Olhava com desespero para as quatro paredes de pedra, olhava com desespero para as grades na janela, olhava com desespero para a porta trancada. Não aguentaria muito tempo. Ficaria louca, doente.
-- Drustan – sussurrou – O que está fazendo aqui?
Com a cabeça em seu estômago e o corpo torto na cama, ele abriu os olhos preguiçosamente.
-- Eu não podia te deixar sozinha – ele murmurou – Você ia precisar de mim, não é?
-- Sim. Mas é perigoso, poderiam ter-te matado.
-- Eu sei. – ele bocejou – Mas você é minha mãe, Leonor, eu queria estar com você. Ficar no castelo... Seria bom, Mary estaria lá, mas você não.
Ela meneou seu cabelo, tirando as mechas rebeldes de seu rosto.
-- Duncan sabe que está aqui?
Ele hesitou.
-- Não. Saí pouco depois que vocês e me enfiei na carreta. Leonor, é verdade que não ama meu irmão? Ele é bom, eu juro! Não nos deixe, por favor! Vamos voltar para casa e ser uma família; eu, você, maninho, Mary e tio Iain, eu não quero mais ficar aqui. Eles são cruéis. Se você não quiser meu maninho, eu... eu... Vamos para outro lugar. Podemos morar com Erik.
-- Drustan – ela o interrompeu suavemente, sentindo um dilacerante aperto no peito – Acalme-se. Vai dar tudo certo, está bem? Vou pensar em uma forma de sairmos daqui.
-- Por que você foi embora?
Não queria falar sobre aquilo.
-- Duncan deve estar preocupado com você – desconversou – O que tinha na cabeça para fazer algo tão estúpido?
-- Eu nunca vou te deixar, Leonor – ele se aninhou a ela, abraçando-a – Eu vou te proteger daquele McDonald.
-- Sei que vai, mas seja cuidadoso. Ele quer te matar, então... Muito cuidado.
-- Sim. Vou cuidar de nós dois.
-- Não fique longe de mim um segundo sequer, está bem?
-- Não ficarei.
Quando ele dormiu, Leonor o acomodou na cama e se afastou um pouco. O crepúsculo trazia luzes mornas para o interior de sua prisão; laranja, rosa, lilás, azul, vermelho... Todas se mesclavam em uma cálida aquarela tranquila, realçadas pelo sol que se ia para dar lugar à noite. Leonor se ergueu e se sentou na estranha cadeira de balanço ao lado da cama, iluminada pela fraca luz do pôr-do-sol. Passara o dia se fazendo de forte, mas a angústia em seu interior a sufocava, a deprimia mais que estar presa. Olhou para o céu além da janela. Tinha de aguentar tudo, não importava o que lhe fosse imposto. Fechou os olhos com força e inspirou fundo. Havia um único assunto que se esquivava com todas as energias e não se permitiria pensar nele de forma alguma.
Seduziria Grigori. Deixaria o filho de cadela ébrio o suficiente para não se aguentar de pé e o faria acreditar que dormiram juntos. Então, ele pensaria que seu bebê era dele. Estremeceu-se e se encolheu, abraçando os joelhos, afundando na cadeira. A ideia de que ele a olhasse com desejo a enchia de nojo, de vontade de vomitar, de vontade de cortar a própria garganta antes de permitir que sequer a beijasse. Nunca dormiria com ele. Nunca que aquele homem a teria como mulher. Mas podia engana-lo. Podia manipula-lo. Era sua única esperança para manter seu filho vivo e ganhar a proteção daquele ser. Se ele achasse que a criança era dele, ela ficaria protegida ao menos até o parto.
E o que dirá a ele quando ver que o menino tem olhos negros? Dirá que ele é daltônico, que são cinza? Muito esperta, Leonor.
Um passo de cada vez.
Podia planejar algo depois. Até lá, talvez pudesse escapar e... E o quê? Duncan não a quereria de volta, não importava o que dissesse. Ele jamais escutaria a verdade depois das atrocidades que lhe dissera. Ela fora cruel, usara as fraquezas dele contra ele mesmo, como a ensinaram a fazer em uma batalha. Respirou fundo. Se abrisse os olhos, choraria o que não podia. Ele confiara nela. Contara a ela o que não contou a ninguém: seu passado, suas inseguranças... E ela as usara como armas para destruí-lo. Se o tivesse matado, teria doído menos.
Ele estará seguro. Estará vivo.
Sem você, ele apenas existe.
Não. Ele sobreviveu a muitas dificuldades para desmoronar agora.
Abriu os olhos e... Eles se encheram de lágrimas. Enxugou-as rápida e bruscamente com as palmas e engoliu dificultosamente em seco, impedindo-se de liberar seu sofrimento. Sabia que sofreria ao fazer aquilo, mas jamais imaginou que a dor fosse ser tão profunda. Se a Rainha Fae realmente existia e residia nas Cuillin Hills, Leonor rezava de todo o coração para que a salvasse daquela tormenta. Para que lhe desse forças para lutar e voltar para ele. Seus olhos caíram na aliança em seu dedo. A aliança que odiara meses atrás. A aliança que Duncan lhe comprara quando Henrique e Edgar os forçaram a casar. Folhas-de-louro formando um aro de ouro em seu dedo, com um delicado e brilhante rubi. Era o anel mais lindo que alguém poderia dar a outra pessoa e ela nunca lhe dissera isso.
E nunca dirá.
Sim, nunca diria. Pensaria em uma forma de deixar Drustan são e salvo com Duncan e... Talvez pudesse voltar a Ulster, se seu tio a aceitasse, mesmo com a desonra do fracasso de seu casamento. Ou, talvez pudesse ir para a corte de Henrique. Não se importava se tentassem humilha-la por sua desgraça. Sua única dor era a de ter ferido Duncan. O arrependimento a rasgava por dentro.
Ficou contemplando a aliança em silêncio. Era linda. Nunca tinha posto os olhos nela, nem mesmo quando casou, mas agora que parecia disposta a se fortalecer por meio de uma tortura incurável, podia admirar o presente que recebera. Sem que percebesse, levou a mão sem o anel para o ventre, acariciando a sensível região.
Seja forte. Será guerreiro desde agora, não se deixe vencer.
Ela sentiu algo estranho, um quase imperceptível movimento dentro de si. A alegria que a embargou foi tão intensa que por muito pouco não chorou. Seu bebê respondera com um movimento, ele... Levantou-se de um salto da cadeira. Oh, Deus, tinha de contar a... A quem? Seus ombros se encolheram. Lentamente, voltou a se sentar. Duncan nunca seguraria seu filho nos braços. Duncan falaria com seu filho quando ele se mexesse dentro dela em busca de atenção. Duncan não estaria lá. Ele nunca veria nada disso. E ela sequer sabia se seria capaz de proteger o bebê até o nascimento.
Inspirou profundamente. Com as duas mãos sobre o ventre, implorou a Deus ou qualquer outro ser com poderes suficientes para mudar alguma coisa para que, ao menos, salvasse seu filho e tivesse compaixão de Duncan, porque ele não merecia o que ela lhe fizera.
Abatida e profundamente deprimida, afundou na cadeira e olhou para o céu já escurecido. Precisava colocar o plano em prática o quanto antes, porque o volume em sua barriga não tardaria a assumir proporções impossíveis de se ignorar.
☺
Erik não sabia o que fazer. Ele não ouvia. Os dias passavam e a degradação apenas aumentava. Os reforços tinham chegado e, mesmo após a partida de Leonor, os McDonald não retiraram o sítio. Houve umas poucas tentativas de invadir Dragon Seafront Castle, mas Erik conseguira suprimi-las com algumas estratégias de guerra que aprendera com Mary. A moça não era apenas muito bela, mas tão ardilosa quanto a prima. Ele nunca vira mulheres de fibra tão resistente e estava encantado com sua nova visão das inglesas. Deixou de tentar seduzir Mary ao perceber que estava totalmente apaixonada por Iain.
Por todas as calçolas do inferno! Se Duncan não parasse de beber, terminaria por se matar, como Magnus Ferguson fizera anos atrás. Erik não queria isso para o amigo, preocupava-se com ele, mas não conhecia nenhum método pedagógico que o fizesse acordar daquele estupor de falsa tranquilidade. Duncan não se barbeava, tomava banho quando Erik o carregava para o lavatório da cozinha e Bessie e Mary o ajudavam a trata-lo, comia quando era forçado e não largava a maldita jarra de cerveja.
Por isso Erik não queria amar uma mulher. Duncan amara Leonor e ela o destruiu. Mas, por mais surpreendente que fosse, ninguém no castelo, nem mesmo o próprio Erik, acreditava que ela o deixara por vontade própria. Se Erik gostava de uma moça sem ter dormido com ela era porque ela valia a pena. Mas como fazer Duncan ouvir? Nas raras ocasiões em que não estava bebendo, estava lutando como um possesso com seus próprios soldados. Ficava silencioso e mórbido, apenas bebendo e bebendo, ficando barbudo como um animal. Estava perdendo peso rapidamente.
Erik já tentara todos os métodos pedagógicos que conhecia, e não houve sequer um lampejo de compreensão. Apenas mais distância e mais jarras de cerveja. Conversa: inútil. Surra: inútil. Conversa insistente: inútil. Gritos: inútil. Mary: inútil. E ela tentara conversar com ele mais que uma rameira atrás de Erik. Ou seja, sua determinação era inabalável. Ver seu irmão se matar sem poder fazer nada por ele era terrível. A única forma de mudar aquilo era trazer Leonor de volta, mas Duncan ainda não ouviria. Estava muito ocupado se embriagando, se afogando na desgraça da bebida.
Erik encontrou Mary sentada no patamar do salão, o rosto angelical pálido e abatido pela tristeza. Desde que Leonor se foi todos no castelo pareciam desanimados, principalmente a moça. Bom, Duncan já passara do estado desanimado para semimorto.
-- Bom dia, moça – ele disse, abrindo um lento sorriso. Ela o olhou e forçou um sorriso.
-- Bom dia.
-- O que houve agora?
-- Ele está treinando com os homens. Não seria tão ruim se não estivesse com um espírito tão destrutivo. Os rapazes estão tendo cuidado para não machuca-lo muito por causa da bebedeira, mas mesmo ébrio, tem uma força assombrosa. Quase matou dois cavaleiros hoje. Seamus, Angus e Ian quase não conseguiram para-lo. Está descontrolado.
Erik tentou não parecer abalado, mas as palavras dela tinham um peso terrível em seus ombros. Era ele quem estava cuidando de Dragon Seafront Castle até o amigo se recuperar e temia que tal momento jamais chegasse.
-- Não fique assim, moça, ficará tudo bem.
-- Você é muito otimista.
Ele não gostava de ver as pessoas tristes. A guerra era o suficientemente deprimente para que se absorvesse sua tristeza e a vida era curta demais para não ser alegre. A vida que tivera o ensinara a tentar extrair o melhor de tudo, a ver o lado positivo enquanto mantinha os pés no chão.
Limitou-se a dar de ombros com indiferença.
-- Estou pensando no que fazer com ele – continuou Mary – Ele não entende. Leonor lhe disse para se lembrar do que Gwyneth disse a Thorin antes de morrer, mas Duncan está cego.
-- Se ele não sair por ele mesmo, ninguém poderá tira-lo do buraco.
E era a compreensão deste fato que o deixava ainda mais temeroso do futuro.
Duncan bebeu outro gole de cerveja. Seu sangue estava quente e clamando por lutar, apesar de se sentir extremamente fraco, mas confiante de sua força. Contraditório, de fato. Sabia que estava enlouquecendo, mas não lhe importava muito mais que um ovo. Já podia ouvir a risada de deboche de seu pai, que rolava na própria tumba, zombando dele.
-- Só vamos nos ver no inferno, velho – balbuciou em gaélico.
As chamas da fornalha queimavam alto, bruxuleando como as línguas das bestas lambendo o teto de pedra, crepitando. Olhar o fogo lhe dava vontade de jogar algo lá para que queimasse. Algo como Hugh Knightley ou Grigori McDonald. Em meio ao torpor de sua bebedeira, tinha vagas lembranças de tentar sair do castelo para perseguir seus inimigos, mas Mary ou Erik sempre o detinham. Não entendia o que eles tinham a ver com isso. Não era problema deles. Era apenas dele. De Duncan.
Traidora, víbora, maldita cadela...
Ele jamais a perdoaria. Podia ser débil e idiota o suficiente para não ser capaz de queimar os livros dela, ou lhe fazer mal, ou mata-la, ou... O que estava pensando mesmo? Beber. Sim, beber ajudaria a esquecer, porque não podia pensar nela. Se pensasse a dor no peito retornaria.
Dormir. Exatamente. Dormir também lhe faria bem. Podia cochilar e depois voltar a beber e lutar e beber e dormir e lutar e beber e beber... Quando chegaria ao fim? Esfregou o peito. Podia não ter clareza dos próprios pensamentos ou ações, mas não era totalmente dormente. De tudo de errado em sua vida que podia escapar pela cerveja, a dor no peito não passava.
O que me fez, mulher?
Cambaleou para frente e precisou apoiar as mãos na parede de pedra da fornalha para não cair de boca nas chamas e virar o assado do almoço.
De qualquer forma, nada importava mais. Por que não importava? Ele não se lembrava. Apenas... não... importava...
-- Você é um idiota – ouviu a maldita voz de Erik outra vez. O imbecil o perseguia a cada três passos que dava, tratando-o como um inválido, brigando com ele, tagarelando discursos moralistas e irritantes. Duncan não prestava atenção no que ele dizia. O coro de blábláblá incessante lhe importava um grão. De tudo o que ele dizia, Duncan absorvia apenas três palavras por dia, porque realmente não era de seu interesse saber o que Erik pensava.
-- Deixe-me em paz, Ferguson.
-- Meu traseiro que vou deixa-lo em paz! – grunhiu o ruivo furiosamente, forçando-o a se virar para olha-lo nos olhos. No entanto, Duncan se limitou a estreitar os olhos ameaçadoramente. Como sempre, Erik não o temia – Sua gente precisa de você, bastardo arrogante, que tal acordar e amadurecer?
-- Eu não fiz nada além de molhar a garganta, relaxe.
-- E pretende molhar a garganta até quando? Até matar um inocente com suas explosões de fúria?
-- Não se meta – Duncan rosnou entre dentes. Erik franziu as sobrancelhas profundamente, ficando nariz a nariz com ele, desafiando-o silenciosamente a um confronto que Duncan estava muito disposto a aceitar, porque estava tendo outra explosão de fúria.
-- Meninos – disse Mary no marco da porta da cozinha, tentando chamar inutilmente a atenção deles – Parem com isso.
-- Venha aqui me fazer não me meter, seu maldito hipócrita – rosnou Erik, desferindo um soco no queixo de Duncan. Se Duncan não estivesse tão bêbado, teria desviado mais rápido, mas tudo o que pôde fazer foi levar o murro e cambalear, sem conseguir focar a vista ou achar o chão debaixo dos pés. O mundo do seu novo ponto de vista era inconstante, como se tudo mudasse de posição quando ele se movia, deixando-o tonto e desequilibrado. Agora mesmo o chão estava ondulando debaixo dele.
-- Erik, pare! – gritou Mary.
-- Fique onde está, moça – rugiu Erik, avançando para Duncan e o forçando a se firmar de pé – E você... Pare com isso.
-- Eu vou acabar com você.
Duncan o socou com toda a força no estômago. Erik se curvou para frente e abriu a boca, incapaz de respirar ou de gemer. Antes que tivesse tempo de se recuperar. Duncan lhe deu uma joelhada na testa. Ele cambaleou para trás, desnorteado, mas foi Duncan quem perdeu o equilíbrio e quase caiu no chão. Depois de um tempo para se recuperarem, ficaram apenas se encarando. Duncan tinha o lábio superior cortado e Erik ganhara hematomas para os próximos meses.
Ainda não tinham acabado.
-- Acorde – grunhiu Erik – Não sou sua mãe e nem Catarina se daria ao trabalho de zelar por você assim.
-- Dane-se – cuspiu Duncan – Deixe-me em paz.
-- Você não pode se destruir por causa de uma mulher!
-- O que é que você entende disso? Nunca amou nenhuma mais que a todas.
O rosto de Erik se deformou em uma careta de desprezo.
-- Mas eu estou vivo e bem o suficiente para cuidar dos seus problemas antes que seja tarde demais. Você está cego, sequer percebeu que seu irmão desapareceu. Talvez um dia abra os olhos e veja o que ela te deixou.
Notas finais
Se eu não soubesse o que ela planejava, tinha chorado pelo Duncan. Ele é lindo *u*
E vocês me roubaram todos os GOSTOBOYS da história pqp, fiquei sozinha !!! Morgana Le Fay me roubou o Will, Angel me roubou Erik, Gíih roubou o Duncan, Miya roubou o Iain ... E EU ?? Fergus não me serve nem de tapete -..-'
Eu mereço um comentário de ano novo né ?? *.*'
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