Prazeres Sombrios - Indômita

3 Capítulo II - Vento Selvagem


Notas iniciais
Ohgod, obrigada pelos reviews, perturbei muito minha gêmea no facebook só pra contar a ela sobre os comentários que recebi *-* Isso me deixou tão feliz que acho que vou precisar de um novo coração pra aguentar tanta emoção kkkk
Enfim... Obrigada mesmo *-*
E aqui está outro capítulo hahaha A Saga de Leonor e os Dedos continuam kkkkk / certo,parei

CAPÍTULO DOIS

Vento Selvagem

Leonor Knightley inspirou profundamente o aroma do feno. Não chorara, mas tampouco se encontrava em uma situação muito alegre. Conversara com a tia Elizabeth apenas para receber a confirmação de sua mais vil suspeita: finalmente os reis cansaram de apaziguar a inimizade entre as Casas e tomaram a drástica decisão de oferecê-la ao diabo como ponto final para tantas mortes. Tio Richard dissera que lhe contariam antes do baile para que ela não fizesse nada precipitado que fosse se arrepender mais tarde. O casamento fora inevitável e, apesar de desprezar do mais profundo de seu ser os McGregor, chegara a hora de haver paz.

Ou seja, todos menos ela concordavam com as bodas.

Tia Elizabeth lhe dera a missiva do rei William informando que já selecionara o noivo da herdeira de Westminster. Ela leu dezenas de vezes e quase desmaiou de pavor. Duncan McGregor era conhecido até na Noruega como Feto do Diabo, Mensageiro da Morte, a Foice dos Ingleses... Não eram os nomes mais adoráveis que desejava ouvir sobre seu prometido.

E se ele lhe batia?

Certamente não seria um cavalheiro.

Leonor estremeceu.

Seria o pior casamento de toda a história do mundo. Dois inimigos de longa data unidos por matrimônio... Confusão. Isso cheirava a confusão.

Vento Selvagem cutucou seu ombro com o focinho e resfolegou em seu rosto. Leonor forçou um sorriso para o animal, afagando seu pescoço, enquanto os piores pensamentos a deprimiam. Sua égua malhada – branca com manchas cor de mel – era sua companheira desde que ela e Mary fizeram seu parto anos atrás. Sua crina branca foi agitada com o movimento violento da cabeça da égua. Vento Selvagem bateu os cascos no chão do estábulo e olhou para fora, pedindo a seu modo uma cavalgada.

Engraçado como sua companheira sempre sabia do que precisava. Leonor estava arrasada. O filho de Lachlan McGregor, o homem que matara seu pai e destruíra a vida de sua mãe, seria seu marido. Como poderia se sentir bem? Eram inimigos, não havia espaço para uma união ali. Ele a mataria.

Mate-o antes, sussurrou sua consciência.

Como se fosse assim tão fácil.

Levou Vento Selvagem através da baia, saindo do estábulo, ouvindo os cavalos resfolegando e relinchando como se também pedissem um passeio. Ao chegar ao exterior, Leonor segurou com firmeza na crina da égua e impulsionou o corpo para cima, montando a pelo e escarranchada sobre o animal. Vento Selvagem esperou que se acomodasse e com a singela pressão dos joelhos de Leonor nos flancos saiu a cavalgar a toda velocidade, cortando os campos de Ulster como uma flecha. Dispararam na direção da praia, onde Leonor sempre ia para pensar e tranquilizar os pensamentos. O cheiro salgado do mar era um bálsamo para suas feridas e a fria areia parecia remover tudo de negativo de sua vida. Com o vento lhe açoitando o rosto e revoltando seu cabelo, cavalgou o mais rápido que Vento Selvagem suportava.

Como poderia casar-se com um McGregor?

Ele era um bruto escocês e seu inimigo jurado desde muito antes do nascimento. Sua mãe lhe contara as atrocidades que os McGregor faziam, principalmente às suas esposas. Por Deus, quantas mulheres protegidas pelos Knightley não foram violadas diante de seus filhos e maridos? Quantas vidas foram cruelmente torturadas para saciar o desejo escocês de uma chacina?

Ela não podia levar aquilo adiante. Não seria capaz de olhar para aquele homem e lhe entregar seu corpo para seu bel-prazer, quando sempre ficaria gravada a fogo em sua mente toda a desgraça que sua família passou por aqueles malditos bárbaros. Seu pai foi assassinado, sua mãe se tornou amargurada e morreu de tristeza – tuberculose também. E ela perdeu a família, o patrimônio e a felicidade naquele maldito dia. Tudo por causa de Lachlan McGregor.

Leonor sempre gostara de ver as situações por diferentes ângulos, mas aquele não era um desses casos. Com certeza não.

Esporeou Vento Selvagem a descer pela costa, ouvindo as gaivotas ao longe, relembrando a suave voz de sua mãe ao dizer que a amava. Sentia como se estivesse traindo sua família ao casar com aquele homem.

O que eu faço?

Era escolher a forca ou a tortura. Morreria com honra se não casasse com ele. E viveria na desonra se o fizesse.

Vento Selvagem trotou pela praia, espalhando areia para o alto, seguindo para um escarpado não muito longe dali. Quando pequenos, Leonor, Mary, Will, Henry, Cain, Robert e Tristan costumavam ir para as rochas próximas ao escarpado. Cavalgavam até o alto enquanto Richard os esperava no litoral. Tiravam brincadeiras, contavam histórias de terror para descontrair e, por fim, saltavam para as violentas águas gélidas do mar, onde apostavam quem chegaria primeiro até Richard. O frio era de congelar os ossos e poucos eram os que aguentavam ficar tanto tempo nadando. Geralmente quem vencia e chegava até Richard eram Mary, Leonor e Rob. Os outros sofriam de câimbras, cansaço ou congelavam, então iam para alguma caverna recuperar-se.

Richard os ensinara diversas formas para saltar do alto de uma rocha e os instruíra a nadar como se nascessem para tal. Também os incitara à competição e ao desejo de vitória que parecia ser hereditário. Tia Elizabeth e sua mãe desesperavam-se ao ver todas as crianças nadando em um mar tão revolto. Temiam que algum deles fosse devorado por alguma besta marinha. Ou que o mar os levasse para muito longe.

Leonor era apaixonada pelas aventuras proporcionadas por seu tio. Como a maioria de seus filhos eram varões, incluíra-as nos jogos dos meninos também. Saíam para acampar, para caçar, para fazer fogueira na praia e ouvir histórias de terror, para nadar – menos nos dias de tempestade. Quando havia tempestade, Richard os levava para uma corredeira, onde podiam atravessá-la nadando. Escalavam árvores, apostavam corrida com os cavalos ou com as próprias pernas, criavam jogos para testar força. Essa fora a infância de Leonor. Era uma garota vivaz e energética, até Isabel reprimi-la com as histórias de Lachlan McGregor. Sua mãe não queria vê-la com os garotos, e estava certa. Não era próprio de uma dama da mais alta nobreza. Hugh Knightley era primo distante de Harold Godwinson e Isabel de Aquitânia era afilhada da rainha da Noruega. Sangue de reis corria por suas veias e era a herdeira legítima de Westminster. Brincar com garotinhos não era o correto.

O desejo de vingança era forte.

De qualquer forma, desobedeceria a sua falecida mãe pela primeira vez.

-- É um lugar bonito – comentou Fergus pela quarta vez desde que puseram os pés em Ulster. Sim, Duncan, também achava o lugar cercado pelo mar realmente lindo, mas ouvir constantemente da boca de seu primo estava murchando qualquer simpatia sua pelo lugar.

Iain permanecera toda a viagem no mais sepulcral silêncio, apenas observando e assentindo com a cabeça quando bem lhe convinha. Duncan estava agradecido por seu silêncio e queria saber qual era seu segredo para aguentar Fergus como irmão. Por Deus, o homem não se calava nem quando dormia, sempre estava resmungando qualquer coisa, mesmo que fosse incoerente.

Iain o olhou, refletindo seu desconforto com o eterno falatório de Fergus.

Estavam viajando há uma semana, montados nos cavalos de guerra mais bem treinados da Escócia e com uma dor de cabeça infernal. Seus ouvidos zumbiam. Quando Fergus se calou, Duncan ainda podia ouvir o som de sua voz retumbando em sua cabeça, impregnando-se dolorosamente e suas células.

-- Nunca antes tinha visto uma praia tão bela – prosseguiu Fergus, olhando ao redor como uma criança ao ver um pote de guloseimas a sua disposição. Se Fergus quisesse devorar Ulster, Duncan não se interporia, com a única condição de que passasse alguns minutinhos em um silêncio mórbido. Até os pensamentos de Fergus eram escandalosos, quase audíveis. – Ei, Duncan, Westminster tem esta beleza?

Paciência.

-- Não sei – respondeu, usando uma mão para massagear as têmporas.

Por que não lhe arrancaram as orelhas em alguma guerra?

Ou, melhor: por que não arrancaram a língua de Fergus quando nasceu?

-- Westminster não é cercado pelas águas – disse Iain pela primeira vez, sua voz grave e rouca atraindo a atenção de Duncan. Seu primo não era muito mais dado às palavras que ele próprio e sempre foi muito silencioso. Ouvi-lo falar agora foi uma surpresa.

Iain era um bastardo. Sua mãe fora violada por um viking e morrera em seu parto. Seu sangue escandinavo lhe dera o porte gigantesco de seu pai, além do dourado cabelo e dos olhos azuis. Era o homem em quem mais confiava, junto com Fergus.

-- Podemos visitar as terras de sua prometida depois – disse Fergus.

-- O castelo foi destruído – retorquiu Duncan – Voltaremos o quanto antes para a Escócia, sem passeios, ouviu?

-- É uma pena. Tenho certeza de que me daria bem com umas inglesas – brincou Fergus, tentando anima-los. De nada serviu.

Duncan não estava muito disposto a manter diálogos. Tudo o que ocupava a sua mente – além da voz de saltimbanco de Fergus – era o fato de que estava prestes a casar com a filha de seu inimigo. Os reis Edgar e William estariam presentes para dar as bênçãos e garantir que tudo corresse de acordo com o planejado e Duncan não duvidava de que já estavam hospedados no castelo de Ulster, com a rainha da Inglaterra coordenando com Lady Elizabeth os preparativos para as bodas. Queriam desesperadamente aquela união.

Sendo filha de Hugh, a moça deveria ter um mau gênio. Uma aparência estranha também. Lembrava-se do inglês. Hugh tinha cabelos negros, nariz torto, olhos castanhos e diabólicos e um queixo afilado. Duncan nunca simpatizara com ele, mesmo antes de saber que era inimigo de seu pai. No entanto, Lady Isabel era muito bela e seus encantos eram conhecidos até na Escócia. Diziam ser um anjo da beleza mais pura.

Talvez a garota não estivesse perdida.

Supor como ela era não lhe ajudava em nada, mas o distraía do falatório de Fergus. Ao menos pensando em sua inimiga podia imaginar como mata-la também. Era inglesa. Era uma Knightley. Motivos suficientes para odiá-la. E era filha do Hugh de Westminster, o filho da mãe desgraçado que destruiu sua vida desde sempre.

Não mais que seu próprio pai, replicou sua consciência.

De fato, Lachlan McGregor era um homem cruel que não sabia nem como tratar seus bastardos, mas isso não diminuía em nada o que o maldito inglês lhe fizera antes de morrer.

Seu casamento com a moça seria como qualquer outro: apenas no nome. Dormiriam em quartos separados e fariam o que deviam fazer rapidamente apenas para engravidá-la e fazer Edgar deixa-lo em paz. Apenas isso.

-- Duncan – chamou-lhe Iain, despertando-o de seus devaneios inúteis. Ergueu a vista para o primo, que permanecia inexpressivo. – Veja aquilo.

-- Ela é louca – disse Fergus.

Duncan seguiu os olhares de seus primos e não evitou arquear as sobrancelhas. Nunca antes vira nada tão absurdo. Se fosse o marido daquela mulher, nunca permitiria que fizesse algo tão perigoso e sem sentido. Talvez ela fosse uma selkie, mas ele não acreditava em contos de fadas. A mulher nadava com uma garra sobrenatural contra as ondas violentas e ferozes que arrebentavam contra um escarpado, perfurando-as como uma flecha, ganhando velocidade, movendo os braços e as pernas como ele nunca vira ninguém fazer. A julgar pelo vento forte do litoral, a água deveria estar ainda mais congelante. Ela não podia ser humana. Nem mesmo os homens sabiam nadar. Por um longo momento, ele ficou paralisado sobre os arreios, incapaz de desviar a vista daquela criatura que enfrentava as águas turbulentas de Ulster. Sabia que Iain e Fergus também a estavam admirando. Nunca antes haviam se deparado com mais estranha situação. As escocesas também eram mulheres de garra, lutadoras natas, mas jamais fariam algo tão perigoso.

E se o frio a superasse? E se tivesse câimbras? Se as águas fossem mais fortes? Chocar-se-ia contra os escarpados e morreria. Ser humano algum correria tamanho risco por nada em especial.

As inglesas deviam ser tão frias, que não sentiam sequer o gelo das águas. Eram diabólicas.

Ela nadou para longe dos escarpados, avançando pelo mar, como se se dirigisse para o litoral. Duncan gesticulou para Iain e Fergus seguirem adiante para o castelo e eles não contestaram, completamente embevecidos com a visão daquela selkie movendo-se contra as ondas. Duncan esporeou o cavalo para mais perto das águas e foi quando viu que uma égua cavalgava para eles. Era um animal de grande porte, à altura de seu semental, de pelagem branca e com manchas cor de mel. A crina loura ondulava com o vento violento da praia. Duncan nunca vira um animal mais livre, como um corcel. Não havia marcas de esporas em seus flancos, nem arreios, tampouco rédeas. Simplesmente uma égua livre que deixou seu cavalo inquieto. Duncan murmurou algumas palavras em gaélico para seu animal, acalmando-o. A égua correu para dentro do mar, trotando até as águas cobrirem-na quase até os flancos. As ondas a banharam e ela nem se mexeu, esperando...

Surpreendente. A mulher nadou até o animal e, segurando a crina, montou a pelo com a elegância de uma amazona. A égua resfolegou e voltou para o litoral, agitando a cabeça para livrar-se da água. A mulher riu. Duncan ficou ainda mais encantado ao ver que só levava a regata de linho no corpo e que esta não lhe cobria muita coisa.

Como podia ser possível que não sentisse frio?

-- Oh, meu Deus...! – a moça ofegou e suas bochechas adquiriram um gracioso tom avermelhado. Ela tinha olhos azuis-turquesa – arregalados em choque – emoldurados por longas e escuras pestanas. – Senhor, sinto muito.

Então ele percebeu que era com ele com quem ela falava. Também percebeu que não deveria estar olhando para uma mulher em trajes tão indecorosos, quando sua postura régia já deixava claro que não era uma camponesa.

-- Perdoe-me – grunhiu Duncan, virando o rosto. A égua dela relinchou e cabeceou e o cavalo dele respondeu a altura, agitando-se. Duncan puxou as rédeas, controlando-o, mas o grito afogado da moça o fez voltar-se para ela. O animal erguera-se nas duas patas traseiras como ameaça para o seu e, despreparada, a moça desabou direto para a areia, soltando um gemido de dor. Sem pensar duas vezes, Duncan apeou.

Leonor sentiu uma dor fugaz percorrendo suas costas, espetando suas costelas e perfurando seus pulmões ao inspirar. Prendeu a respiração, incapaz de suportar a terrível dor. Nunca antes Vento Selvagem se inquietara na presença de outro semental, mesmo que aquele fosse maior do que os que elas estavam acostumadas. Era um cavalo de guerra grandioso e belo, negro como seu cabelo, tão negro que chegava a ter reflexos azuis. Vestia uma couraça de metal escura que o tornava magnificamente ameaçador. Talvez isso tivesse assustado sua égua, Leonor não sabia. Mas o corpulento homem moreno que tinha total controle sob sua montaria a fez querer ter adestrado melhor a égua.

Contorceu-se, gemendo miseravelmente de dor. Nunca uma queda a machucara tanto. Quando se deu conta de que estava arfando, percebeu que a dor estava diminuindo lentamente. Abriu os olhos de par em par quando sentiu mãos em suas costelas. O homem estava debruçado sobre ela, procurando qualquer fratura em seu corpo e perguntando se ela estava bem. Ignorando os resquícios de dor, segurou-o pelos pulsos com firmeza e forçou-se a se sentar. No entanto, seu movimento foi muito veloz e precipitado e acabou por acertar os dentes do desconhecido com a testa. Ambos praguejaram em uníssono. Ele se afastou rapidamente, erguendo-se, cobrindo a boca com uma mão. Leonor massageou a testa. Não se surpreenderia se os dentes dele estivessem cravados em sua pele como um chifre, a pancada fora forte.

Gemendo de dor nas costas e na testa, tentou se levantar com todas as forças. Vento Selvagem se aproximou, resfolegando de irritação por causa do garanhão, que parecia incômodo com elas.

-- Desculpe-me – pediu Leonor, mordendo o lábio inferior, sentindo as bochechas ardendo de vergonha. O homem a olhou como se fosse uma criatura de outro mundo.

-- Já sofri pancadas piores – grunhiu ele, tomando as rédeas de seu cavalo negro, controlando-o habilmente.

Leonor afagou o pescoço de sua égua e depositou um beijo amável em seu focinho, sussurrando palavras doces que a acalmariam em breve. Foi preciso cantarolar uma música para Vento Selvagem apaziguar-se por fim. Era a mesma música que sua mãe cantava para ela dormir antes de Lachlan...

Leonor olhou para o gigante. Ele tinha os cabelos de um castanho-escuro quase negro e olhos tão escuros que chegavam a serem indecifráveis, surreais. Eram tão absurdamente negros que pareciam não ter expressão alguma. Ilegíveis. Insondáveis. Penetrantes e intensos. Ela mal conseguia piscar ao olhar naquela imensidão escura. Mas sua atenção foi atraída para o corte que sua testada fizera em um lábio inferior completamente sedutor e cheio. Ou talvez estivesse inchado.

-- Meu Deus, sinto muito! – Leonor se apressou em dizer, aproximando-se dele sem perceber. Tinha-lhe feito mal. – Seja sincero, dói?

-- Não, moça, é apenas um arranhão.

-- Não tive a intenção... Sou muito desastrada, sinto muito mesmo. É um dos convidados do casamento, não é?

Ele franziu as sobrancelhas com real desagrado.

-- Sim.

Ele era o noivo.

Mas ela não precisava saber. Na verdade, nem ele precisava saber. Era uma informação inútil. E incômoda. Como uma urticária, ou algo pior.

A moça aproximou-se um pouco mais, estreitando os olhos para examinar bem a ferida ridícula que lhe causara no lábio inferior. A mulher tinha uma testa de ferro. Nunca, nem mesmo um inimigo seu, possuíra uma constituição óssea tão dolorosa contra seus dentes.

-- Isso vai inchar muito – ela fez uma careta e amaldiçoou. Desde quando as damas de alto berço amaldiçoavam tão descaradamente? Duncan passou a língua pelos dentes para ter certeza de que permaneciam inteiros, aliviado por não haver nada mais que um corte no lábio. – Bom... – ela sorriu timidamente – podia ser pior, não é? – ele arqueou uma sobrancelha para ela, já imaginando que tipo de outras atrocidades aquela inglesa seria capaz de cometer contra um soldado sem querer. – Poderia ser como meu primo Rob, que perdeu um dente de leite quando brincávamos com espadas de madeira. O que nasceu depois veio torto. Ele nunca me perdoou.

Duncan reprimiu um sorriso Estava fadado a encontrar tagarelas. Talvez fosse amaldiçoado. Ao menos Fergus se daria muito bem com ela. Ambos pareciam capazes de suprir diálogos sozinhos. Monólogos eternos que lhe davam dor de cabeça.

-- É parente da noiva? – Duncan perguntou.

Ela mordeu aquele delicioso lábio inferior e afastou-se, juntando-se à égua.

-- Sim – respondeu secamente. – Pode-se dizer assim. Hmm... Acho que devo ir. Perdoe-me pelo seu corte.

-- Está tudo bem, moça, já lhe disse isso.

Ela abriu um sorrisinho brincalhão. Com uma habilidade digna de um guerreiro, montou na égua e o olhou com o porte de uma rainha, tão altiva e orgulhosa que menosprezava qualquer mulher que já tivesse visto. E Duncan já vira muitas.

-- Como se chama, sir?

Não sou um sir.

-- Não importa.

Ela deu de ombros. Direcionou a égua para longe dele devagar, em trotes suaves e imperiosos. Duncan montou em seu semental, ficando ainda mais alto que ela. Queria saber seu nome, mas não se atrevia. Com um aceno discreto de cabeça, esporeou o cavalo e partiu para o castelo.

Notas finais
P.S.: Selkie é uma criatura das lendas escocesas e irlandesas, uma mulher muito bela que (tipo a nossa sereia) senta nas pedras e encanta os pescadores com sua voz e beleza. Mas elas não são peixes, são focas. Tem rabo de foca e costumam ficar enroladas em pele de foca nas raras ocasiões em que saem para a terra. Elas não podem ficar muito tempo fora da água, vão enfraquecendo pouco a pouco e se um humano tiver sua pele de foca enquanto ela estiver transformada, tem total poder sobre ela e ela não pode voltar para o mar. Algo assim xD'