Prazeres Sombrios - Indômita
4 Capítulo III - Dois Gumes
Notas iniciais
Claro, tinha que ser minha parenta... kkkkkkkk
Ok ok, apenas leiam :X
Leonor olhou com desprezo para seu reflexo no espelho. Tess amarrava os últimos laços de seu traje de seda azul-marinho. Tinha uma expressão tão deprimente que parecia estar indo entregar um parente ao caixão. Lady Leonor de Westminster estava com o cabelo solto, batendo no quadril, mais negro que a noite e formando discretos cachos nas pontas. Uma tiara de ouro contrastava com os reflexos azuis da juba escura, em intrincados de folhas de louro com minúsculas pedrinhas de diamantes. Seu vestido era azul-claro e a túnica azul-marinho de seda. Calçava sapatilhas de veludo azul. Braceletes de ouro foram colocados em seus pulsos. Antes, havia sido banhada em óleos que despertariam a libido de seu marido e sentia-se perfumada a canela. Era como preparar um leitão para o jantar. Os toques finais representavam a mação que colocavam em sua boca.
Leonor não queria admitir para não assustar a si mesma ainda mais, mas seus joelhos tremiam e suas mãos estavam frias e suadas, assim como não era capaz de encontrar a própria voz. Tess esfregou morangos em seus lábios para deixa-los ainda mais vermelhos, e nem percebeu como estava trêmulos. Quanto mais a hora das bodas se aproximava, mais nervosa se sentia. Seu coração estava acelerado, deixando-a inquieta e à beira do desespero. Era uma sensação sufocante.
Conheceria seu prometido. Casaria com ele.
E haveria a noite das bodas, quando entregaria sua virgindade ao inimigo de sua família. Seus olhos encheram-se de lágrimas que não ousou derramar. Estava traindo os Knightley. Estava traindo seu pai. Sua família devia estar se revirando na tumba neste exato momento. Respirou fundo para manter a raia qualquer traço de emoção que pudesse defrauda-la, controlando sua tristeza, sua frustração. Mesmo que tentasse ser feliz com aquele homem, carregava tantas sombras nas costas que não era capaz de olhar para ele sem ver Lachlan McGregor.
Talvez devesse tentar mata-lo. Envenenado. Simulando um acidente. Mas Leonor era muito covarde para fazê-lo. No entanto, ainda poderia fugir. Conhecia as rotas secretas do castelo de Ulster, brincara muito com Mary e Will pelos túneis, perseguindo Rob e Tristan. Henry nunca foi de brincar muito com eles, a não ser quando o perigo era extremo. De todo modo, Leonor podia usar alguma das passagens secretas para escapar. Fugiria nadando se fosse necessário. Não muito longe de Ulster – apenas alguns quilômetros – havia ilhas nas quais poderia se esconder. Pediria abrigo aos descendentes de Somerled – os McDonald, os McRuairi... De fato, eram escoceses, mas não eram Duncan McGregor. Qualquer ajuda lhe cairia bem. Leonor tinha bastante resistência física e uma determinação hercúlea, certamente aguentaria nadar até uma das ilhas. Qualquer destino era bem-vindo.
Qualquer destino que não incluía um McGregor.
Alguém bateu na porta, despertando-a de seus devaneios. Mary entrou, sorrindo tristemente. Usava um vestido branco e uma túnica rosa-claro, seu cabelo recolhido em uma pesada trança dourada com diamantes incrustados nas mechas. Era linda, uma verdadeira princesa. Fechou a porta atrás de si e Tess se afastou para que pudessem admirar a noiva.
Não havia o que ver. Leonor não era bonita e estava arrasada. Realmente estava indo deitar em seu caixão.
-- Está linda – Mary sorriu. Leonor fez uma careta, discordando – Vamos, Leonor, é a noiva mais linda que já vi. Seu prometido vai babar ao vê-la.
-- Se ele tiver essa capacidade – espetou Tess, franzindo os lábios. Mary a repreendeu com uma cotovelada nas costelas e a donzela gemeu com indignação.
-- É um acordo de paz – lembrou Mary – Os McGregor e os Knightley agora são aliados e receberão todo o apoio dos Campbell se ele trata-la bem.
Se. De fato, esse se estragou toda a beleza da frase. O coração de Leonor pulsava nos pés.
-- Eu o mato se machucar Leonor – ameaçou Tess, empertigando os ombros. Leonor riu, imaginando a pequena Tess empunhando uma de suas facas de cozinha para matar o selvagem escocês. Ele devia ser barbudo e fedorento a carniça. – Arrancarei suas tripas para fazer a comida dos porcos.
Mary riu.
-- Ele não fará mal a ela – garantiu Mary – Não parece ser tão ruim.
Tess arregalou os olhos e fez o sinal da cruz para Mary, afastando-se de um salto.
-- Não parece tão ruim? – urgiu a donzela em estado de choque – Pelos cabelos dos pés de Pedro, menina, é que é cega? Parece o demônio de saia xadrez!
Leonor reprimiu um sorriso. Não sabia se ficava assustada com o que ouvia de seu prometido ou se ria ao imaginar o selvagem de saia. E pensar nisso lembrou-a do homem de hoje mais cedo, que usava realmente uma saia. Mas nele não ficara feminino nem de longe. Na verdade, naquele homem ficara extremamente masculino. Agora, pensando bem, deixava à mostra umas poderosas canelas masculinas que só podiam indicar que suas coxas...
Por Deus! Ela estava prestes a casar e estava pensando naquele homem de pele dourada pelo sol, de músculos protuberantes, esbelto, alto e... Chega! Estava se tornando inconveniente. Era deliciosamente indecoroso.
Voltou para a realidade, focando-se na discussão entre sua prima e sua donzela. Encontraria aquele homem durante a cerimônia, assim como Duncan McGregor.
Estremeceu. Ainda não conseguia engolir que seria a esposa do homem que mais odiava. Do homem que ajudou Lachlan a destruir sua família. Ela tinha dezesseis anos e ele já era um varonil de vinte e quatro. Um assassino impiedoso. O Mensageiro da Morte. Um nome assim não poderia ter sido dado por sua mãe. Oh, meu amado filho, meu mensageiro da morte, como te amo... Sim, não foi dado por atos benevolentes. Com certeza um nome assim não foi dado a alguém que resgata gatinhos das árvores.
Leonor murchou. Estava desgraçada. Precisaria de muita força para sobreviver ao matrimônio. Começou a rezar para ser infértil, incapaz de dar à luz a uma criança que nascesse do ódio.
Ela queria ter filhos, claro que queria. Mas com o homem que amasse e que respondesse aos seus sentimentos. Então teria milhares de filhos com ele. Mas com Duncan McGregor... Não queria ter nada com ele. Uma criança fruto do ódio não seria feliz e ela não desejava trazer ao mundo uma vida que seria desgraçada como a dela, cheia de ódio e vingança. Seus tios e primos foram seu bálsamo em todo aquele reino de sombras.
-- Ele não é tão ruim – afirmou Mary, tentando tranquiliza-la – É bonito. Apenas introspectivo, acho que é tímido, mas pode abrir seu coração a você, Leonor.
-- Não quero seu coração...
-- E aquela coisa tem um coração? – espetou Tess – Acho que errou, milady, ele no máximo tem uma uva.
-- Uma uva? – Leonor fez uma careta.
Tess deu de ombros.
-- Não gosto de uvas – declarou por fim – De qualquer forma, ele não tem um ar de bom homem. É antipático, mal encarado e te olha como se fosse aparecer debaixo da sua cama à noite para assustar-te. Bessa me disse que ele come criancinhas no almoço e manda matar cachorros para o jantar. Você vai comer cachorros, Leonor? E criancinhas?
Leonor abriu a boca para responder, mas Mary colocou as mãos nos quadris e empinou o queixo, obstinada a fazer seu prometido parecer menos diabólico.
-- E quem espalha tais boatos, senão aqueles que perderam para sua espada? – rebateu Mary – Claro que seus inimigos não vão chama-lo de Soprano dos Anjos depois da guerra! Até meu pai tem um apelido de guerreiro. – revirou os olhos e bufou deselegantemente pelo nariz – Leonor, dê uma chance a ele. As intrigas do passado ficaram no passado. Estamos tentando a paz, recorda? Infernizar o pobre homem não vai te fazer feliz.
-- Eu não...
-- Duvido que ela sequer levante da cama depois das bodas – soprou Tess, fazendo Leonor arregalar os olhos.
-- O que quer dizer? – Leonor e Mary perguntaram em uníssono, o medo e o choque transparecendo em seu tom de voz.
-- Ele é descomunal. – afirmou Tess. Leonor engoliu em seco e segurou a mão de Mary, apertando-a. Estava verdadeiramente apavorada – E minha mãe me dizia que, quanto maior as mãos de um homem, maiores são seus dedos.
-- Seus dedos? – indagou Leonor, franzindo as sobrancelhas. Mary fez uma careta.
-- O que há de ruim em ter dedos grandes? – disse Mary, tão confusa quanto a prima. Tess revirou os olhos.
-- Não “dedos”, mas dedos – disse, enfatizando a última palavra. Elas continuaram sem entender e Tess mostrou-se impaciente e desconfortável – O aparato.
-- Ah – elas suspiraram em coro.
Leonor ficou rígida. E se ele fosse tão grande que seu... como Tess chamara...?... anel não pudesse acomodá-lo? Jesus, não podia sequer imaginar. Tess já lhe dissera algo relacionado a sangramento e acrescentando mais isso a sua lista, era provável que ele a desvirginasse desmaiada. Ou, tivesse a honra de morrer quando seu inimigo empalasse o tal dedo no anel. As imagens que apareciam em sua mente eram assustadoras.
Mary apertou sua mão.
-- Juro, prima, Duncan McGregor é apenas introspectivo. Falei com ele quando chegou.
-- E ele só grunhiu. Um homem muito simpático e de carisma estonteante – resmungou Tess.
Mary fuzilou a donzela com o olhar.
-- Certamente é tímido. Will se encarregou de fazer amizade com ele e com seus acompanhantes. Rob e Henry estão com o pai e os reis.
Leonor mordeu o lábio inferior. Cain e Tristan pereceram anos atrás por causa da febre. Mesmo que Leonor estivesse se casando com um McGregor, gostaria que todos os seus irmãos de coração estivessem reunidos. Rob, Henry, Cain, Tristan e Mary deveriam estar todos juntos naquele momento. Leonor e Mary tinham passado dias cuidando deles com Elizabeth e Isabel, ajudando-os a lutar contra a morte iminente, para no final perde-los para a febre. Cain tinha estado doente por meses e logo Tristan desabou por causa de uma ferida de batalha feita pelo conde de Ross. Fizeram de tudo, mas no final nada deu resultado, apenas pioraram.
O coração dela se apertou.
Aquele não era um bom dia. Com certeza, não era um bom dia.
-- Will tem facilidade em fazer amizade e em ler as pessoas – disse Leonor, afastando mais sentimentos deprimentes – Provavelmente se dará bem com os escoceses também.
-- É provável – concordou Mary, logo se voltando para lançar um olhar fulminante em Tess – Seja positiva também, Tess. Já falei com papai e permitiu que acompanhássemos vocês por um ano na Escócia.
Leonor ficou boquiaberta. Não conseguia acreditar. Pensou que aguentaria todo o peso das bodas sozinha, sem conhecer ninguém, mas Mary iria consigo e Tess também. Uma onda de alegria a embargou e quase a fez chorar de emoção. Mary era sua melhor amiga desde sempre e ter seu apoio a fez mais feliz do que qualquer outra coisa no mundo. Sorriu de orelha a orelha e se lançou nos braços da prima, abraçando-a com força e a beijando na bochecha. Mary riu e a apertou, igualmente emocionada. Parecia sempre saber quando Leonor necessitava sua companhia e sua força. Com Mary a seu lado, sentia-se mais corajosa para enfrentar seu futuro. Uma Knightley jamais temia um McGregor. Uma Knightley nunca se curvava ante um McGregor. Ela era Anna Leonor Knightley e aquele maldito casamento era a primeira batalha de muitas que enfrentaria contra seu prometido.
Tess pigarreou e elas se separaram, rindo em cumplicidade. A donzela abriu os braços.
-- E eu? Só as primas merecem amor? Também vou à escaramuça com vocês, sabiam?
Leonor riu.
-- Claro que você também merece amor, Tess – disse ela. Abraçaram-se as três juntas, sorrindo como velhas amigas. Leonor estava absurdamente feliz pelo apoio delas, mas sabia que sua batalha era apenas sua. Não permitiria que um McGregor destruísse sua vida como o fez sua mãe.
Alguém bateu na porta e elas se separaram de um salto, agindo com naturalidade forçada. Tess correu para dar os toques finais na cabeleira de Leonor, enquanto Mary fingia observá-las. Richard colocou a cabeça através da porta e sorriu paternalmente para elas, os olhos brilhando de orgulho por suas meninas.
-- Minhas princesas – disse ele, entrando no quarto. Tess pediu licença e partiu cabisbaixa, enquanto Mary olhava para a prima com infantil malícia. Richard Campbell, Duque de Ulster, beijou ambas na testa e alternou o olhar entre elas para admira-las – Não acredito que cresceram. São mulheres agora.
-- Papai – riu Mary.
-- Não se casa uma filha todos os dias.
-- Graças a Deus – retorquiu Leonor em tom brincalhão – Eu não aguentaria tanta emoção todo dia.
-- Fico feliz em saber que não está tão tensa, Anna – disse Richard. Ele era o único que a chamava pelo primeiro nome e isso o tornava ainda mais especial para ela. No entanto, ele não fazia ideia do quão caótico estava o coração de Leonor. Vingança, fugir, tentar ser feliz com um McGregor... Tudo gladiava violentamente em seu interior, deixando-a confusa como uma criança que acaba de se perder dos pais. – Está mais linda que Elizabeth quando casou comigo.
-- Não exagere – Leonor sorriu timidamente – Tia Elizabeth é linda.
-- Sim, ela é. E Isabel conheceu seu pai com a sua idade, sabia?
Que opostos! As Parcas se burlavam dela. Seus pais encontraram o amor quando sua mãe tinha dezesseis anos e ela encontrava ódio e confusão em seu lugar.
-- Não sabia – respondeu simplesmente.
-- Isabel era uma sonhadora. – prosseguiu seu tio – Romântica como você.
Leonor enrubesceu.
-- Não sou romântica – afirmou, mas sabia que era mentira. Desde quando aprendera a ler era apaixonada por livros de cavaleiros e princesas, de amor predestinado, de casais que batalhavam por sua felicidade. Seu tio a flagrara muitas vezes chorando enquanto lia, ou rindo descontroladamente. Às vezes, escondia-se na despensa com uma vela e lia até desmaiar de sono. Elizabeth a repreendia por ficar dormindo nos lugares mais estranhos que se pudesse imaginar. Quando pequenas, ela e Mary liam para os garotos e usavam Tristan e Rob para encenar. Will ria às lágrimas, a ponto de rolar no chão.
Sentia falta daquele tempo que não voltava.
Percebendo sua tristeza, Richard tirou do bolso de sua calça uma caixa de veludo verde e a estendeu para Leonor. Parecia envergonhado, o que até seria engraçado em outro momento. Ela pegou o pequeno objeto e o abriu. Mary ficou tão surpresa quanto ela. Leonor não tinha nem palavras. Era uma delicada gargantilha de diamantes, a mesma que pertencera a Isabel. Os olhos de Leonor se encheram de lágrimas, e foi preciso abusar de sua força de vontade para não chorar de emoção. Aquele foi o presente de casamento de seu avô para sua filha mais velha. Para sua mãe. E que agora seus tios davam a ela.
Pena que não teria uma filha para presentear no futuro também.
-- Tio... – engasgou. Ele ergueu uma mão, detendo-a.
-- Nada de sentimentalismo, moça, ou me fará chorar – brincou ele, caminhando até a porta – Mary, ajude-a com a gargantilha, estou esperando aqui fora para leva-la ao salão.
-- Sim, papai.
Mary colocou a gargantilha em seu pescoço, sussurrando banalidades para descontraí-la, mas Leonor não prestava muita atenção. Quando acabou, sua prima correu corredor afora e Richard lhe ofereceu o braço. Juntos, encaminhavam-se ao grande salão, onde haveria o casamento. O coração de Leonor estava dolorosamente acelerado e ela sentia os indícios do desespero. Era como pegar um corcel e tentar domesticá-lo com látegos. Sentia-se presa, sufocada, caminhando para o fim de sua liberdade. Se alguém a provocasse, seria capaz de mordê-lo. Seus últimos momentos de liberdade limitaram-se aos minutos em que nadara seminua no mar, sentindo o gelo da água e a força das ondas. E depois, quando cavalgou sem qualquer restrição no lombo de Vento Selvagem. Sem rédeas, sem arreios, sem precisar sentar de lado para ser elegante. Apenas ela e Vento Selvagem na praia, trotando velozmente nas águas rasas, espalhando areia e água para o alto, o vento contra os cabelos e a crina. Aquela foi sua liberdade.
Agora estava indo para a cama de McGregor. Seria seu cônjuge. Apenas uma mulher, nada mais. Sem voz, sem vida, porque ele não permitiria o que Richard deu a seus filhos. Ninguém permitiria, fosse inglês, escocês ou sarraceno, qualquer que fosse. Talvez nem permitisse montar em Vento Selvagem.
Leonor empinou o queixo e engoliu todas as emoções que pudessem mostrar suas debilidades. Seu sobrenome seria McGregor, mas seu coração era Knightley. Eternamente. Nunca vestiria as cores de seu marido. Ah, isso não.
Quando chegaram ao alto da escada, ela viu a quantidade de pessoas que esperavam sua união com o inimigo. Os reis sorriam, trocando comentários com o noivo, que permanecia de costas para ela. Os criados estavam escondidos, observando-a com lágrimas nos olhos. Viu seus primos, a rainha da Inglaterra, sua tia Elizabeth... Vários nobres que nunca vira na vida, outros que lhe eram familiares, dois escoceses vestindo o kilt vermelho e verde dos McGregor. Havia muita gente no salão. Flores brancas decoravam os pilares do recinto, cobrindo-os como heras e um tapete vermelho fora estendido desde a escada até onde os reis estavam. O suave som de harpas se fez ouvir entre as paredes do castelo, tão melodioso e tranquilo que Leonor quase podia estar feliz. Quase.
Sua prima sorriu para lhe dar força e isso a incitou a sorrir de volta, fazendo os escoceses se acotovelaram e cochicharem algo. As pessoas no salão falavam dela à medida que descia lentamente os degraus com seu tio. Leonor mantinha sua habitual régia postura, o queixo empinado orgulhosamente e o olhar fixo no horizonte para não fraquejar. Tentava não notar no quanto seus pés se arrastavam e em como seus joelhos tremiam. Seu tio colocou a mão sobre a sua, guiando-a para seu prometido.
Treinando sua surdez seletiva e sua incrível capacidade de divagar desvairadamente, tentou desligar-se de tudo ao seu redor e pensar unicamente na liberdade que estavam tomando dela. A liberdade de escolher seu companheiro. A liberdade ser ela mesma. A liberdade de viver. Imaginou como seria cavalgar sobre Vento Selvagem a pelo, atravessando os escarpados, ao mesmo tempo em que seu tio a deixava ao lado de seu prometido. Sabia que ele a estava olhando, mas o ignorou completamente. Nem mesmo ouviu as palavras dos reis, que os uniam perante os representantes de ambos os países. Friamente, Leonor pronunciou as palavras que todas as mulheres sabiam para poder casar e logo percebeu que estava olhando para uma mão grande e morena. A mão de seu prometido. Suas palavras foram minguando enquanto seu rosto esquentava de vergonha.
Mãos grandes e calosas cheias de cicatrizes, com dedos longos e extremamente masculinos. Nada que fizesse com que ela se acalmasse, pois recordava constantemente das malditas palavras de Tess sobre aparatos, dedos e anéis. De repente, sentiu-se enjoada. Sequer ouviu a voz de seu... marido. Estava muito ocupada entrando em estado de choque com suas mãos. Mãos grandes. Pelos pregos de Cristo, ele tinha mãos grandes! Leonor teria uma síncope. Se o tal dedo era medido pela mão, então devia se assemelhar mais a um braço. Maldita Tess por deixá-la tão assustada.
Seu marido a virou e pressionou os lábios contra os dela. Lábios macios e quentes. Seu primeiro beijo: rápido, duro e seco. Sem amor ou paixão. Ela não prestava atenção em nada. Sabia que Richard conduzia os convidados para a torre de comemoração, onde Elizabeth preparara a comemoração e tinha ciência de que seu marido a segurava pelo braço, guiando-a com todos. Ouviu palavras em gaélico, mas nada lhe importava.
Estava casada com um McGregor.
Oh, Deus, que parvo!
Não conseguia desviar o olhar de suas mãos. Mal tinha coragem de lhe olhar o rosto, de tão fixada que ficara em seus dedos. As palavras de Tess retumbavam em sua consciência dolorosamente, deixando-a ainda mais apavorada com as bodas. Mal percebeu quando se sentaram ao lado dos reis no grande salão. Os criados se dispuseram a servir o jantar. Havia música. Conversas. Animação.
-- Parece uma ovelha nas garras de um lobo.
Uma voz grave e acentuadamente rouca com um estranho sotaque atraiu sua atenção. Ergueu o olhar das mãos do McGregor e deparou-se com um gigantesco e encantador homem loiro. Ele era o homem mais lindo que ela já vira. Seu cabelo dourado chegava até os ombros em uma juba realmente adorável e seus olhos cristalinos lhe davam uma aparência irresistível. Seus traços eram duros e cinzelados e seu corpo era adornado por delgados músculos muito bem treinados, sem um grama de gordura. Sorriu-lhe, e o ato em si, além de deixa-lo irresistível, parecia não ser muito comum a ele.
Leonor tentou forçar um sorriso, mas seus lábios tremiam.
-- Nunca casei antes – tentou brincar, mais por si mesma do que por ele.
-- Creio que sim – ele levou a taça aos lábios e bebeu um gole – Do que tem medo?
-- Não acho que seja de sua incumbência, senhor.
Ele era um dos escoceses que acompanhavam o McGregor. Ótimo.
-- De fato – aquiesceu ele – Mas, minha senhora, não tenha medo. Ele só late.
Leonor estremeceu.
-- Como se chama?
-- Iain.
-- É um McGregor?
-- Não. Apenas Iain.
Desta vez, ela foi capaz de sorrir sem parecer uma careta.
-- Sou Leonor.
-- Eu sei – Iain disse amavelmente – Quem não sabe, não é?
-- Sim – ela reprimiu um riso – Não me chame de minha senhora, soa... muito estranho. Ainda mais quando é mais velho que eu.
Ele franziu as sobrancelhas.
-- Quantos anos tem?
-- Dezesseis.
Aquilo pareceu incomoda-lo muitíssimo. Desde então, Iain ficou no mais mórbido silêncio. Parecia que sua idade o tinha feito desistir de fazer amizade com ela. Bom, que assim fosse, ela nunca compreenderia os escoceses mesmo. Sem qualquer indício de fome, bebeu apenas alguns poucos goles de hidromel. Sentia que vomitaria se comesse algo mais substancial. Tentou ignorar as mãos de Duncan McGregor, então se ocupou de procurar sua prima entre as pessoas. Encontrou Will conversando animadamente com o outro escocês, viu um grupo de damas elegantes e bonitas rindo entre si, viu seus tios, viu Rob e Henry falando com um casal de desconhecidos de forma polida, mas nada de Mary. Nem de Tess. Sua prima poderia ter passado mal? Não era típico de Mary, mas podia acontecer.
Leonor queria conversar com qualquer um que não fosse seu... marido. Queria se distrair para não pensar nas bodas. No que ocorreria em breve. Richard e Elizabeth se ergueram para dançar, assim abrindo o salão. Eram elegantes e refinados como reis e o amor que nutriam um pelo outro era visível em seus olhares, em como sorriam um para o outro.
Leonor tentou se imaginar no lugar deles com o McGregor. Via-se fazendo uma careta quase simpática e um homem de rosto nebuloso e borrado. Muito romântico.
O rei Henrique levou sua rainha para o centro do salão, onde começaram a dançar. O rei Edgar ficou em seu lugar, apenas observando tudo com o sorriso lacônico de alguém que nunca casou e já estava ficando velho. Leonor se compadeceu dele, parecia ser um homem muito bom. Will agora dançava com uma jovem ruiva e Rob estava acompanhado de uma morena.
O coração de Leonor veio aos pés quando Tess e Mary vieram busca-la. A hora tinha chegado. Permitiu-se ser levada e Iain pareceu perceber a quão aterrorizada estava. Ninguém se surpreenderia se ela tentasse fugir, a julgar por seu estado de espírito. Nauseabunda como estava, tudo o que foi capaz de fazer foi suspirar aliviada quando Tess fechou a porta de seu quarto. Havia uma tina de cobre preparada para seu banho e as cortinas azuis de sua cama foram baixadas.
-- Vamos, milady, hora de suas bodas – disse Tess amavelmente enquanto a despia.
-- O que vai acontecer? – perguntou Leonor.
-- A julgar pela expressão... Ou, melhor: pela falta de expressão de seu marido, será rápido. Ele entra, goza e vai embora. No dia seguinte, estenderemos o lençol ensanguentado no corredor para todos verem eu foi consumado. Ponto. Pode doer muito ou pouco, depende do quão amável ele for. – Tess falou rapidamente. Leonor não entendera nada, mas agora já era muito tarde para perguntar mais alguma coisa. A donzela terminara de esfregar os óleos perfumados que faziam um homem parecer um cavalo no cio (palavras da própria Tess) e Leonor estava fora da banheira antes que percebesse. – Os reis, Lorde Campbell e os acompanhantes de seu marido verão se você é adequada para ele e ficarão na intimidade.
-- Como assim?
O desespero fincava suas garras no peito dela, gelando-lhe o sangue.
-- Ele já deve estar subindo. – murmurou Mary – Vamos logo, Tess.
-- Não é nada tão assustador, querida – disse Tess, empurrando-a nua para a cama. Leonor se deitou e usou as cobertas de pele para se cobrir até o queixo, tremendo tanto de frio quanto de medo. Suas bochechas estavam rosadas e quentes por estar despida e sentada, completamente encolhida, esperando seu marido para as núpcias. Era provável que morresse do coração antes de ele chegar – Apenas relaxe, dará tudo certo.
-- Boa sorte – disse Mary.
Leonor ouviu quando se foram.
Deitou-se, rígida como as quatro colunas de sua cama, o coração quase lhe rasgando o peito. Fitou o nada, apertando as cobertas. Era normal sentir tanto medo? O silêncio e a escuridão das cortinas fechadas a incomodavam, mas não ousava se mexer. Uma parte de si, a instintiva, acreditava que ele a ignoraria se ficasse quietinha e silenciosa. Mordeu o lábio inferior. Queria suas roupas. Queria não estar casada. Mas agora estando, tinha de superar seus medos. As explicações de Tess a deixaram assustada, principalmente porque não compreendia nada. O desconhecido era como aquela escuridão: imprevisível. Podia albergar perigos e ela não saberia se defender deles. Leonor nunca foi covarde, mas aquilo superava suas forças. Imaginava um banho de sangue e muita dor ao perder a virgindade.
Fechou os olhos e começou a cantarolar em pensamento a música que sua mãe cantava para que dormisse. Aos poucos, as suaves entonações foram lhe relaxando e ela foi capaz de deitar mais naturalmente. Cantou para si mesma, apaziguando-se, lembrando-se de como Isabel a segurava no colo e repetia a tão familiar melodia que sua avó cantara para sua mãe e para sua tia. Tudo ficaria bem. Essa segurança não diminuiu seus medos, mas revigorou-a.
Leonor estava quase adormecida quando a porta se abriu e vários passos a deixaram tensa como uma corda. Apertou mais as cobertas até debaixo dos olhos, escondendo-se por vergonha e por medo. Alguém ergueu as cortinas e risadinhas se fizeram ouvir. As cobertas foram arrancadas bruscamente de suas mãos e ela trincou os dentes para não gritar, mas isso não a impediu de tentar se cobrir. Estava nua para quem quisesse ver. Algo pesado caiu sobre a cama ao seu lado e as cortinas foram baixadas. Risos, cochichos e a porta foi fechada. Leonor mordeu o lábio até sentir o gosto do sangue.
Chegara a hora. Oh, Deus, chegara a hora.
Não ousou se mexer e sua respiração era tão baixinha que quase não entrava ar em seus pulmões. Permaneceu paralisada, sufocada pelo terror, ouvindo a respiração de seu marido. Sentiu seus movimentos sobre o colchão e ficou ainda mais rígida com sua proximidade. Ele tinha cheiro fresco de madeira e couro. Era delicioso, se não fosse dele. O coração dela martelava desesperadamente, tão forte e rápido como se tivesse corrido quilômetros sem parar para descansar. McGregor pousou aquela enorme mão em seu ventre nu e ela estremeceu involuntariamente.
Sua pele era quente, dura e áspera. Nada das suavidades dos nobres ingleses que ela conhecera.
-- Não vou te machucar, moça.
Aquela voz grave e profunda, com um forte sotaque se sobrepondo ao seu inglês... Era bastante familiar. Leonor virou o rosto na direção da voz, tentando vê-lo no escuro. Que aparência tinha seu inimigo? Mary dissera que não era tão ruim, que era bonito. Antes que pudesse pensar qualquer coisa, sentiu os lábios sobre os seus. Foi uma carícia tenra, como se tentasse relaxa-la, mas não surtiu muito efeito. Leonor era completamente consciente daquele corpo de guerreiro ao lado do seu e isso não a tranquilizava, porque voltava a pensar na história dos dedos e anéis. Não correspondeu ao beijo. Não queria agradá-lo, tampouco sabia o que fazer. Encolheu-se, cobrindo os seios nus com os braços para evitar sua vergonha. Mesmo no escuro, sentia-se completamente exposta. O beijo não evoluiu quando ele pareceu perceber que ela permanecia imutável no leito, rígida e apavorada. Mesmo que tentasse dissimular seu medo, parecia óbvio demais, o que a deixou desgostosa.
Então suas palavras a atingiram como uma flecha.
Aquela voz, tão grave e profunda, levemente rouca... Leonor o empurrou e só o conseguiu pela surpresa do ataque. Aproveitando sua vantagem, saltou para fora da cama e ergueu as cortinas, arregalando os olhos ao ver seu prometido. Não, não podia ser. Era uma brincadeira de mau gosto, com certeza. Estavam se burlando dela. Boquiaberta e surpreendida, observou aquele gigantesco escocês deitado em sua cama, tão nu quanto ela. Sua pele dourada pelo sol, os imponentes músculos delgados que formavam a armadura de seu corpo pecaminoso, as cicatrizes que traçavam caminhos por seu peito, o rosto surpreendido pelo empurrão, mas ainda mais belo que o do louro que o acompanhava, com um queixo levemente quadrado e lábios que levariam uma mulher à perdição – com aquele corte que ela lhe causara mais cedo, o que não diminuiu nenhum pouco sua selvagem beleza – os olhos sérios e negros como a noite, o cabelo castanho-escuro e um pouco encaracolado... Desceu para o...
Deus! Onde aquilo se parecia com um dedo? Tess só podia estar louca. De fato, era enorme e não caberia nela nem com muita reza. Parti-la-ia em duas. O rosto de Leonor estava em brasas e seus olhos abertos como pratos. Rapidamente ajoelhou-se para pegar as cobertas e quando se ergueu, estava ocultada pelas peles.
Ele tinha coxas grossas e poderosas.
Engoliu em seco.
Ele se recuperou da surpresa e se sentou na beira da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos. Olhava-a de forma indecifrável. Aqueles olhos negros a sondavam.
Não conseguia acreditar que o homem da praia era Duncan McGregor. Não podiam ser a mesma pessoa. E ela estava desgraçadamente casada com ele.
-- Por que não me disse quem era?
Leonor não sabia por que estava perguntando aquilo, talvez para ganhar tempo enquanto pensava em como escapar dele, mas a pergunta o pegou despreparado.
A moça era realmente uma surpresa em todos os aspectos. Parecia ter caído na realidade apenas quando ele a beijou. De início, Duncan ficara igualmente chocado ao perceber que Anna Leonor Knightley era a intrépida moça que conhecera mais cedo. Então toda a simpatia que sentia por ela se esfumaçou rapidamente ao lembrar-se de que se tratava de uma inimiga, que só não matara ainda por ordem direta de Edgar. Suas mãos coçavam de desejo por estrangula-la, mas esse pequeno detalhe perdia força ao olhar nos olhos aquelas orbes cristalinas e expressivas. E depois de Iain lhe contar a idade dela e o medo que tentava inutilmente dissimular, Duncan decidiu que ao menos na primeira vez dela tentaria ser gentil. Se não fosse por isso, nem teria se dado ao trabalho de beija-la em uma vã tentativa para que relaxasse.
Sentiu-se incomodado ao perceber o ardor intenso em sua virilha. Desejava Anna Leonor. Deseja uma Knightley. Essa era a maior vergonha que ela poderia lhe dar.
Olhou para aquele corpo esbelto e de músculos femininos rígidos pelos exercícios. Ela tinha formas, admitia, mas negava-se a admira-las. Era um homem e ela era sua esposa, mas só pelo fato de ser filha do Hugh já era motivo suficiente para lutar contra o desejo primitivo que o acossava. Lembrou-se da pergunta que lhe fizera.
-- Você não perguntou – respondeu com indiferença.
Ela franziu as sobrancelhas.
-- Perguntei.
-- Perguntou meu nome, e realmente não tinha importância. Mas se o que quer é problema, então quem mentiu foi você.
Atingiu exatamente onde planejara.
Ao invés de se encolher pela culpa ou tentar dissimular suas palavras com mentiras, empertigou os ombros e empinou o queixo, desafiando-o silenciosamente.
-- Sim, eu menti, mas o que queria que eu fizesse quando me viu de... – suas bochechas ficaram tão rubras que ele pensou que explodiriam – roupa de baixo?
Sua voz soou baixa, demonstrando sua vergonha. Deus, ela era muito inocente, exatamente como Iain lhe disse. Mesmo que fosse normal, ele se sentia muito velho para ela. Era uma menina. Edgar estava louco ao entrega-la a ele, mesmo que fosse uma maldita inglesa com o sangue de Hugh.
-- Por que estava nadando? – perguntou, por algum estranho motivo, amavelmente. Leonor se mostrou extremamente desconfortável.
-- Porque hoje acordei livre e amanhã acordarei casada contigo.
Palavras secas que o irritaram.
Aquele casamento não daria certo. O acordo de paz não teria força alguma quando seus elos não se encaixavam, porque Edgar não vira isso?
Aborrecido por não saber lidar com uma maldita mulher, estreitou os olhos ameaçadoramente e esticou a mão para puxa-la pelas cobertas. Leonor pulou para longe de seu alcance, os olhos abertos em O de medo do que poderia acontecer. Ele não lhe faria mal, mas tinha de acabar logo com aquilo. Levantou-se, envergonhado por tentar intimida-la com todo o seu tamanho, mas tudo o que conseguiu foi ter uma jovem esposa armada com uma agulha de bordado. Duncan até poderia ter rido, mas já tivera noção de como ela poderia ser destrutiva sem querer, pior ainda se fosse querendo. Machucaria a si mesma ou destruiria o quarto.
Com os olhos azuis chispando de ódio, apontou a agulha para ele e a repentina imagem de um gatinho arrepiando os pelos para parecer ameaçador surgiu em sua mente. Quase a imaginou rosnando. Anna Leonor Knightley, duquesa de Westminster, estava desafiando-o na noite de bodas. Ao invés de cumprirem com o dever marital, estavam discutindo. Sim, um casamento inesquecível. Ele não duvidaria se ela tentasse mata-lo enquanto dormia, era uma criaturinha irritante e cheia de vontades.
-- Solte a agulha, moça – ordenou friamente, olhando-a nos olhos, esperando o mínimo sinal de ataque que lhe infringisse para desarma-la sem dificuldades. Ela trincou os dentes e apertou as peles com mais força contra o peito.
-- Não – chiou – Não me toque.
-- É minha esposa, faço o que quero contigo.
Ela se afastou.
-- Se me violar, apenas se, juro que arranco sua garganta para o desjejum.
Eram um casal perfeito. Ele comia criancinhas e ela, gargantas de maridos. Não podiam ter sido feitos em formas melhores.
O rechaço por parte das mulheres era algo que não o atingia mais. Estava completamente acostumado a ser repudiado, então a reação dela não o alterou mais que o esperado. Fez menção de avançar e ele estreitou os olhos em ameaça, brandindo a agulha como um guerreiro com sua espada. Aquilo o estava deixando impaciente.
-- Só dormirei contigo quando estiver disposta, satisfeita? – grunhiu revoltosamente. Leonor nem ponderou sobre sua tentativa de apaziguá-la.
-- Ainda não, McGregor. Não confio em você.
-- O problema é seu.
Em questão de segundos, ele avançou com a graça de um predador e a tomou pelo pulso. Leonor rosnou, literalmente rosnou e perjurou deselegantemente ao ver que ele a desarmava com uma facilidade conquistada pela prática. A agulha foi ao chão e Duncan a puxou contra seu peito, jogando-a por sobre o ombro. Ela se debateu violentamente e só se aquietou quando ele lhe deu um tapinha no traseiro. Deus, tinha nádegas redondas e macias, que levaram sua libido ao ápice. Ela ficou congelada sobre seu ombro.
Bom, acabaria de descobrir como paralisar sua esposa.
Colocou-a na cama com o máximo de delicadeza possível. Leonor estava mais furiosa que qualquer homem que ele já tinha visto e, se olhar matasse, ele teria perdido até a alma só com aquele enfrentamento. Quando colocou um joelho na cama, ela se afastou e se encolheu, puxando as peles para mais junto de si. Ocultava seu pavor com fúria, notou Duncan. Ficaram um longo momento apenas se olhando.
Ela não era a mulher mais bonita que já tinha visto e seu gênio mordaz a tornava insuportável. Tirava-o do sério. Suas curvas não eram acentuadas e libertinas como as de Mary, mas não eram inexistentes e eram bastante femininas. Os seios não eram grandes, tampouco pequenos, coroados por mamilos rosados. Nada de flacidez. Tudo nela estava impecavelmente em forma. Era alta como um escudeiro, mas elegante, não desengonçada como ele. A cabeleira negra era tão escura que possuía reflexos azulados, caindo em uma perfumada cascata até quase seu quadril. E ela era tão branca e macia... Os lábios cheios e rosados... Era formosa. Não bonita, apenas formosa.
E com um temperamento de cão.
Sua esposa parecia esperar que ele saltasse sobre ela e a devorasse impiedosamente. Ela não o conhecia, claro que acreditava nos rumores espalhados por toda a cristandade. Ele era a Morte, o diabo, tudo de mais maléfico e repudiável no mundo. Ele não a contrariaria.
Olharam-se em um silêncio sepulcral. Sequer se mexeram.
Definitivamente, ele não retiraria nenhum dos nomes que lhe foram atribuídos desde a época em que era um escudeiro. E antes disso também. Como sua inimiga, não podia confiar nela. Estavam enlaçados por uma união forçada e a reles ideia de ter como esposa a inglesa filha do homem que mais odiava ainda não fora digerida, permanecia ruminando aquela nova realidade com total desagrado. Seu casamento simbolizava o fim da guerra. Henrique e Edgar eram pacifistas que Duncan admirava fielmente, mas nada impedia a moça de não seguir com seus ideais.
Típico de mulheres, poderia apunhala-lo pelas costas covardemente ou simplesmente envenena-lo. As fêmeas não eram corajosas nem fortes para olha-lo nos olhos e travar uma batalha aberta. Eram audaciosas e sorrateiras, víboras por natureza. Duncan não podia confiar nela, assim como não confiava em ninguém.
Sabia que ela pensava o mesmo. Também estava desconfiada e na defensiva, realmente parecendo um gatinho encurralado e com as garras ocultas por pelos.
No entanto, para sua surpresa, empinou o queixo com altivez e lhe deu as costas, deitando-se de lado e cobrindo-se até a cabeça com as peles, formando uma bolinha fofa e disforme. Duncan a observou, duvidando de que, de fato, ia dormir, até que ouviu um suave ronco.
Fergus estaria explodindo em gargalhadas. Anna Leonor Knightley, herdeira de Westminster, roncava como um felino ronronando.
Se soubesse rir, provavelmente teria rido um pouco do quão cômico era seu destino. Um maldito destino que poderia mata-lo com a facilidade com a qual o pusera no mundo.
☺
Leonor não soube que horas acordou, mas não era tão cedo quanto supusera. Havia vozes no quarto, uma delas reconheceu como sendo a de Tess. Enfastiada, espreguiçou-se manhosamente na cama, sentindo o cálido toque do sol em sua pele. As donzelas preparavam seu banho, enchendo a tina de cobre com baldes de água quente trazidos das cozinhas, para logo derramar a água fria em seu interior. Leonor olhou para o teto do dossel, tão preguiçosa que poderia dormir o dia inteiro sem despertar uma única vez.
Estava casada. Certamente isso não a enchia de alegria, ainda mais quando era um McGregor, mas depois de uma boa noite de sono... Bom, ela sempre quis que a guerra acabasse, mas nunca pensou que fosse ela quem poria fim. Ela e o McGregor. Talvez devesse excluir seus preconceitos e tentar ter um bom casamento, afinal, seria o único de sua vida, a não ser que ele morresse e Edgar e Henrique deixaram bem claro qual seria o destino dela se tentasse mata-lo, o que era uma ideia absurda, a julgar pelo forte físico daquele selvagem. De todo modo, ela era pacifista como seus reis. E o McGregor não matara seu pai. Participara da guerra, provavelmente como escudeiro, fizera atrocidades, mas Hugh também o fizera. Aquilo era guerra.
Leonor precisava ter a mente fria e eloquente se quisesse chegar a uma decisão razoável. A paz era um objetivo que almejara e seria um orgulho a si mesmo ser capaz de consegui-lo sendo uma boa esposa. Talvez, apenas talvez, tentasse ser mais receptiva com seu marido.
Ontem tudo foi muito rápido. De repente soubera que estava noiva e que as bodas seriam celebradas naquele mesmo dia, então, agira injustamente com todo mundo.
-- Finalmente acordou! – suspirou Bessa, derramando o último balde de água na tina.
Completamente consciente de sua nudez, Leonor se sentou languidamente na cama, cobrindo os seios com as peles. Acordara sozinha.
Também dormira sozinha. Despertara no meio da noite e vira seu marido dormindo perto da lareira, sobre o tapete, como um cachorro ao léu. Não usava cobertores, tampouco um travesseiro, mantendo bastante distância entre eles. Ela se compadecera, quisera cobri-lo com uma das peles ao menos, mas recordou-se do quão bruto era e temeu que provavelmente não visse com bons olhos sua boa ação. Talvez seu ódio pelos Knightley fosse grande o suficiente para...
-- Milady – urgiu Tess, atraindo sua atenção. Todas as quatro donzelas no aposento estavam lhe encarando com temor e suspeita, como se ela fosse um animal perigoso que fosse ataca-las – Como se sente?
Leonor franziu as sobrancelhas.
-- Bem, creio eu – respondeu desconfiada. A que se devia tamanho polimento ao se dirigir a ela?
Bessa a fez levantar, guiando-a tão cuidadosamente que Leonor se sentiu um cristal. Uma fina peça quebradiça e delicada aos olhos das quatro mulheres. Enquanto entrava na tina, viu-se avaliada meticulosamente pelas donzelas. Mediam-lhe dos pés a cabeça, buscando algo. Franziam as sobrancelhas e estreitavam os olhos, fitando-a fixamente. Leonor rapidamente submergiu, ocultando-se de olhares tão indiscretos. As donzelas se retiraram e apenas Tess permaneceu para banha-la, esfregando o sabão em seus braços de forma polida e realmente cuidadosa, fazendo seu trabalho suave e lentamente.
Leonor estava ficando aborrecida. O silêncio era absurdo e a estavam tratando anormalmente. Era como se fosse um bebê. Fez uma careta para Tess. A mulher permanecia sendo cuidadosa e avaliativa, rastreando qualquer coisa em seu corpo, demorando-se em certos lugares, principalmente na feminina região da união das coxas, quase como se esperasse ver um chifre ou um olho. Leonor seguiu sua incômoda observação, até que viu que a água estava rosada. Certo, seu desconforto não era infundado. Não estava ferida ali, tampouco perdera a virgindade. Leonor dormia como uma pedra, mas sentiria caso seu marido tentasse... encaixar o dedo no anel. Tess dissera que doía, então teria despertado. Ou seja, seguia sendo virgem.
De onde vinha o sangue?
A não ser que... Não.
Tess lavou seu cabelo antes de derramar um balde com água para tirar o sabão de seu corpo. Quando Leonor saiu da tina, a donzela se apressou a enxuga-la cuidadosamente com um pano de linho, para logo correr até sua arca e ir pegar um vestido. Aquele excesso de atenção a estava estrangulando.
Logo esteve vestida com um glorioso vestido verde de veludo, calçando sapatilhas de cetim. Sentou-se à penteadeira para Tess escovar sua longa juba negra até seca-la, pouco se importando com o tempo que aquilo levava. Com a habilidade que apenas ela tinha, entrançou perfeitamente o cabelo de Leonor, prendendo-o com uma fita verde como seu vestido.
-- Tess – falou Leonor duramente. A donzela bufou e, agarrando-a pelos ombros, ergueu-a bruscamente do banco, os olhos apavorados – Pelas chagas de Cristo, mulher, o que foi?
Pela primeira vez, seu péssimo vocabulário não foi repreendido.
-- Consegue andar? Deve estar sofrendo tanto! Aquele cavalo só pode tê-la partido em dez... Oh, Deus, Leonor, o que te fez?
-- Do que está falando?
-- Viemos recolher o lençol com seu sangue de virgem, milady... Batemos na porta e gritamos por vocês... O animal abriu a porta e tentou te acordar. Você nem resmungou. Estava tão fraquinha... Ele teve de leva-la nos braços para recolhermos a prova da consumação. Até os acompanhantes dele ficaram horrorizados, pensamos que estava morta, Leonor! Então me ordenou que preparasse seu banho e preparasse uma arca com o que seria apenas essencial para levar ao covil do diabo. Esse bicho do mato deve ter atravessado seus intestinos com...
-- Tess! – gritou horrorizada, afastando-se da donzela, andando com sua habitual elegância para mostrar que estava tudo bem. Não sabia o que estava acontecendo, mas seu instinto lhe dizia para deixar passar – Estou bem, de verdade. O animal... – riu infantilmente com o termo – foi bastante considerado. Foi rápido. – ela nem sabia do que estava falando, mas lhe pareceu correto encerrar o assunto antes que Tess lhe exigisse os detalhes que não poderia dar – Pode me levar para o desjejum?
A donzela fez uma careta.
-- Castrarei aquele cavalo com uma vassoura se for preciso, mas não permitirei que a arrombe...
-- Tess!
-- Tudo bem, tudo bem, não falo nada! Mas a ameaça é válida e a cumprirei de forma bem criativa.
Leonor tentou sorrir, mas toda a confusão que sentia transformou sua expressão em uma careta decepcionante.
-- Não duvido, mas pode me acompanhar logo, ou terei de ir sozinha?
-- Acho que vou viajar armada – dizia Tess enquanto saíam do aposento, caminhando pelos corredores para as escadas – Levarei uma pá também, assim poderei enterrar o desgraçado com algo que não seja da gente dele. Acho que pulgas ficariam muito bem naquele cabelinho de machão. E ervas para ajudarem com seu intestino, nada melhor que um intestino frouxo pela manhã... – ela riu com malícia – vai acordar todo rasgadinho – soltou uma risadinha.
Leonor revirou os olhos, mas acabou por rir com ela. Tess era uma criatura peculiar e bastante criativa para vinganças. Lembrava-se de certas ocasiões em sua infância que a donzela a defendeu com sua mente irrefreável e o resultado foi algum rufião com uma dor de barriga eterna e coceira por todo o corpo, no melhor dos casos. Tess abusava até das pobres sanguessugas. Antes amiga do que inimiga.
Dirigiram-se ao salão principal, onde os cavaletes estavam muito bem posicionados, com a mesa do lorde no patamar próximo à lareira. Leonor se sentou e Tess correu para as cozinhas em buscas de algo para o desjejum, uma vez que todos já tinham feito a primeira refeição. Sozinha, Leonor contemplou os cães de seu tio, que dormiam sobre o estrado, tranquilos e provavelmente banhados por Mary. Sua prima já deveria estar pronta para partirem, apesar de Leonor não se sentir muito cômoda. A palavra verídica casada ainda era ruminada por sua mente e rejeitada por seu coração. Sempre desejara casar por amor, com alguém que não a suprimisse, que se desse ao trabalho de ouvir suas opiniões e considera-las. Obviamente, nunca lhe passou pela cabeça ser o McGregor. E agora que era ele... O que mais podia fazer?
O salão estava muito silencioso. Absurdamente silencioso e deserto. As poucas criadas que passavam por ela lhe olhavam como se fosse um fantasma, assombradas e perguntando-lhe se estava bem. Não acreditavam quando dizia que sim, mas Leonor deixou passar. Mais tarde teria uma conversinha particular com o McGregor sobre essa história de...
A boca de Leonor caiu. Tinha certeza de que seus olhos estavam abertos como pratos e completamente horrorizados. Não tinha percebido antes a presença de coisa mais macabra porque estivera pensando muito, mas agora que se deparava com aquela imutável realidade, tudo o que podia fazer era permanecer em estado de choque, em um transe psicótico sem resolução. Estava ali no corredor, para quem quisesse ver, erguido como uma alegre bandeira: o lençol de sua cama, ensanguentado como se tivesse ocorrido um assassinato sobre ele.
Deus.
Leonor não sabia se ficava contemplando horrorizada ao maldito lençol, ou se saía do transe. Não conseguia acreditar que o bastardo a utilizara como se fosse uma égua enquanto dormia. Era seu marido, de fato, mas apenas no nome. Definitivamente, arrancaria seu útero antes de carregar a semente daquele demônio desprezível. O Inferno terá de gelar antes que eu pertença a um McGregor.
Notas finais
Seria ótimo se vocês dividissem essa emoção comigo, porque ela é demais para uma pessoa só! Eu implorei tanto para ela postar no nyah, desde quando ela começou a tragetória da Leonor, e finalmente venci o/ kkkkkkkkkkk
Agora, por favor ajudem a campanha "NOTA MIL POR UM REVIEW", que eu acabei de criar! Comentar não gera teias de aranha ou lepra, viu? ;D
Até logo!
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