Pra você guardei o amor
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Realmente a tarde com as crianças viera como uma chuva fresca em um dia quente de verão. Uma recompensa no fim do arco-íris. A luz no fim do túnel. Dividir as horas com Henry e Sophia era eternamente gratificante e parece que nem toda hora disponível do mundo eram horas suficientes para estar junto, o que tornava cada despedida uma batalha para o coração das mulheres.
—Tia Emma – Sophia disse com as mãos em seu rosto quando Emma se despedia dela. Regina já esperava do lado de fora. – Você parece triste.
—Emm triti. – Henry repetiu o que ouviu da menina com sua voz infantil e fala embolada sem realmente saber o que estava falando.
—Eu não estou triste Sophia. – Emma deu seu melhor sorriso para a garota.
—Triti não. – Repetiu o bebê novamente, fazendo Emma sorrir.
—Seus olhos dizem que sim. – Insistiu Sophia.
—Meus olhos estão cansados Soph. Não estão se expressando direito hoje. – A menina assentiu chateada.
—Sophia, está na hora de ir para dentro – A Madre interviu pegando Henry do chão enquanto Emma se levantava, quando a menina desapareceu a mulher falou – crianças tem um sexto sentido para isso Swan. Eu não pretendo me intrometer e saber o porquê está triste, mas que você está, isso você está.
—Sintido. – Repetiu Henry fazendo Emma dar-lhe um beijo em sua testa. – Emma. – A criança disse colocando as duas mãos nas bochechas da loira pela primeira vez querendo dizer o que disse.
—Isso mesmo bebê. Emma, diga de novo. – Mas Henry já estava em seu mundo paralelo novamente. A mulher virou para a Madre. – Eu prometo que o dia em que eu descobrir porque meus olhos estão me traindo dessa maneira eu conto para senhora.
A Madre somente sorriu acenando para a loira que se afastava fazendo Henry imitar seus movimentos.
Regina e Emma chegaram em casa nas primeiras horas da noite e foram surpreendidas pela visita dos amigos da loira e de Zelena e Robin tudo na mesma hora. A morena estava certa que todos estavam lá para checar a integridade das duas, e era imensamente grata pela preocupação deles.
Regina se sentia bem. Tirou de suas costas o peso de Emma não saber sobre sua sexualidade e para seu grande alívio a loira não parece se incomodar nem um pouco com sua opção. É claro que nem tudo eram flores, mais uma vez, por medo da rejeição da amiga Regina escondeu seus sentimentos. Estava decidida, Emma era sua família e preferia a ter assim a não tê-la de forma nenhuma. Seguiria em frente.
A morena ouviu uma vez que se você tiver sorte, você vai encontrar o amor da sua vida. Ela sabia que Emma era o dela. Aquele amor lindo que faz você escrever poemas e sinfonias. O amor fogo que queima silenciosamente em seu coração. Mas o que ela aprendeu também a duras penas nesse tempo com a loira é que mesmo encontrando o amor, às vezes parece que ele não quer nos encontrar, e não conseguimos tê-lo ou mantê-lo. É como se os dois andassem em linhas paralelas infinitas sem chances para haver um cruzamento.
Ela aprendeu também que o amor não é tudo que existe. E que não há também um só tipo de amor. O amor que ela sentia por Emma não era capaz de resolver uma diferença irreparável entre as duas; Regina gostava de mulheres e a loira não.
Mas isso não muda a importância que Emma teve na vida de Regina. Tudo o que a havia ensinado. Ela era insubstituível e a morena estava imensamente grata pela oportunidade de tê-la conhecido, pois bem sabia que muitas pessoas passavam a vida inteira sem saber o que era o amor. E ela havia conhecido e tinha sido retribuída, não da forma que gostaria, mas da melhor forma possível. Era isso. O ciclo da vida.
O bate papo rolou por um longo momento, cheio de risadas e provocações. Mais tarde quando Emma foi ao banheiro e Robin e Neal brincavam com o pequeno Roland as meninas se reuniram em torno da morena pedindo desesperadamente que ela narrasse os acontecimentos do dia. De forma resumida Regina contou para elas o que ela e a loira haviam conversado e decidido.
—Está tudo bem entre a gente! – Afirmou.
—Como assim tudo bem? – Perguntou Ruby – Você disse a ela que você a ama?
—Eu não a amo. – Rebateu Regina – Não dessa forma. – Completou e recebeu de volta quatro pares de olhos rolando indignados a deixando chocada.
—O que? – Perguntou Mulan – Isso era para ser supostamente um segredo?
—Sim! – Protestou Regina indignada e veio mais uma rodada de rolar de olhos. – Não. Não sei! Era tão obvio assim? – Todas acenaram para ela com o olhar divertido fazendo Regina esconder o rosto entre as mãos e corando toda sua face até um pouco abaixo do pescoço.
—Então. – Foi a vez de Ana que quase não se continha de tanta curiosidade. Regina não queria falar sobre isso, mas ela dificilmente escaparia, mas poderia enrolar.
—Então o que? – Perguntou como se não soubesse o que Ana estava falando, bebericando um suco já quente que estava em sua frente.
—Regina eu te conheço, para de tentar nos enrolar. – Ralhou Zelena – Desembucha logo. — A morena começou a rir. Não, nem enrolar ela seria capaz.
—Por fim, enquanto caminhávamos para o orfanato Emma me perguntou se eu havia me apaixonado por ela – suas bochechas coraram novamente e as quatro se aproximaram dela como se Regina fosse lhes contar um segredo pecaminoso – e bem, depois de tudo que aconteceu, eu não podia simplesmente dizer para ela que eu a amo. – As meninas se afastaram dela praguejando alto chamando a atenção dos homens para elas.
—O que aconteceu? – Quis saber Robin.
—Assunto de absorvente Robin. – Disse Zelena sem olhar para o marido que fez uma careta e voltou a brincar com o filho.
—Como assim não podia? – Questionou Ruby – Você tinha a obrigação.
—Concordo com Ruby. – Disse Mulan. – E eu raramente concordo com Ruby. – Todas riram.
—Eu disse a ela que não. Que éramos uma família. Como irmãs.
—Céus, vocês são péssimas. – Zelena bateu sua mão no ar mostrando seu descontentamento.
—Se você a ama, por que não disse a ela? – Questionou Ana.
—Porque às vezes, o amor não é tudo. E eu percebi isso. A Emma me ama, mas da forma que ela pode. Ela não gosta de mulheres e pareceu aceitar bem a resposta que eu lhe dei. Eu a amo, e sou grata por poder amar uma pessoa como ela, é bom saber que eu tenho bom gosto. Mas às vezes a maior atitude de amor que podemos ter é simplesmente deixar o outro ir de nós mesmos, outras vezes não temos escolha, e eu não tive outra escolha a não ser deixar Emma ir. Eu aceitei isso.
—Eu não aceito. – Disse Ruby. – Ela ama você também, só não percebe isso.
—Não ama Ruby. – Respondeu Regina cansada.
—Você podia testar essa teoria Regina. – Disse Zelena com aquele sorriso de quem acabou de ter uma ideia brilhante, a morena somente rolou os olhos. Quando a cunhada fazia aquele olhar, coisa boa não poderia vir dali.
—O que quer dizer? — Sua voz soou grave e um pouco aborrecida, na verdade ela não queria saber de coisa alguma, mas Zelena diria de qualquer forma, então tentou parecer interessada.
—Que você devia fazer ciúmes na loira boba. Arranjar alguém bem melosa e esfregar na cara dela para ver se ela fica com ciúmes. – Falou sorrindo como se tivesse tido a ideia do ano.
—Sério Zelena? Você acha que eu tenho 15 anos e estou no ensino médio? Pelo amor de Deus. Eu não farei esse tipo de coisa porque eu tenho senso, juízo e amor próprio. Queria ter um botão para apertar agora para “desouvir” o que você disse. – Parou tomando fôlego — Eu vou seguir em frente e não vou esfregar nada na cara de ninguém. E esse assunto está encerrado. Vocês estão proibidas de falar sobre Emma desse jeito comigo.
—Falando em Emma – Mulan começou e recebeu um olhar cortante de Regina que fez com que a oriental levantasse as mãos para o alto de susto – eu só ia dizer que pra quem foi ao banheiro ela está demorando bastante.
—Verdade. – Concordou Ruby.
As mulheres saíram em direção ao toalete, para implicar com a loira pela demora, mas nem precisaram chegar até lá, pois quando passaram pelo quarto de Emma ela jazia estirada na cama em um sono alto.
—-**--
As semanas seguintes transcorreram com imensa normalidade. O verão veio trazendo dias completamente instáveis. O dia amanhecia insuportavelmente quente, mas no meio dele uma chuva torrencial pegava todos os transeuntes desprevenidos e os encharcava até os ossos só para instantes depois e o céu abrir revelando um sol brilhante e zombeteiro.
Emma, assim com seus amigos havia escolhido um programa no mestrado que não lhes dava férias, por isso estudavam no verão também, e muito. Com a proximidade do fim a loira dobrara os estudos para conseguir uma boa colocação para o doutorado. Ela seria a única a tentar a prova.
Com a grande carga de estudo, as horas revisando os contratos da empresa e as tardes no orfanato Emma quase não tinha tempo de conversar mais com Regina, afinal a morena também estava fazendo muitas horas extras ultimamente.
Naquele dia a loira estava indo para casa mais cedo. Tinha escolhido um filme para assistir com Regina e passara em um supermercado para comprar um vinho e aperitivos de acompanhamento, tudo sugerido pelo Sommelier, estava com saudades da morena e sabia que ela apreciaria um bom vinho depois de mais um dia pesado. As noites assim eram constantes entre as duas que adoravam compartilhar da companhia uma da outra.
Ao chegar em casa encontrou as chaves da morena descansando no aparador. Colocou rapidamente o vinho para gelar, foi tomar um banho rápido antes de voltar preparar todos os aperitivos e deixar o netflix no ponto. Regina estava demorando em seu próprio banho e Emma foi obrigada a tirar o vinho da geladeira o deixando descansar. Encostou a cabeça no sofá e fechou os olhos para esperar.
Quinze minutos depois saltos ecoam pelo corredor e Emma desperta com o barulho. Saltos? A loira se vira em seu lugar somente para se embasbacar com a visão de Regina em um vestido tubinho azul Royal que valorizava cada pedacinho do seu corpo.
—Emma! – Regina exclamou colocando a mão no seu coração. – Você me assustou. – Emma olhava para ela ainda chocada. Você se assustou? Sério mesmo Regina? Você se assustou? Emma pensava antes mesmo de ela perceber que estava pensando, ou pudesse se controlar.
—Desculpe! Não tive a intenção! – Disse sem graça. – Aonde vai?
—Ha... – coçou os cabelos sem graça enquanto chegava mais perto – eu vou... vou em um encontro. – Suas bochechas ficaram coradas.
—Ha...- foi tudo que Emma conseguiu pronunciar.
—O que é isso? — Perguntou Regina reparando na mesa e se aproximando.
—Nada. – Respondeu rápido demais recebendo um arquear de sobrancelhas de Regina. – Eu tinha preparado uma noite de filme para a gente regado a vinho e aperitivos.
—Oh Emma. Eu não sabia... eu... eu posso remarcar o encontro – ela checou o celular olhando as horas – acho que não seria rude.
—Não Regina de maneira nenhuma. – Sua boca disse mesmo que sua mente repetisse cancele! – Aproveite seu encontro. De qualquer forma chamei Neal e as meninas para vir. – Emma não precisava ter dito isso. Mas ela disse. A ideia se formou lá atrás em sua mente e pulou para fora da boca dela sem que desse tempo segurar. Esperou sinceramente que Regina não a pegasse na mentira, e ela não pegou. Afinal Emma colocara diversas taças sobre a mesa que nada tinham a ver com o fato dela chamar mais gente, porque ela não chamou, mas sim com o fato de que cada vez que bebiam um tipo de vinho Regina pegava uma taça diferente, para Emma dava tudo no mesmo, mas para a morena cada tipo de vinho era para ser tomado em um tipo de taça, ela era refinada como lembrara à Emma tantas vezes. Por isso ela colocara tantas na mesa.
Regina recebeu a resposta de Emma como um soco na boca do estomago. Por um momento achou que a loira queria passar um momento com ela, só com ela, e iria mesmo cancelar seu encontro, mas então ela tinha que citar Neal. Mas foi bom ela tê-lo citado, foi uma forma de fazer Regina lembrar que Emma gosta de homens, não de mulheres. Ela te ama como irmã, nada mais que isso. Foco Regina. Foco.
—Certo. – A morena disse escondendo mais uma vez sua decepção com muito sucesso, estava ficando craque nisso. – Ótimo.
—Certo. – Emma disse também. Ficaram um tempo em silencio absortas em seus pensamentos antes de Regina se movimentar em direção a saída.
—Então tchau. – Disse a morena.
—Tchau. Bom encontro.
—Bom filme para vocês. – A loira somente assentiu e ouviu os saltos se distanciarem até não mais ouvi-los.
Emma ficou mais ou menos quinze minutos olhando exatamente para o nada. Depois ela andou de um lado para o outro por mais uns dez minutos. Sua cabeça fervilhava. Parecia que ela tinha duas consciências e elas batalhavam fervorosamente entre elas em um ponto de levar a loira a beira da loucura.
Regina tinha um encontro? Como assim? Por que ela não teria um encontro Emma? Ela tem todo direito. Direito? Ela minha amiga, ela tem que ficar aqui comigo! E porque ela é sua amiga não pode ter uma vida amorosa? Amor? Como assim amor? Era o primeiro encontro certo? Regina não estaria apaixonada por alguém. Eu saberia. E se ela estiver, qual é o seu problema? Você não pode controlar Regina, ela é sua irmã lembra? Você não gosta de mulheres e ela sim. E ela não te ama. Ela te disse isso.
Emma soltou um grito frustrado. Ela só podia estar ficando doida conversando com ela mesma. Encheu uma taça de vinho de uma forma que deixaria Regina muito irritada. Emma não é assim que se toma o vinho. Tem que colocar aos poucos. Bebeu em goles grandes como se não passasse de uma água mineral. Sentiu a acidez descer por sua garganta e parar direto em seu estomago.
—Está vendo Regina? Estou bebendo o vinho em grandes goladas! Cadê você para me repreender? Emma não é assim que bebe vinho, tente ser mais refinda. – A loira dizia tentando imitar a voz da morena.
Ela sentou no sofá e encheu novamente a taça. Só posso estar ficando doida, pensou. Emma tentava pensar coerentemente. Regina tinha todo direito de se encontrar com alguém, e você Emma só está frustrada porque queria passar um tempo com sua amiga e preparou tudo com zelo. Foi só um plano frustrado. Repetia isso como um mantra para que gravasse de uma vez por todas em sua mente.
Ao menos com o álcool correndo pelas veias ela já não ouvia mais as vozes dentro de si brigando. Ela terminou de tomar a garrafa sentada. Depois levantou novamente, o que decididamente fora uma das piores ideias que teve na vida. Com muito esforço jogou toda a comida fora e começou a lavar a louça utilizando de força desnecessária para isso. Lavou tudo. Até as taças limpas, simplesmente para ocupar sua cabeça. Já passava das onze quando se atirou na cama, como estava completamente bêbada dormiu na mesma hora, o que não foi impedimento para seu subconsciente sonhar com um encontro e com uma certa morena.
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