Pra você guardei o amor
20 Capítulo 20
Notas iniciais
O amanhecer do outro dia não foi bem vindo para a loira. Tomar uma garrafa de vinho sozinha e sentada no sofá avançava para primeiro lugar no ranking de decisões erradas tomadas por Emma a um milhão de quilômetros de distancia das outras. Foi uma verdadeira saga para ela sair da cama. Sua cabeça parecia uma escola de samba desfilando pela Sapucaí e a claridade não ajudava em nada atuando como uma navalha que teimava em se enfiar nos seus olhos. Tomou um banho gelado e teve que passar uma dose a mais de maquiagem para esconder as olheiras. Saiu de seu quarto em busca de um café forte, se ressaca pudesse ser uma pessoa, hoje, Emma seria sua melhor personificação.
Encontrou Regina na cozinha, impecável em seu terninho, já lendo seu costumeiro jornal com sua xícara de café preto. Os cabelos milimetricamente arrumados, com a postura de uma dama. Uma ironia, ou uma peça que destino parecia querer pregar. A morena estava simplesmente deslumbrante e Emma piscou várias vezes para entender o que estava se passando com sua mente, seu corpo, sua alma.
Vira Regina da mesma forma pela manhã durante todo ano e meio já passado e nunca tinha reparado nela desse jeito, não com esse efeito surpreendente em seu próprio corpo. Seu estomago parece que pegou o ticket de uma montanha russa desgovernada. A loira se perguntava o que diabos estava acontecendo.
Assim que Regina reparou na presença da loira levantou seu olhar despejando um tímido sorriso de bom dia, um tímido e lindo sorriso. Emma ainda estava em meio a seu transe e demorou a corresponder.
—Bom dia! – Disse a morena no que a loira somente acenou. – Pelo visto a noite foi boa, porque sua maquiagem não conseguiu esconder sua cara de ressaca. – Disse com a voz levemente afetada o que passou despercebido por Emma que batalhava com seus pensamentos e somente soltou um barulho incompreensível enquanto enchia sua xícara com café.
—A sua também deve ter sido já que nem te ouvi chegar. – Respondeu encostando-se à pia e bebericando o elixir que salvaria sua vida matinal. Ela não teria ouvido Regina chegar mesmo se a morena entrasse em casa com uma orquestra de clarinetes desafinados devido ao seu súbito interesse pelo vinho na noite anterior.
—Ha. – Regina balançou a cabeça suspirando como se aquilo fosse uma memória ruim, o que fez o estômago de Emma ganhar vida de novo, mas dessa vez parecia que uma brisa calma havia passado por ele e refletiu em seu sorriso que foi automático e que ela tratou logo de esconder – Charlotte é uma mulher agradável e muito bonita – Emma teve que controlar suas expressões faciais ao ouvir o nome do encontro de Regina, quem diabos chamava Charlotte? Nome ridículo, essa mulher nasceu em 1800? Ela se acha neta da Rainha da Inglaterra? Sério mesmo? Charlotte?! A expressão de Emma era a mais engraçada possível, ao mesmo tempo que ela tentava ouvir Regina, sua mente soltava frases desconexas e sem sentido para a loira. – mas nosso encontro parecia uma reunião executiva, falamos da empresa e dos negócios boa parte do tempo, era como se o restaurante fosse uma extensão mais chique e com boa gastronomia da sala de reuniões. – Regina não olhava para Emma e a loira teve que agradecer aos céus por isso, ela mirava seu café pensativa esperando obviamente um comentário por parte da loira.
_Hu... – Emma era incapaz de dizer algo coerente, mas tinha que tentar – Qu... quer dizer que seu encontro te levou para jantar em um restaurante chique e falou de negócios a noite inteira? – Suas sobrancelhas arquearam em divertimento. – Tsc tsc. Charlotte é uma mulher bem clichê e nada interessante.
—Pois é. O restaurante foi bem clichê mesmo. Acho que eu esperava demais. – Regina balançou a cabeça.
—Já até imagino ela vestida toda fancy, com joias que pagariam todo o meu doutorado dizendo, Regina o mercado imobiliário está uma loucura, devemos ser agressivos, e mordendo seja lá o que vocês comem nesses restaurantes chiques com talheres de prata!! – Ambas riram alto.
—Foi mais ou menos assim. – Regina disse ainda rindo. – Oh céus!
—Restaurante chique e negócios! Nada bom para um primeiro encontro. E pelo amor de Deus, quem em pleno século XXI se cama Charlotte? — Ambas gargalharam a vontade.
Na semana seguinte e na outra depois dessa Regina saiu em outros encontros e sempre que voltava comentava com Emma o sucesso ou o não sucesso das mulheres que decidira conhecer. Eva parecia interessada demais na posição social que Regina ocupava. Candy, revestida de grife da cabeça aos pés parecia ter visitado uma costureira para encurtar suas roupas ao ponto de estar vestida indecentemente para sair na sociedade. Rose lhe trouxe um buquê de rosas e Regina mal conseguiu se concentrar pensando em quão ruim tinha sido a alusão que fazia das flores com o nome da mulher e teve que segurar o riso a noite toda.
—Sério, Regina? Rose lhe trouxe rosas? Sério mesmo? O que está acontecendo com essas mulheres? Rose deveria ficar mais ligada nas coisas. – Emma disse certa manhã enquanto tomavam juntas o desjejum – E mais, você não é mulher de se dar rosas. Obvio demais, comum demais. Mulheres como você merecem flores únicas. Um lírio ou uma orquídea talvez, mas definitivamente não rosas. – A frase saiu da boca da loira antes mesmo que ela tivesse consciência da formação dela em sua cabeça e se arrependeu instantaneamente depois que as disse, pois Regina arqueou as sobrancelhas em confusão e um clima estranho pairou entre elas. Emma se repreendeu mentalmente.
Tudo apontava para o fato de que Regina não estava tendo muito sucesso em seus encontros, cada uma tinha um defeito irreparável para morena, até que veio Kathryn. A loira havia procurado Regina em busca de um bom negócio para a empresa de construção de seu pai, a qual ela gerenciava. O jeito alegre e despojado da mulher encantou Regina de imediato, uma leve sensação de dejavu, tomava conta da morena enquanto estava na companhia da outra. Após uma reunião de duas horas a loira pegou a morena totalmente de surpresa a convidando para sair, após uma breve hesitação Regina havia dito sim.
Para sua surpresa, Kathryn a levou em um bar musical, nada elegante, mas confortável, um dos favoritos que ela e Emma frequentavam juntas. Conversaram durante muito tempo, descobrindo algumas coisas em comum. A noite havia sido completamente agradável para ambas, e pela primeira vez, desde que Regina havia se dado a chance de conhecer alguém de novo ela queria ir a um segundo encontro com a mesma pessoa.
Regina realmente estava curtindo a companhia da mulher e todos os encontros eram regados a risos, conversas leves e beijos maravilhosos. Mas por que ela simplesmente não conseguia ainda falar com Emma sobre Kathryn? A morena não sabia. Emma andava distante, falava cosas sem sentido e parecia se arrepender instantes depois. Era como se a loura estivesse andando em ovos quando a morena estava por perto.
Emma, obviamente, estranhara o fato de Regina não ter feito nenhum comentário no outro dia, ter saído novamente e nenhum comentário de novo e continuar assim por três semanas seguidas. Ela não perguntava e evitava a morena como uma praga já que ultimamente sua mente e sua boca estavam em uma conspiração contra ela mesma, e ela fazia um esforço enorme se policiando perto da amiga.
Faltava menos de dois meses para a prova do doutorado e aproximadamente quatro para a vida de Emma ser decidida mais uma vez. Já passava da metade do ano e a loira refletia o quão rápido o tempo estava passando enquanto tentava inutilmente se concentrar na leitura de seu grosso livro. Não ouviu a porta da frente bater e nem viu uma morena encostar nela suspirando e mordendo o lábio inferior. Foi só quando ela parou ao lado de Emma como uma adolescente que dera seu primeiro beijo atrás do muro da escola que a loira reparou em Regina.
—Hey. – Disse fechando o livro. Regina sorria tímida, mas brilhantemente. – Como foi o dia? – A morena suspirou.
—Foi bom. – Respondeu passando pela frente de Emma e sentando no seu lado no sofá.
—Só bom? – Provocou Emma cutucando a lateral do corpo da morena que começou a se contorcer batendo de leve no antebraço da loira.
—Muito bom. – Regina olhava para frente e mexia a boca, os lábios apertados. – Quero te falar uma coisa. – Bateu seu ombro em Emma que sentiu todo seu corpo entrar em alerta com uma simples e única frase da morena.
—Diga. – Tentou manter a descontração em sua voz.
—Eu acho que... estou... meio que namorando. – Disse sem olhar para a loira, o que ela agradeceu mentalmente, pois sua cara deveria estar expressando o que todo seu corpo sentia nesse momento.
Emma parecia que estava em meio a um ringue de boxe sendo golpeada várias e várias vezes sem pausas. Era por isso que não havia comentários no dia posterior aos encontros. Regina estava gostando deles. E eles eram com a mesma pessoa. Regina estava namorando. Emma não sabia muito bem o que responder, nem se conseguiria formular frases coerentes e conexas e teve que respirar fundo antes de falar vendo uma Regina esfregar as mãos ansiosamente esperando sua manifestação.
—Você está ou não está? Porque não vejo como alguém pode estar meio que alguma coisa. – Emma esfregava uma mão na outra evitando olhar para a morena e pedindo aos céus que sua voz não tivesse saído tão afetada, porque Deus se tinha uma coisa que Emma estava nesse momento era afetada. Não que a loira não desconfiasse que Regina estivesse vendo alguém, mas ter confirmação disso fez com que seu coração praticamente se quebrasse. Ela podia ouvir as batidas reverberando por todo o seu corpo feito um tambor dessincronizado.
Porém, a confirmação de que Regina estava saindo e possivelmente namorando fez além, fez a loira perceber algo que se quer podia admitir para si mesma. E sim, ela quase podia afirmar nesse momento que seu coração parara de bater, e tudo que ela ouvia era o vazio dentro de si. E ele era ensurdecedor.
—Eu estou. – Respondeu a morena com uma risada enquanto a loira queria desaparecer, ser engolida pelo sofá, ou quem saber ser abduzida por alienígenas. – Kathryn está louca para conhecer você.
—Regina, o normal é a pessoa querer conhecer sua família, e não conhecer seus colegas. – Emma não queria conhecer essa tal de Kathryn de maneira nenhuma, se ela mal conseguia se controlar perto de Regina, imagina perto da namorada dela. Mas mesmo assim ela se arrependeu de suas palavras no segundo em que elas saíram de sua boca e só piorou no segundo seguinte.
—Até aonde eu sabia ou pensava você é minha família também. – Regina rebateu chateada. Ela esperava uma reação mais alegre de Emma. Levantou do sofá desfazendo dobras invisíveis de sua saia lápis e Emma, mais uma vez, se repreendeu mentalmente lembrando a si mesma que era a felicidade de Regina ali. Que apesar de suas dúvidas e súbitas loucuras, a morena estava feliz e dividindo a felicidade dela com que quem ela considerava importante. A loira queria dar uma de Dobby, o elfo mau e bater sua cabeça no móvel repetindo “Emma má”, “Emma má”, “Emma má”.
Por um segundo, e somente por um segundo Regina pensou que Emma poderia estar com ciúmes dela, e aquela velha conversa com Zelena lhe veio a mente. Mas com a mesma rapidez que esse sentimento veio ele se foi ao sentir seu antebraço ser segurado pela amiga e virar para encarar os olhos da loira.
—Hey, desculpa estranha. É caro que somos uma família e é claro que eu vou conhecer sua namorada. Estou feliz por você, só estou um pouco cansada. – Sorriu ao terminar seu pequeno discurso abraçando a morena logo em seguida depositando um beijo no topo de sua cabeça, e então sentiu aquele cheiro peculiar que só Regina tinha percebendo que, se pudesse, o sentiria para sempre. Pela primeira vez sua mente parecia trabalhar a seu favor a informando que precisava sair dali urgentemente. – Se importaria se eu fosse deitar um pouco? Minha cabeça parece um carro alegórico. – Regina sorriu contra seu peito negando com a cabeça. Ambas se separaram e Emma caminhou para seu quarto, a loira poda jurar que ouvia uma certa marcha fúnebre enquanto caminhava sentindo o olhar de Regina pesar em suas costas.
Quando chegou a seu quarto fechou a porta e encostou-se a ela, todo seu corpo tremia enquanto as verdades a atingiam como lanças afiadas espalhando seu veneno por sua corrente sanguínea. A mágoa por Regina nunca ter contado sua opção sexual não era exatamente uma mágoa, era o caminho livre para o que habitava o coração de Emma há muito tempo e a assustava demasiadamente. Os tremores quando a morena estava por perto. Os sorrisos. O carinho. Aquela dor aguda no estômago como se milhões de borboletas fizessem morada por lá. Ela estava compreendendo tudo.
Enquanto as pernas de Emma cediam a seu peso e suas costas raspavam pela madeira da porta até que se sentasse no chão ela arregalou os olhos quando constatou que estava irremediável e irrevogavelmente apaixonada por Regina, e pelo que parecia ela estava atrasada para isso.
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