Príncipe Encantado
1 Meu conto de fadas (FAIL)
Notas iniciais
Fazia uns dois anos que eu só vestia preto. E nem era por querer ser gótica ou coisa assim, é porque eu estou de luto. Faz dois anos que eu moro com minha madrinha, a Lethícia, que faz tudo pra me deixar animada, mas seus esforços são em vão. Olá, meu nome é Kate e a história da minha vida é bem triste.
Há 6 anos, quando eu tinha 10, eu tinha acabado de voltar da aula de canto, quando percebi que o clima estava meio estranho. Era pro meu pai estar em casa, mas o silêncio dominava o lugar. Minha mãe estava viajando, e voltaria só no dia seguinte. Eu subi pro meu quarto, na época cor de rosa e cheio de luzinhas e fotos da minha família e amigos. Deitei na minha cama digna de princesa e comecei a ler meu conto predileto: Pele de Asno. Eu adorava o final da história, e desejava encontrar meu príncipe encantado, assim como a princesa do conto.
Foi aí que tudo começou. Eu ouvi barulhos na porta, e então a voz linda que minha mãe tinha, cantarolando. E depois, ouvi uma voz de mulher muito esganiçada falando algo que eu não entendi direito por estar no segundo andar. Mas logo minha mãe começou a gritar, e eu fui até a escada pra ver o que estava acontecendo.
Lá embaixo estava uma mulher loira muito magra, segurando uma menina que aparentava ter a minha idade, ruiva como eu e tinha até uma certa semelhança com meu pai... mas, como aquilo poderia ser verdade?
oi então que uma discussão que durou três dias se iniciou na minha casa, porque aquela menina era inegavelmente filha do mesmo homem que eu chamava de "papai". A mulher magérrima reivindicava o direito de morar na nossa casa, pois não se contentava com a pensão quase milionária que meu pai supostamente deveria pagar, minha mãe não aceitava a traição e meu pai apenas chorava de raiva.
Acabou com aquela menina (que depois descobri se chamar Isabelle) indo morar com a gente, junto com a mãe dela, a minha mãe indo pra bem longe do país seguir com a carreira de cantora dela e eu ficar no meio de uma briga judicial épica pela minha guarda. Meu pai não queria que eu fosse com minha mãe pra longe dele, e minha mãe não queria que eu crescesse com aquela "piranha de roupa de marca" e a filhinha dela. Foi assim que eu fui parar na casa da minha tia, no Rio de Janeiro, junto com minha irmã mais velha, a Alice, que na época já tinha 17, e tinha ido pro Rio pra seguir o sonho de ser cantora assim como minha mãe.
O único problema era que, esse ano, em vez de eu esperar a visita do meu pai, eu tinha que voltar pra São Paulo e ficar lá com ele até o final das férias...
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— Katherinne! Já arrumou as malas? Seu pai está quase chegando, querida! — Ouvi os berros da Lethícia, que há 2 semanas já estava reclamando de saudades.
— Já sim, madrinha! Onde tá o meu celular? — Perguntei, terminando de calçar o coturno às pressas.
— Eu acho que está na sala. Ai, que ideia essa do seu pai, te levar justo esse ano! Eu não sei o que vou fazer aqui nessa cobertura enorme sem você! A Alice foi a primeira a me abandonar! — A Lethícia falou, com lágrimas nos olhos.
— É só um mês! Eu não vou deixar de voltar pra cá, madrinha! E meu pai disse no telefone que era por causa do aniversário de 15 anos ridículo da Isabelle, e eu não poderia faltar! Quem dera eu já tivesse 18! Aí eu nunca mais precisaria nem pisar naquela mansão do terror!
Eu abracei a minha madrinha e dei um tchau, pegando meu celular e minhas malas enquanto meu pai já dava sinal que tinha chegado. Eu fui logo pra fora do prédio e entrei no carro com um pouco de relutância.
— Filhota! Que saudade! Olha o que o papai comprou pra você! Aposto que você vai gostar, considere um presente de aniversário 2! — Ele sorriu, visivelmente alegre, e eu reparei em uma caixa cor de rosa com uma fita azul no banco traseiro. Imediatamente peguei e encontrei lá dentro um vestido daqueles de princesa, com uma saia de tule e frente única, com um degradê que começava em um verde azulado no busto até chegar ao branco completo no final da saia. Eu dei um sorrisinho amarelo pro meu pai e guardei o vestido de novo.
— Quero que você use no aniversário da Belli, tá bom? — Ele disse chamando a garota pelo apelido, que soava como "Belí", enfatizando bem o "i". Eu achava ridículo, mas ok.
— Ah, tinha me esquecido disso... acho que eu tenho tendência a me esquecer de coisas que não me agradam... — Eu disse sem animação nenhuma.
De repente, a expressão do meu pai mudou de felicidade pra "cara de bronca", e começou a repetir o discurso que eu ouvia há 6 longos anos...
— Filha, eu já expliquei pra você meus motivos pra não ter contado pra ninguém! Eu iria me divorciar da sua mãe assim que ela voltasse de viajem! Eu não queria que acontecesse daquele jeito! Mas já foi! — Ele pareceu desesperado. — E, além do mais, a Sabrina quer te conhecer... ela até decorou a casa pra sua chegada... e eu acabei de estragar a surpresa toda. — Ele riu sem graça.
— Já disse que não quero nem contato visual com aquela demônio! — Eu esbravejei.
— Filha, não se comporte como criança! É essa a educação que a Lethícia te dá? Eu sabia que você deveria ter ficado na nossa casa! — Ele gritou, e eu comecei a chorar.
— Você não sabe nada sobre a minha madrinha! Ela pelo menos me ama e pensa em mim antes de fazer uma besteira colossal!! - Eu gritei, o que fez ele gritar mais ainda.
— Com lágrimas descendo dos meus olhos, eu abri a janela do carro e joguei a caixa com o vestido no meio da estrada. Ele olhou pra mim como se fosse me bater, e realmente me deu um tapa. foi então que eu comecei a chorar pra valer enquanto esperneava que não iria pra lugar nenhum, e ele encostava o carro pra pegar a caixa de volta. Enquanto ele corria, eu aproveitei pra fugir, pra bem longe, porque não queria ficar naquela casa de novo. Eu nunca morei e não era agora que eu iria morar com a vadia da Sabrina e a tal de "Belí".
Aproveitei que ainda estávamos na cidade e cortei caminho pra voltar pra minha verdadeira casa, junto da minha madrinha, com minha vida, longe do crápula do meu pai. Só que no meio do caminho o Dylan mandou mensagem.
Dylan:Então você vai embora hoje... que pena que não possa me levar na mala, pra que eu encha a cara daquela doida magrela de porrada! :)
Eu sorri, era por isso que o Dylan era meu melhor amigo. Apesar de ser um pouco nerd e achar que a vida era um conto de fadas, ele me entendia perfeitamente. E me apoiava.
Katherinne: Ah, se você soubesse o que acabou de acontecer... mas não posso falar agora, se não me assaltam! Afinal eu estou no meio da rua e aqui é Brasil, né? ;) Ladrão é população e gente honesta é lenda! Mas já chego em casa, e te respondo, Dy! Te amo ♥
Eu guardei o celular e continuei andando, até ouvir os gritos do meu pai atrás de mim.
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