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12 Capítulo 11 - Nossos Lobos Internos


Notas iniciais
Agradecimento especial à Isabelly Luiza. Este capítulo é pra ti, e por ti. Se não ficou bom, me peça que lhe dedico outro. Obrigada por me fazer feliz em meio à dificuldade que foi receber apenas dois comentários no capítulo anterior que fiz com tanto carinho. Boa leitura!

Melanie PDV

“Blá, blá... Me poupe das suas metáforas. Vai lá e diz a verdade para a imprensa. Marca uma entrevista com eles, ou coloca um vídeo no Youtube, o que seja. Você nos colocou nisso, e agora você tem a obrigação de me tirar dessa.”

“Qual o endereço?”

“Do Youtube? Mas, em que mundo você vive?”

“Não, do lugar que vamos nos encontrar.”

“Inferno!”

“Desculpe, Tutuzinho, mas eu não gosto de calor. Além do mais, para entrar lá, só tendo do seu convite VIP.”

“Ah, é? Vamos ver quando eu te matar se você não desce direto!”

“E você já está morto, Dobrev, e desconfio que foi um suicídio. Isso justifica o tanto de mal que carrega consigo, e que despeja nos outros, para semear a sua desprezível e injustificável existência. Por isso, não me interessa mais me encontrar com você. Deixa pra lá.”

“Não tem o direito de falar assim comigo. Se tem alguém que parece com um cadáver, esse alguém é você. É tão sem graça, que está estampado na sua cara o porquê ninguém te quis. Eu poderia ser flagrado com qualquer mulher e aceitar. Mas, de você, eu tenho vergonha.”

As palavras não conseguiram ser digeridas dessa vez. Elas entraram como uma flecha, mesmo eu estando tão alerta para desviar. Fechei os olhos, e escolhi tirar aquela flecha do peito, usando-a para furar o seu lindo mundinho inflável.

“Eu posso falar como eu quiser com você, não há nada que o faça melhor do que eu. Você adora me criticar sem me conhecer, mas eu critico você exatamente porque o conheci. E, droga, eu adoraria voltar no tempo. Se você achar mulher que te queira por mais de uma noite, conhecendo quem você é, é o dinheiro que ela quer. E é SÓ isso que você tem, porque seus milhões não te acrescentam em nada como pessoa. Eu não tenho vergonha de você, Dobrev, eu tenho pena.”

Desliguei o celular antes que dissesse qualquer coisa. Assisti a Cece me encarar como o esquilo da Era do Gelo diante de uma noz, e revirei os olhos. Ela abriu os braços, e deu uma corridinha até a mim, me apertando. Isso não era típico da Cece.

–Mel... Eu estou tão orgulhosa de você. – ela disse no meu ouvido, enquanto afagava os meus fios bagunçados.

–Por que? – perguntei, um pouco confusa.

–Aquilo doeu até em mim. Você aprendeu a refletir a sua dor, ao invés de refratar. – ela disse, e saí do seu abraço e a vi sorrindo filosoficamente. Eu preferia as metáforas que todos fossem capazes de entender, e não somente o pessoal de Exatas.

–Nerd! – falei baixinho, erguendo as minhas mãos para o ar.

(...)

Durante o resto da noite, fui assolada pela a questão do porquê as pessoas são más, associando isso diretamente ao Dobrev. Admito que não tinha mais o que fazer, porque o sono não vinha. Ter questionamentos filosóficos profundos, era melhor do que viver no mundo da lua, não era?

Pensei em teses. As pessoas são más por causa de uma predisposição? Isso admitiria que eles já nascem com essa semente, e outros não. Mas como são selecionadas as que devem nascer ou não com a semente? Ter essa semente, significa que ela foi herdada de seus pais? Ou elas se tornam? Isso admitiria que elas nascem como uma folha em branco, e que, em algum momento, alguém ou algo, a manchou. Outra ainda admite que temos um lobo bom e um lobo ruim dentro de nós, prevalecendo aquele que alimentamos mais. Levando essa em conta, o Dobrev teria oferecido um banquete para o seu lobo ruim, e deixado o bom morrer de fome dentro de uma jaula, e, se duvidar, o usou para alimentar o outro. Não por um contexto, mas porque ele o quis. As pessoas podem ser más simplesmente por que o querem?

Tentei por minutos responder a minha própria pergunta, enquanto olhava pra o teto branco do quarto da Cece que já havia adormecido na ponta da cama. Ela estava tentando me passar mensagens de autoajuda, que provavelmente pesquisou na internet, e de repente adormeceu. Me perguntei o que aparecia se ela digitasse no Google um: Como ajudar a minha amiga desiludida por um escritor de romance que não tem coração. E acabei me divertindo, imaginando o quanto de resultado aquilo deveria ter. Mas enfim. Ainda tentando responder a minha pergunta, notei que ela tinha a ver com algo que passamos a vida ouvindo, e até com a própria justiça, que divide os homicídios em doloso e culposo. Com e sem intenção. Os dois são praticamente a mesma coisa, mas aquilo que os difere são as circunstâncias. No culposo, nós temos uma circunstância que te leva a matar. No doloso, matar já é a própria circunstância. O tirar a vida do outro não deveria ser feito por pessoas apenas más, independentemente de qualquer coisa? Os momentos nos fazem ter atitudes más, mesmo que o nosso lobo bom prevaleça em nós? Mas o ser mau o tempo todo quer dizer necessariamente que o nosso lobo bom não mais existe? Isso me levou a mais um embate: O do querer versus o do precisar ser mau. Mas o querer não tem nenhuma justificativa a não ser o “porque sim”?

Meu cérebro já estava cheirando a fumaça de tantas dúvidas, então resolvi procurar isso na internet. Peguei o notebook, e digitei a minha tão curiosa busca a fim de entender como funcionava a mente do Dobrev. Surgiram inúmeros artigos de Psicologia, por isso resolvi clicar em muitos e ver de um a um, qual era o que respondia a minha pergunta. O primeiro, falava de psicopatas. Eu não achava que o Dobrev era, — porque a sua maldade se agrupava no patamar que muitas pessoas não consideram violência. Mas aí li o tópico que dizia que eles não tinham noção do que era moral, e que maioria era um psicopata sem saber ou transparecer isso pros outros. Psicopatas que não transpareciam violência. Que bizarro. Fiquei em dúvida, mas sorri, negando com a cabeça. Dentre muitos artigos interessantíssimos, que foram me levando à outros, vi uma coisa que me interessou. Dentro de comportamentos, vi um termo ser citado com frequência: Se chamava condicionamento. Mas que diabo era condicionamento? Hum, aprendizagem. Mas o que isso tinha a ver com pessoas más? Não há como ensinar pessoas más à serem boas de uma hora pra outra, não é mesmo? Fiquei curiosa, e li os experimentos feitos. Dentre eles, foi citado um do filme Laranja Mecânica, em que pegaram um assassino em série que estava na cadeia, e, dentre os passos, colocaram ele em frente a uma tv que só passava cenas violentas. Enquanto ele assistia, com seus olhos pregados para que não piscasse, eram injetados nos seus olhos uma substância que lhe causava enjoo. Ou seja, ele assistia cenas que pra ele eram excitantes, mas era submetido ao enjoo cada vez mais forte, enquanto só olhava para aquela tela. Qual era a pretensão? Ele sentir enjoo, toda vez que tentasse estabelecer algum tipo de violência no futuro. Mas que coisa fantástica. E assim, nenhum dos lobos prevalecia. Qual seria o limite disso? Eu só sabia de uma coisa: Nenhuma coisa de ruim que eu passar na vida alimentará meu lobo mau. Mas se o meu limite for excedido, ele entrará em combate por mais fraco que esteja.

Meu celular tocou, me fazendo quase pular da cama. Mas quem me ligava às 11 da noite? Atendi-o rapidamente, com os olhos ainda focados no artigo. Nunca achara que a mente humana era um interesse para mim, até as presentes circunstâncias.

“Alô... Senhorita Melanie?” – uma voz feminina semelhante à voz que me ligou mais cedo, falou. Ah, não! Era a secretária do Dobrev mais uma vez? Que saco!

“Sim?”

“O senhor Dobrev me pediu para lhe passar o endereço. Ele escolheu um restaurante na interseção das suas cidades, diminuindo as horas de viagem de cada qual, sendo que fica bem mais perto da sua, para facilitar as coisas. Ele pegará um voo para Hover, e se encontrará com a senhorita no restaurante Velmont, amanhã às 7 da noite. Pediu que chegasse antes, para que não fossem vistos juntos.” – Típico. Cidade chique. Restaurante chique. Deboche no final. Frase típica do Dobrev, tirando o “para facilitar as coisas”.

“Bem... Ele mencionou algo sobre o fato de eu ter pedido para ele deixar isso pra lá?” – perguntei, e por uns segundos, o outro lado ficou mudo, como se ela fosse o questionar.

“Ele está pedindo que, por favor, faça essa gentileza.”

Mentirosa. Está moldando o que aquele maldito diz. Manipulável. Provavelmente ela já fez parte da caça dele. Se eu me questionava se aquilo era uma boa ideia? Muitas vezes. Mas, saber que eu era o seu pesadelo particular diante do seu hesitar em me ver novamente, me impulsionava a continuar o jogo.

“Só se for depois de amanhã. No fim de semana.”

“No sábado, então.”

“No mesmo horário.”

“Ok?”

“Ok.”

A culpa é das estrelas? Não. A culpa é de um canalha que se recusou a sair da minha suíte, e fez com que fossemos flagrados, quando na verdade não fizemos nada a não ser enchermos a cara, e... Peraí... Será que o álcool era a substância responsável por deixar o Dobrev sem ser prevalecido por um dos lobos? Que bizarro!

xxx

Pela primeira vez em anos, sentei no meio da sala, não me isolando no local habitual. Por mais que aula estivesse chata, prestei atenção, o que fez o professor ficar me encarando desacreditado mais do que deu a própria aula. O que ele não sabia era que eu não tinha mudado. Eu não dormi essa noite, caí da cama da Cece, bati a cabeça forte e acordei apaixonada por física. Ainda achava o colégio uma perda de tempo para a minha vida futura, e achava que não usaria nenhuma dessas fórmulas malucas para calcular alguma coisa. Até por que, né... Para que andar de trem se eu posso sair dele e ir calcular a dilatação dos trilhos? Tem coisa mais fantástica que isso? Mas se prestar atenção significava me livrar daquilo, aprender algumas coisas, e parar de viver no mundo da lua; então eu queria aquilo. Não só porque meus pais me acham uma inútil, mas porque sei que sou uma, e quero mudar a imagem que eu tenho de mim mesma. Eu sentia o quanto as pessoas achavam aquilo, no mínimo, inesperado, e talvez aquilo me divertisse mais do que inibisse.

Por incrível que pareça, por eu estar prestando atenção, as aulas passaram bem mais rápido que o normal, e eu já caminhava com minha bandeja em mãos, para encontrar a Cece.

–Olá, Mel... – Cece disse, me observando me acomodar na cadeira vermelha de ferro da cantina, com uma bandeja diferente dos dias usuais. Eu havia pego batata frita, hambúrguer e refrigerante, e me sentia ansiosa para devorar tudo, mas a Cece parecia querer conversar.

–Oi. – falei, socando o pão na minha boca em seguida. O Hambúrguer de lá não era dos melhores, conclui quando a massa mastigada desceu pela minha goela.

–Você está... agindo de maneira estranha. – ela disse, me observando, e eu sorri, mesmo estando com o hambúrguer na boca. Deve ter sido algo bizarro de se ver – Você dormiu essa noite?

–Bem, eu só fiz umas pesquisas e recebi um telefonema. Depois fiquei pensando um pouco, mas consegui dormir bem sim. – eu disse, entre mordidas.

–Seus pais? – ela ergueu a sobrancelha.

–Não... A secretária do Dobrev. – eu disse, quase engasgando com o hambúrguer. Coloquei na bandeja enquanto encarava a Cece e comecei a pegar a batata frita.

–Até parece que depois de tudo que ele fez você aceitaria sair com ele. – ela zombou, e eu fiquei instantaneamente sem graça.

–É que... – revirei os olhos – Eu acho que aceitei.

–Como diria o Lauro... MELsoquista. Com o perdão das palavras, mas o cara é um filho da puta. Não teve o suficiente de amostra grátis para notar que o produto não presta?

–Foi algo um tanto... Impulsivo. Eu sei que o produto não presta, mas acho que ele não sabe disso, continua numa prateleira exclusiva. – bufei.

–Acha que vai mudar isso?

–Eu precisaria de mais tempo para condicioná-lo. – ela me encarou, uma interrogação estampada em sua testa franzida. – Condicionamento é aprendizado. É internalizar algo em alguém, fazer com que venha a agir de uma outra maneira a partir de combinações que a façam repulsar seu comportamento anterior. Seria uma coisa legal de fazer, mas não tenho tempo.

–Nerd! – Cece disse, erguendo as mãos para o alto.

(...)

Depois de uma ducha, me joguei na cama de Cece ao ouvir meu celular vibrando loucamente. O peguei, e rolei pela cama tentando apertar o botão de atender. Talvez eu tivesse algum problema mental por demorar tanto tempo só pra isso. Pesquisaria sobre isso depois.

“Melzinha?” – Laurete cumprimentou-me, como sempre empolgado – “Como está?”

Eu já sabia bem qual era o principal motivo da ligação. Alguém estava salivando pela fofoca mais quente da semana. De quente, naquilo, eu só via a mente do Dobrev em relação à toda essa confusão.

“Estou bem, e tu?” – o risinho do outro lado confirmava que sim. Ele sempre estava feliz, gostaria de ser como ele.

“Me conta T-U-D-O dessa noite bafo que você passou, não me esconda nada.”

“Ok. Foi uma noite em que o céu estava escuro, tinha estrelas no céu, e, adivinha... Nós não dormimos.”

“A cama que vocês dormiram tinha pétalas de rosas? Você sabe, né, românticos tem essa mania. Aquilo só serve para me fazer espirrar.”

“Mas não dormimos.”

“Ela tinha aquele mecanismo de ficar tremendo, que nem em motéis?”

“Nós não...”

“Ele te ofereceu champanhe pelo menos antes de se lambuzar no Mel? Foi com carinho?”

“Nós não dormimos, Laurete. Ele é um mau caráter.”

“Ah, então ele foi agressivo? Mas que filho da mãe. Escuta, você não é a boneca inflável que se sentiu naquela noite, Mel. Você é mais que isso, e terá homens que irão te furar com amor e dignidade.”

Como eu diria de uma forma que ele entendesse?

“Ele é um bofe inflado do castelinho de ouro.”

“Misericórdia! Um bofe tão bonito daquele e tão desprazeroso de conhecer. Fez bem em não deixar, Mel. Tu és uma gata e tenho certeza que não foi por falta de tentativa. Deixou alguma marca física pra ele nunca esquecer?”

“Ele não vai esquecer, Laurete. Porque agora estamos em manchete por todo o país e fora dele. Ele tá desesperado para que eu apague essa fama... Marquei um jantar.”

“Vai jantar com ele? Dessa vez deixa uma lembrancinha modesta, Mel... Um arranhão, uma mordida, um alucinógeno no vinho, um veneno na comidinha de realeza, um sequestro...”

“Sequestrar o Dobrev seria como sequestrar a paz que me resta. Ninguém pagaria a fiança.” – brinquei.

“Eles pagariam para você manter ele em cativeiro até o próximo lançamento, risos. Mel, peça das comidas mais caras. E diz pra ele que, já que ele não gosta de mulher de verdade, eu tenho umas migas para apresentar.”

“Você é uma peça, Laurete.”

“E você é o espetáculo inteiro. Não deixe que ele te ponha para baixo nunca, e se ele conseguir, desvie das suas pisadas. Você é incrível, e, minha cara... Neste momento a sua insanidade é a única que vale a pena manter.”

Continua...