Povoando Suas Páginas

13 Capítulo 12 - Ecologicamente normal


Notas iniciais
Não sei se alguém ainda acompanha... Mas se acompanhar: Boa leitura! Fiquei oficialmente de férias da corrida faculdade hoje. Capítulo saiu numa sentada, o que é bizarro, porque não estava muito animada para continuar a história, por motivos que já conhecem. Agradeço a cada uma que está lendo isto, por permanecer lendo isso, mesmo depois de um mês. Espero que seja satisfatório, e me desculpem se houver erros, acabei de escrever (literalmente). Espero que gostem.

Melanie PDV

Bem, talvez eu estivesse um pouco distraída naquela manhã. Isso explica o fato de tentar prestar atenção na aula e ficar imaginando como aquele professor tinha desenvolvido aquela habilidade fantástica de cuspe à distância. Me divertia o fato que naquele horário, os alunos não sentavam à frente. Naquela aula também, ninguém conversava, porque a punição para os que conversavam era a transferência para cadeiras mais à frente, e não preciso explicar porque ninguém queria isso. Toda partícula de saliva dele representava em espécie o assunto que discutia (Ecologia), afinal, quer interação melhor com o meio do que cuspindo nele? Deve haver algum lance de marcação de território. Fico pensando como ele diz “eu te amo” para a namorada, e se eu fosse escrota como o Laurete, diria que é a única maneira dele deixa-la molhadinha. Bem, eu não sei bem se ela existe. Mas se existe, tem um gosto peculiar, e gosta dele assim como ele é. Deve ser legal saber que as pessoas não se aproximam por interesse. Espero que ele não tenha HIV. Ele a espalharia pelo mundo. Imagino como serão os seus momentos solitários em que não pode abrir a boca para fazer aquilo que lhe dá o sentido de existência; cuspir. Imagino-o, com sua pança colossal, tentando fazer posição fetal para lamentar sua liberdade privada em certos momentos. Pensei também que, para lavar uma rampa, só precisa tê-lo como instrumento. É só chutá-lo, e ele desce rolando lavando por onde passa. Nossa, já falei como estou distraída essa manhã? E, surpreendentemente, não é pensando em que roupa vou usar para encontrar o poço de ignorância, porque, acredite: Eu não almejo mais ser a Samara desse poço. Estou mais preocupada com reflexões sobre o meu ilustre professor, minha família, e claro, o fato de termos 8 azulejos na vertical e 40 na horizontal nesta sala.

Após mais 48 minutos falando de como podemos cuidar do nosso planeta, coisas do tipo básico que não deveriam ter necessidade de se discutir numa sala de aula, mas infelizmente é porque as pessoas são babacas, e depois ouvir os alunos se esnobando porque não jogam lixo do vidro do carro, o que não é mais que a obrigação de cada um, a aula enfim acabou. E dela apenas concluí que talvez o mundo seja uma festa para alguns, uma festa incrível em que rola todos os tipos de bebida à solta, e que podem fazer o que quiser e sujar o ambiente do jeito que podem. Mas o gelo está acabando. E a consequência é que terá que andar sobre o seu próprio vômito. Realista demais? Talvez.

Ansiosa para enfim sair da sala, peguei minha mochila para guardar minhas coisas, mas infelizmente o meu estojo decidiu que estava atraído pelo chão.

“Ele parece grande, brilhante. Mas ele é sujo como o Dobrev. Pisar é a atitude correta, não se esfregar nele.” – aconselhei o meu estojo, me achando a garota mais idiota do mundo.

Alguém parou diante de mim, e começou a catar as minhas várias canetas que falhavam em sua maioria, do chão. As canetas que falham fazem parte de uma metáfora inteligente, e não tem nada a ver com minha preguiça. Enfim olhei de relance pra quem fizera a gentileza. Olha, era um garoto. Uma espécie que não quero interagir no momento. Enquanto agradecia rapidamente, dele só reparei os cabelos negros que tinham um corte legal. Uma única característica em meio a tantas outras que deveriam existir. Nossa, Melanie, você tem certeza que não é lésbica? Sabe quantas pessoas conhecem o amor da sua vida num ato desastroso, seguido de uma gentileza que os faz bater a cabeça um no outro, sorrirem, e olharem no fundo dos olhos um do outro e se apaixonarem? Sim, é só contar quantos filmes têm temática adolescente colegial, porque isso é um clichê. Voltando ao fator que me faria entrar numa crise de sexualidade aos 19 anos: A pessoa que seria o amor da minha vida se eu tivesse vivendo um clichê tinha cabelos pretos. Não acredito ainda que só reparei isso. Peraí... Eu acho que acabei de entender uma partezinha da mente do Dobrev. – Não que aquilo fosse um hobby pra mim, fala sério, eu tenho mais o que fazer! Quando bebemos, ele me contou um pouco sobre uma loira, e a ela só se referia assim. Por vezes, me chamava de algo que refletia a cor dos meus cabelos. Essa era a característica que ele se detinha, claro que ao corpo também, mas me refiro a isso como fator principal, como o que ele guarda de cada uma. No dia seguinte, a mulher com que passou a noite pode passar por ele que ele talvez não a reconheça. Ele reduz as mulheres numa característica. Por isso ele não se apegava, porque de todas as mulheres que pegava, ele só notava a cor dos cabelos. E, droga, admitir aquilo não fazia muito sentido, mas eu tive a capacidade de fazê-lo olhar nos meus olhos. Desde quando surtei naquela noite. De modo que ele me reconheceu mais tarde no hotel. O meu rosto está guardado em sua memória tão vazia e solitária. Ok, isso não é nada demais. Mas isso é algo. Quem sabe se não sou o seu próprio condicionamento? Ok, Melanie, você está definitivamente viajando. Essas perguntas sem respostas não vão te servir. Continuar o irritando, por outro lado, vai servir para que tenha paz de espírito. Ué, pra que lado fica mesmo a cantina?

xxx

–MEL! – Cece gritou, e me assustei, e só por isso tirei a tela do meu notebook de foco. Hoje eu realmente estava num caso sério, nem um gorila andando de monociclo chamaria minha atenção. Hoje eu estava me ocupando em pesquisar coisas filosóficas, aproveitando a minha tarefa de filosofia que era elaborar um texto dissertativo sobre: “nascemos com conhecimento ou somos uma folha de papel em branco?”. Talvez eu pesquisaria aquilo mesmo sem ter sido requisitado, porque aquilo era mais legal que ficar pensando como encararia os meus pais quando infelizmente tivesse que voltar pra casa. A notícia boa era que a mãe da Cece ainda estaria fora por semanas. E à respeito, não somos uma folha em branco. É como se já nascêssemos com pré-rabiscos. Temos a decisão de a completar de acordo com as experiências que passamos. O que acontece é que, na maioria das vezes, a completamos de maneira burra, rasurando tantos papeis e buscando tantos outros, que quando vimos os nossos papeis já acabaram e estamos numa UTI, com a vida por um fio, mantidos por equipamentos, esperando que pelos menos chorem por sua morte. Porém quem tem a desenvoltura para completar aquilo de maneira inteligente, consegue contornar suas próprias rasuras, e antes de suas folhas acabarem, já sentem que todas as outras valeram a pena. Infelizmente, eu ainda me via no primeiro grupo de pessoas. Vi os dedos da Cece estalando ritmadamente na minha cara, e só assim percebi que agora estava focando na parede. Nossa, que lindos traços de tinta. Será que foi pintado por alguém especializado, ou apenas jogaram o balde todo na parede e fizeram os retoques? Para mim, a segunda forma era mais viável. – Ok! Já entendi, você não quer prestar atenção em mim. Eu sou o estímulo do ambiente que sua atenção considera irrelevante.

Esse deve ser o drama mais nerd da face da Terra.

–Não é por querer. – me defendi.

–Mel... Não me faça achar que arrumou uma maneira mais discreta, e estranha, de sofrer. Sabe, a vida continua. E eu não sou a pessoa mais indicada para dizer, mas existem paisagens que não são espinhosas se chegar perto. – ela disse, o olhar um tanto preocupado, mesmo assim ri e neguei com a cabeça. – Talvez devesse repensar sobre o fato de reencontrar o Dobrev.

–Não. – eu disse, sorrindo. Nem eu mesma compreendia porque insistia tanto nisso. Quero dizer, no fundo eu entendia que isso seria uma satisfação ou uma paz pra mim, mas e depois? O depois era assustadoramente incerto.

–Ok, você que sabe. Bem, seus pais ligaram. – ela disse, bloqueando a minha reflexão sobre meu futuro, e eu fiz uma cara de “sério que atrapalhou a minha viagem na maionese pra isso?”.

–Tá. – voltei a olhar pro meu notebook, tentando lembrar o que anteriormente estava fazendo. Tinha no mínimo umas 20 abas abertas e não tinha nem mais noção do que fazia em cada uma delas.

–Eles disseram que chegaram uma encomenda em seu nome hoje. – ela continuou, e a palavra encomenda despertou minha atenção. Eu nunca recebi uma encomenda em meu nome, será que é algum processo Dobreviano por danos morais?

–Deve ser engano. – concluí.

–Não... Tem mesmo o seu nome. Fizeram questão de dizer que não violaram porque “apesar de tudo, respeitam e estimulam a sua conquista de privacidade, porque com privacidade vem também a responsabilidade, e com ela a independência”, bem, não sei o que isso tem a ver com uma simples encomenda, mas só estou dando o recado. – Bufei com a frase, erguendo as mãos pra cima, numa falsa empolgação.

–Eu não planejo voltar para casa ainda. Não é bom estar num ambiente em que só tem as pessoas que supostamente te amam, e elas não acreditam e não te acham digna desse amor. – falei, sem pensar. Não queria falar babaquices e coisas deprimidas, até porque eu nunca fui um orgulho de filha, então não é algo tão novo pra mim. Talvez a responsável por meus pais não vacilarem mais com a prevenção. Se eu tivesse um irmão, provavelmente teria mais sofrimento psíquico que o atual. Enfim, eu realmente só queria voltar naquela casa tendo um algo a mais só para que gostassem mais de mim.

–Mel... Eu posso ir com você. Só vamos buscar o que quer que seja, você aproveita para pegar mais roupas e coisas suas, já que vai passar um tempo comigo, e então nós voltamos. E então pode continuar procurando a essência da vida, coisa que eu acho que só aprenderá vivendo. – ela disse, o olhar terno como se pedisse que eu fizesse isso por mim. Aquela encomenda deveria ser uma desculpa. Meus pais queriam me ver, queriam dizer tudo aquilo que ficou entalado nas suas gargantas enquanto eu batia a porta do meu quarto para não ouvir mais uma palavra. E eu, bem, teria que ouvir só porque ela fazia aquele maldito olhar que me despertava uma vontade muito estranha. Deve ser feitiço.

(...)

Ao entrar na casa dos meus pais, vi somente a minha mãe, sentada no sofá, assistindo um programa de culinária. Tsc... E ainda ousa dizer que eu não tenho perspectiva do futuro. Qual a dela? Cozinhar para a família até o dia em que ficar caquética e não conseguir limpar a própria bunda?

Não fiz o estilo rebelde, antes mesmo que a Cece pudesse me repreender, eu disse um sonoro “Boa tarde, mãe”, que alternou sua atenção para mim com uma ruga na testa. Ela não se mexeu, apenas balançou a cabeça, e apontou para mesa de canto onde tinha uma caixa relativamente grande. Nenhuma informação do que tinha dentro. Lutei contra a vontade idiota de sacudir para prever o que continha como uma criança no natal. Depois da Cece cumprimentar minha mãe, subimos para que eu pudesse pegar umas coisas minhas. Isso era bom, visto que naquele dia tudo que eu tinha pego era um pijama, uma calça jeans e uma blusa que usava para dormir, e por sinal usei para ir para escola. Era uma regata meio furada, mas discretamente. Quando eu via que alguém reparava, fazia uma cara de “não tenho culpa de não ter uma roupa nova para cada dia, portanto as uso até rasgar e além disso”. Deixei que a Cece pegasse umas roupas porque não estava muito a fim. Quando ela terminou, apenas acrescentei uma calça com detalhes de rasgos que achei no fundo do armário, e uma regata preta. Não sei bem porque fiz isso. Mas foi só no caso da Cece ter colocado roupas que não gostarei de usar. Logo após isso, comecei a rasgar para abrir o pacote. Desejava bem lá no fundo que não fosse uma revista. Talvez Laurete tenha mandado algo.

Olhei com uma cara de surpresa cinematográfica ao observar o vestido vermelho à minha frente. A Cece também parecia surpresa, enquanto pegava o cartão que o acompanhava.

–Ok, quem me mandou isso, e onde se encontra o resto do pano? Espero que tenha essas informações no cartão. – eu disse, observando o vestido vermelho curto prensado.

–Eu juro que já vi uma famosa usando esse vestido no tapete vermelho. – Cece disse, ainda boquiaberta.

–Já eu acho que ele foi feito com o próprio tapete vermelho, mas ninguém percebeu, porque o pedaço tirado foi desprezível. – zombei, colocando-o novamente na caixa.

–Deve ter custado caro. – ela disse, tocando o tecido com a ponta dos dedos.

–Hm.

Ao perceber que não dei atenção, ela voltou os seus olhos ao cartão. Observei o seu levantar de sobrancelhas.

–Foi o Dobrev que mandou, e no cartão fala que é um presente para que use no jantar amanhã. – ela disse, não parecendo acreditar nas próprias palavras. Eu apenas ri, ri imaginando a cena dele mandando a secretária comprar às pressas um vestido numa loja de grife. Ri, por imaginar que ele me queria vestida ao seu modo para não passar vergonha. Ri, pelo quanto ele pagou para que isso chegasse tão rápido. E ri por ele ter o cu tão cheio de dinheiro que não se importa em gastá-lo. Por fim ri do fato dele pensar que eu gostaria de ir à sua maneira. – Eu posso marcar um horário pra você amanhã à tarde no salão, fica perto de onde moro. Porque eu acho que o Laurete não tem folga, senão ele faria questão de vir e te deixar uma diva.

(...)

Estacionei meu carro, encarando o restaurante que mais parecia uma mansão à minha frente. Eu havia chegado exatamente na hora que marcamos, ignorando o fato que ele queria que eu chegasse mais cedo. Desci do meu carro, colocando uma perna coberta por meu jeans rasgado propositalmente para fora, e sorri, olhando a minha roupa. Eu estava usando justamente aquele conjunto que peguei em casa. A regata preta, a calça rasgada, que só passava um pouco de ar rebelde, se enquadrando mais no simples. Nos pés, usava uma sapatilha preta que havia pego da Cece. Mas e o vestido? Sim, ouvi essa pergunta inúmeras vezes da Cece. A minha descrição do look deveria ser um vestido carérrimo vermelho que me deixaria infinitamente elegante, marcaria minha cintura e destacaria curvas, e um sapato tão fino que não conseguiria andar meio metro sem ficar presa na própria calçada. Com uma maquiagem que levaria uma década para fazer só a parte dos olhos. Nada parecido com o meu rosto com apenas um brilho labial que Cece praticamente enfiou na minha boca, e meu cabelo solto sem penteado especial. Eu apenas não queria me vestir daquele jeito para agradar ele, pra poder sentar junto a ele, pra trocarmos desprezo e depois seguirmos nossos caminhos. Aquele ambiente não havia sido arquitetado pra mim, portanto eu não tinha que me adequar aos seus caprichos. Não era porque eu era da espécie feminina, que eu tinha que ser igual. Queria me vestir como uma garota normal, dentro dos meus conceitos de normalidade. Bati a porta do carro. Caminhei em direção a porta, mas ao invés de entrar, olhei para o vidro que cercava a maior parte do ambiente, os meus olhos percorrendo-o por inteiro até encontrar um Dobrev elegante em trajes sociais. Tinha uma taça em mãos, e olhava no relógio meio impaciente, enquanto ao mesmo tempo arqueava descaradamente a sobrancelha para a moça que estava à sua frente, num vestido preto brilhante, com seu acompanhante ao lado. O desrespeito não se restringe à classes e aparências. Que canalha.

Adentrei o restaurante, tendo um pouco de dificuldade para abrir a porta até notar que era automatizada. Não me preocupei em capturar todos os olhares ruborizados que deveriam estar me rotulando de tantas coisas que mal podia reunir num só pensamento. Observei-o, vendo-o fazer o líquido dançar em sua taça, e logo após olhou pra mim, que já estava perto da mesa.

Era como se eu pudesse ouvir o que estava pensando, ele me olhou como se eu fosse um lixo. Ao me sentar na mesa, sorri para a garota que ele anteriormente paquerava, ignorando o seu olhar estranho sobre mim. Peguei um pãozinho, socando na boca. Eu podia sentir no ar o quanto estava bravo com a situação.

–Mas que porra, sua pirralha! Por que está vestida assim? Gosta de chamar atenção, sua imbecil? Sabe quanto custou aquela merda daquele vestido?

–Sabe a porta? Ela é automática. Isso significa que nem precisa de um escravo que a abra. Você chega perto dela, ela abre. Você sai, vai embora. E sabe o que faz lá fora? Se fode junto com a sua imagem de merda.

Continua...

Notas finais
Obrigada por quem continua comentando e faz com que eu hesite em desistir.