Porque amo pessoas e não gêneros!
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Uma semana já tinha se passado desde o meu “incidente” que envolvia a minha expulsão de casa, eu já estava um pouco melhor, ainda que me movesse de forma letárgica e sentisse dores, meus hematomas estavam prestes a sumir, assumindo cores variadas entre azul, e amarelo.
Eu era bem aceita no meio das mulheres da casa, ajudando nos pouquíssimos afazeres que era capaz de realizar e estes eram ínfimos graças a meu pulso torcido.
—Ethan! -uma das meninas da casa entrou no quarto onde eu estava pondo algumas flores em um vaso.
Aileen Siasat era a garota mais nova com seus recém completados 20 anos, e era a única que ainda se confundia com a maneira de me chamar, oras chamava-ve de Ethan e outras de Bella
—Oi! -respondi lhe lançando só um pequeno repuxar de meus lábios que ainda não cicatrizado completamente ainda doíam um pouco.
— Bonnie e a Olímpia está procurando por você — informou
Franzi o cenho, Olímpia a dona do prostíbulo era uma mulher terrível, e má humorada que mal aguentava a presença da própria sombra, e preferia ficar sozinha na grande parte do tempo, então era estranho que ela estivesse procurando por alguém, principalmente por mim
—Você pode... -falei fazendo um gesto para as flores que ainda estavam em meus braços
—
—
— Olá — falei entrando no pequeno escritório, Bonnie me lançou um olhar, depois de bater e escutar a resposta positiva para que eu entrasse
Bonnie e Olivia estavam sentadas no pequeno sofá de couro preto no canto do escritório.
O espaço do meio estava vago e elas me encaravam com pesar
—Sente-se aqui Bella —
Reprimi uma careta quando Olímpia pediu batendo no espaço no meio, entre elas
Olímpia nunca me chamava de Bella apenas de Isabella ou só de “Swan”
Me sentei um pouco desconfortável, pressentindo que havia algo de bem errado no ar
—Você sabe que eu estimo muito você não é? — indagou segurando minha mão entre a suas
—Mas é muito triste eu ter de lhe dizer que não podemos, mas lhe manter a… —
—Você está me pondo para fora? -perguntei em um engasgo, a encarando com os olhos arregalados e magoados
—Não é isso -
—Não? É exatamente o que está fazendo -
— Bella. -Bonnie me chamou virando meu rosto levemente em sua direção
—Nós gostamos muito de você, não queríamos estar fazendo isso, mas é pela sua segurança e pela nossa também! -disse
A olhei confusa enquanto repetia
— Segurança? -ela assentiu com pesar
—Ao que parece, seus vizinhos ouviram toda a confusão, e te viram correr com você sabe, a peruca -
informou dando de ombros
—Seus pais não falam absolutamente nada sobre você, nem uma palavra sobre onde você está, e Alice também não sai de casa a uma semana, tem um burburinho na cidade de seus pais terem te expulsado por você ser gay, e além de tudo isso. Os “machões”, os monstros que machucaram aquele pobre menino Snow já estão fazendo juras do que farão com você se te encontrarem. -
Parei por um longo momento absorvendo tudo que ela havia dito
—Se eles encontrarem você aqui, nós não vamos poder te defender e nos defender Bella — murmurou segurando minha mão
— E pra onde eu vou? Eu não tenho ninguém, nem mesmo meus documentos — falei encarando o nada
—Bom… Isso não é bem verdade! — Bonnie exclamou com a voz um pouco mais animada.
Agarrando uma pequena caixinha que eu não havia visto ao seu lado, senti meu coração disparar quando reconheci a pequena caixa de metal.
—Eu estive em sua casa hoje, quando seus pais saíram. -
comentou me entregando
—Alice está de castigo, nós conversamos um pouco pela pequena abertura da porta, você sabe por onde os carteiros põem as cartas. -
—Ela está bem? -indaguei em um tom alarmado recordando que uma das minhas últimas lembranças com Alice, havia sido dela sobre o ombro de nosso pai estapeando qualquer lugar que pudesse alcançar.
—Sim, eles não fizeram nada com ela além de a por de castigo —
tranquilizou-me
Dentro da pequena caixa havia todos os meus documentos e uma foto de quando Alice me maquiou pela primeira vez.
Eu parecia uma palhaça com as sombras azuis berrantes até a parte de baixo da sobrancelha, um batom vermelho vivo e um colorete rosa tão forte que parecia que eu havia acabado de me estapear.
Alice sorria docemente para a câmera enquanto eu estava envergonhada com um sorriso de velho, lábios comprimidos e maus repuxados em Um sorriso.
Sorri passando o dedo pela imagem, Alice era uma das pessoas mais incríveis que eu conhecia no mundo.
— Ela me pediu pra lhe dizer, que ela sente muito -
Balancei a cabeça negativamente, porque Alice sentiria muito?
Ela não tinha culpa de nada, nem por eu ser como era e nem por nossos pais serem tão ignorantes.
—Quando eu vou ter que ir? -
perguntei desanimada, já sabendo que uma vez mais eu teria de me esconder sobre a proteção que Ethan era
—Depois de amanhã pela manhã, se eles estão mesmo atrás de você provavelmente estão vasculhando a cidade e nós não queremos que eles cheguem até aqui ou que encontre você na rua -
Olímpia respondeu eu a olhei um pouco envergonhada
—Sinto muito se fui muito ríspida — pedi
Ela apenas deu um sorriso conhecedor e fez um gesto com a mão, como se aquilo não significasse nada.
—
—
—
Observei o prédio com um pouco de receio, ele era pequeno e estreito, além de parecer muito mofado.
Bonnie e eu tínhamos saído nas primeiras horas da manhã para percorremos os 90km que separavam Forks de Port Tangeles sem sermos vistas.
Ela havia me trazido para uma pequena pensão em um bairro pobre, algo por a dona do lugar ser alguém de confiança de Olímpia.
— Eu sinto muito por tudo isso Bella — murmurou
Trazendo minha atenção de volta para ela, eu sinceramente não aguentava mais as pessoas que viviam dizendo que sentiam muito, não queria que ninguém sentisse pena de mim.
Franzi os lábios mas não lhe disse nada
— Aqui — disse abrindo o porta luvas do carro
— Não!- exclamei quando a vi tirar um maço de notas de lá
Balancei minha cabeça negativamente
— Você precisa! -
— Eu não posso aceitar!-
—Bella, você tem 16 anos e foi expulsa de casa, tem um monte de idiotas na sua cola e você está em uma cidade onde não conhece nada nem ninguém! Como você pensa que vai se manter? -
— Eu vou... encontrar um jeito-
— Mas até lá você precisa pagar o quarto que vai dormir e o prato que você vai comer! Você vai aceitar sim! Pegue Isabella! — ordenou pondo o maço de dinheiro praticamente no meu rosto
—Bonnie... -
—Pegue! — eu não fiz nenhum movimento e ela bufou irritada agarrando a pequena mochila que havia sido preenchida com roupas que alguns dos clientes do prostibulo esqueciam por lá, e enfiou o maço entre elas.
— Eu queria poder fazer mais por você Bella, mas se é só isso o que está ao meu alcance, não rechasse -
— Não há muito aí, só algo em torno de três mil dólares -
Eu a encarei incrédula
"só três mil dólares"
e desde quando isso era pouco? Ela estava louca?
— você merece muito mais que isso, e pra mim sim! Isto é uma quantia ínfima! — falou, provavelmente lendo minha expressão
— Eu queria poder entrar com você, mas não posso — mordeu os lábios
— Não tem problema Bonnie, você já fez muito por mim e nem que eu pudesse realizar todos os seus desejos e sonhos, não seriam o suficiente para recompensar tudo o que você fez -
desabafei com uma mão sobre a maçaneta da porta e pondo a mochila por sobre o meu ombro com a outra.
Assim que a mochila já estava posta, peguei delicadamente uma das mãos de Bonnie e beijei
— Eu serei eternamente grata a você B -
— Não me faça chorar! — ralhou comigo quando uma pequena lágrima escapou de seus olhos marejados
Eu ri, puxando-a para um abraço
—Você vai se cuidar não é? — indagou
— claro que vou! -
— vou ficar bem Bonnie, eu prometo -
Bonnie buzinou uma vez, antes de manobrar e afastar-se com o carro, girei respirando fundo e entrei.
Do lado de dentro era tão decrépito quanto o de fora, as paredes estavam manchadas e cheias de rachaduras, o pequeno balcão Onde uma velha mulher me encarava sobre a ponta de seus óculos estava enegrecido, faltando várias partes da madeira e se eu olhasse bem podia ver os pequenos insetos e cupins caminhando despreocupados sobre ele
— Hã... Senhora Hodge? -perguntei me aproximando um pouco incômoda com o ambiente
— Quem pergunta? — indagou de volta ríspidamente
—Eu sou... Ethan, Olímpia Bartoon me mandou vir para cá — assim que disse, um brilho de reconhecimento e um pouco de malícia resplandeceram em seus olhos negros
— Ah, sim. Eu vejo — murmurou ajeitando seus óculos no rosto enrugado
— Seu quarto é o do número 15 — falou agarrando uma chave envelhecida e me entregando, eu a peguei com um pouco de receio quando vi vários pequenos cupins passeando por sua mão.
— O valor do quarto é de 50 dólares por semana, e cada refeição custa 10 dólares — informou antes de voltar ao seu caça palavras e me ignorar completamente.
Subi as escadas de madeira receosa, pareciam prestes a ceder em qualquer passo dado com força demais.
Me encolhi um pouco enquanto passava pelos corredores, as paredes também eram manchadas e cheias de ranhuras, estavam quase totalmente pixadas.
Palavras de baixo escalão e desenhos obscenos as "enfeitavam".
Tudo isso tirando as pessoas que estavam caídas pelo caminho, dormindo ou desmaiadas não sei afirmar com certeza.
E as poucas que estavam conscientes me encaravam, sua maioria segurava garrafas de bebidas alcoólicas, outras só estavam largadas mesmo.
Foi com um sentimento próximo ao alívio, o que senti quando finalmente encontrei a porta marcada com um 15.
Também era pixada e sua maçaneta estava enferrujada e emperrada, tive que por quase toda a minha força para conseguir abri-la.
—Minha nossa! — murmurei com os olhos arregalados
O quarto se é que poderia ser definido assim, era minúsculo, certo que eu não esperava encontrar algo do nível cinco estrelas mas o tamanho era absurdo, quando fechei a porta atrás de mim, pude ter uma pequena idéia de como as sardinhas se sentiam dentro daquelas latas (mesmo estando mortas).
O quarto era fétido, parecia que algo estava em avançado estado de decomposição ali, e a julgar por uma enorme mancha vermelha enegrecida no chão e alguns pequenos respingos na parede da mesma cor, não duvidava que algo terrível pudesse ter ocorrido ali dentro.
Não havia nada mais do que a diminuta cama, uma pequena escrivaninha de aparência tambem empodrecida e um pouco de espaço para que eu pudesse me locomover pelo cômodo.
A pequena cama de ferro estava enferrujada e me sentei nela preparada para o impacto no chão, mas o colchão era tão duro que sinceramente não havia diferença entre ele e o chão.
Pus a mochila sobre a cama e caminhei até o banheiro, reprimindo uma ânsia de vômito quando peguei o primeiro vislumbre do cômodo, uma crosta amarelada e insetos (baratas e larvas) tinham dominado o ambiente.
Voltei e abri a pequena janela na esperança de que o "aroma" pudesse ser amenizado com um pouco de ar fresco, esta que dava para um beco, onde havia algumas pessoas lá pelo que eu podia ver fumando e injetando algo em suas veias, drogas com certeza.
Deitei-me na cama pensando na grande merda em que minha vida havia se tornado no espaço de uma única semana.
Minha vida estava definitivamente no lixo.
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O dinheiro que Bonnie havia me doado, só me manteve longe de algumas preocupações por dois meses.
Aquela pensão só parecia ser barata, mas fazendo alguns cálculos sobre o aluguel do quarto mais as refeições, eu estava pagando cerca de 1,100 dólares por mês.
Literalmente um roubo, claro que eu não fiquei de braços cruzados olhando para o tempo, eu procurei emprego mas ninguém estava disposto a empregar um adolescente magrelo e de menor sendo de carteira assinada ou não.
Alguns dos outros hóspedes tinham me oferecido a "oportunidade" de entrar em seus negócios revendendo drogas, coisa que é claro eu declinei o mais pacificamente o possível, eu já tinha um pouco de inimigos desnecessários não precisava de um traficante em minha cola.
Eu já estava devendo um mês do quarto, tinha passado quatro semanas sem pagar e a senhora Hodge parecia vir até aqui de cinco em cinco minutos.
Observei meu reflexo com vergonha, eu não acreditava que estava indo fazer aquilo, não podia crer que estaria sendo Obrigada a fazer aquilo.
Meus cabelos tinham crescido e agora batiam na altura do queixo, em algo que lembrava um corte Channel, meus olhos estavam vermelhos do tanto que eu havia chorado quando aquela tinha sido a única alternativa para que eu pudesse ter um quarto, abrigo e um prato de comida.
Só de pensar nisso fez meu estômago grunhir, eu não comia nada a dois dias.
Limpei uma lágrima sorrateira que escapou de meu olhos ainda marejados, sai do quarto passando pela recepção onde a Sra.Hodge me lançou um olhar mal humorado e escapei para a noite fria de Port Angeles.
Caminhei vários quilômetros, passando por várias mulheres e me escorei em um poste no fim de uma avenida.
Meu coração batia com tanta rapidez em meu peito que eu podia sentir o sangue zunindo em meus ouvidos, uma mistura de vergonha, ansiedade e medo assolavam meu corpo enquanto eu estava lá parada.
Talvez meia ou uma hora inteira havia se passado antes de um carro parar ao meu lado e a voz grotesca, rude de um homem me mandar entrar.
Eu tremia visivelmente quando estendi a mão para a maçaneta do carro, se meu coração batia tão forte que estava com medo dele rasgar meu peito, engolindo minha insegurança, vergonha, medo e receio eu entrei.
Afinal, infelizmente eu precisava sobreviver.
—
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Mais um mês tinha se passado desde que havia começado o meu "emprego", me submetendo aos piores tipos de capricho de homens e mulheres para conseguisse sobreviver nesta cidade.
Optei por usar um
vestido negro extremamente curto e decotado que havia comprado, com a desculpa de que era para a minha "namorada Isabella", embora nem mesmo houvesse seios arrumei o decote da melhor maneira possível e arrumei meus cabelos descoloridos indo me maquiar logo em seguida,
Uma maquiagem
pesada e um batom vermelho,
coloquei meus saltos e sai do pequeno quarto mofado
A velha Hodge me lançou um olhar conhecedor e debochado assim que passei por ela.
Me dizendo que só aceitaria o pagamento até as duas da manhã ou que então eu já pudesse pegar minha "tralhas" e ir embora.
A mulher era uma terrível aproveitadora, sem um pingo de empatia naquele corpo envelhecido e enrugado.
—
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—Para um viado puto, você ainda é bem apertadinho -
Engoli o asco com muita dificuldade quando ouvi essa declaração nojenta, e terminei de me vestir.
Mal me virei e um monte de notas foi jogada em meu rosto caindo no chão logo em seguida, Engoli meu orgulho mais uma vez aquela noite quando me abaixei para pegar cinco notas de 20 dólares
— A gente se vê boneca! — falou passando por mim e dando um tapa em minha banda enquanto ia para o banheiro.
Sai daquele lugar o mais rápido possível, pondo o nada que estava em meu estômago para fora.
O bile fétido e azedo tinha me lembrado exatamente o porque de eu me submeter essa situação.
Fome e abrigo, já que a velha Hodge havia aumentado o valor do quarto.
Então dos cem que eu havia conseguido eu só ficaria com trinta dólares em minha mão estes que eu usaria para comer alguma coisa.
Me levantei ainda um pouco enjoada e me pus a caminhar em direção a uma pequena lanchonete 24 hrs que ficava ha uns três quarteirões de distância.
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Ataquei o X-burguer com voracidade, já fazia quase dois dias que eu não comia nada e para mim aquele pão recheado era como Ambrósia, o manjar dos Deuses.
—Ethan? — congelei no ato de dar outra mordida.
Ergui o olhar receoso e encontrei Travis Snow me encarando, os olhos arregalados enquanto analisava a minha figura
— Minha nossa! — murmurou meio chocado senti minhas bochechas esquentarem enquanto eu corava
—Será que eu... — apontou a cadeira a minha frente, eu apenas assenti me forçando a engolir a comida em minha boca e tomando um gole da minha Coca-Cola
— Então... hã, já fez um bom tempo que a gente não se vê — falei timidamente
— Um bom tempo — concordou com o olhar vidrado em meu rosto
Ficamos mais uma vez parados nos encarando
— Sinceramente eu não faço a mínima idéia do que falar — ele falou quando a garçonete veio trazendo o seu sanduíche
E eu concordei com um aceno de cabeça.
— Você está morando aqui em Port Angeles? — indagou dando a primeira mordida
— Estou -
Ele ergueu as sobrancelhas
—Seus pais... -
—Me expulsaram — disse de uma vez.
Travis era gay, mesmo sendo aceitado pela família ele saberia reconhecer o que eu realmente eu quis dizer.
Já que devido a minha aparência não seria difícil contar dois mais dois.
— Então, você é gay? -
— Acho que orientação sexual é muito diferente de identidade de gênero, você sabe, não é obrigatório ser trans para ser gay -
Falei dando de ombros e em seguida dando outra mordida em meu X-burguer
Travis inclinou a cabeça um pouco para o lado, absorvendo a informação que eu havia acabado de lhe dar
—Qual o seu nome? Seu verdadeiro nome? — perguntou
Eu sorri levemente, algo que eu não fazia a um mês inteiro
— Isabella, eu sou Isabella mas você pode me chamar só de Bella -
Ele exibiu um sorriso colgate quando eu lhe estendi a mão mas depois ficou inesperadamente sério
—Bem Bella, acho que eu devo lhe dizer... que esta cor ficou horrível no seu cabelo! -
Eu ri, a princípio um pouco encabulada porém depois meu riso se tornou algo incontrolável.
Uma gargalhada impossível de conter, não havia nenhum motivo para que gargalhasse de tal maneira.
Mas havia passado tanto tempo sem nem conseguir sorrir... e acho que estava pondo todas as minhas feridas naquele triste ataque de risos.
Possuía quase certeza de que era a intenção de Travis que eu pusesse todas as minhas mágoas e frustrações para fora quando falou aquilo.
— Então você quer me contar o que houve? —
perguntou
Assim que ele proferiu tais palavras eu perdi completamente o meu filtro verbal.
Contei tudo.
Sobre a minha família; a minha fuga de Forks
Falei sobre o caminho da prostituição que eu havia sido Obrigada a seguir para que pudesse comer e dormir algum lugar.
Travis tinha passado todo o tempo apenas acenando positivamente, me encarando com expressão compenetrada escutando atenciosamente cada palavra que eu dizia.
Quando eu finalmente terminei de falar tinha me transformado em uma fonte d'agua, meu peito ardia enquanto lágrimas de humilhação e vergonha escorriam pelo meu rosto, todos os sentimentos ruins que eu havia guardado; a dor, o desespero, o preconceito, a hostilização e o deboche.
Ele me estendeu um pequeno guardanapo e eu o aceitei, limpando meu rosto.
—Você já terminou? — indagou com um gesto para o hambúrguer esquecido sobre a mesa, eu apenas assenti ainda incapaz de falar algo sem soluçar.
Travis pagou a conta, a minha e a dele, se oferecendo para me dar uma carona, até pensei em declinar mas estava cansada demais e vários quilômetros longe da pensão, e fora tudo isso já estava amanhecendo.
Então simplesmente aceitei sua oferta, acho que dormi no caminho, pois quando acordei confusa por sentir o carro ainda em movimento, eu não vi casas ao meu redor e sim árvores
— Para onde você está me levando? — exclamei alarmada a pergunta, percebendo que estávamos em uma longa estrada afastando-nos cada vez do antigo bairro assim como da cidade
— Para a minha casa — foi só o que Travis respondeu
— E nem adianta tentar me convencer a voltar e te deixar naquele lugar imundo — acrescentou percebendo que estava preparada para discutir
—
—
—
Foi um pouco constrangedor quando o Sr. & Sra. Travis conseguiram pegar o meu primeiro vislumbre, assim que tínhamos chegado na aconchegante casa branca no estilo colonial americano em um bairro de classe média alta em Seattle, Travis exclamou tão alto em busca de seus pais que os pobres coitados haviam saído do quarto horrorizados pensando que a casa poderia estar em chamas.
Eu me senti corar assim que seus olhares surpresos recaíram sobre mim e mesmo por debaixo de toda aquela maquiagem eles conseguiram me reconhecer
— Mãe, Pai, eu quero que vocês conheçam alguém — Travis disse pondo uma mão em minha costas e me empurrando levemente para que desse um passo a frente
— Esta é Isabella Swan, mas vocês podem chama-la somente de Bella. Ela prefere assim. -
— E bem... Ela vai passar um tempo conosco — informou dando de ombros, ignorando os três pares de olhos que lhe encaravam surpresos, chocados e estupefatos.
A Senhora Snow foi quem primeiro conseguiu se recuperar do choque, abrindo um pequeno sorriso e caminhando em minha direção com sua mão estendida
— É um prazer imenso conhece-la querida -
Engoli o bolo que havia se formado em minha garganta, estendendo minha mão timidamente para segurar a sua e ficando surpresa quando a senhora Snow me puxou para um abraço
— Eu sou Ethel, e este é Willie- se apresentou, logo em seguida gesticulou para o homem atrás dela
Que sorriu acenando em cumprimento
— Nós não deveríamos ir ver onde ela irá dormir? — Willie indagou para ninguém em particular quando o silêncio havia reinado por um longo indeterminado na espaçosa sala
— Eu vou ver isso com você pai! — Travis se ofereceu e juntos ambos caminharam para a escada que levava ao andar superior.
Travis parou no segundo degrau e virou — se para nós
— E mãe... Bella está com fome -
Essa declaração pareceu ter o mesmo efeito caso lhe dissessem que a terceira guerra mundial finalmente havia eclodido.
Ela estremeceu, lançando um olhar alarmado para mim com seus olhos cinzentos arregalados e me puxou pela mão as pressas em direção a um corredor.
Para uma senhora tão baixa e esguia ela possuía uma força alarmante
—Sente-se aí mocinho! — ordenou assim que chegamos na espaçosa e moderna cozinha em um tom que não deixava brechas para uma negação.
Eu não a corrigir porque ainda estava um pouco envergonhada pela situação mas sorri timidamente acatando sua ordem.
Depois de alguns minutos ela deslizou um enorme prato a minha frente, uma montanha de purê de batata, arroz, frango fritos e salada, acompanhado de um copo enorme de suco.
— Eu não quero uma migalha nesse prato! — informou
— Obrigada! — agradeci quando eu definitivamente e literalmente tinha limpado o prato.
Ethel fez um gesto com a mão como se não fosse nada e caminhou até a geladeira tirando de lá uma torta de chocolate.
Cortou uma fatia e a pôs em um prato na minha frente, voltando a encher o copo com suco até borda.
Encarei a fatia com os olhos arregalados, era realmente apetitosa mas acho que não cabia mais espaço pra nada em meu estômago, Ethel olhou para mim e para o prato repetidamente em uma ordem muda para que eu comesse.
—
—
—
—Aqui! — Travis disse me estendendo uma muda de roupa
O quarto que eles haviam me colocado era bastante espaçoso com uma cama de casal que me parecia bastante convidativa.
— Vão ficar um pouco folgadas em você, mas amanhã nós resolvemos isso — informou quando eu peguei
— bom, descanse um pouco -
sugeriu, voltando-se para a saída do quarto
— Travis! -
—Sim? — parou, me observando
Mordi os lábios
—Eu queria agra... -
— Nada disso! Et... Bella — me interrompeu
— Você sempre foi quieta na sua, nunca mexeu com ninguém, e nem comigo. -
— Eu sei que você esteve no hospital quando eu fui atacado, vi você lá me levando flores pelo menos uma vez na semana, você me apoiou. Mesmo às escuras você esteve lá de alguma forma para mim. -
—Agora é minha vez de retribuir! — sentenciou me deixando sem palavras.
—
—
Os Snows tinham uma ótima condição financeira e haviam me aceitado em seu lar sem nem pestanejar.
Ethel era dona de uma pequena Boutique no centro da cidade, e Willie tinha uma marcenaria que produzia móveis personalizados feitos por encomenda.
E Travis, bom, Travis aos seus 22 não fazia absolutamente nada, ainda só curtia a custas dos pais.
Ethel havia me chamado para trabalhar com ela na pequena Boutique e eu fui no mesmo instante, ela me pagava exatamente um salário mínimo, mesmo eu dizendo que não queria, pois ela já estava fazendo muito por mim apenas me abrigando.
Mas ela foi firme me pagando mês a mês.
Quando fiz dezoito anos tomei uma das decisões mais importantes, resolvi que estava pronta para o processo de transsexualização.
Ethel foi contra no início não por preconceito ou algo do tipo, ela queria que eu ingressasse em uma faculdade e me formasse antes de passar por isso, mas aceitou depois que eu lhe garanti que não havia desistido dos estudos.
Aceitou tão bem, que me fez lembrar de Alice sempre animada na perspectiva de me ajudar de alguma maneira.
Ethel me acompanhou em algumas das consultas que eu havia feito com uma terapeuta porque era algo essencial para o início do processo, e quando a médica liberou, deu a aprovação para o início definitivo do processo eu fui ao céu.
Mas...
— Então você já está ciente -
Mal ouvi o que o médico dizia, sua última revelação ainda rondava minha mente como um mosquito incômodo
— Srta.Swan? — pisquei ainda um pouco absorta em meus pensamentos e encarei o velho Senhor.
Ele me observava curiosamente me estendendo um pequeno frasco, estendi a minha mão e o peguei
— Eu indico a Srta, tomar três comprimidos por dia -
— Está ciente de que os resultados não são imediatos, r que é preciso ter bastante paciência -
Ele dizia, e eu apenas assentia com os olhos presos no frasco mal acreditando no que aqueles pequeninos comprimidos de estrógenos poderiam fazer.
—
—
— Já tomou? — Travis perguntou entrando em meu quarto.
Não sabia exatamente quanto tempo eu estava lá parada.
— O quê? — indaguei ainda confusa, presa em meus pensamentos enquanto encarava o frasquinho
— Bella, os hormônios — esclareceu rolando os olhos, balancei a cabeça negativamente
— Porque? — franziu o cenho quando eu joguei o que segurava de lado, por cima da cama
Suspirei
— Ao que parece, assim que eu começar a toma-los, eu vou me tornar infértil -
— Wow!- exclamou surpreso arregalando levemente seus olhos
Afinal, eu já tinha falado várias, e várias vezes sobre o meu desejo de ter filhos algum dia
— Sim, wow! — repeti com um tom de desânimo
— Então você vai desistir? -
— O quê? Não! Não, mesmo! — neguei rapidamente
— Mas Bella, você quer ter filhos! E além de tudo, você está linda assim! -
Exclamou com um gesto da mão para mim, fiz uma careta e balancei a cabeça negativamente.
Nos últimos dois anos em que vivi com a família Snow, eu havia deixado meus cabelos crescerem embora eles não passassem da altura dos meus ombros, e havia começado a me vestir um pouco de forma feminina.
E por mais que eu quisesse por a minha forma feminina para fora, eu não estava pronta para abdicar do meu desejo de ter filhos
— Eu não me sinto bem assim, não importa o tamanho do meu cabelo, ou do que eu vista, sempre que me olho no espelho eu vejo o Ethan e não a Isabella! — falei
— É claro que quero ter filhos em algum momento, mas não vou abrir mão nem de um, muito menos do outro! Tenho certeza que vou encontrar alguma alternativa, mas vou seguir em frente com a hormônioterapia! Só vou, adiar um pouco -
E adiei, por cerca de três meses até que salvei alguns pequenos soldados e os armazenei em um banco de sêmen.
—-
—
—
Acordei nas primeiras horas da manhã assim que o meu telefone celular começou a tocar as primeiras notas de Cosmic Love de Florence + The Machine.
Resmungando ainda sonolenta eu me sentei na cama afastando as cobertas e me espreguiçando.
Agarrei meu celular desligando o alarme e aproveitando para conferir as mensagens que eu recebi na noite passada, trinta mensagens e todas as trinta eram de Ethel.
Ethel estava muito ansiosa, ela havia esperado este dia ansiosamente por uma semana inteira.
Hoje era extremamente importante para a senhora Snow, alguém da alta sociedade de Seattle havia encomendado uma de suas roupas feitas sob medida e eu havia sido responsabilizada de levar esta peça para a sua dona ou seu dono na cidade vizinha, já que, segundo Ethel eu era alguém muito simpática e encantadora que acabava cativavando aos clientes rapidamente.
Juntando toda coragem que eu poderia ter para enfrentar mais um dia, finalmente pus os meus pés no chão estremecendo quando ele fez contato com a superfície fria.
Calcei a minha pequena pantufa em uma velocidade surpreendente, agarrei o meu hobby e segui em direção ao banheiro chegando lá parei em frente ao espelho e analisei a minha imagem.
Nos últimos anos Travis havia começado a dizer que eu tinha desenvolvido um leve narcisismo já que era tão aficionada na minha imagem.
Sinceramente eu nem me importava porque concordava com ele, eu simplesmente era apaixonada pela imagem da mulher que me encarava de volta com olhos brilhantes e um sorrisinho malicioso estampado em seus lábios.
Quatro anos já haviam se passado desde que havia começado a minha hormonioterapia e um pouco mais de 6 meses em que havia sido finalmente finalizado o meu processo de transsexualização.
Eu tinha feito uma autêntica cerimônia quando tomei o primeiro comprimido de estrógeno, com uma única convidada.
Eu mesma!
Me despendido do corpo de Ethan ouvindo músicas, recitando poemas e bebendo vinho antes de tomar o primeiro comprimido.
Os efeitos da hormônioterapia demoraram cerca de três meses antes de aparecerem, e quando começaram eram quase imperceptíveis.
Começou apenas com a maciez da pele, em seguida meus cabelos começaram a crescer de forma quase incontrolável, então houve a mudança de voz.
Diminuição na massa muscular e força, a gordura do meu corpo começaram a ser distribuídas pelos quadris.
Meu pênis e testículos também haviam sido ligeiramente diminuídos e ereções não eram mais tão frequentes.
E por fim houve um aumento modesto dos meus seios.
Eu havia passado por uma longa lista de procedimentos estéticos e algumas cirurgias logo em seguida, a primeira delas foi a CFF (cirurgia de feminização facial), que nada mais é do que um conjunto de cirurgias composta pelo desgaste ósseo da testa para diminuição dos ângulos faciais e dos avanços do couro cabeludo para redução da própria testa, o levantamento de sobrancelha e das maçãs do rosto, suavização do pomo de Adão e mais uma rinoplastia acompanhada de um pequeno preenchimento labial.
Muitas outras tinham vindo depois da CFF, o meu segundo procedimento tinha sido implantes mamários, ou como mais são conhecidos os silicones, hoje eu tinha um belo busto tamanho 48 de dar inveja.
Depois dessa vieram as cirurgias mais complexas como a penectomia que é nada mais que a retirada cirúrgica do pênis.
Também fiz orquiectomia que é o procedimento para remoção dos testículos.
E então logo depois e finalmente, eu fiz a vaginoplastia que é a redesignação sexual ou seja agora finalmente eu tinha uma orquídea.
E logo depois da vaginoplastia eu fiz a clitoroplastia que como o nome já dá uma idéia, foi a criação do meu clitóris e a labioplastia para dar um ar mais natural aos meu lábios de baixo.
E o resultado de tudo, havia sido aquela mulher estonteante.
A mulher que era refletida no espelho possuía um corpo curvilíneo e uma imaculada pele de alabastro.
Longos cabelos castanhos avermelhados e acetinados, revoltos que ondulavam sobre seus ombros e terminavam com pequenos cachos nas pontas.
Ela possuía um rosto oval, suas sobrancelhas eram amgulosas e arqueadas, tinha olhos castanhos brilhantes emoldurados por longos cílios, um pequenino nariz arrebitado e lábios carnudos e rosados.
Eu sorri e ela repetiu o gesto.
Eu com toda certeza concordava com Travis e toda aquela história de narcisismo, eu não podia controlar.
E tinha que admitir eu sou completamente apaixonada pela imagem de Isabela Swan!
Pisquei um olho e ri agarrando a minha escova de dentes e dando início a minha rotina de higiene matinal.
— NÃO HÁ MADRUGADA, NÃO HÁ DIA, EU ESTOU SEMPRE NESTE CREPÚSCULO, NA SOMBRA DO SEU CORAÇÃO! -
Eu berrava no chuveiro, se havia alguém no mundo para estragar as músicas maravilhosas de Florence Welch, esse alguém era eu.
Minha voz poderia facilmente ser confundida com algum animal morrendo engasgado, ou algum gato grunhindo a noite.
— TIREI AS ESTRELAS DOS MEUS OLHOS E, ENTÃO, EU FIZ UM MAPA , E SABIA QUE DE ALGUMA MANEIRA EU PODERIA ENCONTRAR O MEU CAMINHO DE VOLTA, ENT... -
Bufei quando a música foi interrompida e o toque de chamada soou, eu já sabia bem quem era.
Sai do box com o rosto cheio de espuma, já que estava lavando o cabelo, e morrendo de medo de escorregar no piso.
Rolei os olhos quando minhas suspeitas foram confirmadas, o número de Ethel piscava na tela.
Ethel não me deixaria em paz até que a peça de roupa fosse entregue ao seu ilustre comprador, fiquei indecisa entre atender ou rejeitar sua chamada porém optei pela segunda.
Afinal ainda eram 6:15 da manhã, não havia motivo para tanto desespero se a encomenda poderia ser entregue até o meio dia.
Desliguei o celular e voltei para o box ligando a pequena caixa de som que ficava lá dentro.
Retornando ao meu "karaoke" usando o frasco de condicionador como microfone.
—
—
—
Agradeci mentalmente por meus pais serem ambos baixos para que hoje o meu salto fosse do número 38, dei uma última conferida em meu look.
Uma calça preta de cintura alta, uma blusa da mesma cor só um pouco curta, mostrando uma pequena tira da pele da minha barriga.
Um salto scarpin, um chapéu de feltro também preto e por fim um sobretudo cinza.
Depois de aprova-lo, peguei meus óculos Ray‑Ban Aviator de lentes Pretas, as chaves e sai do apartamento comendo uma barrinha de cereal enquanto atendia mais uma das ligações de Ethel.
— Et! -
— Quando você vai chegar aqui? —
Ela estava tão afoita que nem mesmo percebeu o apelido carinhoso que eu e Travis lhe havíamos dado e o qual ela odiava
— Ethel, olha a pressão! — alertei batendo na porta do meu vizinho da frente, ou seja o próprio Travis, que abriu a porta assim que ouviu o som.
Ele rolou os olhos assim que me viu, acendendo o visor do seu celular e me mostrando cerca de 20 chamadas perdidas de sua mãe.
— É uma entrega importante Bella! — falou em um tom repreensivo
— Que tem o prazo até meio dia para ser entregue! E ainda são 7:30 da manhã! Ethel, sente-se e respire um pouco, ainda não há motivos para tanto stress. -
sugeri enquanto apertava o botão do elevador
— Ainda? — ela guinchou do outro lado
— Amo você! — cantarolei antes de desligar assim que o elevador chegou
—Sua mãe está me enlouquecendo por causa dessa entrega! -
eu exclamei, e o bastardo riu
— Eu lhe disse que deveria aceitar a proposta da empresa de decorações — deu de ombros
Quando finalmente saímos da pequena caixa de metal e passamos apressados pelo saguão, desejando um bom dia ao porteiro, o vento frio do inverno em Seattle praticamente nos estapeou em todas as direções, eu reprimi o desejo de voltar, me jogar em minha cama quentinha e passar o dia por lá assistindo alguma série da Netflix com uma enorme xícara de chocolate quente.
Me encolhi dentro do sobretudo, estava realmente frio e se aquelas nuvens negras diziam alguma coisa, já já estaríamos enfrentando uma tempestade, andamos apressados até a estação metrô.
Mal chegamos na loja e Ethel correu em nossa direção com um vestido dentro de sua capa protetora
— Aqui! — exclamou jogando o vestido e a chave do carro de entregas
— vai logo! -
— Bom dia — falei lentamente ela parou me encarando e acenou positivamente voltando a me empurrar
— Eu nem tomei café ainda!-
reclamei enquanto ela me empurrava
— Depois que você fizer a entrega você come! -
— Bom percurso! — eu crispei os lábios e revirei os olhos.
Alguém tinha deixado Ethel tomar cafeína.
Entrei no carro e dei logo a partida, quanto mais rápido eu fizesse essa entrega mais cedo ela me deixaria em paz.
O lugar nem mesmo era tão distante e ela naquele desespero inteiro!
Depois que entreguei o bendito vestido comprei um "podrão" apelido terrível que davam aos cachorros quentes, e me sentei em um parque observando a organização do que parecia ser um ensaio fotográfico ao ar livre.
A mulher que era aparentemente a chefe gritava e gesticulava desgostosa da arrumação do local.
— Não! Não assim! Eu quero algo delicado! Mas que seja sombrio ao mesmo tempo! -
Pera!
Quê?
Franzi o cenho, tentando não gargalhar enquanto mordia meu cachorro-quente.
Quando terminei, me aproveitei um pouco de onde a lixeira estava e caminhei na direção deles.
Parei praticamente ao lado da mulher observando a organização
— hã... Eu acho que o arco ficaria melhor lá atrás — comentei pensativamente mais para mim mesma, até me tocar que havia falado alto demais e agora a mulher me encarava com uma sobrancelha arqueada
— Faça! — ordenou para as pessoas que lutavam com o arco de flores com um único gesto
Inclinando a cabeça para o lado ela observou como havia ficado antes de se voltar para mim
— Você é...? -
— Isabella, Isabella Swan — respondi erguendo a mão para cumprimenta-la
— Esmeralda ou apenas Esme Cullen — falou aceitando minha mão estendida e dando um leve aperto.
Senti meus olhos se arregalarem de surpresa, Esme Cullen era a dona e editora chefe da Cullen Magazine, uma conceituada muito popular revista, recheada de bom gosto sobre decoração, músicas, moda e etc...
Só quem sabia o real significado de bom gosto conhecia a Cullen Magazine e eu é claro conhecia.
Rá!
— É um prazer conhecê-la Senhorita Cullen — sorri tentando controlar minha animação
Seus olhos verdes se arregalaram um pouco, antes dela rir divertida
— Senhorita Cullen Huh? Você realmente sabe como cativar alguém! — brincou pondo as mãos em minhas costas e me guiando discretamente para mais perto de onde organizavam o que seria o ensaio
— Isabella não é? O que você acha que poderíamos mudar de lugar aqui? — indagou
Olhei para o lugar pensativamente, enquanto mordia levemente meus lábios analisando tudo.
—-
— Então... Isabella -
— Pode me chamar de Bella — sugeri sorrindo levemente para Esme que estava parada ao meu lado
— Bella — concordou
— Então, Bella você trabalha? — estagnei lhe encarando com os olhos arregalados, ela retribuía meu olhar pacientemente com uma pitada de diversão e expectação
— como...? — balbuciei
— Eu estou precisando de uma estagiária, acho que você se encaixa nesse papel — respondeu convicta
— Você pode levar seus documentos amanhã para o Rh — informou
— Mas...Mas assim sem entrevista, nem nada? — indaguei ainda samonga
E ela riu
— Ah querida! Olhe ao seu redor, acho que isto foi bem mais do que uma entrevista, e uma bem sucedida! — exclamou
— Vejo você na segunda-feira? — perguntou, os olhos brilhando com expectativa.
Devo ter aberto a boca feito um peixe por uns longos segundos, antes balançar a cabeça afirmativamente de forma frenética sem acreditar.
Eu tinha sido praticamente contratada por uma das revistas mais importantes do país!
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