Por você

10 Paciência


Regina esperou, testa apoiada na porta, atenta aos movimentos dentro do quarto. Nada. Ela sabia que Emma estava ali, sentia que a loira não passava bem. Regina ouvira o barulho de algo se quebrando, provavelmente no banheiro do quarto. Tinha sido ela, com certeza. Apoiou a mão na maçaneta, franziu a testa ao perceber que o metal estava quente.

– Posso entrar? – Tentou mais uma vez, voz macia. Silêncio. Regina fechou os olhos, peito apertado. Pressentia que Emma precisava de ajuda.

– Emma, por favor...

– Vá embora! – Emma finalmente respondeu, exasperada.

Regina não entendeu essa reação nervosa. Alguma coisa havia acontecido, teria sido a visita de Robin? Será que Emma havia ouvido os comentários dele? Era bem provável, mas ainda assim, ele não disse nada demais, disse?

Quis insistir, mas se conteve. Estava dividida, parte dela clamava por entrar no quarto, outra lhe dizia para respeitar o apelo. Inspirou profundamente.

– Estarei no meu quarto caso você precise de mim – Cedeu em tom conciliatório, mas sem conseguir disfarçar a insatisfação. Aguardou mais alguns segundos, a loira permaneceu apática. Regina não estava convencida de que deveria deixá-la sozinha, na realidade não queria se afastar dela, mas também não queria impor sua presença.

Regina entrou em seu próprio quarto, fechando a porta atrás de si. Estava frustrada. Aquele jantar, o primeiro delas, tinha lhe aquecido o coração de uma forma inédita. Cada pequeno gesto, cada frase, cada olhar, cada toque, todas as interações foram recheadas de significado. De sensações.

Regina tinha consciência que Emma continuava instável, sabia que ela lutava contra uma força interior, percebia a agonia da loira. Queria entender exatamente o que se passava no seu íntimo, mas tentava não ser invasiva, Emma não reagia bem à pressão. Decidiu esperar pelo tempo dela, ser discreta, respeitar o seu silêncio.

Mas a visão da loira com o cabelo preso em um coque displicente, pescoço à mostra, a blusa de seda azul que contrastava com a sua pele alva e destacava os olhos claros, o colo forte, o jeans apertado, tudo tentava a morena, minava suas castas intenções. Aquela mulher linda apoiada no batente da porta, mãos nos bolsos de trás da calça, olhar quase maroto, aquela era Emma, pura, autêntica. Naquele momento, Regina desejou mais do que nunca tomá-la para si, premiar os seus sentidos. Regina sabia que a provocação poderia ser desastrosa, mas não conseguiu reprimir seus instintos, logo se flagrou flertando com a loira, exibiu-se, queria prender sua atenção.

Regina sempre teve tais ímpetos perto de Emma, é verdade, mas sua ânsia se intensificou desde o sacrifício, galgou a um patamar quase irrefreável. A busca por Emma naquele lugar tenebroso que, Regina sabia, dizia muito sobre ela, os riscos que enfrentaram juntas, a forma como a magia de ambas se atraía e combinava, a intimidade dos toques, o instinto mútuo de proteção. Regina desejava aprofundar ainda mais esta ligação, extravasar o seu amor, esse amor que tanto a fortalecia quanto atormentava. Esse amor que era o seu bálsamo e o seu martírio.

Regina não se achava digna da Salvadora, depois de todas as atrocidades que havia cometido, todas as vidas que havia destruído, não concebia a possibilidade de sua trajetória ter um desfecho tão extraordinário. A verdade é que, apesar da luta pela redenção, Regina nunca havia se perdoado de fato, não se achava merecedora de uma vida plena, com direito à rara magia do amor verdadeiro. Tudo o que ela esperava era encontrar um lugar no mundo, livrar-se do ódio, da mágoa, sair da escuridão, seguir em frente da melhor forma possível. Robin representava esta chance, a chance de ter uma família completa, de receber suporte e afeto, de viver em paz. De alguma forma ele lhe foi destinado e apesar de não partilhar com ele a afinidade que se espera de uma alma gêmea, era uma relação com a qual ela podia lidar. Ele era gentil, honrado e leal, suas personalidades eram compatíveis. Regina estava disposta a aprender a amá-lo, a se empenhar para que desse certo. Era o final feliz que se permitia ter.

Mas sempre havia percalços, Robin lhe escapulia pelas mãos, como se o destino zombasse da ingenuidade da Rainha. Regina se descobriu vítima das gaiatices do Autor, buscou reescrever a sua história e, de certa forma, conseguiu, pois agora ninguém mais manipularia os acontecimentos. O futuro desta relação só dependia deles e das próprias escolhas. Após superar tantas dificuldades, Regina queria acreditar que poderia se satisfazer com uma vida amena ao lado do ladrão.

Sua determinação, contudo, era abalada por Emma e seus olhos verdes perturbadores, sua beleza desconcertante, seu sorriso tímido. Por mais que tentasse, Regina não conseguia ficar indiferente a ela.

Mesmo assim tinha decidido seguir sua vida, especialmente depois que Emma engatou o namoro com o pirata. A história da Salvadora parecia encaminhada, esse sentimento era uma loucura e Regina não se permitiria cair novamente. Decidiu ter seu final feliz com Robin e tentar viver ao lado da loira e de Henry, ainda que a um custo alto. Ela conseguiria, estava habituada a dor.

Robin ajudava muito, sua atenção e carinho lhe faziam bem.

Então Emma trouxe Mariah de volta e Regina se sentiu traída, traída pelas trapalhadas da loira, traída pelo destino, traída pelo seu próprio coração. Decidiu se afastar de Emma, ela não iria suportar.

Mas a Salvadora não saía dela, de alguma forma, as duas estavam sempre enlaçadas. Emma lhe procurou, determinada, olhar doce, disse que o que elas tinham era único e especial e que não iria desistir dela. Queria ser sua amiga. Prometeu lutar pelo seu final feliz. A morena se rendeu, jamais conseguiu resistir à Salvadora. E assim vivia Regina, sobrevivendo ao seu amor.

Naquela noite, Regina finalmente entendeu que não poderia mais se esconder, não poderia mais negar seus sentimentos. Não fazia sentido, seus medos perderam relevância. Ela precisava de todo o seu amor para ajudar Emma a lutar contra a escuridão.

Regina se despiu, percebeu o odor de floresta em seu corpo. Resolveu tomar um banho, não iria se deitar com o cheiro dele. Entrou no chuveiro, fechou os olhos, deixou a água escorrer por suas costas. O toque de Emma ainda formigava em sua pele, a empatia daquele último momento havia mudado algo entre elas. Regina se perguntou o que poderia ter acontecido se Robin não as tivesse interrompido. Ensaboou-se com vigor, precisava relaxar, quem sabe até dormir. Secou-se, colocou seu pijama de seda, olhou para a cama em dúvida.

Foi então que sentiu uma súbita fisgada no peito, seu coração disparou. Emma. Regina se dirigiu apressada até a porta, mas recolheu instintivamente a mão ao tocar a maçaneta. O metal estava quente.

Notas finais
Está na hora de abrir esta porta, né, gente? É só clicar no próximo capítulo. ;-)