Por você
11 Flama
Notas iniciais
Regina abriu a porta vagarosamente. Emma estava sentada no chão, de costas para ela, testa apoiada sobre os joelhos dobrados, aos quais se abraçava como uma criança assustada. Ao redor dela pairava uma espécie de bruma escura, sutil, minúsculas faíscas pipocavam aleatoriamente por seu corpo contraído. As luzes do corredor piscavam em meia fase, a atmosfera estava carregada pela inquietude e ansiedade que emanavam dela.
Em silêncio, Regina contornou o corpo de Emma, agachando-se à sua frente. Pôs-se a observar a cabeça loira com expressão terna, paciente, até que ela resolveu levantar os olhos.
– Hey – Regina disse baixinho.
– Hey – Emma respondeu, mergulhando na profundidade das pupilas castanhas da morena. E então se rendeu ao pranto. Voltou a cabeça entre os braços e se permitiu desabar, desarmada, exposta, ferida. Seu corpo sacudia, a respiração era entrecortada por soluços. Chorava toda a angústia, toda a náusea, todo o peso, toda a agonia. Chorava de dor, chorava de raiva, chorava de medo. Chorava de amor.
Regina se sentou de pernas cruzadas, roçou as mãos gentis pelo pescoço de Emma até envolver a nuca, levou sua testa de encontro à dela, e ali ficou. Deixou que ela chorasse, compartilhou das suas lágrimas, do seu padecimento, do seu desabafo. Sentia a densidade da emoção que transitava entre elas, a pele quente de Emma fagulhava sob suas mãos. Relaxou a pressão dos dedos e deslizou até a face ruborizada da loira, tocando-a com delicadeza. Secou suas lágrimas, olhar repleto de pesar, compreensão e promessas.
E então veio a magia, suave, fluída, enlaçando-se ao redor delas, fundindo-se e expandindo em todas as direções, vermelha e branca, lenta e inebriante. Emma sentiu o formigamento causado pela energia que transitava por suas células, alterando seu estado de consciência corporal. Suas moléculas se realinhavam, harmonizavam-se em um fluxo único e ordenado. Seus batimentos cardíacos diminuíram. Concentrou-se na respiração de Regina, próxima, ritmada e quente, sentiu o corpo relaxar. Sua cabeça pesou, e Regina sorriu.
– Vem comigo – Regina convidou com voz suave. Saindo do transe, Emma pousou as mãos na cintura da morena, ajudando-a a se levantar. Sentia-se entorpecida, quase sonolenta. Regina tomou uma de suas mãos e, olhos fixos nos da loira, conduziu-a vagarosamente para dentro do quarto. Emma não sentia o chão sob seus pés, tinha a impressão de que deslizava pelo ar, como se estivesse sonhando. A mão de Regina, pequena e delicada, segurava a sua, íntima, como se habituada àquele encaixe. Os olhos castanhos a encorajavam, calmos e confiantes. Emma se deixava levar pela morena, cativada, entregue.
Já próximas à cama, Regina se sentou, conduzindo Emma para que se acomodasse ao seu lado. Com cuidado, tomou as mãos dela entre as suas, palmas viradas para cima, expondo os ferimentos ainda abertos. Emma sentiu vergonha, mas se permitiu examinar. Regina levou a palma da mão direita aos lábios, soprando levemente os ferimentos até que sumissem por completo. Repetiu o processo com a outra mão. Sorriu com os olhos. Emma sorriu de volta, tímida, atordoada pela sensualidade do gesto. Regina sustentou o olhar.
– Durma aqui – Convidou, a voz rouca – Eu te protejo de todo o mal – Prometeu.
Emma perdeu o ar, reprimiu a vontade de voltar a chorar. Sem saber o que dizer ou como agir, apenas meneou a cabeça em confirmação.
Então Regina se deitou de lado e Emma a seguiu, ficando de frente para ela. Encararam-se alguns segundos até que Regina, com inesperada naturalidade, pegou a mão da loira, virou-se de costas e a puxou para que a abraçasse por trás. Hipnotizada, Emma aceitou mais este convite, envolveu a cintura de Regina, trouxe-a para perto, colando seu corpo ao dela, pernas encolhidas, encaixadas. Deslizou a mão esquerda até parar sobre a barriga lisa da morena, sentiu a fragrância do cabelo negro e sedoso, ajeitou algumas mechas de modo a descansar o nariz na curva do seu pescoço.
Emma suspirou, aconchegou-se no abraço, o mundo não existia além do corpo quente que agora se moldava ao seu. Embalado pelo acalento daquele ato, o coração de Emma se apaziguou, ela se sentiu segura, ela se sentiu em paz.
Emma não pensava sobre o significado daquele afago, não queria racionalizar. Tudo o que sabia é que Regina estava ali, deitada com ela, mão entrelaçada à sua, firme e acolhedora. De repente, Emma temeu estar sob delírio, presa em uma espécie de brincadeira arquitetada pelo humor negro do seu obsessor. Mas Ele não estava ali. Não havia vozes, não havia aflição, não havia sombra, não havia temor. Não havia raiva, não havia dor.
Só havia Regina.
Regina e o calor provocante que emanava da sua pele sob o tecido fino. Regina e o seu cheiro levemente adocicado, cítrico, que arrebatava Emma e atiçava todos os seus sentidos. Regina e a tensão que começava a fluir do seu corpo agitado pelo contato da loira, contagiante, envolvente.
Sem perceber, Emma aumentou a pressão sobre o ventre de Regina, lábios entreabertos roçando na pele arrepiada da nuca da morena. A respiração de Regina se adensou, seu corpo respondeu irrequieto. Subitamente alerta, a loira se conteve, temia ultrapassar limites, quebrar o momento. Lutava contra a ânsia de percorrer o corpo bem desenhado com a mão que a morena tanto apertava.
Mas a verdade é que já não havia mais volta. Aquela flama só poderia ter um significado e ambas sabiam qual era.
– Regina... – Emma suplicou, voz carregada de paixão, coração disparado. A morena gemeu baixinho, virou-se de frente para ela, olhar febril.
Mas antes que Emma alcançasse os lábios vermelhos, sentiu seu corpo se retesar, ganhar vontade própria e se projetar para fora da cama, como se assumido por um titereiro. Tentou lutar, mas não conseguia resistir, foi tomada por uma força maciça, sufocante, imperativa. Indefesa, percebeu que estava na iminência de desaparecer. Buscou Regina com olhos assustados.
– Emma!
Ela estava sendo invocada.
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