Por você
5 O resgate
Notas iniciais
O ambiente era escuro, úmido e quente. Ainda ajoelhada sobre o solo viscoso que havia amortecido sua queda, Regina tateava ao redor na tentativa de se localizar no espaço. Tinha dificuldade de respirar, seu coração batia descompassado. Tentou acender uma pequena chama entre suas mãos, mas falhou, não sabia se em razão do nervosismo ou se porque não havia magia naquele lugar. Desorientada, sentiu o pânico lhe invadir, o estômago embrulhar, o suor brotava abundante de suas mãos. Fechou os olhos com força, precisava dominar sua mente. Não entre em desespero, você não pode fraquejar!, disse a si mesma. Concentrou-se na própria respiração e, aos poucos, foi retomando o autocontrole. Abriu novamente os olhos, acostumando-se com a escuridão. Pôde então divisar um tímido feixe de luz que se projetava do alto, mas que se dissipava antes de chegar até ela. Era o portal. Permanecia aberto.
Regina sorriu com os olhos marejados. Era no mínimo um bom começo. Encorajada pelo sinal, pôs-se de pé, disposta a continuar sua jornada. Apurou os ouvidos, mas só havia o silêncio. Olhou ao redor com calma. Divisou uma cor avermelhada entre grossas nuvens, o que interpretou como sendo a lua. Uma névoa densa cobria toda a atmosfera, dificultando a penetração da luz.
Já habituada à penumbra, pôde vislumbrar alguns contornos ao seu redor. Identificou um objeto grande, com base cilíndrica e ápice abobadado, provavelmente uma árvore. De um dos galhos pendia um balanço. Regina caminhou cuidadosamente em direção à árvore e sentiu suas botas chafurdarem no chão macio e irregular. Um som de galho quebrando fez o coração de Regina disparar, ela se virou rapidamente, mas não conseguiu descobrir de onde tinha partido. Prendeu a respiração. Havia algo ou alguém ali. Apertou os olhos em busca de movimento. Nada. Em seguida, viu o que parecia um carrossel próximo a árvore. No outro extremo, um escorregador. Entre os aparelhos, uma caixa de areia. Era um parque infantil.
Um súbito som de corrente rangendo fez o sangue de Regina gelar. Virou-se novamente em direção à árvore. Agora havia uma menina no balanço, de costas para ela. Aproximadamente 5 anos, cabelos loiros, camisola branca, descalça. Cantarolava uma música infantil enquanto dava leve impulso no brinquedo.
– Olá – Regina chamou, mas a menina não lhe deu atenção. Regina se aproximou até ficar a menos de um metro da criança – Meu nome é Regina, e o seu?
– Anna – A menina respondeu com voz doce. Regina contornou o balanço. – Meu nome é Anna. Você veio me buscar, moça? – Encarou Regina, que reprimiu um grito. As cavidades orbitais da menina estavam vazias e o lábio leporino exibia uma gengiva sangrenta e disforme. A boca, borrada com batom vermelho, abria-se em um desenho grotesco. Regina deu dois passos rápidos para trás, tropeçou e caiu. Só então percebeu, horrorizada, que o chão estava coberto por centenas de rostos infantis aparentemente colados na superfície, todos sem os olhos e com as bocas costuradas. Repentinamente, as cabeças ganharam vida e começaram a grunhir sons incompreensíveis. Regina se levantou de um só salto, tentando escapar da área minada. Seu casaco ficou preso em algo não identificado, Regina resolveu se livrar dele. Agora vestia apenas bota, calça preta e blusa bordô.
– Você vai me levar, moça? – A menina repetiu, descendo do balanço e caminhando vagarosamente em direção a Regina – Por favor? Onde você está? Eu não consigo te ver, arrancaram-me os olhos porque fiz maldades. Mas eu também sei ser boazinha. Quer um carinho?
Completamente paralisada, Regina observou a lenta aproximação da menina com o coração aflito. O que significava aquilo? Onde diabos ela estava? Regina olhou ao redor, tentando decidir o que fazer. Percebeu então uma fresta de luz escapando de algum lugar logo acima da cabeça da garota. Saindo do torpor, Regina caminhou em direção à claridade. A menina começou a chorar.
– Moça, moça, por favor! Me leva com você, eu serei boazinha, eu prometo! Moça, por favor, não me abandone!
Regina hesitou, olhou para trás, mas logo retomou o passo. É uma armadilha, pensou, preciso focar no meu objetivo. Caminhou em direção à luz e, ao se aproximar, deparou-se com uma porta de carvalho gigantesca, levemente aberta. Tocou a madeira com a ponta dos dedos e empurrou com cuidado, surpreendendo-se com a leveza da peça. Entrou em um amplo saguão, tomado por um nevoeiro espesso e sufocante. A porta bateu atrás de Regina, que se assustou com o barulho. Ao se voltar, notou, alarmada, que a porta havia diminuído ao tamanho de uma caixa de fósforo. Deve haver outro modo de sair daqui, Regina ponderou, tentando manter a calma. Só preciso achar Emma.
Estudou o ambiente. O pé direito era tão alto que impossibilitava a visualização do teto. Havia lixo espalhado por toda parte, pedaços de brinquedos e restos de comida, o que explicava o ar fétido. Os móveis eram sóbrios e decrépitos. Da lateral esquerda se projetava uma escada que dava acesso a pelo menos 5 andares, até onde Regina conseguiu contar. Cada andar possuía dezenas de portas aparentemente iguais. No lado direito havia outro cômodo, talvez um refeitório. No lado esquerdo, uma porta dupla fechada. Nada se movia a não ser a neblina quase palpável que circulava por ali.
Imóvel, Regina se concentrou na tentativa de intuir o paradeiro de Emma. Pensou em chamar por ela, mas receou romper o silêncio, tinha a impressão de que o som poderia perturbar quem não se deveria. Regina não conseguia decidir para onde ir. Sentiu-se inibida pelo ambiente opressor.
(Shhhhhhhhh... cuidado para não acordar os outros)
Regina se sobressaltou com o sussurro.
(Aqui. Vem. Não precisa ter medo)
Olhou ao redor, mas não conseguiu identificar a origem da voz.
(Seja obediente. Você é boazinha, não é?)
– Quem é? Quem está aí? – Regina perguntou.
(Você quer ser amada?)
Regina olhou ao redor, mas não viu ninguém. O ar pesado tornava a respiração quase impossível.
(MALDITA!)
O grito fez Regina andar para trás até apoiar as costas na parede. Sabia que precisava sair dali com urgência, mas se sentia cada vez mais subjugada por aquela voz.
(Você é ruim, ruim! Só existe maldade dentro de você, não adianta negar, nada do que você fizer vai mudar isso!)
(Você é amaldiçoada, seu destino é ficar sozinha, sozinha, sozinha, sozinha, sozinhaaaaaa!)
Regina olhava para todos os lados, tentava entender de onde vinham as vozes.
(Você quer ser feliz?? Ahahahaha! Esqueça, você não merece ser feliz. Você não é digna de amor, porque você é má, eu já te disse isso? Você é má, você faz as pessoas sofrerem)
(Você tem raiva no coração, mágoa, mágoa sem fim)
(Ela não ter quer)
(Ela só tem pena de você. E nojo)
(Desista. Acabou. Você fracassou)
Desestabilizada, Regina tapou os ouvidos com as mãos na ânsia de fugir às provocações. O esforço foi em vão, as vozes estavam também na sua cabeça.
(Ahahaha, voltou de novo? Eu sabia, nem me dei ao trabalho de limpar o seu quarto. Eu já te disse, ninguém te quer, você é uma piada)
O que? Regina levantou a cabeça.
(Você faz tudo errado, é uma inútil. Uma ladrazinha sem vergonha. Você é um fardo, é isso que você é, um fardo para mim, um fardo pro mundo!)
A situação estava ficando ainda mais confusa.
(Nem mesmo seus pais te quiseram, eles te abandonaram no meio da rua, exatamente como o lixo que você é! Você não sabe de onde veio e não tem para onde ir. Uma folha solta no vento, sem lar, sem raízes. Esse é o resumo da sua vida sem sentido)
Emma! Com um aperto no coração, Regina finalmente se deu conta do que estava acontecendo. Aquelas vozes estavam falando com Emma.
Sem mais tempo a perder, Regina decidiu agir. Entrou no cômodo à direita e se deparou com uma grande mesa retangular. Nela, diversas crianças vestidas de camisola comiam mingau de forma voraz, mas o alimento escapulia por uma abertura em seus estômagos e se acumulava aos seus pés. O chão da cozinha estava completamente coberto pela substância. De repente, todas as crianças se voltaram para ela e Regina percebeu que também não tinham olhos.
– Ei, quem está aí? Você tem comida? Nós estamos com fome, muita fome!
Ignorando o apelo, Regina deixou o refeitório e se dirigiu à porta dupla no extremo oposto da sala. Tentou abrir, estava trancada. Forçou. Nada. Tomou uma estátua de pedra que estava sobre um aparador e a projetou contra a fechadura. A porta então abriu e Regina se deparou com mais uma cena dantesca. Crianças pequenas eram chicoteadas por adolescentes enquanto limpavam, de joelhos, vômitos e fezes esparramados pelo chão. Rasgadas, as camisolas brancas expunham a carne cortada e sangrenta. O cheiro era insuportável e, nauseada, Regina saiu dali tão rápido quanto entrou.
Os quartos. Regina encarou a escada sem fim. Assim que iniciou a subida do primeiro lance, a escada começou a tremer violentamente e a se desfazer atrás dela com um barulho ensurdecedor. Regina tentou se refugiar no primeiro andar, mas tudo começou a ruir ao seu redor. Não havia outra saída senão continuar a subir. Os andares desabavam antes que fossem alcançados e Regina correu o mais rápido que pôde. Perdeu a conta de quantos andares galgou até alcançar um mezanino estável, o último disponível. Enquanto recuperava o fôlego, olhou para baixo, mas não conseguiu ver o chão. Tudo estava coberto por poeira e ela teve a sensação de que flutuava. Havia dezenas de portas também naquele andar, todas iguais. Uma melodia saía do quarto mais próximo à Regina. Alguém estava cantando. Com cuidado, Regina girou a maçaneta e entrou no cômodo. O aposento era grande e bem mobiliado. Havia uma senhora sentada na cama, de camisola, fazendo tricô. Extremamente franzina, feição amigável, cabelos brancos. Era ela quem cantarolava. Regina se aproximou vagarosamente. Quando estava perto da cama, a mulher levantou os olhos escuros em direção a ela.
– Finalmente! – A mulher sorriu, tinha covinhas. – Venha, sente-se aqui, não precisa ter medo – Disse, dando simpáticas batidinhas no colchão ao lado dela.
Sem saber o motivo, Regina se sentiu obrigada a sentar. A mulher continuava a sorrir para ela.
– Boa noite – Regina tentou continuar o diálogo – Estou procurando uma pessoa e talvez você possa me ajudar.
– Shhhhhhhh... – disse a mulher, levando o indicador aos lábios – Quieta, você irá acordar os outros! – Apesar da bronca, a mulher mantinha o tom gentil – Você veio, você é uma boa menina. – Estendeu a mão e fez um carinho leve no rosto de Regina, que se encolheu diante do toque gelado. A mulher então pegou a mão esquerda de Regina e levou aos próprios lábios, beijando a palma com devoção. Regina sentiu ímpeto de puxar o braço, mas se conteve.
– Você é muito linda, sabia? É a minha preferida, sempre foi. Você quer me fazer feliz? – Regina franziu o cenho. Com expressão lânguida, a mulher conduziu a mão de Regina até a sua própria genitália, que estava completamente exposta e úmida sob a camisola. – Vamos, garotinha, você sabe o que fazer.
Chocada, Regina retirou a mão e, sem pensar, acertou um soco no rosto da mulher, levantando-se em seguida.
– Como ousa, sua peste? – Gritou a mulher, enfurecida. Pulou da cama com incrível destreza e se projetou em direção a Regina, que quase achou graça. Mesmo sem magia, seria fácil e muito prazeroso dar uma lição naquela velha imunda. Mas a mulher crescia a cada passo e seu corpo ganhou um volume descomunal em segundos. – Você vai fazer o que eu estou mandando, maldita, ah se vai!
Regina tentou criar bolas de fogo, mas voltou a fracassar. Sem mais tempo, correu para fora do quarto, calculando que a mulher não conseguiria passar pela porta. Mas o obstáculo não a deteve. A mulher se lançou contra a abertura e quebrou a parede, saindo no encalço de Regina. Continuava a crescer e a engordar, até quase atingir o teto.
– Volta aqui, sua filha da puta, eu ainda não acabei com você! Sabe o que acontece com meninas desobedientes, não sabe? – A mulher começou a lançar objetos na direção de Regina, um pedaço de concreto atingiu suas costas e a fez cair. Apesar da dor, levantou-se rapidamente e continuou a correr. Desesperada, Regina entrou no primeiro quarto a sua frente e fechou a porta, encostando a testa na madeira enquanto tentava controlar a respiração. A mulher começou a esmurrar a porta, mas por algum motivo, não conseguia derrubar.
– Abre essa porta, infeliz! Você é uma ingrata, incapaz de amar! É por isso que ninguém te quer, é por isso que você nunca terá uma família!
– Cala a boca e vai embora antes que eu te mate, sua vadia! – Alguém gritou de volta.
Regina sentiu um arrepio percorrer sua espinha e prendeu a respiração, aquela voz vinha de dentro do quarto e era bem conhecida.
Emma. Ela estava ali.
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