Por você

6 O retorno


Notas iniciais
Agoooooora vai! Sem mais delongas. I hope you enjoy it!

Silêncio. Os impropérios se calaram atrás da porta. Regina fechou os olhos por um instante, lutando para recuperar o ar. Seu coração pulsava tão furiosamente que ela temia que Emma pudesse ouvi-lo. Virou o corpo devagar. Precisava controlar suas emoções, sentiu que não seria fácil.

O quarto tinha formato circular, teto alto e afunilado, como uma torre de um castelo. As paredes estavam cobertas por ilustrações sombrias, textos escritos em diferentes dialetos, desenhos infantis, frases desconexas. Por todo o cômodo, diversos objetos apareciam e sumiam a todo instante, dificultando a orientação espacial. O ambiente também era dominado pela penumbra, mas uma luz azulada que entrava pela claraboia atenuava a densidade da névoa.

Regina ainda estava perturbada com o que acabara de ver e ouvir, as crianças, as vozes, aquela mulher horrenda. Não queria pensar sobre o que tudo isso poderia significar. Não agora. Um sussurro cadenciado, como se alguém estivesse orando, atraiu sua atenção para o extremo oposto do quarto. Emma estava de costas, camisola branca, descalça, cabelos soltos e cabeça baixa, balançava como um pêndulo em direção a parede. Regina sentiu uma fisgada no coração. Avançou passo a passo com a maior cautela possível. À medida que se aproximava, tentava entender o estado de consciência de Emma. Ela parecia em transe. Parou a pouco mais de um metro. Emma deveria saber que ela estava ali, mas se mantinha fixada em seu ritual.

– Emma – chamou baixinho. Imediatamente, Emma se deslocou para outro ponto do cômodo, sempre virada para a parede, corpo oscilante, murmúrio em tom crescente. Regina permaneceu imóvel.

– Emma – Repetiu, agora mais alto. Nada. – Eu vim te buscar.

Com um grunhido sonoro, Emma começou a andar alucinadamente de um lado para o outro do quarto, o rosto contorcido em uma expressão de agonia.

– Vai embora – Ela falou em tom de súplica – Vai embora, vai embora! – Aumentou o tom de voz.

– Emma, sou eu. Regina.

Emma deu uma gargalhada, balançou a cabeça em veemente negação.

– Vai embora, demônio, sai da minha cabeça, sai daqui, me deixa em paz! – Emma vociferava, sempre em constante movimento. Regina não sabia o que fazer.

– Emma, olha pra mim. – Regina temia que a situação saísse do controle. Tentava estabelecer contato visual, mas Emma a evitava.

– Emma, por favor, precisamos sair daqui. Vem comigo.

Emma pressionou a testa com força contra uma parede, agora chorava copiosamente.

– Para, para, vai embora, eu não posso, eu não consigo mais... – Soluçava. Sem conseguir se conter, Regina se aproximou dela e estendeu a mão para tocar seu ombro. O contato desencadeou uma descarga elétrica que arremessou Regina pelo quarto, fazendo-a bater de costas contra uma parede. Antes que pudesse reagir, sentiu seu corpo ser suspenso por magia e pressionado contra uma coluna.

– Eu mandei parar! – Emma esbravejou sobre Regina, que engoliu em seco ao ver seu rosto de perto. Os olhos estavam completamente negros, sem esclerótica, contrastando com a extrema palidez da sua pele. O cabelo emaranhado cobria parte do rosto distorcido pela dor. ­Apesar da proximidade, Emma ainda se negava a fazer contato visual. Regina se sentia sufocar pela pressão da força que a mantinha paralisada. – Você não vai mais debochar de mim, entendeu? Não vai!

– Eu estou aqui, Emma, vim te levar para casa – Regina disse em um fio de voz, esforçava-se para respirar – Seus pais estão te esperando. Seu filho, nosso filho está te esperando...

– Cala a boca, miserável! Eu não tenho filho, não tenho pais, não tenho família, não tenho ninguém! – Objetos começaram a ser arremessados para todos os lados, espatifavam-se contra as paredes, voltavam a sua forma original e eram lançados novamente, fazendo um barulho ensurdecedor. Um móbile de unicórnios de cristal girava de forma desordenada no meio do quarto. Próximo a elas surgiu um berço, dentro havia um bebê recém-nascido. Regina se esticou para ver a criança. Estava envolta em uma manta de lã branca, parecia morta. Havia um nome bordado na coberta. Henry.

Regina arfou, lágrimas brotaram de seus olhos. Finalmente percebeu o que estava acontecendo. Emma estava concebendo este mundo, agonizava presa no seu inferno particular, como em um pesadelo sem fim. Regina precisava despertá-la.

– Nada disso é real, Emma, tudo a nossa volta está sendo criado pela sua mente. Você não pertence a este lugar – Regina chorava ­ – Emma, por favor, você precisa me ouvir!

Quanto mais Regina falava, mais o ambiente se desestabilizava, mudava de forma, de cores.

– Você não é real. Você me assombra, você me atormenta! Mas eu sei como acabar com isso – Completamente transtornada, Emma se aproximou ainda mais de Regina, finalmente encarando seus olhos aflitos. Regina sentiu sua garganta ser envolvida por uma mão invisível.

– Emma – Regina gemeu, já sem ar nos pulmões, olhos fixos nos de Emma – Pode me matar se quiser, mas eu não vou embora sem você. Eu jamais irei te abandonar – Disse em um esforço derradeiro, olhar transbordando de emoção, prestes a perder a consciência.

Então Regina sentiu a força que a prendia ceder, seus pés tocaram o chão suavemente. Buscou o ar com urgência.

– Regina? – A voz hesitante de Emma chamando seu nome aqueceu o coração de Regina – Regina, você veio...

Regina sentiu vontade de rir, de gritar, de pular nos braços de Emma. Ela estava ali, atrás daqueles olhos negros.

– O que você esperava, Miss Swan? – Falou com a voz rouca, repleta de carinho. Permitiu-se estender a mão em direção ao rosto de Emma, mas a loira deu um passo para trás. Emma olhou estarrecida para as próprias mãos, seu corpo faiscava, repentinamente envolto por um forte redemoinho.

– Regina, fuja, rápido! Eu não consigo me controlar!

– Eu só saio daqui com você! – Regina eliminou a distância entre elas, tomando as mãos de Emma com as suas. Sentiu-se imediatamente invadida pela eletricidade que circulava pelo corpo de Emma, a musculatura se enrijeceu. Sua mente implorava para que ela se afastasse, mas Regina entrelaçou os dedos aos de Emma ainda com mais força. A claraboia do teto estourou e o quarto foi inundado por gritos estridentes. Todo o cômodo começou a sacudir, como se estivesse prestes a desabar.

Por impulso, Emma soltou as mãos de Regina e enlaçou sua cintura com os dois braços, trazendo o corpo da morena ao encontro do seu, o rosto mergulhado em seu pescoço. O impacto do contato foi avassalador, Regina sentiu o corpo inteiro pulsar, apoderado pela pujante energia que partia de Emma. A força da ventania aumentou, arrastando tudo ao alcance.

Afaste-se agora! O instinto de sobrevivência gritava na cabeça de Regina, mas tudo o que ela fez foi envolver o pescoço de Emma com os braços, selando o abraço apertado. Preferia morrer a ter que deixá-la. Todas as moléculas do corpo de Regina vibravam em um ritmo ensandecido e ela tinha a impressão de que iria se desintegrar a qualquer momento. Fechou os olhos, os batimentos do seu coração se misturavam aos de Emma como se fossem um só. A loira a envolvia o máximo possível na tentativa de protegê-la dos destroços que eram arremessados sobre elas.

– Fica comigo – Regina sussurrou no ouvido de Emma, ignorando o caos que se instalara ao redor delas – Juntas, nós podemos tudo.

Sentiu Emma estreitar ainda mais o abraço. O chão fugiu dos pés delas. De repente, um forte clarão eclodiu e Regina ficou momentaneamente desorientada. Então o silêncio se instalou, o calor arrefeceu, a respiração ficou fácil. Ainda colada à Emma, Regina abriu os olhos. Reconheceu a loja de Rumple, a caixa que abrira o portal jazia fechada no chão. Regina sorriu. Elas tinham conseguido. Estavam em casa.

Regina sentiu o corpo relaxar, os batimentos cardíacos retomavam o ritmo normal. Os braços de Emma afrouxaram ao seu redor, mas continuaram pousados em sua cintura. Regina afastou um pouco a cabeça, buscou os olhos de Emma e sentiu imenso alívio ao encontrar as orbes verdes, ainda que contornadas por olheiras rubras. Lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto de ambas. Regina tocou a face de Emma com a ponta dos dedos, tomada por intensa ternura. Entregue, colou sua testa à da loira.

– Só você faz sentido, Regina – Emma disse baixinho, reprimindo um soluço choroso – Só você e o nosso filho.

Regina sorriu largo, os olhos marejados de felicidade. Ajeitou o cabelo de Emma, colocou algumas mechas atrás das orelhas para poder ver seu rosto inteiro. Mais uma vez, afundou o rosto em seu pescoço. Perdeu a conta de quantas vezes desejou aquele momento, sentir o calor do corpo de Emma contra o seu. Não queria sair daqueles braços.

– Mães! – Henry entrou correndo e se lançou ao encontro delas, que o acolheram em um abraço triplo – Vocês voltaram! Eu sabia que vocês conseguiriam!

Atrás dele vieram Snow e David, juntando-se ao abraço coletivo.

– Vocês estão bem? – David perguntou, olhando para Emma e Regina com orgulho, mas sem conseguir esconder a preocupação com a aparência abatida da filha. Henry estava no meio delas agora, segurando suas mãos. Emma sorriu amarelo e baixou os olhos, apertando os dedos de Henry.

– Tanto quanto possível – Foi Regina quem respondeu, atenta aos sinais da loira. Elas tinham saído daquele inferno, mas Emma continuava instável. Ainda era a Dark One.

– Swan, por Deus, você voltou! – Hook entrou na sala a passos largos, passando por todos e puxando Emma para um abraço. Ela se enrijeceu, deixando os braços caírem inertes ao lado do corpo. Ele pareceu não notar. Cheirava a suor e a rum – Você não faz ideia da aflição que eu senti, luv! – Tentou beijá-la, mas Emma se afastou, a expressão fechada e contida. Hook a olhou surpreso e só então percebeu as olheiras, a camisola rasgada, os pés descalços. Regina observava a cena com os dentes trincados – Você está bem?

– Ela só precisa de um tempo, pirata – Regina interveio diante do silêncio de Emma. A nítida tensão da loira a preocupava.

– Aconteceu alguma coisa com a sua voz, Swan? – Hook perguntou levemente alterado, ignorando Regina.

– Não – Emma falou friamente. Olhou para Regina, a respiração se adensando – Eu... só preciso descansar.

– Mas o que aconteceu? Onde vocês estavam?

– Não é hora para isso, Killian – foi David quem falou dessa vez – Haverá bastante tempo para conversar depois.

– Ok – Hook cedeu – Vem, luv, eu vou cuidar de você – Tomou Emma pelo braço, determinado a levá-la para a casa.

– Tire as mãos de mim! – Emma gritou, assustando a todos. Puxou o braço com extraordinária força, arremessando Hook em direção a um armário no lado oposto da sala, onde caiu ruidosamente. Em milésimos de segundos, o pirata estava novamente no ar, suspenso por magia, sentindo a glote se fechar. Emma disparou em direção a ele como um raio, sem tocar no chão, ficando a centímetros do seu rosto já arroxeado – Eu não quero ir com você, ouviu? Sabe o que não significa? Ah, você não sabe, você nunca me ouviu. Da próxima vez em que você tocar em mim desse jeito, eu esmago seu coração, pirata! Fui clara?

– Emma – Ao ouvir a voz grave de Regina às suas costas, Emma desfez a magia, deixando Hook cair no chão. O pirata lutava para recuperar o fôlego. Subitamente envergonhada, Emma baixou os olhos, parecia na iminência de desaparecer. Regina se aproximou, reprimindo a vontade de colhê-la novamente nos braços.

– Me desculpem, eu... eu não sei o que houve, me sinto estranha.

– São as trevas tentando tomar sua alma e destruir o ser humano que há em você, Miss Swan – Rumple explicou, estava observando a cena o tempo todo – O começo sempre é difícil, mas com o tempo você irá aprender a dominar esses ímpetos e a controlar a magia negra. Apoio é o que não lhe falta – Sorriu gentilmente. Sentindo-se humilhado, Hook ouvia tudo em silêncio, esperava que Emma fosse se desculpar com ele.

– Vamos para casa, filha ­– Snow falou pela primeira vez, mas sem conseguir disfarçar um certo temor. Também estava assustada com a reação de Emma.

– Eu não sei se é uma boa ideia ­– Emma disse baixinho. Faltava-lhe confiança.

– Você pode vir comigo se quiser – Regina se adiantou – Pelo menos nestes primeiros dias, até que você se sinta melhor.

– Ok – Emma assentiu após breve hesitação. Snow fez menção de dizer alguma coisa, mas o olhar de David a fez calar.

– Posso ir com vocês? – Henry perguntou. Regina olhou para Emma, que pareceu aflita com a ideia.

– Hoje não, meu príncipe – respondeu, afagando os cabelos do adolescente – Por favor, fique com os seus avós. Amanhã a gente almoça, ok? – Frustrado, Henry concordou com um sorriso triste. Olhou para Emma sem saber o que fazer. Com um sorriso suave, Emma estendeu os braços, recebendo-o para mais um abraço.

– Eu ficarei bem, kid, prometo. Por enquanto, só quero que você fique em segurança, ok? – Henry sorriu, agora mais tranquilo.

– Tá bom, mãe, eu sei que você está em boas mãos – Deu uma piscadela, Emma retribuiu o gesto.

Enquanto isso, David se aproximou de Regina e, tão disfarçadamente quanto pôde, estendeu-lhe a adaga.

– Acho melhor você ficar com isso – sussurrou. Regina meneou a cabeça.

– Não é necessário. Fique com ela, mas guarde-a bem, David, não quero pensar o que pode acontecer se cair em mãos erradas.

David aquiesceu, resoluto. Virou-se em busca de Hook, mas o pirata já tinha ido embora.

Notas finais
Nossas heroínas mereciam este abraço, né? Aos mais ansiosos, aviso que o próximo capítulo será um POV da Emma, as coisas não estão nada fáceis para a Salvadora. Beijão!