Por trás das câmeras
16 Vou fervendo até transbordar
Caminho sem rumo, meus passos sendo guiados pela minha raiva e arrependimento. Começo a sufocar ao reprimir um grito de puro ódio. Esse trabalho é importante para mim, não quero perdê-lo por conta de algo tão besta. Sei que não deveria ter sido orgulhosa, mas é mais forte do que eu.
Com tanta coisa na minha cabeça, não consigo raciocinar o que se passa ao meu redor, não consigo ver além das minhas preocupações, então (para não perder o costume, né) acabo esbarrando em uma massa sólida, mais alta do que eu, e minha bunda vai direto de encontro ao chão (acho que ela já estava sentindo falta). Recebo um grito instantâneo e de puro medo em resposta, o que me faz deduzir automaticamente em quem esbarrei.
“Sério, Lisa?!” Jooheon coloca a mão no coração e respira pesadamente. “Você saiu do nada! Aish, meu coração não aguenta uma coisa dessas.” Ele vai se acalmando aos poucos.
Eu deveria estar rindo da situação, ou ao menos ter respondido com alguma provocação. Seria minha reação natural. Mas eu só quero gritar, chorar, bater em alguma coisa. Estou fervendo e ele aos poucos percebe isso. Seus olhos me estudam com curiosidade.
“Está tudo bem?” Ele pergunta, cauteloso, e eu, ainda sem conseguir abrir a boca (se fizer isso, vou começar a xingar o mundo), apenas nego com um movimento de cabeça.
Jooheon me oferece sua mão para me ajudar a levantar e, antes que eu pense em recusar, já estou em pé. Ele não solta a minha mão, e eu não penso em afastá-la. Não é uma reação lógica, principalmente após o que aconteceu, mas eu só quero que o mundo se exploda.
“Vem comigo.” Ele me puxa e eu só deixo que o faça. Realmente não quero pensar em ações, reações e consequências.
Só volto a mim quando estamos na praia, na beira do mar, olhando o céu noturno com poucas estrelas. Somos dois medrosos, mas estamos bem porque o hotel, uma mega construção nas nossas costas, ilumina o suficiente. E Jooheon ainda segura a minha mão, o que me acalma.
“Eu realmente queria vir aqui, mas estava com medo de vir sozinho. Eu estava mesmo atrás de uma mulher selvagem que causa dor e miséria para me acompanhar.” Acabo rindo, o que me surpreende. Quando alguém consegue ativar meu ódio, ele costuma durar horas, mas percebo que agora estou mais frustrada do que com raiva.
“De fato, você não precisa se preocupar se eu estiver por perto. Eu protejo você.” Quando o olho para lançar uma piscadela, percebo que está próximo, que ainda estamos de mãos dadas e que seu sorriso é lindo.
“Isso deveria ser algo que eu digo para você, não o contrário.” Seus olhos diminuem, suas covinhas estão marcadas nas bochechas e seu sorriso aumenta. Devoro cada mínimo detalhe.
“Se livre da sua visão patriarcal e talvez você consiga me entender.” Tento soar divertida como sempre, mas minha voz sai mais baixa e rouca que o comum.
“Mas eu não quero te entender. Você é um mistério que eu quero saborear por um bom tempo. Você é diferente de todas as meninas que conheço, e eu adoro isso. Acho encantador a forma como me faz rir, como é sarcástica, como consegue envolver qualquer um em qualquer conversa, como é independente e como me deixa confuso.” Esqueço de respirar. O encaro, sem reação, e ele mesmo parece surpreso. Acho que não percebeu que estava falando em voz alta.
Nos encaramos por um longo tempo em um silêncio que pesa. Eu ainda não respiro muito bem, meu coração parece querer sair da caixa torácica e sinto mil borboletas voando no meu estômago. Jooheon aperta a minha mão, como se procurasse se fixar em algo, e seu rosto parece estar completamente vermelho, mas não consigo ter certeza, já que a iluminação não colabora.
Meus sentimentos estão confusos. Finalmente chego na conclusão que eu estava adiando a tempos: eu estou completamente apaixonada por Jooheon. Não há mais como (e eu nem quero) reprimir tal sentimento. Ele me consome de alma e corpo. Cada célula do meu ser deseja tê-lo. Não quero pensar no amanhã, nem no futuro daqui a 5 minutos, para mim só existe o agora; e minha realidade atual é o Jooheon. Com isso na cabeça, aproximo nossos rostos, o que parece ser o empurrão que ele precisava, pois sua mão larga a minha e vai até a minha cintura, enquanto a outra encontra minha nuca, e ambas me puxam de encontro a ele.
Nossos lábios se tocam e me sinto explodir. Nossas línguas danças juntas, em um beijo cuidadoso, cheio de carinho, e eu não sou mais Lisa, sou apenas uma bola de sensações que existe, que transborda. É incrível. Quero me fundir a ele, então empurro meu corpo contra o seu, o aperto em mim, e isso parece ser bem vindo, pois ele retribui com a mesma força. Aos poucos, o beijo vai ficando mais intenso, urgente, como se precisássemos ter tudo um do outro aqui, agora. Uma mão se enrola nos meus cabelos, a outra encontra seu caminho para dentro da minha blusa e, embora toque apenas a base das minhas costas, meu corpo inteiro treme, um calor se espalha a partir desse ponto e eu me sinto derreter. Eu o quero agora, eu o quero para sempre. Nunca desejei tanto algo.
Mas, infelizmente, temos que nos separar para pegar ar e, nesse momento, a realidade cai de uma vez em cima de mim, causando dor imensa em meu coração. Eu não posso tê-lo! Sei que não posso. O afasto e, quando suas mãos não estão mais em mim, o frio me consome. Meu corpo já sente falta do dele.
“Eu... Nós... Não posso... Trabalho...” Não consigo formular uma frase, mas ele parece entender, pois vejo o desespero em seu olhar. Como ficar aqui só vai doer mais, viro e saio correndo.
Só paro de correr quando chego ao meu quarto e, por conta disso, estou completamente morta de cansaço. Não consigo nem abrir a porta, só fico parada e ofegando, na frente dela. Está tarde e eu não esperava qualquer movimento no hotel, então levo um susto quando Hyungwon abre a porta do meu (nosso, na real, pois estou dividindo com Carol) quarto e sai dele. O encaro, confusa, mas sem conseguir perguntar nada, pois ainda não consegui regular minha respiração. Ele evita meu olhar, sem jeito, e sai andando rápido. Quando entro, encontro uma Caroline com um enorme sorriso nos lábios.
“Aaah, Lisa!” Ela diz, abraçando o travesseiro. “Eu estou tão feliz!” E de fato parece estar.
Penso no beijo, em como eu me senti completa, plena e, ao mesmo tempo, que eu precisava de mais, muito mais. Eu também poderia estar feliz, nas nuvens, mas a cara do manager vem logo em seguida, e o peso de perder minha carreira é demais para mim.
“Você é uma sortuda, Carol.”
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