Por trás das câmeras

17 E eu finalmente explodo


Por ter dormido quase nada (culpa da Carol, que me fez um monólogo de 1h sobre os atrativos do Hyungwon e dos meus próprios pensamentos, que me mantiveram esperta depois que ela decidiu ir sonhar com ele), acabo acordando ultra atrasada. Arrumo-me o mais rápido que consigo e vou correndo para o set de filmagem, esperando encontrar pessoas prontas e impacientes, mas a realidade é completamente contrária.

A equipe de fato está toda lá, mas ninguém parece no ponto para gravar. Os meninos nem ao menos se encontram no local. Estão todos divididos em pequenos grupos, cochichando e olhando em volta. Parecem estar fazendo fofoca e isso nunca me interessou, mas, como literalmente todo mundo está nessa, fico preocupada e me aproximo.

“É... O manager demitiu ela! Parece que ela estava namorando um dos meninos, algo assim.” Ouço o sussurro do diretor de fotografia para o seu assistente. Minha respiração pára e eu sinto uma sensação terrível se formar dentro de mim. Tenho a certeza de que vou vomitar a qualquer momento. Como assim fui demitida sem saber? (e foi só um beijo!) “Ela foi embora agorinha, com mala e tudo. Eu vi!” Então minha respiração volta a funcionar, mas não por muito tempo.

Lembro do Hyungwon saindo do meu quarto no dia anterior, do monólogo que fui obrigada a ouvir e em como o cômodo parecia estranho, meio vazio, quando acordei. E que só o fiz porque ouvi a porta bater. Fiquei tão preocupada com o meu próprio umbigo, que nem ao menos pensei em Caroline. Desejando com todo o meu ser que não seja tarde demais, viro-me e saio correndo.

Encontro-a esperando o táxi na frente do hotel. Os olhos lindos estão deformados, inchados e vermelhos. Parece que ela chorou o suficiente para uma vida, mas, mesmo assim, está pronta para fazê-lo outra vez. Quando me vê, de fato noto uma lágrima escorrer. Sem falar nada, apenas a tomo em meus braços e aperto ali.

“Ele descobriu, Lisa. O filho da puta descobriu.” A voz dela sai sem emoção. Consigo sentir o tamanho da sua mágoa e isso dói em mim. “Eu não sei como, mas aconteceu.”

Tento consolá-la, passo a mão em seus cabelos, a aperto com mais força e falo que vai ficar tudo bem, mas sei que nada disso é o suficiente. Não importa o que eu faça, não sou a pessoa certa. Era Hyungwon que deveria estar aqui afirmando seu amor, não eu.

“Lisa, eu não sei o que fazer. Acabou para mim. O filho da puta acabou comigo, com a minha carreira, com a minha vida. Eu não sei o que fazer!” Sinto que ela começa a chorar no meu ombro e, a cada lágrima derramada, minha raiva é alimentada.

“Não, Carol. Eu vou dar um jeito nisso. Confie em mim. A gente vai dar um jeito.” Falo com determinação, mesmo que não faça ideia do que fazer. Minha própria carreira na Coréia ainda é muito nova.

Um táxi pára ao nosso lado e, após enxugar suas lágrimas, deixo Caroline ir. Sinto uma dor que me consome enquanto a ajudo a colocar a mala no carro, sentimento que vai sendo substituído pelo ódio. Estou pronta para explodir e, depois que eu o fizer, ninguém vai conseguir catar os pedaços. Abraçamos-nos uma última vez e ela vai embora, sem dizer mais nada.

Volto para dentro do hotel pronta para bater em alguém, gritar para os céus e mandar todo mundo tomar naquele lugar. Não sou mais um ser humano, sou ódio puro, que por acaso respira e se movimenta. E posso estar cega por essa raiva absurda, mas não deixo de notar o garoto alto, de traços bonitos, se aproximar com um andar triste.

“Ela está bem?” Hyungwon me pergunta e eu consigo sentir sua mágoa, mas não o suficiente para me importar. O choro da minha amiga ainda ecoa nos meus ouvidos.

“Claro que não, seu idiota!” Praticamente grito e ele se assusta com a minha reação (mas oh, sério, o que ele esperava, que eu passasse a mão em sua cabeça?). “O que diabos você estava fazendo aqui, assistindo tudo, quando você deveria estar lá, abraçando ela?”

“Eu... Eu não podia... O manager...”

“Que se foda o manager!” Ele parece ainda mais abismado quando xingo. Em uma reação irracional, influenciada pela mais pura histeria, começo a rir de forma descontrolada. “Que se foda, que se foda, que se foda! Eu quero que ele exploda em mil pedaços. Eu quero fazê-lo explodir em mil pedaços!” Depois de soltar o que estava dentro de mim a dias, consigo me acalmar um pouco. Porém, é apenas a histeria que vai embora. A raiva continua lá, só esperando o seu momento para brilhar. “E você...” Falo séria, mas mais controlada. “Eu estou sinceramente decepcionada, Hyungwon. A Carol te amava de verdade, e você a deixou chorando na soleira de um hotel.” Ele desvia o olhar e eu vejo lágrimas que ameaçam cair. Só então lembro que ele, assim como eu, também a perdeu. Dou um tapinha em seu ombro, a única forma de consolo que consigo oferecer agora, e suspiro. “Agora vou ter que pedir licença, porque vou tentar resolver a merda que aconteceu.”

Viro e caminho determinada. Está na hora de uma reunião com o manager.