Por trás das câmeras

12 Um lembrete importante


Passei a noite pensando no toque suave de Jooheon no meio rosto e, como consequência, agora tenho um belo par de olheiras, uma cara de poucos amigos e uma cabeça ainda mais confusa (quando a intenção era contrária). Tentei organizar meus sentimentos, ou melhor, não tê-los, mas sempre que a imagem dele na minha frente, me encarando com um provável (posso estar imaginando o que eu quero que aconteça, é bem a minha cara) desejo escondido no castanho profundo de seus olhos, um choque percorre todo meu corpo, e eu tenho a consciência que eu não vou conseguir me livrar da impressão que seus dedos deixaram na minha alma tão cedo.

Para completar o meu bom humor (só que não), sou convidada a comparecer à sala do manager no segundo que piso dentro da empresa (desculpem-me pelo palavreado, mas que convite bosta, né). Eu não ouvi muito dele desde o dia em que o carreguei para casa. Gosto de pensar que ele optou por me dar a liberdade necessária para que eu execute meu trabalho com primazia, mas acho mais fácil ele estar com vergonha de me ver depois que eu o carreguei completamente bodado e presenciei a cena linda dele babando o suficiente para resolver o problema da seca no nordeste do Brasil (estou longe, mas não desinformada).

Quando chego na sala de Kim Sungchan, ele não me encara, mas, mesmo assim, consigo perceber sua expressão nada satisfeita. Alguma coisa aconteceu, e não foi algo bom. Fico em silêncio, esperando que ele comece a conversa, mas nada acontece por longo e tortuosos segundos. Começo a ficar realmente nervosa, me perguntando coisas que não fazem sentido, como se ele sabe sobre meus sentimentos confusos em relação a Jooheon, quando nem eu mesma sei direito.

“Você foi para casa com Changkyun e Kihyun?” Sou pega de surpresa, pois eu estava tão ocupada sendo consumida pela preocupação em relação a Jooheon, que não lembro desse detalhe.

“Sim.” Afirmo, ainda meio desnorteada.

“Então, qual dos dois é o seu objetivo? Ou você pretende seduzir ambos?” A pergunta é seca e direta e eu sinto o ar se esvair dos meus pulmões. Não consigo entender o que ele está querendo afirmar (ou melhor, consigo, mas estou em negação) e começo a me sentir tonta.

“Como assim, senhor manager?”

“Você acha que eu sou burro, senhorita Lisa? Um garoto não leva uma garota para casa sem segundas intenções. E eu vejo o jeito que você se veste, com blusinhas que mostram a barriga... Então me responda, qual dos dois você está querendo seduzir?” Ele ainda evita o meu olhar, mas, mesmo assim, o poder de intimidação que exerce é enorme. Eu me sinto diminuir e odeio isso. Odeio, odeio, odeio. Aos poucos, sinto esse sentimento crescer, até se tornar incontrolável.

“Eles me acompanharam porque estava tarde, escuro e também porque minha casa não é longe do dormitório. Foi uma gentileza oferecida, em nenhum momento eu pedi por ela, mas de fato não a recusei, pois eu não queria ser indelicada com os meus colegas de trabalho.” Eu estou fervendo. Sinto isso dentro de mim e no meu tom de voz que, apesar de não ser alto, é cheio de força. “E, com todo o respeito, senhor Manager...” Nesse momento, o sacarmos, meu velho conhecido, assume. “Sua afirmação tem dois erros de dimensão absurda. Primeiro, dois me acompanharam para casa, não um. Me corrija caso eu esteja errada, afinal, não sou daqui, mas acho, só acho, que a sociedade coreana não é adepta a relações poligâmicas.” Estou completamente incontrolável. Cada palavra minha transborda com um sarcasmo ácido. “Segundo, eu sou uma mulher, não uma garota. Pensei que fosse fácil perceber isso. Para completar, e, em relação a isso, peço desculpas, pois eu não tinha noção... Eu pensei estar trabalhando com adultos, homens, não com crianças do colegial, que se animam por qualquer pedaço de pele mostrada. Juro que não fazia ideia de como aqui os garotos demoram a amadurecer. Você poderia me dizer com quantos anos eles deixam de se impressionar com tão pouco? Com 80, talvez?” Finalizo e só então puxo ar. Por mais que meu tom seja controlado e apenas sarcástico, meus olhos transbordam toda a minha indignação.

E logo me arrependo por não ter sido nenhum pouco controlada. Kim Sungchan finalmente me encara e seu olhar só me passa uma mensagem: ódio. Acho que ele não está acostumado a ter uma funcionária respondendo-o de tal forma.

“Não me obrigue a demiti-la, senhorita Lisa. Não quando você está fazendo um bom trabalho.” Consigo sentir a ameaça com todas as células do meu corpo. Percebo que ele quer me demitir, mas não quer se complicar com seus superiores. Sei que tenho que me curvar, me submeter, mas essa ideia me dá vontade de gritar e arranhar a cara dele todinha. Tento encontrar um meio termo que agrade a ambos.

“Desculpe, senhor, mas você não me deixou outra opção a não ser defender minha moral. Eu não posso me responsabilizar se os meninos têm segundas intenções ou não, mas posso afirmar, com toda a certeza, que eu não tenho interesse romântico em Kihyun ou Changkyun. E eu só posso ter a esperança que o senhor confie em mim o suficiente para que eu possa realizar meu trabalho.” Preciso me esforçar para manter o sarcasmo longe dessa vez e me sinto sufocar um pouco ao engoli-lo, mas consigo.

Vendo que não vai tirar mais nada de mim, o manager suspira, vencido, e me dispensa com um movimento de mão, como se eu fosse uma qualquer. Saio e paro de controlar, deixo a raiva reaparecer e me dominar. Estou fervendo de ódio, prestes a explodir, e eu só quero correr para fora desse lugar e gritar até os meus pulmões doerem. Em vez disso, acabo esbarrando em alguém e caindo de bunda no chão (para variar). Solto um palavrão em português, alto e cheio de raiva. Olho para cima e encontro um Jooheon e um I.M surpresos. Changkyun é o primeiro a ter uma reação e me ajuda a levantar, mesmo que eu não aceite muito bem. Ele não me dá opção.

“Pronto, está tudo bem agora.” Eu sei que estou encrencada, de certa forma, por causa dele (a culpa é minha, mas ele está envolvido), e eu deveria estar querendo evitá-lo até o fim da minha vida, com raiva, mas, em vez disso, seu sorriso fofo de forma natural e sua voz suave fazem a raiva sumir. Quando percebo, é o cansaço da derrota que agora me domina. Quero ir para casa chorar, mas juro que eu não vou derramar uma lágrima por causa disso.

“Está sim.” Sorrio de volta para Changkyun, mas sem grande emoção. Estou sinceramente agradecida pelo efeito que ele tem em mim, e espero que seja perceptível, mas estou sem condições de ser simpática.

“Hm... Sabe, estive pensando... Eu posso acompanhar você para casa de novo hoje.” O mais novo fala baixo e aparenta uma certa timidez que é linda de ver. Seu sorriso pequeno, mais largo em um dos lados, faz com que eu queira aceitar tudo o que ele propõe, cuidar dele, mantê-lo em um pote no alto da minha prateleira, mas eu não posso. Vou ter que aprender a dizer não.

“Eu também posso te acompanhar hoje!” Jooheon se apressa em falar e, nesse momento, sinto meu estômago dar um nó. Claro que eu não posso permitir que ele me acompanhe (adeus aos abraços, foi bom enquanto durou).

“Não, não. Primeiro, já disse, não sou uma mocinha de dorama que precisa ser acompanhada para cima e para baixo.” Tento usar meu tom de brincadeiras, mas ele não é dos melhores. “Segundo, acabei de voltar de uma conversa com o manager. Ele proibiu todos vocês de dar ao menos três passos ao meu lado. Estou sendo acusada de tentar seduzir não só um, mas DOIS membros do Monsta X. Olha que incrível.” Confio no meu sacarmos, pois esse nunca falha, e termino revirando os olhos.

Em vez de rirem ou fazerem piadas, ambos os meninos coram e desviam o olhar, o que me deixa sem reação por alguns segundos. Um silêncio constrangedor se instala entre nós.

“Bem...” Forço um sorriso, meio nervosa. Não quero pensar no que isso significa. “Estamos perdendo tempo aqui. Vamos gravar!”

E de fato vamos, sem tocar mais no assunto. O resto do dia transcorre bem, para contrastar com o começo. Todos os meninos perceberam que eu estava meio para baixo e se esforçaram para fazer com que eu me sentisse melhor. Isso me deixou um pouco triste por um momento, pois, apesar de eu gostar deles cada vez mais, sei que nem meus amigos de verdade eles vão poder ser. Mas eu afastei esse pensamento ruim e me concentrei na parte boa: eu ainda os tenho aqui comigo. Enquanto estamos no set de filmagem, posso fingir que somos uma grande família, e isso torna o meu riso algo recorrente.