Por trás das câmeras
26 Dizendo adeus com palavras que cortam
Notas iniciais
O dia na minha casa foi a última vez que vi o Jooheon. Desde então, não nos falamos. Eu tentei contatá-lo através do celular, mandei mensagens e liguei, mas, depois do terceiro dia, entendi o recado (ou seja, cansei do meu papel de trouxa). Até tentei me iludir ao pensar que talvez ele estivesse muito ocupado com o comeback, mas Changkyun estava me respondendo, então não era esse o problema. Claro que, nas duas primeiras semanas, sofri e chorei. Depois veio a raiva e agora, depois de 2 meses sem contato, admito estar com saudades. Quero vê-lo, nem que seja de longe, nem que seja para xingá-lo, e por isso estou tão ansiosa por hoje.
28 de janeiro, aniversário da Starship Entertainment e, como mantive boas relações com o CEO, fui convidada para a festa de gala para comemorar esta data tão especial (que para mim só é especial porque vou reencontrar os meus meninos). Fiz questão de me arrumar de forma provocadora, mas sem ser vulgar (talvez seja para os padrões coreanos, mas estou pouco me importando). Não nego que quero chamar atenção, ser notada, e realmente me esforcei para isso. Sei que não foi em vão, pois, no momento em que adentro o salão, várias cabeças acompanham os meus movimentos. Sorrio com satisfação enquanto olhos famintos passeiam pelas minhas curvas.
Procuro pela multidão e o encontro não tão longe de mim, com uma roupa social de acabamento perfeito em seu corpo, principalmente a calça, que destaca com exatidão os músculo das coxas. Está lindo. Todos os sentimentos que reprimi durante esses dois meses voltam de uma vez e me sinto afogar, principalmente quando nos encaramos. Ele lentamente percorre toda a extensão do meu ser com os olhos e eu me sinto nua. Mas a satisfação não vem, já que não consigo ler sua expressão.
Antes que eu perca a cabeça e vá correndo para os seus braços, o leve para o cantinho isolado mais próximo, desvio o olhar e me afasto. Não quero ter que lidar com isso agora, preciso encontrar um apoio, me sentir segura antes, então vou atrás de Changkyun (e álcool). É ele que me encontra e vem correndo na minha direção. O mais novo eu consigo ler e gosto disso. Quando vejo a admiração no seu rosto, o meu se torna triunfante e um sorriso finalmente aparece em meus lábios.
“Wow, Lisa, você está incrível.” Quem fala é Wonho, de trás do moreno, que ainda está me encarando como se nunca tivesse me visto.
“Eu sei.” Falo de forma convencida, mas em tom brincalhão (é uma verdade, mas não sou exibida). “E fecha a boca, Chang. Vai entrar mosquito.” Mantenho a voz leve e jovial, mas me arrependo de tal piada no segundo em que vejo o mais novo ficar da cor de um tomate. Eu não pretendia constrangê-lo.
“Mas você realmente está incrível, Lisa.” A voz grave sai baixa, tímida, mas perfeita aos meus ouvidos. Sinto-me verdadeira feliz e meu coração até chega a esquentar.
Porém, não tenho tempo para pensar muito nesses efeitos estranhos, pois logo o resto dos meninos, com exceção do Jooheon, se aproximam. Conforme conversamos e compartilhamos novidades, percebo o quanto eu estava com saudades (muito mais do que imaginava). Tenho vontade de abraçar todos o mais forte possível, mas sei como isso pareceria estranho aos demais, então me reprimo. A noite transcorre bem e quase esqueço que o motivo da minha angústia anda no mesmo salão que eu.
Já de madrugada, quando estou meio alterada pela quantidade de álcool ingerido, acaba acontecendo o inevitável: eu esbarro em Jooheon e quase caio no chão (o que é praticamente a nossa forma especial de cumprimento, né).
“Aish, sério?! Eu deveria começar a cobrar por ser o seu amortecedor humano.” A voz dele soa informal demais, como se nada tivesse acontecido, e isso (mais o álcool, não vamos esquecer dele) faz a minha raiva aparecer. Como ele pode me ignorar por dois meses, depois de eu ter me entregue de corpo e alma, e só fingir que nada aconteceu?
“Oh, de fato. Aí então você poderia comprar um celular novo, já que o seu parece não funcionar.” O sarcasmo que utilizo com certeza é novo, já que vem preenchido por um sentimento nunca antes presenciado por ele, que é a chateação acumulada de dois meses. Jooheon parece assustado, mas logo não consigo mais interpretá-lo. Meus próprios sentimentos me deixam confusa demais para isso.
“Lisa, eu sinto muito...” Ele começa a dizer, mas corta a si mesmo. Fico esperando a continuação, mas esta não vem.
“Não, você não sente. O que te faz um puta de um mentiroso, porque no dia você disse sentir, né.” As palavras saem antes que a minha dignidade consiga impedi-las e, no mesmo segundo, sinto-me tola e frágil demais. Esse é o tipo de imagem que não quero passar.
“Se olhe no espelho, Lisa. Qualquer homem contaria mil mentiras para te levar pra cama.”
Fico encarando-o em silêncio. Não acredito que tudo o que aconteceu entre nós, os sentimentos que ele proclamou e demonstrou na noite em que estivemos juntos, não passe de uma mentira. Sou idiota, mas não ao ponto de me enganar assim. Posso ter provocado essa resposta, mas minhas próprias palavras eram falsas para mim, apenas um resultado da raiva acumulada somada ao álcool. Então só não consigo engolir tal afirmação. Porém, meu ego me impede de gritar com ele, exigir que me fale a verdade, já me sinto humilhada o suficiente. Meu coração dói, o choro arranha minha garganta e me faz engasgar. Tenho que sair daqui, mas antes preciso devolver o que foi dito. Não vou levar essa humilhação para casa. Aproximo-me, com um sorriso duro nos lábios, e deixo meus dedos passearem delicadamente pelo peitoral do moreno, conseguindo assim arrancar a primeira reação sincera dele, que treme sutilmente.
“Eu entendo, Jooheon. Eu também queria saber como é esse seu corpo por debaixo dessas roupas...” Como se fosse sem querer, para que ninguém mais perceba, esbarro minha outra mão na coxa dele, e a aperto rapidamente. “Principalmente essas coxas que, cá entre nós, são deliciosas.” Afasto-me completamente e deixo a expressão de nojo tomar conta dos meus traços. “Mas eu jamais seria tão baixa a esse ponto. Se queria só sexo, bastava dizer. Não precisava ser um escroto.” Não consigo mais continuar, minha visão embaça com as lágrimas e eu sei que vou começar a chorar, então me viro e vou embora, porque isso é algo que eu não quero que ele veja.
Sinto dor, raiva e desprezo. Minha cabeça está uma confusão, meu coração quebrou em mil pedaços e o ar tornou-se um luxo. Conforme saio do salão, as lágrimas se libertam, e eu choro com a intensidade de um bebê. Dói, dói demais.
Meus pensamentos conseguem forma uma unidade, duas pergunta: como eu fui capaz de amá-lo? E como vou fazer para esquecê-lo?
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