Por trás das câmeras
11 Coisas que podem acontecer em uma ilha de edição
Depois do almoço, a presença do Jooheon não me afetou tanto e eu consegui de fato me concentrar. Toda vez que a imagem dele começava a fazer borboletas voarem pelo meu estômago, eu desviava o olhar até Changkyun, que estava sempre sorrindo para mim, então eu me sentia melhor de forma inexplicável, menos sufocada, e conseguia seguir adiante. Quando percebi, o dia já havia acabado. Eu deveria ir para casa e descansar para o dia seguinte, mas me conheço bem o suficiente para saber que a empolgação me manteria girando na cama, e que a curiosidade, em algum momento, faria com que eu me levantasse (se alguém acha o coração difícil de controlar, nunca tentou conter uma pessoa curiosa. É impossível). Em vez disso, despeço-me dos meus colegas e vou até a ilha de edição, onde descarrego as filmagens e dou uma olhada em alguns takes do dia.
Está perfeito (não estou querendo me gabar, só digo verdades). Percebo que a narrativa realmente é boa (já disse, só digo verdades) e, além disso, a equipe é excelente e os meninos realmente são talentosos. Vou vendo take após take e não percebo o tempo passar (pode ter sido meia hora, uma, quem sabe?). Estou completamente envolta pelo meu próprio trabalho e sei que posso manter isso até a próxima gravação (quem precisa dormir, né?), mas a magia se quebra. Chego no momento do rap do Jooheon e eu não consigo ir adiante. Repito pelo menos umas três vezes, sempre checando os meus arredores, mesmo que meu lado racional saiba que eu estou completamente sozinha, pelo menos por enquanto. A porta se abre e eu pauso, assustada e envergonhada. Parece que estou fazendo algo errado, o que não faz sentido. Olho para trás, meio sem jeito, e encontro o próprio Jooheon, que encara sua cara na tela. "Você não deveria estar em casa?" Quando ele não pergunta por que estou vendo a cena dele (não faria sentido ele perguntar, estou apenas checando o meu próprio trabalho, eu sei, mas não adianta nada argumentar comigo mesma), sinto-me relaxar, e a empolgação aos poucos vai reaparecendo. "Faço a mesma pergunta para você." "Changkyun disse ter visto você entrar aqui enquanto comíamos." Ele dá de ombros. "Só pensei que talvez você também estivesse com fome..." Eu sorrio conforme ele me oferece um sanduíche e o aceito. Ele parece meio avermelhado e imagino que não esteja acostumado a ser gentil com garotas. Meu estômago começa a embrulhar e eu crio mais um mantro ao repetir para mim que é apenas fome. "Obrigada, é muito gentil da sua parte." Deixo o sanduíche em cima da mesa e demonstro minha gratidão através de um sorriso. Jooheon não vai embora em seguida. Ele apenas fica me olhando, em um silêncio que aos poucos vai se tornando constrangedor. Não sei como agir, o que eu deveria fazer, então apenas o encaro de volta. "Você... Está checando as gravações do dia?" Ele aponta para seu rosto pausado na tela do computador. Só então lembro que eu de fato estava fazendo isso. "Sim!" Viro-me para o computador. "Não é querendo me achar e nem fazer você se achar, mas essa parte está perfeita, olha." Dou o play. No fim do take, a empolgação já me dominou outra vez, e eu não raciocino muito bem. "Viu?! Irado, não? Você fez um excelente trabalho. Sério, quando você faz o rap, parece que... Você pega fogo, sei lá. É puro energia. É algo incrível e lindo de ver." Falo de uma vez, claramente animada, e só percebo que ele não responde depois de alguns segundos. O olho e ele está me encarando, meio assustado. Vários palavrões, em português e coreano, passam pela minha cabeça, mas esta se cala no momento em que ele se aproxima e sua mão passa pelo meu rosto, parando na minha bochecha. Sei o que é o certo a fazer, mas não consigo desviar meu olhar e afastá-lo. Não estamos alinhados, eu ainda estou sentada e ele, em pé, mas sinto que eu poderia facilmente beijá-lo, e eu quero isso. Percebo que, por mais que eu tente negar, é o que eu mais quero. Meu corpo inteiro treme com a antecipação e eu sei que não vou conseguir me segurar, pois cada célula do meu ser, nesse momento, o deseja. Seu dedão faz um carinho delicado na minha bochecha e eu começo a pensar que talvez ele também queira. A porta se abre outra vez e o moreno pula para longe, parecendo confuso e sem jeito. Changkyun entra, com um sorriso de quem claramente não sabe ler as entrelinhas, mas Kihyun, que vem atrás dele, sabe. E eu noto isso quando ele me olha com as sobrancelhas erguidas e um sorriso divertido no canto dos lábios. "Jooheon, você por aqui?" Kihyun pergunta, em um tom meio malicioso que ele utiliza em algumas piadas. "É... Eu... Então..." Jooheon tenta responder, mas sua confusão mental é tão grande que eu consigo senti-la. "Ele veio me trazer algo para comer." Respondo por ele. O sorriso de Kihyun se alarga. "Hmmm, entendi." É a resposta dele e, como também sou capaz de ler as entrelinhas, sei que ele entendeu demais (mais do que eu, para falar a verdade).
Sem capacidade de continuar ali por mais um segundo, começo a desligar o computador. Os meninos apenas me observam. Imagino que Changkyun esteja tentando entender a situação, que Jooheon apenas não saiba o que fazer e que Kihyun está se divertindo bastante com tudo isso. Suspiro baixinho. "Então, eu estou indo para casa." Recolho minhas coisas em cima da mesa, inclusive o sanduíche e, nesse momento, Jooheon parece acordar dos seus devaneios. Ele abre a boca para falar, mas o mais novo é mais rápido. "Eu acompanho você. Para falar a verdade, foi por isso que eu e o Kihyun viemos aqui." "Chang, eu acho melhor a gente..." Pela expressão do dono dos cabelos rosados, sei o que ele vai falar. Ele vai me deixar para ir com Jooheon, o que eu não quero, pois preciso digerir o que aconteceu, os meus próprios desejos proibidos, e a presença dele não vai ajudar. "Eu adoraria, Changkyun" Acelero minha resposta, com um enorme sorriso nos lábios. Ele também sorri. Kihyun dá de ombros, vencido. Após as despedidas, deixamos a sala os três juntos, deixando para trás um Jooheon que parece nada satisfeito.
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