Por trás de Frozen
3 Capítulo 2 - Eu não consigo mais viver desse jeito!
Notas iniciais
POV ANNA
Acordo com o sol no meu rosto, e o calor que aquece meu corpo é tão bem vindo que abro os braços, ainda de olhos fechados. Uma risada involuntária sai de mim, uma alegria que não sinto há muito tempo invade meu coração e tenho vontade de sair pulando e cantando como se não houvesse amanhã.
Abro os olhos lentamente, dou um bocejo preguiçoso e observo o lugar ao meu redor. Estou em um campo aberto — a paisagem se resume em um verde intenso, belo e muitas flores coloridas. O lugar parece não ter fim, e me sinto tão emocionada com o fato de ter o mundo para explorar que saio correndo, corro como nunca consegui correr dentro do castelo. Sinto-me livre, tão livre que a sensação é estranha – mas eu gosto, e muito. E as risadas – minhas, percebo surpresa — que invadem aquele campo não me deixam mentir.
Então, de repente, eu vejo alguém. Um moço está montado em seu cavalo a poucos passos de mim. Ele é bonito, com porte de um príncipe, e seus olhos brilhantes e astutos mostram que ele é esperto, como em todas aquelas histórias que li durante anos.
Meu coração dispara e sinto meu rosto ficar quente. Um moço. Eu nunca vi um moço antes, não com... um certo interesse a mais. Eu sei que o herói é aquele que salva a mocinha de lugares tristes e perigosos, onde ela fica solitária por anos até ele aparecer para resgatá-la, mostrar a vida além do castelo e, o mais importante e meu maior sonho: o amor verdadeiro. Há anos não experimento nenhum tipo de amor, daqueles que você sente que alguém se importa com você, e esse é o único que tenho certeza de que poderei ter e sentir um dia. E esse amor verdadeiro é o que guiou o moço até a princesa, é o que deu forças para vencer todos os obstáculos que encontrou pelo caminho. É o que disse a ela para esperar seu amado até o momento em que a libertasse de sua prisão e mudasse o curso de sua vida para sempre.
E eu sei que esse moço, na minha frente, é o que vai mudar o curso de minha vida. É o que vai me tirar da minha prisão, me mostrar o amor verdadeiro e me fazer feliz. É ele. Eu sei como funciona o amor verdadeiro, e essa exaltação que sinto, essa sensação de flutuar nas nuvens, de que ele é tão brilhante quanto as esperanças que residem em meu coração de que esse inverno acabará não pode ser outra coisa.
Ele sorri para mim.
Meu Deus, que sorriso.
Ele vem na minha direção, cavalgando em seu cavalo branco.
– Anna! – ele diz, com sua voz espetacularmente bonita.
Eu não preciso mais me sentir sozinha, e nem ter medo do escuro ou de corações congelados. É como se uma nova porta se abrisse na minha vida, iniciando um novo caminho, e eu até posso ouvir o rangido dela se abrindo.
Abro os braços para recebê-lo quando vejo Elsa logo atrás dele, observando a cena com um olhar altivo. Ou, ao menos, se parece muito com minha irmã, pois eu não a vejo há tanto tempo que nem sei como ela está atualmente. Ela começa a caminhar na minha direção e, instantaneamente, ouço um barulho ensurdecedor, como se algo – gelo — se quebrasse. A terra treme enquanto tento me equilibrar e tampo os ouvidos, como se adiantasse alguma coisa diante desse horror sonoro.
O rosto dela se contorce de desespero, e meu herói desaparece ao cair em um buraco que surgiu do nada. A última coisa que vejo antes de tudo ficar escuro é Elsa correndo para longe de mim, e ouço o barulho de uma porta se fechando com força. Eu grito por todos eles, e toda a alegria que senti se transforma em pânico, um pânico tão grande que não consigo nem me mover do lugar.
Então estou numa sala escura e pequena, e o frio nela é tão intenso que tremo e meus dentes batem de tal forma que não consigo controlá-los. Abraço a mim mesma, tentando me aquecer. Me apóio na parede e descubro que ela está congelada. Sento-me no chão, automaticamente me afastando do frio da parede, mas minhas mãos sentem que ele também está congelado. Surgem portas que tento desesperadamente abrir, mas elas estão todas trancadas, tudo trancado, e me sinto diminuir, diminuir até desaparecer na imensidão obscura daquela sala que representa o meu coração.
– Ela vai ficar bem. – diz uma voz acima de mim, e vejo um troll, um ser geralmente pequeno constituído de pedra e coberto por folhas, como um chapéu, se abaixar para beijar o topo da minha cabeça.
Abro os olhos repentinamente e acordo arfando. Coloco a mão no meu peito para ver se a sensação de claustrofobia se esvai e fico respirando fundo até me acalmar aos poucos. Olho ao redor e estou em meu quarto, com a janela ao canto mostrando que ainda é noite e que fui acordada por um pesadelo que me estreita há muitos anos. Passo as mãos pelo meu cabelo e enxugo as lágrimas decorrentes do sonho. Estou tremendo.
Eu tenho medo. Eu tenho medo de que os portões se abram e, logo em seguida, se fechem novamente. E, então, eu continuarei vivendo trancada e sozinha pelo resto da minha vida.
Prometo a mim mesma que amanhã, no dia da coroação, na primeira oportunidade, eu digo a Elsa que não aguento mais. Mesmo que ela me ignore ao não olhar para mim, sabe-se lá o porquê, sei que pelo menos ouvir o que tenho a dizer é seu dever como Rainha; e, então, ela vai me entender. Com certeza vai, eu sei que ela também não aguenta mais isso. Nenhuma pessoa normal aguentaria mais isso.
Amanhã, conhecerei gente de verdade e não estarei mais sozinha.
Amanhã, tudo vai mudar. Eu preciso fazer com que as coisas mudem.
Fecho os olhos e digo em voz baixa:
– Não sentir o pânico. Não sentir o medo. – ainda estou trêmula, e tento conter minhas emoções ao colocar toda a força de vontade que tenho naquelas palavras, esperando que sejam verdadeiras. — Elsa tem um motivo para me ignorar, as pessoas não são más por escolherem ser más. Os dias escuros e frios não endurecerão meu coração, pois há uma vida além desse castelo. Quando os portões se abrirem, tudo vai mudar.
Respiro fundo, mais calma pelas palavras que digo todas as noites, e durmo, sentindo a nova vida que os portões abertos me trarão amanhã.
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